31/12/08

Os meus blogues de 2008

As Aranhas

e sobretudo o Estado Civil, que parece despedir-se da blogosfera. Espero que o Pedro Mexia regresse - ao contrário do que afirma o triste Pacheco Pereira, a blogosfera existe por causa de bloggers como ele.

[Sérgio Lavos]

O fim do mundo em directo (lá para 2009)

Hoje, na última página do Público, Miguel Gaspar reflecte sobre o fim do mundo; nada de importante, ele tem razão: acabou quatro vezes este ano, se não mais. Ora é a subida vertiginosa do preço do petróleo, ora é a ameaça nuclear iraniana, ora é um ou outro atentado terrorista, a crise financeira, a derrocada económica... há incontáveis razões para pôr as mãos à cabeça. O que Miguel Gaspar não faz é dar o remate apropriado ao texto: para os media, estes têm sido tempos de festividade contínua. Os jornais analisam, as televisões gritam, os blogues alarmam, até à exaustão. Os canais de notícias, de hora a hora, repetem os augúrios de catástrofe, e em resposta os mercados entram mesmo em pânico, e as economias deprimem-se, e o mundo ocidental descarrila, como num mau filme de Hollywood. 

A verdadeira notícia deste ano, conclusão alarmante de um período crescente de histerismo mediático, é que bastam os boatos dos jornalistas e as previsões dos analistas para as coisas acontecerem. O hipermediatismo actual leva a que tudo se saiba a toda a hora, e numa sociedade dominada por uma economia liberal que se funda em bens virtuais, em dinheiro potencial, basta a mais ínfima centelha de pânico para espoletar um incêndio incontrolável. 

Quando a crise financeira rebentou, as televisões começavam de manhã a especular sobre a queda das boslas, continuavam ao longo do dia noticiando a queda das bolsas (espectacular Nostradamus) e finalizavam o dia aguardando ansiosamente o dia seguinte, que ainda seria pior que o anterior; o caos a qualquer momento podia se instalar, o fim do mundo parecia estar perto. Mas, milagre, umas quantas empresas faliram, o que até parece ser um facto normal nas sociedades capitalistas, e tudo passou, até que começaram a aparecer os rumores da crise económica (verdadeiros cavaleiros do Apocalipse), precedendo a real crise económica. O ciclo regular da economia parece que foi tomado pelo medo, de forma estranhamente parecida ao que acontece com o terrorismo; cada previsão económica dos analistas dos media destila o receio sobre o que virá. Pessimistas ganham espaço nas colunas dos jornais e tempo de antena na televisão, perorando infinitamente sobre a podridão do mundo actual e suspirando sobre um tempo mítico que na realidade nunca terá existido.

Convém não fecharmos os olhos aos indícios (o misticismo apocalíptico é o maná dos nossos dias). Tudo pode terminar? Claro, eventualmente, não é isso que está em causa. Mas mais depressa terminará a imprensa tal como a conhecemos, e se indícios existem, é disso mesmo; a imparável tabloidização de todos os meios de comunicação é um sintoma do fim de uma era, a que não será, de todo, alheio, o surgimento dos blogues e do do it yourself, essência da Web 2.0. 

O mundo é que não deixará de existir se não for notícia.

[Sérgio Lavos

16/12/08

Manoel de Oliveira




Um ponto de contacto entre Jason Bourne e Manoel de Oliveira seria uma ideia não só absurda como digna de anedotário. Mas a verdade é que Doug Liman, o realizador de Identidade Bourne, e Manoel de Oliveira, em Belle Toujours, encontram o cenário ideal para as suas obras numa pequena praça de Paris, fronteira ao hotel Regina. 
Henri Husson (Michel Piccoli), o velho devasso que conduzira Séverine (Bulle Ogier) à felicidade anti-burguesa em Belle de Jour, passeia-se pela cidade impelido por um sentido do acaso que o haveria de levar à mulher do seu antigo amigo. Paris é uma cidade velha, crepuscular: a lentidão silenciosa da tempo antes da noite, os tons sombrios, as ruas vazias de trânsito, os enquadramentos clássicos procurando um ponto de fuga nas arcadas do hotel, o olhar demorando-se na estátua da mulher guerreira, pleno de significado. Ou Paris será uma cidade viva, trémula, trânsito em andamento contínuo, o barulho dos carros a passar, a velocidade dos corpos sem tempo para parar e contemplar?
Em Manoel de Oliveira e Liman, há um início de sequência em que a câmara é colocada exactamente no mesmo local: na lateral do lobby do hotel, de modo a captar a entrada de Marie ( Franka Potente), num caso, e Michel Piccoli, no outro. Mas, a diferença essencial: Oliveira mantém o plano fixo durante longo tempo, depois corta para Husson perguntando por Séverine na recepção e então regressa à câmara de entrada, para apanhar Bulle Ogier (Séverine) a fugir (?) do antigo amigo. Liman escolhe a velocidItálicoade: plano curto de Potente a entrar, um excesso de figurantes a percorrer o set, campo-contracampo com planos de 1,2, segundos, travelling que acompanha Potente a dirigir-se à recepção, elipse e corte para Bourne (Matt Damon) na rua.
Em que cineasta a impressão de realidade é mais forte? No cinema-movimento de Liman, no qual cada plano serve apenas para lançar o plano seguinte, tempo ultrapassado pelo tempo, rápida sucessão de acontecimentos que não se chegam a fixar na memória? Ou no cinema-tempo de Oliveira, no qual um plano vale por si só, contém em si várias camadas de interpretação; um cinema sem pressa de chegar a lado algum (a realidade?), um cinema no qual a dimensão temporal é mais importante que a dimensão espacial. 
Será difícil encontrar melItálicohor exemplo desta essencial diferença. Terá Manoel de Oliveira visto Identidade Bourne?

[Sérgio Lavos]

08/12/08

Ciclos


Nem todos os frutos são colhidos; sabemos que alguns irão amadurecer nos ramos, amadurecer até que o peso se torne desmedido e acabem por cair no chão, apodrecidos. Na estação dos frutos apodrecidos, a Natureza cumpre-se - eles cedem o seu lugar aos frutos que começam a crescer na árvore. O ciclo de floração terá uma oportunidade de escapar ao gesto humano; e a terra espera os frutos que apodrecem.

[Sérgio Lavos]

05/12/08

Preferia não

A dor que não é física é um sentimento estético; sofrer, sofrer a bom sofrer a vida, é uma pose que disfarça ou a perplexidade ou a incapacidade de aceitar a beleza que ultrapassa a banalidade diária, a sombra dos inevitáveis espinhos que surgirão no caminho. Saber de tudo isto e não ir a jogo é o desastre completo; a ética da impossibilidade prática.

[Sérgio Lavos]

04/12/08

Quem fica

No fim de contas, não tem interesse nenhum falar dos que não sobreviveram; a sobrevivência em geral é sobrevalorizada, mas é o particular que me interessa: um Homem que abdica não deve ser chorado pelos que resistem - e quem sabe se apenas ele poderá chorar por quem fica.

[Sérgio Lavos]

Heaven beside you



[Sérgio Lavos]

28/11/08

BSO



Depois da música inicial, as imagens fundem-se no som da natureza envolvente, e Blake torna-se parte dos lugares por onde anda. Uma mancha na floresta, em movimento, silenciosa, algo que está a deixar de ser humano. 
Num filme que é suposto retratar os últimos dias de Kurt Cobain, a música que ouvimos é escassa. Gus van Sant prefere que os ruídos naturais se evidenciem - o som de pássaros por entre as árvores, o crepitar das folhas secas sob os pés, a água da cascata a correr, o baque do corpo na corrente, a fogueira ardendo no escuro, o grito primitivo do músico, o comboio na distância. A ilusão é perfeita: o som não é captado de forma directa, mas inserido na pós-produção, resultando em sequências que podem ser apenas ouvidas, representação bastante aproximada da ideia de uma realidade; e panteísta, como sucede em Gerry, a longa caminhada dos dois Gerrys para a morte, os passos sobre a areia multiplicando-se sobre si próprios.
Como se a morte se insinuasse através de um desejo primordial de regresso à Natureza. Longe da multidão enlouquecedora. Um Walden pós-moderno.

