Quarta-feira, Julho 02, 2008 

Até já

Houve um tempo em que dizia preferir os escritores que mudavam de lugar, os viajantes, os que precisavam da vida para escrever sobre ela. Continuo a ler alguns desses, mas nunca li uma linha sequer de Ernest Hemingway, por exemplo. Entretanto, descobri que na realidade leio com mais prazer os que se limitam a ficar, esperando que a vida os encontre no lugar onde se fixam. Os que procuram o sentido no interior das palavras, ou os que sabem que nenhum sentido é possível no exterior delas - o que, no fundo, vai dar ao mesmo. Agora que me movo, viajo, e acumulo parcelas de tempo fora de mim - exteriorizo-me - reencontro coisas conhecidas quando regresso aos escritores que nunca partiram.
Sei que Walser morreu enquanto caminhava na neve - movimento sobre o breve instante - e sei que Sebald viajou incansavelmente à procura dos vestígios de uma outra forma de viagem - a memória. Mas também sei que Walser, ao desaparecer, recusou o mundo e o nomadismo que a ele está associado; e por vezes reconheceu assim a escrita. Como Sebald terá encontrado uma explicação para as imagens quando mergulhou na abstração das palavras. Viajar e parar, reconhecer o que esquecemos, deixar assentar a poeira sobre a memória transitória do movimento; nada é tão simples como parece. Viajar é tentar de novo, recordar. O neo-platonismo vacilante.

[Sérgio Lavos]

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Sábado, Junho 14, 2008 

Fernando Pessoa

120 anos depois, querem que Fernando Pessoa renasça.
Aquela ideia vaga de que as novas gerações não se interessam pelo património literário português, o lamento comum dos mais velhos, traz sempre no grão da voz o fio da mesquinhez; cada vez mais acho que a nossa geração foi esquecida pelas que nos precederam, a história de sempre dos velhos a não quererem ser suplantados pelos novos. Numa sociedade envelhecida, a ameaça, ao contrário do que acontece no livro Diário da Guerra aos Porcos, de Bioy Casares, é dirigida a quem luta para ser integrado num mundo que não está preparado para abdicar dos direitos adquiridos ao longo de décadas. Um mundo de velhos invejosos, ciosos dos feitos acumulados ao longo de um tempo no qual a juventude era ainda um conceito respeitável, sinónimo de esperança e liberdade.
Pessoa, o nosso mais universal escritor, o único do panteão dos Grandes, é um capítulo da matéria do secundário que a maior parte dos estudantes ultrapassa com bastante dificuldade. Incompreensível, de resto; a aura pop do poeta nunca foi suficientemente explorada pelos professores de Português, que de resto pouco sabem de matérias como a revolução contracultural, a geração beat ou o movimento punk - e o que sabem, sabem mal, folcloricamente. O meu exemplo pessoal é uma constatação evidente deste facto: os meus hábitos de leitura, sistemáticos e apaixonados, foram esbarrando em sucessivos professores que não sabiam nem se interessavam em saber mais do que o mínimo necessário de gramática e escansão e metrificação de poemas (a matemática da poesia), interpretações redutoras retiradas dos prefácios de António Quadros para as obras de Pessoa e sentidos únicos para as palavras que ditavam nas aulas. Apesar do 25 de Abril, nunca senti a liberdade na sala de aula. Apenas quando cheguei ao 12º ano se desmoronaram os esquemas rígidos que fui encaixando ao longo dos anos. A professora Amélia Pinto Pais (que, de resto, tem um blogue dedicado à poesia) foi a excepção ao estado de coisas vigente.
Mas as palavras de Pessoa continuam vivas, musicadas por cantores de hip-hop, num projecto que irá ter um disco em Setembro, de acordo com a reportagem que ontem foi publicada no Ípsilon. Pessoa hip-hop, disse? Excelente ideia (de Ricardo Gross, funcionário da Casa Fernando Pessoa), como de resto os músicos que vão participar no projecto admitem; apesar das reticências iniciais de quase todos, reticências que só podem ser consequência das más experiências do Secundário, do contacto com o Pessoa sem vida que é ensinado na escola.
E Fernando Pessoa renascerá.

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Junho 02, 2008 

A arte de ver

Não é raro, ao ler um romance, darmos por nós a imaginar como seria aquela história adaptada para o ecrã, grande ou pequeno; mais justo para o escritor seria guardarmos aquela história e não pensar sequer em outro autor a refazer as palavras escritas.