[Sérgio Lavos]

Bombaim

Conheço a cidade através das palavras de Salman Rushdie, a cidade de outros tempos, viva, mais viva em Filhos da Meia-Noite do que na realidade seria. Pelo menos, até ler este texto da Ana de Amsterdam, na primeira pessoa. 
Será possível alguma vez sentirmos o sofrimento dos outros como sentimos o nosso?

[Sérgio Lavos]

22/11/08

Gonçalo M. Tavares


Gonçalo M. Tavares publicou, em seis anos, 23 livros. Será necessário algum rigor para escrever tal número. Atenção, não foram 38, como escrevi (antes de verificar no Público o número correcto), nem 36, como julgo ter afirmado em conversa com alguém (já não me lembro quem).

Tudo o que tem vindo a lume, quase tudo, foi escrito durante um longo período de tempo, e depois Gonçalo começou a publicar. Quando começou a publicar, deixou de escrever. Até começar a publicar, escreveu. Todos os dias, já o disse em entrevistas, de manhã, nos cadernos - pretos ou não. Cada texto publicado vai para uma colecção, organizada de acordo com o caderno em que foi escrito.

Dos primeiros livros publicados, avulta O Senhor Valéry, o primeiro da série dos senhores. Esta série inventa, mais do que personagens vagamente inspiradas em escritores, um espaço para as colocar, um bairro. Neste bairro elas existem, mas raramente se cruzam. Conversam, encontram outros habitantes das vizinhanças, mas principalmente surpreendem-se com o bairro onde vivem. O carácter infantil das histórias dos senhores passa sobretudo pelo modo lúdico com que são encarados os pormenores existenciais, as dificuldades do mundo. Cada situação é enfrentada com a seriedade de um adulto e resolvida com a displicência de uma criança. A infância é o tempo em que a maior parte dos problemas que nos interessam é ultrapassada: como contornar as dificuldades que os outros nos colocam, como aprender a confiar neles, e como contar com isto para que o mundo se molde à nossa vontade. Crescer é como construir um bairro: alicerçar as casas, erguer as paredes, pôr gente a viver lá dentro, construir as ruas que levam a outras casas, olhar o quadro de fora, como um arquitecto divino.

O método de Gonçalo M. Tavares é frio, consegue descrever o quadro de maneira grandiosa. À puerilidade do bairro dos senhores é acrescentada a tetralogia do reino (A Máquina de Joseph Walser, Um Homem: Klaus Klump, Jerusalém, Aprender a Rezar na era da Técnica). Neste reino, esquecemos os problemas de infância, os jogos que nos serviam para resolver esses problemas. As personagens da série são racionais, prodígios de raciocínio, frias máquinas obedecendo a frios desejos. Neste mundo desolado, a violência germina facilmente. Se no bairro dos senhores a desordem ameaça a cada página, no Reino o mundo é perigoso. E o perigo não vem do exterior, mas do interior; a violência nasce da razão. Todos os grandes ditadores da História fundaram os seus reinos de terror na técnica, num método. Não há qualquer sugestão de irracionalidade no acto de destruir outro homem; a intenção é puramente da ordem do pensamento concreto, sem vestígios de imaginação, no sentido em que, para aceitarmos o outro, precisamos de imaginar o que ele é, o que sente.

A permanente tensão da série o Reino transporta-nos da infância para a idade adulta: o tempo da entropia progressiva, da ameaça de destruição iminente. A violência como motor da evolução humana.

(Texto publicado em tempos no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

Ensaio Sobre a Cegueira

O que a adaptação de Fernando Meirelles de Ensaio Sobre a Cegueira deixa de fora é a visão comunista que Saramago impõe ao romance. Simplificar, simplificar, até chegarmos a território neutro, no qual não se perceba se a história dos cegos é uma parábola que descreve a natureza humana ou uma utopia libertadora, típica de uma certa visão de esquerda que ainda não foi extinta. 
O grupo de cegos que sobrevive é, no romance, uma comuna que aceita docilmente a autoridade de um líder (messiânico), que, ironicamente, é conduzido por alguém que tem uma qualidade que a torna superior aos que seguem: a mulher que vê. Se o moralismo de Saramago pretendia denunciar a maldade inata do Homem, personalizada no déspota da camarata do lado e do cego antes da cegueira que o conduz, acaba por não conseguir. Isto seria uma possível leitura. Mas julgo que a verdadeira, apesar de entrar por caminhos conspirativos, é esta: ao fascismo violento do grupo liderado pelo vilão do livro opõe-se o sentido comunitário do grupo da mulher que vê. A resposta que resta é: será ingénua a "cegueira" de Saramago, ao não perceber que é tão totalitária a liderança subterrânea da mulher que vê como o maquiavelismo do cego que manipula o déspota? A bondade da comuna, romântica segundo o olhar de Meirelles, é o exemplo mais evidente da ideologia moralista do romance de Saramago. A imagem da coluna de cegos a caminhar pela cidade, fila ordeira, líder vidente conduzindo os restantes numa clara hierarquia, é um delírio que Orwell não desdenharia; a diferença é que, se este tratasse o tema, seria sempre com o objectivo claro de denúncia. Saramago, como sabemos, nunca o faria - e não fez. E Meirelles, terá percebido a complexidade da manipulação saramaguiana?

[Sérgio Lavos]

16/11/08

Clube de Combate


Para além do tema do artifício da identidade, central no filme, Clube de Combate, de David Fincher, é visionário. Dez anos depois, as torres corporativas foram destruídas por terroristas que desprezam o modo de vida capitalista, o vazio em que este se funda, e o coração do mundo financeiro sofreu um abalo que, esperamos, irá mudar o mundo como o conhecemos. A segunda parte da operação de destruição do modelo ocidental prossegue neste momento, em que eu escrevo, e o mais estranho é quase ninguém se aperceber disso. Assim funciona a História: as grandes mudanças são imperceptíveis para quem as vive. Aquilo que julgámos ser o momento essencial dos nossos tempos - o atentado às Torres Gémeas - foi apenas um prelúdio para algo maior. Este tipo de linguagem, hiperbólica, disparando em todas as direcções, acaba por acertar em qualquer coisa. É a linguagem de Tyler Durden, o terrorista do quotidiano que encarna os desejos mais profundos dos descontentes da sociedade de consumo: destruir os alicerces que a suportam. Não confundir estes descontentes com os marginalizados da sociedade; estes perseguem, e hão-de perseguir as promessas que o capitalismo oferece. Os descontentes vivem na sombra da riqueza gerada pela máquina global, alimentam-se dela e cospem no prato que lhes dá comida. O descontente do capitalismo é um funcionário burocrata, cansado dos milhares que ganha, da casa decorada no Ikea e do bem-estar perpétuo, do tédio quotidiano. O descontente é um produto secundário do capitalismo, inevitável. Slavoj Zizek fala da Checoslováquia dos anos 70 como o mundo ideal, aquele que consegue o equilíbrio perfeito entre  necessidade e desejo: necessidades materiais satisfeitas e desejo de liberdade por satisfazer. A sociedade do consumo falha neste ponto; é essa a principal ideia em Clube de Combate.
Tyler Durden rejubilaria com o colapso do sistema financeiro mundial. Mas quem verdadeiramente irá sofrer com isto preferia que a profecia não se tivesse concretizado. 