Um realizador trai sempre uma história, trai sempre as palavras do escritor. Há casos de adaptações feitas pelos próprios escritores, casos de escritores que se tornam realizadores. Marguerite Duras, Samuel Beckett, William Faulkner a trabalhar como argumentista de filmes que adaptavam obras de autores que, aparentemente, estavam nos antípodas da sua própria obra escrita, como Raymond Chandler (Big Sleep) ou Ernest Hemingway (To Have and To Have Not), tudo exemplos de gente ilustre que dedicou parte do seu tempo ao cinema. Mas é um lugar comum que os grandes filmes da história do cinema raramente nascem de grandes obras literárias; a linguagem cinematográfica funda-se em valores diferentes da linguagem literária. Quando um texto escrito é transformado em imagens, as perdas e os ganhos tornam o resultado final um objecto em tudo distante do original. Por razões estruturais - a existência de dois planos narrativos paralelos, o falado e o filmado - ou por razões que têm que ver com decisões do realizador, necessariamente diferentes das decisões do escritor, o filme nunca poderá traduzir fielmente tudo o que um romance diz. Será discutível afirmar que a riqueza da palavra escrita, que permite infinitas interpretações do texto, se sobrepõe à linearidade plana das imagens em movimento; as grandes obras cinematográficas são tão ricas em conteúdo e na forma como a melhor das obras de ficção escrita. Mas a verdade é que existe algo que as imagens nunca produzem: as aliterações, as metáforas, a maravilhosa riqueza linguística que um estilista da língua consegue fabricar. O prazer do texto, de acordo com Roland Barthes, não nasce apenas da descodificação da palavra do autor; há grandes ideias que surgem como resultado do simples processo de ler um texto escrito de forma exemplar. E quanto mais complexo e denso é um texto mais ideias dele se podem extrair. Reduzir um romance ou um conto apenas à história que é contada é um erro em que não devemos incorrer.

Mas, é verdade, há quem escreva de uma forma cinematográfica. Será impossível alguma vez realizar um filme que se aproxime sequer do génio de Beckett, por exemplo, um autor que vive da força da linguagem. Ninguém conseguiu ainda fazer uma obra minimamente decente que adapte Kafka (apesar do esforço de Orson Welles em O Processo). Mas reinventar histórias medíocres, como Hitchcock fez tantas vezes, é um caminho fácil de seguir; e, ao mesmo tempo, espinhoso. O génio de Hitchcock reside na extraordinária expressividade dos pormenores puramente cinematográficos; as histórias eram um pretexto para a invenção, para a ostentação de uma mestria técnica invejável.

Mais recentemente, os irmãos Cohen fizeram o óbvio: adaptaram um texto que é quase um guião, Este País Não é Para Velhos. O estilo de McCarthy, seco, sincopado, com indicações de cena cinematográficas, presta-se a isto. Mas havia exemplos anteriores de romances de McCarthy tornados obras medianas, discretas; refiro-me a Belos Cavalos, realizado por Billy Bob Thornton em modo de completo desperdício: as paisagens, o deserto, a violência, tudo serviu para um filme que chega a ser um pastelão romântico.

A verdade é que o filme dos Cohen é uma obra-prima, por razões que vão muito além da riqueza do texto de McCarthy. A história é nada, tudo depende do olhar do cineasta. Os cenários imaginados partem sempre de um ponto interior, a imaginação do artista. E neste ponto, escritor e realizador aproximam-se: ambos criam imagens; o primeiro descobre-as através de palavras; o segundo persegue-as com uma câmara. Ramos divergentes da mesma árvore do conhecimento.

Nota: as imagens são de retiradas do filme de Alain Resnais que adapta um texto de Alain Robbe-Grillet, O Último Ano Em Marienbad. Um exemplo de uma adaptação que capta na totalidade uma ideia do texto. Como filmar a percepção individual do tempo.

(Texto publicado inicialmente no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Abril 18, 2008 

Memória de um sonho

Neste assunto da memória, apenas posso confiar, verdadeiramente, naquela que tenho. E a que tenho lembra-se de apagar dos seus arquivos factos que, na altura em que sucederam, foram marcantes.
Em questões de livros, por exemplo, a minha memória assemelha-se, não tanto a um queijo suíço, mas a um pântano pejado de charcos onde estagnam todas as obras marcantes da primeira fase da idade adulta. A verdade é esta: recordo melhor os livros que lia aos 11 anos do que aqueles que folheei naquele período nebuloso entre os 16 e os 25 anos. Clarificando: tenho os livros nas prateleiras, passo os dedos por eles, e de cada vez que isso acontece, lembro-me vagamente da história, da época em que o comprei, com sorte do local onde o encontrei (em grande parte dos casos, nas minhas incursões pela Feira do Livro). Mas na realidade muitos dos que li não se fixaram, não deixaram cicatriz visível no passado. Por outro lado, ainda me lembro de muitas histórias d'Os Cinco, de todos os livros do Julio Verne, de todos os romances de Agatha Christie que li; apesar de não ter os livros - vivi numa aldeia, e passei a minha infância e adolescência a requisitar livros a bibliotecas escolares, municipais, e a uma carrinha da Gulbenkian que, uma vez por mês, passava pelo centro da aldeia e ali ficava parada durante o tempo suficiente para que a meia-dúzia de leitores renovasse requisições ou escolhesse livros novos. Talvez a selectividade da memória tenha apenas a ver com a construção da infância, o lugar idílico perdido no tempo. Ou então a nostalgia acolhe apenas as raridades, as singularidades de uma vida. E ler, para quem cresceu numa casa sem livros, era um acontecimento, porque não dizê-lo, e caindo no sentimentalismo, mágico.
Portanto, não me perguntem sobre as minhas obras-primas da década dos vinte, quando o gosto se começava a sedimentar; as fundações do leitor que sou vão mais fundo, ao tempo da biblioteca itinerante da Gulbenkian. Ao tempo em que fiquei com dois livros requisitados para sempre (nunca os devolvi). Não sei onde estão agora esses livros (talvez ainda sobrevivam nos escolhos da casa de infância); mas lembro-me muito bem de quais eram, tantas foram as vezes que os li, na falta de outras obras - um chamava-se Grandes Exploradores, e era uma série de mini-biografias de aventureiros de sempre, piratas e marinheiros, exploradores do Ártico e aviadores. O outro era um livro de histórias sobrenaturais, relatos de desaparecimentos no Triângulo das Bermudas e aparições do Holandês Voador, visões de fantasmas e esqueletos que mudavam de lugar.
Apesar de não os ter nas minhas estantes, a memória encarregou-se de os tornar mais reais que muitos que agora observo; um livro é tudo o que está para lá das páginas.

(Texto publicado primeiro no Arte de Ler)


[Sérgio Lavos]

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Domingo, Abril 06, 2008 

Língua morta

Quando Fernando Pessoa escreveu “a minha pátria é a língua portuguesa”, já tinha havido uma tentativa séria de estabelecer uma norma linguística, com o consequente controlo, por parte do estado português, dessa norma. Depois desta frase, muitas tentativas foram feitas para que essa norma existisse. Em 1992, foi estabelecido o Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa. Agora, enquanto escrevo este texto, desrespeito o acordo que, em princípio, deveria estabelecer a norma a partir de 2008.

Contudo, não desrespeito a língua. Escrevo em português, e ao escrever produzo uma língua diferente da que falo. Fernando Pessoa, quando escreveu essa frase, que tão bem tem servido os interesses de uma pátria que quase nunca respeita a herança deixada pelos grandes escritores do passado, não teria com certeza em mente esta irreprimível vontade de regular essa coisa volúvel (e como esta palavra se aproxima de volúpia) que é a língua. A pátria de Fernando Pessoa era o instrumento que ele usou para deixar a sua marca no mundo. Criar uma nova língua dentro da língua que antes havia. E se outra prova não houvesse, bastaria o facto de esta, e outras frases, do poeta continuarem a ser repetidas mais de setenta anos depois da sua morte.

Duvido que os belos bastardos da língua portuguesa se interessem minimamente pelo Acordo Ortográfico, com a sua regra e a sua excepção, com as suas supostas vantagens comerciais (onde já chegámos?) desta normalização forçada. Não precisam, usam a língua portuguesa como pátria, e isso é suficiente. Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Rubem Fonseca, tudo o que eles escrevem é prova dura para superar pelos académicos bafientos que querem impor regras gramaticais e ortográficas ao resto do mundo. José Saramago e seu desengonçado flamenco prova que nada é tão rígido que não possa ser dobrado pelos anos de contacto com outra língua – ninguém poderá recusar o enriquecimento estilístico que as derivações cervantinas dos romances mais recentes de Saramago têm trazido. Por mim, escrever tendo em mente a música de outra língua abre o leque, balança o swing das mãos sobre as teclas. Há quem ouça música de negros para escrever; talvez eu precise apenas de derrogar por momentos a autoridade do meu português num longínquo gingar brasileiro para que todo meu pensamento se mova, se contorça, brilhe.

A questão é simples: queremos uma língua pura ou uma língua mestiça? A resposta é um pouco mais complexa do que poderia aparentar. O Acordo visa normalizar a mestiçagem da língua. E isso, parece-me bem claro, é um paradoxo. Nenhuma norma poderá obrigar um português a escrever como um brasileiro ou um angolano, e vice-versa. A mestiçagem é um fenómeno livre, o cruzamento de influências um fluxo libertário que não deve ser constrangido. Ao defender isto, não colocamos em causa a existência de uma gramática. Ela existe, é verdade, e deverá existir, sobretudo para não ser respeitada. A tradição literária contemporânea vive disto mesmo. O uso de coloquialismos, calão, gíria de bandidos, é traço comum em muitos autores brasileiros actuais e começa a ser também em alguma literatura portuguesa. A inovação passa por aqui; e mesmo que continuemos a admirar o divino português do Padre António Vieira, as duas coisas não são incompatíveis: basta pensar nos diálogos nos filmes de João César Monteiro para se perceber isto.