[Sérgio Lavos]

15/11/08

The child/Alex Gopher

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A aleatória relação entre significado e significante demonstrada em forma de canção electro-pop: eis o objectivo deste video realizado por H5, a ilustrar uma música de Alex Gopher. Um sample soul e umas batidas lounge, o som está lá, mas o que interessa é o movimento das palavras, o ziguezague das coisas pelas ruas de Nova Iorque, os sons de gente a falar que atribuem consistência à ilusão. Que ligações se estabelecem no nosso cérebro, permitindo que a cidade seja real apesar de nenhuma representação directa do mundo se dar? Serão os objectos símbolos, como o são as palavras, e antes delas, os sons que as compõem? Nomear as coisas é aquilo que lhes permite ter substância. O reconhecimento do mundo não é natural, a linguagem não é uma extensão do mundo; é antes uma continuição da inteligência humana, um atributo que é passado de ser para ser, o código da acesso à consciência humana.
Ou será que este video é de uma simplicidade absoluta e não coloca estas questões que artificializam o que é fácil de entender, instintivo? Aquilo que até uma criança entende?

[Sérgio Lavos]

Movimento (2)

[Sérgio Lavos]

14/11/08

Colóquio/Letras


Tenho alguns livros na estante que comprei apenas em função da sua utilidade estética; e escrever utilidade estética não é apenas um paradoxo, é a realidade das coisas. A beleza não é apenas fundamental, como cantava o outro, é necessária para que um objecto tenha uma existência imprescindível. E quem diz objecto, pensa em gente, claro.
Esses livros, essenciais em qualquer biblioteca, podem ou não ter mundo dentro deles - se forem vazios, salva-se sempre a pureza das linhas e das cores. A perfeição da composição gráfica; aqueles livros em que dá vontade de pegar apenas para olhar para o desenho das letras na página (acontece-me neste momento com os livros da Sextante, por exemplo, saídos do atelier de Henrique Cayate e enriquecidos com as letras de Mário Feliciano, o inventor da elegância tipográfica). A história é bamba, fraquinha, o estilo é raso e enjeitado; não interessa, a mancha de tinta preta no papel branco é enlevo suficiente. A beleza é essencial.
E a capa, o embrulho do todo, o que captura o leitor na livraria. No oceano de ruído, cromocaótico, dos escaparates das novidades, espreita o próximo livro, e é sempre a sua cara que primeiro nos convence. O rosto de um livro é a sua capa, e é por ela que ele é sempre julgado, como diz a frase inglesa (ou o verso dos Prefab Sprout).
Um destes exemplos, uma revista Colóquio/Letras (Janeiro/Junho de 1998) que comprei não porque, naquele caso, me interessasse especialmente o conteúdo, mas porque não resisti ao apelo do conjunto, à beleza simples do objecto. Tenho outros números, mais ou menos conseguidos graficamente, mas sempre exigentes ao nível do texto, e não tenho dúvidas de que é esta a única revista portuguesa de literatura que consegue combinar o rigor académico com o apelo a um público não-especialista (julgo que a razão disto também passa pelo cuidado na edição). Parece que querem afastar Joana Morais Varela, a principal responsável pela excelência do projecto, da direcção da revista, por razões mais ou menos ínvias (se não mesmo ímpias). Esperemos que não. Fazer bem é coisa tão rara em Portugal que seria (também neste caso) lamentável se isso acontecesse.  

[Sérgio Lavos]

13/11/08

Novas tecnologias


Através do José Mário Silva, o futuro, a loja das Quasi. Apetitosas, no mínimo, as imagens. Livraria? Nave espacial? O que irá nascer naquele espaço?

[Sérgio Lavos]

09/11/08

Dióspiros

[Sérgio Lavos]

O desaparecido

Li, e aconselho a quem me lê que o faça também, os dois textos do regresso de João Ventura ao O Que Cai dos Dias, dois posts certeiros sobre Herberto Helder, e depois da poeira assente vale a pena voltar ao tema. Mas por outra porta, a que António Guerreiro me entreabriu hoje, no Expresso - o texto sobre a biografia de Kafka que está a ser publicada neste momento na Alemanha, três volumes dos quais falta apenas sair o dedicado aos anos de infância e adolescência do escritor. 
O que existe de comum entre estes dois autores? A vontade de desaparecimento, diluição na banalidade dos dias. Kafka, escritor desconhecido na sua época, afirmou ser ele a própria literatura, mas o interesse de escrever uma biografia monumental sobre um homem com uma vida lisa, sem peripécias ou planaltos, que contudo deixou uma vasta bibliografia íntima - diário, cartas, etc. -, reside precisamente no enigma do confronto entre a sua afirmação pública e a produção artística privada. O que levou aquele homem a escrever, a "tornar-se literatura"? A dissecção minuciosa dos dias, das relações, do movimento, seria um bom ponto de partida para encontrar uma resposta, mas dificilmente será um ponto de chegada. Os romances inacabados de Kafka eram iguais à sua vida, ele afirmou-o no diário, e esta construção de uma personagem que se ausenta, que tende para o silêncio, faz parte do discurso de afirmação enquanto escritor que ele procurava.
Herberto Helder, na sua procura do poema contínuo, sem princípio nem fim à vista, na sua identificação com essa obra em passagem pela matéria onde se inscreve, evidente na continuidade entre autor e título da obra (Herberto Helder ou o Poema Contínuo, numa anterior edição da obra poética) - como bem notou António Guerreiro na sua recensão a A Faca Não Corta o Fogo -, é a versão possível desta vontade de imanência do criador. Possível porque a sua consagração funciona como obstáculo à execução do objectivo - ser Herberto Helder é incompatível com a sua condição de poeta maior do século XX, e imaginamos que as duas possibilidades apenas se podem excluir mutuamente. A sociedade do imediatismo e do mediatismo fabrica personagens que não passam de figuras vazias povoando as narrativas do leitor, essa categoria volúvel; o leitor, mais do que completar o circuito de criação de uma obra, corrompe a obra que recebe, transformando-a em algo dissemelhante daquilo que era a intenção do autor. Kafka, personagem refugiada na sua própria obra, não sofreu este destino - o seu desaparecimento foi completo, e talvez tenha apenas fraquejado no fim, ao não condenar ao fogo os seus escritos.
A opacidade de Herberto não chega a ser um perfeito truque de ilusionista; ele é um desaparecido em eclipse, que julgamos ver quando olhamos para o lado. A obra continua.

[Sérgio Lavos]

08/11/08

Sapatos velhos

Não sei que traços da minha personalidade revela a acumulação de objectos inúteis em casa. Jornais antigos, bilhetes de cinema e catálogos de exposições, bilhetes de comboio, escrevinhados, sacos que não saem do mesmo sítio há anos, sapatos velhos. Sapatos velhos? Sapatos velhos, é verdade, calçado que uso há décadas, ténis, botas, sapatos. Ainda se molda, cada peça, à forma do meu corpo - será esta a razão porque não me desfiz, nem quero me desfazer deles. Porque desfazer é o contrário de fazer, e durante todo o tempo que os sapatos velhos andaram carregando os meus pés eu me fui fazendo. O movimento é espacial e temporal - transporta-me de um lado para o outro e leva-me a um momento no futuro - a proposição usada, "a", é a mesma para espaço e tempo, e pela gramática comprovamos teorias da Física. Se a construção daquilo a que chamamos "eu" tem que ver com as relações com a matéria que nos rodeia - a casa, os livros, os veículos de transporte, as cidades e aldeias, a gente -, essa construção completa-se com a comparação entre aquilo que fomos e aquilo que somos, agora. Os sapatos velhos têm inscrito neles a altura exacta em que os comprei, a circunstância certa em que os usei. Por onde andaram, a terra que pisaram - umas botas que subiram a montes, uns ténis que levei a concertos de bandas que raramente, agora, ouço - por quem foram vistos. Mais do que a roupa, mas a roupa é outro problema - variamos mais, não nos ligamos tanto às peças. A relação monogâmica que estabelecemos com os sapatos velhos é aquilo que nos vai definindo. Atirar fora esses sapatos é como terminar com alguém, cortar com uma porção concreta de passado. E pensar que possam tais objectos inanimados serem desvalorizados, ao ponto de ser ridículo usá-los como tema de escrita - aquilo que lhes permite sobreviver para além daquele dia em que são atirados, sem dó nem pena, ao caixote de lixo, e com eles a vida que se foi acumulando. Como lama seca.