A única posição esteticamente correcta nesta questão é esta: promover uma gramática comum a todos os países de língua portuguesa na esperança de que esta seja continuamente desrespeitada por quem escreve e fala, contribuindo deste modo para que a língua portuguesa seja uma coisa viva, em permanente evolução, como qualquer língua deve ser. Se esta posição for a que vingar, não se duvide de que será o único modo de combater o predomínio da língua inglesa no actual mundo globalizado.

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Abril 04, 2008 

O Crocodilo que Voa

Quando, a determinada altura, o entrevistador pergunta a Luiz Pacheco se valeu a pena, ele responde:

- Se valeu a pena?!... O que é que eu posso dizer a isso?... Foi como foi.

Não sei que resposta o entrevistador esperava; foi como foi. Há quem se atreva a dizer: foi bom, vivi tudo, vou feliz. Há quem arrisque: tenho medo, lamento que tenha medo, perdi a coragem que a vida me foi dando. A empáfia da personalidade que se vai sem arrependimentos apenas se perdoa se aceitarmos o natural orgulho humano; ninguém gosta de admitir que perdeu.
O que perdeu Luiz Pacheco? Nada. Qual o interesse de reunir em livro um conjunto de entrevistas que abarca o último quarto de vida do escritor libertino? Tanto do ponto de vista do leitor cusco como do autor, todo. Luiz Pacheco foi um malabarista da vida. Dançava para um público atento e atencioso, dava-se ares de ser mais do que era, ou menos do que parecia ser. A sua vida oscilou entre a decadência e a glória, mas é certo que teve mais da primeira do que da segunda. Ele tirava gozo de falar, de se expor, de confessar, de provocar, e sobretudo de se arrepender do que disse. No livro em questão, O Crocodilo que Voa, são inúmeras as vezes que lhe perguntam: disse isto antes, é verdade?, como que para confirmar o escândalo, a pouca vergonha; sobre sexo, quase sempre, e a má-língua, que também acaba por ser uma espécie de coito interrompido. Ele responde invariavelmente: eh, pá, isso não, nem pensar, exageram. Mas nunca desmente. O jogo era este, e desde a célebre entrevista dada à Kapa em 1992 até à sua morte, foi assim. A última entrevista, de resto, publicada postumamente no SOL, é uma exemplar lástima. O aproveitamento do entrevistador é penoso, o sofrimento em directo do escritor é lamentável.
Sobretudo, ler de fio a pavio o livro organizado por João Pedro George cansa. Pela repetição das histórias, pela insistência nos temas, pelo constante repisar de provocações, a cabra, a puta a fazer o pino, os magalas, etc.
O que adianta isto então à obra de Luiz Pacheco? Nada. Nada acrescenta ao brilho intermitente da sua prosa, a verve pontual ancorada no real que foi marca do que escreveu. Admito que, enquanto as entrevistas foram sendo publicadas na imprensa - a primeira que li foi feita pela Cláudia Galhós para o Blitz, na célebre sessão fotográfica com o velho vestido de Pai Natal, involuntário palhaço da geração rasca que lia o jornal - celebrava com júbilo não disfarçado cada aparição da figura. Agora, vistas as coisas em letra de forma, impressas e bem encadernadas, resta nada. Apesar do esforço do prefácio, do artesanato impecável do objecto livro, da tentativa (um cínico diria vampirismo, o Pacheco vociferaria chupismo) de divulgar junto de um público alargado a obra do último (e mais iconoclasta) representante de uma época que se finou há muito.
No fundo, ouvíamos (lendo) as patacoadas do Pacheco como se ouve o louco do bairro. Aquela história da sabedoria brotar dos sítios mais improváveis não anda longe disto. A telenovela do intelectual com pretensões anarquistas; deixemos o livro de lado e peguemos no que escreveu. A vida fora da vida. O que interessa.

(O Crocodilo Que Voa - entrevistas a Luiz Pacheco, organizadas por João Pedro George, ed. Tinta da China)

(Texto publicado no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Abril 02, 2008 