[Sérgio Lavos]

05/11/08

Um sonho adiado

O que acontecerá a um sonho adiado?
Será que definha
como uma uva ao sol?
Ou purula como uma ferida
e depois desaparece?
Será que cheira a carne apodrecida?
Ou se cristaliza e adoça
como um caramelo?
Talvez apenas vergue
como o faz um pesado fardo.

Ou será que explode?

Um poema de Langston Hughes

versão de

[Sérgio Lavos]

Os tempos mudam



Não sei em quem votou Bob Dylan. 

[Sérgio Lavos]

03/11/08

Estamos todos por Obama?

A verdade é que parecemos americanos, no nosso entusiasmo; a pergunta deixou de se colocar há muito. Ainda mais seremos com estas eleições, depois de oito anos medievais, balançados entre mentiras que justificaram guerras e a completa idiotia de estado de que Bush foi a imagem, o corpo e a correia de transmissão de uns quantos tenebrosos oportunistas disfarçados de idealistas, que sairão de cena sem sofrerem na pele o castigo por todas as más decisões tomadas. O problema nem é o mundo estar pior agora do que na era pré-Bush; a História é cíclica. O problema é que a cultura política degradou-se tanto que já se aceita pacificamente que alguém como Sarah Palin possa ter hipóteses de ser líder dos E.U.A. - e McCain, apesar das cedências, seria sempre melhor do que Bush. Mas não, se tudo correr bem não será ele, e pensar que possa acontecer o mesmo que há oito anos com Al Gore parece uma soberana oportunidade perdida. Obama não é o segundo Messias, é certo; se atentarmos às subtilezas da sua mensagem política, veremos que não se distancia muito do centrismo de Bill Clinton, e chegam a ser preocupantes as suas ideias em relação à política externa norte-americana. Mas Obama não é apenas um político que se pode tornar presidente; é uma ideia - de mudança, de esperança, como se fosse o regresso depois de uma longa era de trevas - é assim que a maioria dos seus apoiantes o vê. E é sobretudo uma ideia para o mundo: quarenta anos depois do fim das restrições de direitos a uma minoria da sua população, o país pode eleger para presidente alguém que pertence a essa minoria - a importância simbólica desta possibilidade é incomensurável.
Habituados que estamos a conviver diariamente com a cultura deste país, ao ponto de conhecermos melhor a História dos E.U.A. do que a nossa própria História (abençoados sejam o cinema e a literatura por isto), apenas podemos estar profundamente motivados para o que vai acontecer amanhã, a dois mil quilómetros de distância. E tudo se desmoronará, se Obama perder? É difícil matar uma ideia - disso podemos estar certos.

[Sérgio Lavos]

Em Bruges

Em Bruges, dueto sangrento para dois turistas à força, vive da tensão entre os diálogos, improvável mistura entre Tarantino e Pinter, e o desempenho do trio de actores principais, directamente transportados de um filme como Get Carter, com Michael Caine; Colin Farrel (talvez menos cabotino do que o costume), Brendan Gleeson e Ralph Fiennes, bandidos irlandeses com poucos escrúpulos e muita consciência, têm o estilo de Samuel L. Jackson e John Travolta e o pathos de Stephen Rea em Jogo de Lágrimas. E podia continuar com o jogo de referências; o filme, sendo bom, esvazia-se a nível formal, não se autonomizando dos seus antecedentes, sendo apenas salvo de ser um filme na senda da filmografia balofa de Guy Ritchie em virtude do excelente guião de Martin McDonagh, dramaturgo de formação.
Apesar das fragilidades, há algumas ideias de cinema bem desenvolvidas, e o olhar do realizador consegue quase sempre encontrar o melhor enquadramento para a tragédia. Assassinos em perda, gangsters melancólicos e crianças perdidas encontram-se nas ruas da cidade belga e encaram-se enquanto estranhos longe do ambiente duro que lhes está colado à pele. Há uma certa linhagem de gangsters ingleses que é cumprida; enquanto que os mafiosos americanos são quase sempre controlados - pelo menos até que irrompam numa explosão súbita de violência, e o exemplo maior é Al Pacino - os ingleses falam com sotaque cockney, escocês ou irlandês e têm o rastilho curto, vivem com os nervos à flor da pele - mas são compassivos e tem um rígido código ético com raízes na moral católica. 
Mas vale a pena a visita a Bruges? Depois deste filme, com certeza, se não for um criminoso a sofrer o martírio da culpa - como uma figura de um quadro de Bosch. Mas era disso que falávamos, do postal turístico?

[Sérgio Lavos]

01/11/08

Uma Cotovia

Como livreiro, sou obrigado a vender um pouco de tudo, e sei como é praticamente inviável manter uma livraria aberta promovendo apenas aquilo que o nosso gosto aprova. As apostas pessoais que se podem fazer em livrarias especializadas, apesar de serem um mito do mundo livreiro, são, basicamente, um risco, e não há negociante que não tenha de ceder ao mainstream, de maneira a poder vender aquilo que poderá verdadeiramente interessar - vende-se a lúmpen-literatura para se poder apostar na diferença.
E apostar na diferença pode ter resultados bastante satisfatórios. Numa livraria pequena, onde cada cliente que entra é umItálico rosto conhecido, dá para ir sabendo o que as pessoas querem, para além dos best-sellers e do último livro do clube da Oprah. O meu trabalho é também direccionar o cliente para aquilo que eu gosto, e lamento se isto possa parecer presunçoso ou elitista. É claro que não vale a pena tentar vender diamantes a vaqueiros, e garanto que há casos perdidos, dê por onde der - a ideia de que qualquer um poderá, começando por Rebelo Pinto, chegar a ler Pynchon, é uma brincadeira de democratas com a consciência pesada. Mas o meio termo é uma mina: basta colocar os livros nos sítios certos, falar de um romance evidenciando aquilo que as pessoas querem ouvir, e a educação está feita. Uma forma de vender a banha da cobra, com a vantagem de não ser banha, nem cobra. É isto que faz a felicidade de um livreiro.
Vem esta conversa no seguimento da leitura de um pequeno volume que os Livros Cotovia publicaram agora, a propósito dos seus vinte anos, no qual recolhem depoimentos de autores e outros aficionados da casa. No blogue Os Livros Ardem Mal, Luís Quintais já fez o favor de republicar o seu texto, por isso não irei acrescentar muito mais ao que ele afirma. Apenas dizer que a Cotovia, desde que na Feira do Livro apanhei alguns números da revista As Escadas Não têm Degraus e um livro essencial cujo título é de uma beleza resplandecente, Sete Rosas Mais Tarde, de Célan, tornou-se também uma referência, e imaginando a estante (não vou olhar), vejo o Pedro Paixão e o Luís Quintais, Larkin (maior identificação com o nome da editora é difícil) e Daniel Jonas, Martin Amis, E. M. Forster, a Ilíada, até ao mais recente, Um Punhado de Pó, de Evelyn Waugh, que ainda não foi lá parar, e por isso não me sinto nada comprometido por dizer que grande parte do meu percurso de livreiro passei-o a aconselhar (também) livros publicados pela Cotovia. Há outras casas editoriais, de que vou falando no blogue, ou dos autores que elas publicam. Mas o aniversário é da Cotovia. Parabéns. 

[Sérgio Lavos]

Vestígios


[Sérgio Lavos]

31/10/08

Em boa companhia




Não sou sentimental e muito menos americano, mas senti uma pontinha de emoção ao ver a lista de apoiantes públicos de Barack Obama. De atentar em várias coisas: a lista é incomparavelmente mais extensa do que a de McCain; a ausência de grandes nomes em todas as áreas artísticas do lado de McCain, contrastando com a esmagadora presença de actores e escritores apoiantes de Obama; a quase inexistência de desportistas que apoiem McCain, mostrando duas coisas - a origem social desta classe e, sobretudo, a componente étnica da candidatura de Obama - quase todos os grandes do desporto são afro-americanos. E, último mas não menos importante, a quantidade de mulheres bonitas que dele gostam (em oposição aos true american men destacados por Ricardo Gross, no campo de McCain): Jessica Alba, Halle Berry, Jennifer Aniston, Patricia Arquette, Kirsten Dunst, Heather Graham, Anne Hathaway, etc., etc., etc., e Angelina Jolie e, por último, Scarlett Johansson.
Temos homem? Habemos...

[Sérgio Lavos]

Os dedos

Os dedos são de Lady Chatterley, longe do seu amante, tocando uma pele que ela espera que ainda possa ser tão bela como era antes. As mulheres sofrem a passagem do tempo da maneira mais séria possível: o corpo é o que as distingue, e a beleza é a manifestação de um espírito natural indomável. 
O filme de Pascale Ferran é feminino, feminino, e apenas poderia ter sido criado por uma mulher; a atenção ao pormenor, o corpo usufruido em vislumbres, a intimidade que surge dos grandes planos sobre as coisas que passam despercebidas ao olhar masculino, a atenção dada à linguagem não-verbal, olhos boca, rosto, mãos, a distensão do tempo, a demora do acto sexual, como uma seta apontada ao ponto mais frágil de um homem. Os ruídos que vêm da Natureza, os pássaros, o vento, as folhas restolhando, a luz natural, de noite e de dia; a história de um adultério, de um ponto de vista que a maioria dos homens recusa e quase todas as mulheres querem recusar. 
Afirmar que o filme apenas poderia ter sido realizado por uma mulher não é uma forma de menorização, nem da obra nem das capacidades femininas; é um sublinhar de diferenças, e apenas isto. As mulheres terão plenos direitos quando os homens conseguirem entender perfeitamente a sublimação do seu desejo. Mas então, quando cair o véu, valerá a pena a sedução?

[Sérgio Lavos]

29/10/08

Antes que o Diabo saiba


Quem por gosto corre, não cansa, e deve ser a primeira vez que uso um provérbio no blogue, teria de ser este, porque resume essencialmente a actividade bloguística.
Não vou repisar o assunto - não agora. Lembrei-me da frase a propósito da vontade de escrever sobre determinado tema aqui, na oportuna altura. O cinema é tratado neste blogue desse modo - apenas escrevo sobre o que me apetece, nunca sobre tudo o que vejo, ainda menos sobre o que não gosto. E muitas vezes, não escrevo sobre o que gosto. Vem isto a propósito de uma conversa com o Pedro Sales, pensando num dos melhores filmes deste ano, Antes que o Diabo saiba que morreste, a que votei o meu desprezo ou desatenção. Não foi desatenção, mas a verdade é que o filme saciou-me, e bastou isso. Acontece-me muito; filmes que servem numa bandeja tudo bem composto, evitando que no fim sinta a vontade de petiscar noutro prato. Explicando: apetece-me quase sempre falar de filmes que pensem o cinema, filmes que ofereçam ao espectador a oportunidade de regressar às imagens. Por vezes, saímos da sala de cabeça vazia, e parece que nenhuma corda foi tangida, mas quando estamos à noite em casa, olhando o vazio ou a televisão ligada (o que é quase o mesmo), as imagens, insidiosas, obrigam-nos a tentar entender, gostar de outra maneira, empurrando a mão para o papel ou para o processador de texto mais próximo. 
O filme de Sidney Lumet, exercício estilístico, falsamente experimental, que se apoia no espantoso trabalho dos actores (à boa maneira dos anos 70), termina e a emoção acumulada esvazia-se, deixando pouco espaço ao pós-operatório, digamos; a estrutura é adequada, mas evidente, as histórias evoluem em ritmo de tragédia familiar bem doseada, pathos incluído (a cena de Seymour Hoffman destruindo a intimidade perdida do casal é o coração da obra), e a amoralidade moral que Lumet nos oferece preenche a necessidade básica de qualquer espectador: sair da sala de cinema sentindo-se um ser humano melhor ou mais inteligente. Mas, a meu ver, esgota-se aí.
E pensar depois na razão do esquecimento levou-me a compreender de modo mais completo o filme: a escrita serve, sobretudo, para isto: entender o mundo.

[Sérgio Lavos]

Muro


[Sérgio Lavos]

27/10/08

O ponto de vista


O filme começa assim: um assassino deambulando pelas ruas procura uma vítima - Godard falava num arma e uma mulher para fazer um filme; uma câmara encontra a sua presa, e não é a prostituta que grita no derradeiro momento - é o espectador, que sem dar por isso é colocado no lugar do assassino.
Peeping Tom, na aparência, é um simples catálogo de horrores, ensaio psicanalítico sobre a loucura. Mas, ao contrário de Psycho, de Hitchcock, não há explicação que distancie o louco do espectador. A amoralidade do filme não está nos actos do assassino, mas na simpatia que sentimos por ele - e nisto, o filme de Powell diferencia-se de Laranja Mecânica, com o qual por vezes é comparado. As origens da esquizofrenia - as experiências do pai, cientista - fundamentam a vontade de matar, e desculpam-no aos nossos olhos. O ponto de vista subjectivo é quase sempre o nosso; e a única personagem moral é uma mulher cega, que não morre porque não pode olhar de frente a morte. Nós, que somos voyeuristas, estamos irremediavelmente condenados.
Abençoados sejamos.

[Sérgio Lavos]

24/10/08

To peep

A primeira imagem de Peeping Tom, de Michael Powell, é esta; um olho que nos observa, azul, de mulher, a pele de mulher marcada por sardas - as ruivas, diáfanas, multiplicam-se no filme, confundindo-se e confundindo, um olho que nunca saberemos de quem é. O olho, o buraco, e a lâmina escondida pelo tripé da câmara; o espelho reflectindo o medo da vítima. 
É extraordinário como este filme trouxe a desgraça ao realizador, depois de uma carreira quase gloriosa. Recuperado nos anos 80 por Martin Scorcese, estreou apenas nessa década nos E.U.A. A razão da passagem aos subterrâneos da história do cinema foi, imagine-se, a crítica. Arrasadoras, "inacreditáveis", nas palavras de Scorcese, unânimes, ao que parece, na altura em que estreou em Inglaterra. Na sua autobiografia, Powell cita escrupulosamente os seus detractores e todo o moralismo que eles destilaram na altura: acusado de ser um filme escandaloso, pornográfico, demente, de tudo e mais alguma coisa, terá sido esta uma rara ocasião de testemunhar o delírio total da crítica, incapaz de separar ética e estética, horrorizada com a simpatia que Powell aparenta ter pelo assassino voyeurista interpretado pelo, até aí, anódino actor Karlheinz Böhm (o imperador Francisco José da série de filmes sobre a imperatriz Sissi, com Romy Schneider).
A atitude de Powell, depois de o filme ter sido revalorizado por uma nova geração de realizadores, foi um acto de fria vingança sobre os pobres e esquecidos críticos que arruinaram a sua carreira. Mas a história repete-se; quantos críticos de agora terão noção do real valor das suas palavras? Das suas relativas opiniões?

[Sérgio Lavos]

22/10/08

A banheira

Como uma banheira de porcelana branca
Quando a água quente arrefece e se evapora,
Assim é o lento desvanecer da nossa tempestuosa paixão,
Ó minha mui louvada mas-não-especialmente-satisfatória senhora.

Ezra Pound

versão de

[Sérgio Lavos]

16/10/08

A Faca Corta o Fogo

Por vezes, basta um juízo de valor para espoletar as mais inopinadas razões. Coisas simples, sem importância, vagas opiniões. Foi isso que sucedeu com o meu texto sobre o livro de Herberto Helder, e sinceramente talvez não mereça a atenção que terá tido. Para que se prove este facto, posso dizer que cheguei a começar um texto mais desenvolvido sobre o tema, a que decidi atribuir mais sensato destino: o desaparecimento.