Mário de Carvalho

Por vezes, a distância entre língua falada e língua escrita esbate-se. Ou, no mínimo, intuímos em determinadas situações este esbatimento.
Mário de Carvalho, na entrevista que deu ao Ipsilon na passada sexta-feira, é um exemplo deste encontro entre discurso oral e discurso escrito. Dito de outro modo, ele fala como escreve, ou pelo menos usa o mesmo rigor ao falar que usa na escrita. As mesmas ideias claras, a ironia mais ou menos amarga, a seriedade pontual, quando o assunto assim obriga. A afirmação que faz, no sentido de, a cada livro, procurar a diferença, é um reflexo destas variações entre o humor subtil e o sarcasmo que revela nas entrevistas que dá. A sua obra confirma isto: os livros sérios alternam com as obras que se aproximam da sátira de costumes ou do retrato bairrista ao estilo de Dinis Machado; no entanto, o rigor na construção da língua, no entretecer da gramática, o estilo de pendor clássico - não é de forma displicente que ele refere Padre António Vieira como antecessor inultrapassável - não muda de livro para livro. Reconhecemos as marcas, o cuidado e o prazer que nasce da forma pura; a língua revelando as suas estruturas mais complexas.
Não há cedências, repetição, cair nas armadilhas de uma Obra, comércio a retalho disfarçado de literatura; talvez por isso o homem que fala com jornalistas (e que eu já tive o prazer de ouvir falar em conferências) é o mesmo que escreve, sem pose a manter ou imagem a criar. Se a literatura não é a realidade, pode, em raros casos, em casos de génio, ser verdade. Não estarei longe de uma verdade se disser que Mário de Carvalho é o nosso escritor mais importante - o grande que poderá respeitar a herança dos nomes citados na entrevista: Pessoa, Padre António Vieira, Fernão Lopes, Eça de Queirós. Longe do brilho fátuo das eminências pardas que a cada livro se põem em bicos de pés para a eternidade. Os livros, como diz o lugar-comum, falam por ele.

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Quarta-feira, Março 19, 2008 

Falar

Don DeLillo ou tem pesadelos com a questão ou diverte-se no seu genial solipsismo. Em todas as entrevistas que li, repete-se: os diálogos, são ou não são inverosímeis? São sardónicos, acelerados, subversivos, cínicos, repletos de referências culturais mais ou menos subtis, megalómanos na sua perfeição formal. Isso tudo. Mas será que as pessoas, na vida real, falam assim? É claro que não é uma verdadeira questão, apesar do escritor já ter dito e repetido que sim, falam assim. O que é mais interessante nos diálogos de Don DeLillo é o seu extraordinário sentido de ritmo. Das suas peças, li Valparaiso, e os ecos de Sam Shepard confirmam a suspeita: o seu treino tem raízes na linguagem do teatro, na difícil relação entre ideia e som, personagem e palavras. Deixarmo-nos ir com as personagens de DeLillo, sentir a língua fluir, equivale a uma encenação tensa de algo que nunca é verdadeiramente afirmado. O cansaço, o tédio, as desilusões da vida: e o esforço que os homens fazem para aliviar o peso de tudo usando o artifício da ironia.
A ironia, suprema conquista da linguagem, a derrota da seriedade da vida. É realista? É apenas a verdade.

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Março 12, 2008 

Túneis

Alberto Manguel, uma certa tarde perdida e um homem cego a entrar com o sol, decidido. Bastou uma simples conjunção de circunstâncias para um homem dedicar uma vida aos livros, ao perverso fétiche da sabedoria; na realidade, o saber. Jorge Luis Borges, de porte altivo, esbatendo a planura branca dos olhos, precisava de alguém que lhe lesse. Precisava de alguém que lhe contasse as histórias que lhe serviam de sangue para as suas próprias histórias (memórias?). Ninguém melhor, para satisfazer os seus caprichos, do que aquela voz de adolescente à procura. O paraíso que Borges desejava, a biblioteca transcendental, aconteceu-lhe em vida. Desconfio. A sua biblioteca era mental; todos os livros que lera, todos os livros que lhe leram, todos os livros que escrevera, todos os que não escrevera. As estantes de Babel repletas de livros que sonhava ler, a eternidade. Manguel, na sua cegueira de juventude, viu ali um guardião de uma causa divina. Segui-lhe os passos, farejou-a, quis tornar o sonho de um cego o seu próprio sonho.
Agora que escreve os seus livros (belos e devotos, belos por mostrarem tanta devoção), imagina ser o corpo que descontém o fluxo criativo de Borges. O seu tigre. Enjaulado numa biblioteca. Interminável.

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Março 03, 2008 

Um beijo e uma memória

Queria ter começado este blogue com um texto sobre o tempo (lá fora). Queria, de resto, ter continuado este blogue mantendo uma proximidade com o mundo que corre (lá fora); situar-me. O blogue não me ajuda a localizar, não é um mapa. Saber que no dia 3 de Março de 2006 esteve a chover ou que o sol se atreveu a reaparecer seria, desconfio, indício fiável de nada. Saber que hoje, por exemplo, morreu Maria Gabriela Llansol, não adianta nem atrasa a existência deste blogue. Porque eu posso falar por ele. Mas ele não pode falar por si próprio, independente do tempo no qual vai sendo escrito. Relativizando, relativizando, o único caminho a seguir antes que comece a falar de mim na 3ª pessoa. Adiante; um texto (com espaço, traço, e tudo) de Llansol, que eu nunca soube ler como devia:

Poderia estar com os rapazes, no sonho da aula, na cova do povoado. Mas terá, sozinha, um confronto com a leitura; a casa que havia na cidade soltou-a, nessa noite, no campo _______ puro de toda a densidade que não seja o tempo.
É sobre o tempo, hoje, que vai ler. "O percurso, até chegar à lição de leitura, é meu". Partes do livro terão um corpo que, ao fim da hora concluída de leitura, lhe será entregue. Ao fim do sussurro de ler, operou-se a metamorfose de Myriam em Témia _______ muito mais tarde, quando for lido, e o dia estiver eventualmente iluminado por uma vela.

(Um Beijo Dado Mais Tarde, ed. Rolim, 1991)

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Janeiro 21, 2008 

Gato escondido

Comecei a ler um livro de um escritor português muito conhecido e traduzido. Leio por obrigação, mas admiti que podia, lendo, mudar de ideias a respeito do escritor. Duvido que mude de opinião. O monólogo interior depois de James Joyce está ao alcance de qualquer estudante de literatura que saiba escrever, portanto inspira piedade ver um escritor que visivelmente ignora as suas limitações praticá-lo sem parar e por vezes em frases mal escritas - para acumular banalidades sem interesse. Misturar dois ou três fios de intriga, não respeitar as regras tradicionais de pontuação só seria interessante se o assunto em si, o assunto do livro, fosse interessante. Não é interessante, é uma estopada. Histórias de famílias burguesas nem contadas para as caricaturar têm já qualquer interesse, prova-o o escritor. A burguesia portuguesa nunca teve qualquer interesse. Quem escreve sobre ela assim também não.

Quem será? Resposta aqui.

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Janeiro 20, 2008 

Expiação

Não sei se é apenas impressão, mas todas as críticas ao filme Expiação escamoteiam o facto de este adaptar o melhor romance desta década, o melhor de um dos melhores escritores actuais, Ian McEwan. Desconfio mesmo que a maior parte dos críticos não leram o livro, e por isso insistem em afirmar banalidades sobre a qualidade romanesca da história (alguém sabe o que isso é?) ou tecer loas ao estilismo romântico de Joe Wright (isto é nome de cineasta?!).
Vamos lá ver bem as coisas como elas são: a partir de um romance cujo tema é a criação, o próprio acto de escrita (um acto de amor), seria impossível produzir um filme que estivesse à altura do material original. A transcrição da história não seria suficiente para reproduzir todas as nuances da linguagem de McEwan, os diversos planos narrativos, as citações a outros autores, a perspectiva metaficcional a que McEwan se propõe. Se um romance nunca é a história que conta, pode muitas vezes parecê-lo (por isso, Hitchcock soube aproveitar obras menores e transformá-las em obras-primas do cinema). Mas em McEwan a linguagem não é um espartilho para a história; é o impulso para as diversas peripécias, o sopro que insufla as personagens.
E o que significa isto, quando transposto o portal que separa o mundo da literatura (composto de imagens que nascem no momento em que as palavras são lidas) do mundo do cinema (em que as imagens são oferecidas ao espectador, cerceando a imaginação a que um leitor é forçado)? Bom cinema, no caso de Joe Wright. As imagens que vemos são novas, e não porque o realizador se tenha afastado do enredo original; antes ilustrou, mas fê-lo de uma forma que não renunciou a um pensamento original, a boas ideias para solucionar os problemas colocados, no fundo a uma ideia de cinema. Os exemplos estão lá, para quem os quiser ver: o brilhante plano-sequência em Dunquerque (há quem tenha referido Kubrick, eu, exagerando, lembrei-me de A Sede do Mal, de Welles); os flashbacks inseridos cirurgicamente, sem que se perceba de imediato, criando uma ilusão de continuidade temporal, dois tempos diferentes que se fundem num só; a solução encontrada para mostrar o fundamento da história: o engano criminoso de Briony. A cena filmada através da janela, pelos olhos de Briony, e depois no exterior, do ponto de vista de Cecilia e Robbie. As fraquezas? Os actores principais, o inócuo James McAvoy e a sobrevalorizada (como actriz e mulher) Keira Knightley.
Expiação
podia ser mesmo um épico romanesco tão marcante como O Paciente Inglês (não por acaso, Anthony Minghela aparece como actor neste filme, entrevistando na cena final uma Vanessa Redgrave a fazer de Briony envelhecida), se o cast tivesse sido diferente (penso em Rachel Weisz e Christian Bale, por exemplo). Descontando isto, e um ou outro pormenor desnecessário (a banda-sonora a intrometer-se nas imagens, as cabeças cortadas em alguns enquadramentos), acaba por ser um bom filme, que merece o esforço que possa fazer para gostar dele - foi assim que comecei a admirar O Paciente Inglês e O Fiel Jardineiro, não seria coisa nova.
Querer que os críticos leiam o romance de McEwan é esperar muito. Que diminuam o filme, colocando-o na extensa prateleira das adaptações literárias de época, não se entende. Não se pretendia originalidade. Apenas alguma fidelidade ao espírito da obra adaptada. E a melhor maneira de conseguir isso é filmar bem, com mão virtuosa. Joe Wright, se não o consegue totalmente, fica muito perto. Seria difícil melhor. (Barry Lindon é um caso à parte).