Mas, as coisas simples: como o Henrique Fialho, comecei a gostar de Herberto Helder muito cedo. A sua obra poética, o tijolo comprado na livraria Portugal, no Chiado (lembrar-me do lugar e da circunstância em que comprei a Poesia Toda esclarece sobre a importância que a obra teve em mim), formou não só muito do meu gosto posterior, mas também a escrita; e, principalmente, motivou-me para a escrita (com consequências mais ou menos nefastas). Cada geração terá os seus heróis; a minha é herdeira sobretudo de Al Berto, primeiro, e depois de Herberto Helder. Bastava ler o suplemento DN Jovem nos anos 90 para se perceber isso: as epígrafes repetiam-se de número para número, e eram sempre os mesmos nomes, estes nomes, e também Yeats, Hölderlin, Novalis e o ocasional Nietzsche. Será esta a família de poetas que se dedicam a um registo que João Camilo, simpaticamente, apelida de “porque não te calas?”. A poesia do “absoluto”, e não do absoluto metafísico, antes egocêntrico, a poesia que queima o terreno em redor, (e Herberto, no fim, também nos "deixa sem nada"; simplesmente, o caminho tomado é outro) afirmando-se de forma transcendental não apenas em relação à realidade, mas sobretudo, e no caso que nos interessa, na sua relação com a obra de outros poetas.

O facto de, enquanto leitor, admirar a poesia de Herberto Helder, não evita que a leitura da obra seja feita de modo crítico. O que, no caso de Herberto, é fácil: o trabalho de desbaste que ele tem levado a cabo na sua produção poética tem limpo de todo o joio o tal tijolo que eu, há quinze anos, comprei na livraria Portugal, seria uma bela tarde de Primavera.

Ora, julgo que existe uma certa confusão entre ética e estética, principalmente no texto do Henrique: que o novo livro de Herberto seja tratado como “acontecimento” - no sentido mediático do termo: fenómeno de curta duração empolado por uma corrente de opinião dominante na imprensa – não deve obstar a que exista uma leitura crítica do mesmo. E parece-me que recusar, simplesmente, o burburinho, é um erro, porque Herberto, quer se queira ou não, não é propriamente uma Margarida Rebelo Pinto. Há inéditos de um poeta importantíssimo da segunda metade do século XX a serem publicados, muitos anos depois dos últimos terem saído. Não é importante? Não são importantes, os inéditos? Deixemo-nos ficar por aqui, se é essa a discussão. Não gosto, porque sim, não é razão. Eu poderia deixar aqui as razões pelas quais gosto da poesia de Herberto, mas esse texto, como afirmei ao início, não será publicado. No limite, claro, é uma questão de gosto. O problema é a não-crítica que se tem produzido a propósito de A Faca Não Corta o Fogo, e desta situação são culpados não só os que recusam a predominância de Herberto na poesia portuguesa actual, como também, e principalmente, os admiradores que escrevem para jornais e não quiseram, ou não puderam, enfrentar de forma séria a trabalho crítico a que se dedicam. Daquilo que li, apenas o texto de António Guerreiro, no Expresso, se destaca positivamente. Que não há risco nos suplementos literários dos jornais portugueses, estamos cansados de saber, mas insisto: por que razão é que o Ipsilon, por exemplo, no lugar de ter entregue a recensão a Manuel Gusmão, que, enquanto poeta, claramente pertence à mesma família de Herberto, não o fez a Pedro Mexia, denodadamente distante do autor? E Manuel de Freitas, que, apesar de ter escrito um ensaio sobre o poeta, também se encontra na margem oposta àquela onde Herberto se coloca, não poderia também ele ter escrito uma recensão para o Expresso? O não-criticismo português é assim: as escolhas feitas são sempre as mais fáceis, principalmente no caso das vacas sagradas da cultura portuguesa. Mas até uma vaca sagrada trabalha melhor se for picada, e não me parece que a diversidade crítica seja um aspecto que prejudique a obra criada – já o ego do escritor, não ponho a mão no fogo (sem faca); mas o respeito que uma obra deve merecer bem pode dispensar o uso de paninhos quentes no tratamento das divindades da literatura.

Esta fraqueza da crítica leva a que os aspectos que estabelecem a diferença em relação à anterior produção poética mal tenham sido aflorados nas críticas ao livro. Porque, parece-me, há de facto mudanças, desvios, transgressões, transformações. O hermetismo, palavrão que tantas vezes se usa a propósito de tudo e de nada na poesia de Herberto, deixou de ser uma intenção, um motivo. Nota-se uma respiração diferente, uma abertura, que se evidencia quer no campo lexical, quer no semântico. Há brincadeiras, remissões para a realidade quotidiana, alusões, ensaios num registo mais vernacular, menos “elevado”, que têm de ser considerados. Qual a razão, o que levou ao movimento, quando o mais expectável seria a permanência? É que, lendo a maioria das recensões que foram publicadas, até parece que nada se acrescenta ao universo temático e formal neste novo livro. O tal endeusamento em vida de um escritor, que prejudica a interpretação crítica da obra.

A leitura que João Camilo faz do poema que eu publiquei é correcta, mas não completa. Mas o texto dele levanta questões mais importantes, a que responderei, no seu devido tempo.

[Sérgio Lavos]

11/10/08

Sigur Rós/Svefn-g-englar



Agora que a Islândia é ameaçada pela bancarrota e o Inverno se aproxima - a chuva voltou, e a boa disposição matinal com ela - será tempo de regressar aos Sigur Rós, ao fabuloso Aegetis Byrjun, o primeiro álbum. 
É melhor não tentar pronunciar o nome da música, "Svefn-g-englar"; cantarolar também será complicado. A música destes islandeses é para se ouvir deitado na cama, enquanto a vida bate nas persianas corridas. Percorrer paisagens desconhecidas dentro de quatro paredes, permitir que a música flua como a água desabando lá fora. 
Difícil é não cair no lugar comum quando se escreve sobre Sigur Rós - culpado, confesso. Extraordinariamente, o som que a banda produz é tudo menos regular, banal, quotidiano. Assim como os vídeos, nem que seja pela mística paisagem da ilha, pano de fundo ideal para devaneios poéticos e outras fraquezas - basta apontar a câmara às colinas de basalto, à turfa cinzenta, à erva que desponta nas encostas dos vulcões adormecidos. Mas este vídeo, dirigido por August Jacobsson, em colaboração com os próprios elementos da banda, vai mais longe, rasando a fronteira entre beleza pura e o puro mau gosto. A utilização de uma companhia de teatro composta por actores com Síndrome de Down poderia ser arriscada, pelo oportunismo ou coisa pior, mas o resultado final é comovente, pelo menos para gente que tem a corda da sensibilidade bem afinada.
Chuva calma, lá fora. A tempestade acabou.

[Sérgio Lavos]

10/10/08

MEC

Também eu deixo um link para a entrevista a Miguel Esteves Cardoso. E por volta do minuto 23, a grande razão para isto tudo.

[Sérgio Lavos]

Negar três vezes

Sem fôlego. A poesia de Herberto Helder deixa o leitor sem fôlego, extasiado, exaurido. Por isso, é difícil para quem escreve escrever depois de Herberto. Por isso, quem insiste na poesia ou admira e imita, fracamente, tristemente, ou foge à influência e recusa, odeia, desdenha. Terão sido poucos, os que têm escapado a esta dicotomia forçada: António Franco Alexandre, Luís Miguel Nava e Joaquim Manuel Magalhães. No caso deste último, a ruptura terá sido dolorosa; quem lê os ensaios de Magalhães percebe o deslumbre que a poesia de Herberto continuou a provocar nele. Mas a partida tinha de acontecer. Os descendentes poéticos perceberam mal  a atitude de Joaquim Manuel Magalhães; aqueles que tresleram o seu verso do "regresso ao real" afirmam, sem pudor, que a poesia de Herberto não interessa. Interessa, e muito, e ninguém que afirme gostar de ler poesia poderá recusar a intensidade dos seus versos. Um poema de Herberto é, e peço ajuda a uma metáfora, um buraco negro, resplandecente, breve, destruindo toda a matéria em volta. A matéria que é engolida reclama, mas inutilmente. E, regressando ao real, é preciso ler Herberto para entender o que o mundo não é. 