[Sérgio Lavos]

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Simone, a escandalosa

Na semana passado, um grupo de feministas protestou em frente à redacção da revista Nouvel Observateur por esta ter publicado uma foto desconhecida de Simone de Beauvoir nua, de costas, mirando-se no espelho. Não reclamo do facto de esta revista ter desfeito a imagem que eu tinha da feminista francesa: uma mulher séria, que seriamente lutou para que as mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens. Poderá uma feminista séria deixar-se fotografar em discreta pose sensual, vaidosa e bela? Aparentemente, não. As mulheres que protestaram assim o pensam. Mesmo que a fografia se tivesse mantido secreta durante 50 anos e tivesse sido publicada mais de vinte anos depois da morte de Beauvoir. As mulheres que protestaram pediam fotos do rabo de Jean-Paul Sartre (sempre gostei mais de Jean-Saul Partre), das espaldas de Lévinas, do torso de Albert Camus. Descontando o facto de não perceber por que razão uma mulher inteligente poderá querer olhar para Jean-Paul Sartre nu, aplaudo a iniciativa. A filosofia não pode ser apenas a constituição de um corpo de ideias coerente e sistemático; é preciso mais carne, outro corpo material, nesta disciplina em vias de esquecimento. As inconsistências do pensamento filosófico de Beauvoir são reduzidas ao seu valor mínimo se estiver em causa um sexismo evidente por parte dos editores da Nouvel Observateur. Beauvoir vestida é filósofa? Não sei, mas, pelos vistos, despida passa a ser.
A afirmação da ideia de mulher enquanto conceito cultural, a maior contribuição de Beauvoir para o feminismo (o que vale isto perante a luta das sufragistas, não é?), não pode ser compatível com a maior conquista do feminismo, desde o seu aparecimento: a liberdade sexual da mulher, em qualquer circunstância. Pelo menos, na boca de muitas da seguidoras do pensamento da filósofa. É este o meu maior problema com o feminismo: transformar mulheres sensatas, inteligentes, em puritanas ainda mais puritanas que as mulheres no tempo da rainha Vitória. Mulheres que nunca irão perceber como o pensamento de Camille Paglia é libertador (e libertário) e o de Judith Butler apenas perpetua estereótipos (as chamadas diferenças de género) e justifica a marginalidade de comportamentos sexuais anómalos, que visam imitar e repetir estes estereótipos, contra os quais Simone de Beauvoir lutou.
Longa vida a Simone de Beauvoir, vestida ou despida, na intimidade ou nos livros - e a simetria das duas enumerações é propositada; nada pode ser mais erótico do que uma mulher que pensa. O pensamento como motivo de escândalo. Um pecado.

[Sérgio Lavos]

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Terça-feira, Janeiro 15, 2008 

Ainda a crítica (2)