[Sérgio Lavos]

09/10/08

O Nobel

Parece que me enganei e afinal os senhores do Nobel sempre lêem autores franceses. Deve ser por razões de simpatia pelos "humanistas". Mas Le Clézio? Não é ele um iconoclasta? Ou a rotatividade entre línguas e nacionalidades é mais importante do que a chatice do subjectivo critério do gosto?
(E mais importante: por que razão hoje o Correio da Manhã chamou à capa Lobo Antunes, a (des)propósito do Nobel? Para que serve um escritor num tablóide? Para ser tristemente xingado?)

[Sérgio Lavos]

08/10/08

Criatura nº 2


O segundo número da revista Criatura já está à venda. É favor clicar no link para saber onde se pode encontrar.

[Sérgio Lavos]

A Faca Não Corta o Fogo


(...) e escrever poemas cheios de honestidades várias e pequenas digitações gramaticais,
com piscadelas de olho ao «real quotidiano»,
aqui o autor diz: desculpe, sr. dr., mas:
merda!, 1971 - e agora,
mais de trinta anos na cabeça e no mundo,
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,
ó stôr não me foda com essa de história literária,
o stôr passou-se da puta da mona,
a terra extravaza do real feito à imagem da merda,
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço o desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta,
fui-me embora pela floresta infravermelha fora,
não estou para essas merdas floresta vermelha fora

(Inédito do novo livro livro de Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita, edição Assírio & Alvim - e o que dizer do regresso por outro caminho?)

[Sérgio Lavos]

Hipertexto

A mansa admiração que o blogue de Saramago provocou na blogosfera parece que se diluiu rapidamente; não há troca de links, remissões para textos, polémica bravia - não é o blogue notícia, apenas a decisão do escritor. O que faz um homem que nada tem a provar - o mínimo cliché que se poderá ensaiar sobre Saramago é este - aderir a uma nova linguagem, tão distante daquilo que lhe conhecemos? E o que, na verdade, dele conhecemos? Os romances não é uma resposta possível. Os diários, os cadernos de Lanzarote, andarão mais perto de uma possibilidade.
Lembro-me de que na altura em que eles foram publicados, correu alguma tinta e turvou-se alguma água a propósito de nada; que os diários não passavam de um assomo de vaidade pública, e por isso, para a mentalidade portuguesa, dispensável; que a corriqueira vida do escritor - as viagens, os prémios, as consagrações - pouco interesse tinham; e, sobretudo, que por baixo da pátina dos dias do escritor, pouco confessionalismo havia: os diários eram uma fraude literária, no sentido em que eram apenas uma conta-corrente dos compromissos, e careciam de autenticidade. Por outras palavras, eram parcos em sangue e lágrimas, vinganças e traições. 
Mas claro, apenas os diários póstumos são verdadeiramente interessantes, nem que seja pela natureza dos mesmos: o autor morto é um saco de pancada, e todas as especulações e mirabolâncias serão possíveis; o autor, lamentamos, encontra-se ausente para todo o sempre.
Enquanto Pedro Mexia vai publicando o seu prévio diário póstumo (a ironia das suas intenções é desarmante), Saramago arrisca um registo diferente, inclusive dos seus diários antes publicados em livro. Textos longos, provavelmente recuperados da gaveta, meditações, memórias. Limpando estes textos do estilo habitual da ficção: textos limpos e corridos, saborosamente evocando (mais do que nunca) Padre António Vieira.
Escolhas; ou de como a literatura não existe apenas nos livros.

[Sérgio Lavos]

06/10/08

Cinquenta por cento de certeza

(É bem provável que ontem tenha ouvido a melhor canção de sempre dos Oasis, mas ainda não confirmei - é do último álbum, "Dig Out Your Soul" e apenas vi o vídeo, talvez de seguida pesquise por aí, e a coloque a tocar ali do lado direito).
Mas a verdade é que sempre pertenci à facção Blur. Nos últimos anos, cheguei à conclusão que a melhor banda da vaga britpop dos anos 90 (para mim, há apenas esta) são os Pulp. 
(A preguiça dos manos Galagher, a sua tendência irritante para copiar os acordes mais conhecidos dos Beatles (e não os melhores), junto com a sua insuportável arrogância, leva-me a dizer, sem rodeios que, por exemplo, a Sheryl Crow - sim, é essa - que estou a ouvir agora naquela "... trá-lá-lá-lá... if it makes you happy... trá-lá-lá..." é uma canção muito mais interessante do que "Sally Can Wait", que tocou antes).
Peguei num CD ao acaso que dizia Brit Awards 97, e cinquenta por cento do que lá está não presta; mas será melhor do que uma colectânea que fosse lançada agora? Estas coisas são importantes - uma dieta de jornais musicais ingleses deformou-me o espírito e ainda agora não consigo respeitar da mesma maneira uma banda pop americana e uma banda pop inglesa (mas a Britpop foi-se, como se nunca tivesse existido).
E agora toca "Mile End" (incluído na banda-sonora de Trainspotting), dos Pulp. Um mimo, uma brincadeira, um doce para gente grande, com sintetizadores que sobraram dos anos 80, uma guitarra vagamente country e um fiozinho de melodia beatliana, mas da boa, daqueles acordes que os Oasis nunca ouviram como deve de ser. E a inultrapassável misoginia tótó de Jarvis Cocker. 
Boys will be boys.

[Sérgio Lavos]

05/10/08

Björk/All is Full of Love



É impossível analisar a música de Björk (quando escrevo analisar, penso, evidente, em ouvir e sentir) sem ter em mente uma série de imagens que traduzem de forma fiel o espírito da música. A frieza maquinal como via de uma intensidade material, o erotismo panteísta, a confluência entre urbe e campo, entre o sentir da vida moderna e a nostalgia da natureza perdida. Tem sido assim, desde "Human Behaviour" (realizado por Michel Gondry) até à estranha e problemática colaboração da artista com o puritano Lars von Trier, em Dancer in the Dark (retomando o título de uma música de David Bowie). 

As imagens, criadas por outros - sobretudo o mencionado Gondry e Spike Jonze - contribuiram, em grande medida, para a criação de um universo "bjorkiano". Atingir este patamar - a criação de um termo que defina um estado de espírito - é um feito de que muito poucos cineastas, vivos ou mortos, se poderão orgulhar; e Björk, sendo "apenas" criadora de música, consegui-o. Encontrar realizadores que conseguem traduzir em imagens um universo pessoalíssimo é, por isso, a maior qualidade de Björk. Pode haver quem se irrite profundamente com os tiques de diva, as tolices de criança por crescer, os ambientes infantilóides e fofinhos dos videos (os gatinhos de "Triumph of a Heart, dirigido por Jonze, devem ser um cúmulo qualquer neste campo), mas a verdade é que é inegável a coerência e, sobretudo, a presença de um elemento teórico em toda a criação imagética que envolve a produção musical da cantora islandesa.

Mas o melhor video de Björk acaba por ser aquele que recentemente foi eleito pelos espectadores da MTV 2 como o melhor de sempre, e pouco se poderá dizer para contrariar esta escolha. O terceiro mago dos clips musicais, Chris Cunnigham, assina esta maravilha do cinema contemporâneo, cunhando uma marca comparável, em certa medida e sem exagerar, a Matrix, dos irmãos Wachowski. "All is Full of Love" é a história de amor dos nossos tempos: fria e reflexiva, comovente e, acima de tudo, impossível: duas formas femininas, máquinas na linha de montagem, que simulam os gestos humanos do amor - apenas assim ele pode ser definido, pela imitação do movimento. O campo teórico preenche-se de possibilidades, mas nem por isso a música deixa de ser essencial na definição da teoria. A electrónica de Björk, contaminada por simulacros de instrumentos tradicionais, reclama uma emotividade alienígena que chega a ser calorosa - a contradição que espelha os caminhos que iremos escolher no futuro.

[Sérgio Lavos]

04/10/08

O que é um leitor?

A pergunta que não consegui fazer à estranha que hoje me deixou desconsertado quando me reconheceu, não me conhecendo:

- E também tem blogue?

(Respostas para o mail na barra ao lado).

[Sérgio Lavos]

03/10/08

O umbigo dos outros


Depois de um dos membros da Academia Sueca que atribui o Nobel da Literatura, Horace Engdahl, ter vindo a público referir-se à suposta menoridade da literatura norte-americana (ou, mais concretamente, estado-unidense), não se vislumbram hipóteses de prémio para Don DeLillo – repare-se, falo em DeLillo e não em Philip Roth, embora Thomas Pynchon também pudesse ser nomeado como próximo não-nobel americano.

Ora, eu achei piada às vistas curtas do senhor sueco, não por que não tenha razão – não tem – mas porque li, logo de seguida, uma ou outra indignação de admiradores de Roth e/ou pró-americanos empedernidos que disparam ao primeiro farejado odor de anti-americanismo. As vistas curtas do sr. Engdahl são prova de uma ou duas coisas, portanto: de que existe ideologia por trás das intenções do júri, se não sempre, muitas vezes; e, principalmente, que os membros se dão ao trabalho de realmente ler milhares de páginas produzidas por autores que não escrevem em inglês (duvido que leiam autores franceses, duvido até que eles não acreditem que a França terminou enquanto país quando Marguerite Yourcenar – que não recebeu o Nobel – morreu). Vamos lá ser sérios: partindo do princípio de que o Nobel é, de facto, o prémio mais importante que um escritor pode receber (e de que recebê-lo é essencial, para a obra ou para o autor), quantos de nós poderão dizer que este ou aquele escritor merece o prémio, em detrimento de outro? Porque a vida de um leitor, caros amigos, é uma vida falhada, em perda; por cada novo escritor que conhecemos (ainda que sejam largas dezenas por ano), há cem de que nunca iremos ouvir falar, seja pela inexistência de traduções em qualquer língua que entendamos, seja porque sim, porque escolhemos. São coisas óbvias, eu sei, mas a humildade impede-me de não as dizer de quando em vez. Queremos falar de gosto? Não me interessa, declaro que a subjectividade não me assusta. Mas antes que embarque na barcaça romba da retórica estéril, deixem-me que pegue num excerto (é sempre bom pegar num excerto) do tipo que escreve sobre literatura mais ideologicamente motivado que eu conheço (com o Alexandre Soares Silva muito perto, mordendo os calcanhares): João Pereira Coutinho, pela mão do Pedro Vieira: “e, segundo, porque o Nobel premeia escritores humanistas, ou seja, optimistas, que oferecem à academia sueca uma visão inspiradora, e muitas vezes sentimental, da natureza humana.” Não sei de que escritores fala ele, mas espero que não seja de Saramago, Dario Fo, Harold Pinter ou Joseph Brodski, caso contrário começo a duvidar do, até agora, impecável gosto do cronista, o que seria uma chatice, já que politicamente nunca me servirá uma chícara de chá que seja. Tudo para justificar o horror de não escolher o Roth, por ser americano. Mas Coutinho terá lido tudo o que os membros da Academia leram, todos os escritores humanistas e politicamente empenhados que concorrem entre eles para o premiozinho de uma vida? É esse o meu ponto.

A verdade é que a literatura dos E.U.A. é, quase sempre, “provinciana” e “fechada sobre si própria”. O problema é que o umbigo dos E.U.A. é de supremo interesse universal, e o olhar do mundo inteiro está definitivamente focado nele (ninguém sabia?); julgo que a isto se chama (com todo o despeito que merece) globalização cultural, mas posso estar errado. Toda a grande literatura americana é, antes de mais, um elogio do modo americano de viver; o grande romance americano, de Melville a Pynchon, de Thomas Wolfe a Philip Roth, tem características comuns que reflectem o espírito de uma nação e de um povo: os valores do individualismo, da demanda épica, da transcendência das origens, do combate a qualquer adversidade, a qualquer custo. E, lamento, João Pereira Coutinho, o principal impulso que conduz todos estes heróis americanos (Ahab, Eugene Gant, Sal Paradise, Nathan Zuckerman) é o humanismo. 

Nem Coutinho nem Engdahl. Os valores americanos são universais, as obsessões culturais que aparecem exaustivamente fetichizadas na literatura americana (o gosto pelos desportos autóctones – basebol, futebol americano, basquetebol -, a adoração de ícones do cinema, a paixão pela paisagem de fronteira e o Homem que por lá vagueia, etc.) são objecto de despudorado fascínio em qualquer lugar do planeta. Algum problema? Não.

E para quando Don DeLillo, o mais atípico (e, hélas, europeu) dos grandes escritores dos E.U.A.?

[Sérgio Lavos]

Arrastão

Uma Santa Aliança de blogues a que faltava um auto-retrato. Espera-se, daqui para frente, um ritmo (ainda mais) estrondoso de actualizações neste blogue - vou apostar, nitidamente, em fazer-me ao penalti.

[Sérgio Lavos]

Slowdive/Catch the breeze



[Sérgio Lavos]

28/09/08

Wall-E (2)


A técnica, de filme para filme, aprimora-se. Tem sido assim com a Pixar, desde Toy Story. Felizmente, cinema não é só técnica, e a atenção que o guião dos filmes de animação digital tem tido é o que tem permitido a estes filmes serem mais do que estéril fogo-de-artifício. A concorrência da Dreamworks também tem sido essencial - de filme para filme, a Pixar sente a obrigação de provar que ainda é melhor; daí, a sequência que tem sido prosseguida em contexto de escalada de qualidade: Toy Story - À Procura de Nemo - Wall-E; com Monstros pelo meio. Os dois últimos da cadeia são obra de Andrew Stanton, o que diz muito sobre o seu contributo para um género que começou com Walt Disney (a referência, é claro, não incorre em qualquer displicência ou exagero). 

Wall-E, por tudo e mais alguma coisa, deverá ter atingido um ponto difícil de superar por quem se segue. O segredo, parece-me, é o filme ter sido feito com todos os meios digitais disponíveis, e simultaneamente passar uma mensagem retro a quem se sente ultrapassado pelas novas gerações. É um filme digital com um espírito analógico; e vamos ser optimistas: não há qualquer contradição ou cinismo nas intenções de Stanton, ele é tão romântico como o tradicionalista Miyazaki. Não é novidade, Carros já tinha ensaiado esta aproximação metaficcional; mais é mais eficaz do que nunca, como se a velocidade do tempo presente fosse bruscamente desacelerada por um travão divino.

E falamos de lentidão, do seu elogio, de coisas antigas e do fétichismo que as envolve. Desde o robô Wall-E, modelo ultrapassado, ternurosamente ferrugento, até à revolta dos robôs high-tech defeituosos - a diferença como elemento de progresso -, passando pelas imagens analógicas de Hello, Dolly digitalmente manipuladas por um gadget do robô, o coração do filme é uma homenagem às coisas antigas, ultrapassadas, a um modo de vida em vias de extinção, a caminho da ruína. Que tudo isto seja mostrado recorrendo a tecnologias de animação avançadas é uma ironia que enriquece ainda mais o filme.

(continua)

[Sérgio Lavos]