Declaro que eu deixei de gostar de polémicas. Já escrevi sobre isso, não me vou repetir. Não gosto de polémicas porque é difícil convencer quem já está convencido. A discussão não é o melhor meio para a razão; não quando o interlocutor ou não quer ouvir os argumentos do outro ou quer ouvir o que o outro não disse. Não quero entrar em polémicas, porque qualquer bom argumento tem de ser afirmado de uma forma séria. E eu não sou sério. Tenho tendência para achar sempre o lado lúdico de um argumento furioso. Racionalizo a irracionalidade do oponente. E psicanalizo a resposta. Eu sei, quando me dizem algo, o que está por trás do que dizem. E também posso afirmar que nada do que eu digo é racional - tudo existe em função de variantes nada objectivas - o meu crescimento, a formação da minha personalidade. É que a constituição de um gosto não é um processo inocente. Toda a minha vida passa pelos olhos quando escrevo: prefiro a maneira anglo-saxónica de fazer crítica literária ao priapismo crítico português, todo ele forma, herdeiro bastardo de um barroco nunca ultrapassado. O problema é meu, passei os anos de formação a ler autores ingleses e norte-americanos, a tentar esquecer os francesismos que, durante séculos, se foram incrustando na literatura portuguesa. Os maus francesismos, claro, porque os bons ninguém imita (continuam a preferir os delírios poéticos de uma Duras à nova língua inventada por Céline ou Julien Gracq, mas enfim). Não serve de desculpa a má-formação que me foi dada. Mas explica a elegância de achar que nada pode justificar a insistência num ponto que nunca será de acordo, e que, para cúmulo, se funda num equívoco.
Gosto de ver o José Mário Silva a concordar com um amigo. E gosto de ver que estamos os três de acordo: acho Manuel Gusmão um dos melhores poetas aparecidos na última década, admiro os seus ensaios e leio sempre os seus textos para o Ipsilon. A questão não era essa; era saber até que ponto o grupo a que Francisco Frazão gostaria de pertencer não poderia ser alargado a mais gente. O tom ensaístico que Gusmão exibe nas suas recensões é de uma lucidez impressionante (mas, confesso, pouco cativante em termos de estilo, ao contrário, por exemplo, de Joaquim Manuel Magalhães ou António Guerreiro). Mas importa que o leitor menos exigente perceba o que o crítico quer dizer. Utilizar termos que vêm da teoria literária em textos publicados num jornal não me parece ser a melhor forma de cativar leitores para a leitura de textos muitas vezes menos densos que o texto que deles fala. Eu percebo que Manuel Gusmão escreva assim; é esse o seu treino, é essa a sua formação. Mas será o espaço apertado (cada vez mais) de uma recensão de jornal o local certo para fazer análise literária? Dúvidas, confesso, dúvidas, e Francisco Frazão não as elucida ao comparar Pedro Mexia a Manuel Gusmão. Percebe-se à distância que a formação e a intenção de Pedro Mexia, enquanto crítico literário, é oposta à de Manuel Gusmão. Menos exigente? De modo algum, apenas mais claro, menos interessado em utilizar o jargão académico aprendido nos cursos de literatura.
Mas admito que tudo isto seja subjectivo. Como também sei que nenhum potencial futuro leitor se perde na floresta barroca que enfeita a crítica produzida por Manuel Gusmão. Que interesse poderá ter escrever apenas para o salão de medíocres? Eu respondo: todo, cada um é livre de escrever para quem quiser. Mas, por favor, evitem justificar o elitismo com a ignorância dos que não pertencem ao grupo.

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Janeiro 14, 2008 

Autofagia

Neste blogue, perdido na corrente dos arquivos, há um texto onde refiro (detalhadamente) um livro que, em boa verdade, não existe. Dou as referências bibliográficas, editor, ano de edição, as páginas referentes às citações escolhidas; falo do percurso do autor, evidencio o empenho do tradutor (e o seu interesse) em traduzir o livro, confesso-me fascinado com o pequeno volume. Espalhadas pelo blogue, mais referências a livros que nunca foram publicados. A história que o Luís conta (inventa) não pode ser verdadeira. Pode-se perfeitamente escrever sobre livros que se formaram apenas na nossa imaginação - a Biblioteca de Papel de Mário Santos (há uns meses terminada, no Público) induziu-me em erro (talvez por distracção) durante algumas semanas. Borges escreveu um livro sobre seres imaginários, Calvino construiu cidades invisíveis. Poderia escrever poemas inspirados por quadros inexistentes, que ninguém se daria ao trabalho de averiguar as remissões. O leitor que comenta, no blogue que o Luís refere, a tal invenção do blogger, só pode ser uma pessoa muito mal-intencionada. Se o blogger migrou para o Sapo e se tornou de referência, tanto melhor. Toda a escrita pode incorrer na mentira. Se assim não fosse, ninguém leria ninguém. Alguém contesta?

[Sérgio Lavos]

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Quinta-feira, Janeiro 10, 2008 

Tântalo

Caro Tiago,

a bajulação ainda te leva a algum lado. Atormentado? Eu. Eu próprio. Sabes, é que, neste momento, escrevo. Estou a escrever. Estou escrevendo. Estou a teclar palavras. Tentar que estas palavras transmitam ideias, sensações, emoções. Vou escrevendo. E, lamentavelmente, corro o risco de usar as mesmas palavras que Camilo Castelo Branco usou, de que Eça abusou, as mesmas palavras do Pessoa, do Herberto. Nem por isso escrevo o mesmo que o Camilo, que o Eça, que o Pessoa, que o Herberto. Escrevo o mesmo mas nunca conseguirei escrever o mesmo. Do que eles. Não escreverei o que eles escreveram. Mas estou condenado a lê-los. A relê-los. A percorrer os olhos pelas palavras que eles deixaram, e descobrir, a cada leitura, a evidência de que eles se expressavam na mesma língua do que eu. O meu suplício é superior ao de Tântalo - ele pelo menos conseguia ver aquilo que não poderia alcançar. Eu nem isso - não entendo o mecanismo do génio, a sua origem. Todos os que escreveram antes de mim me perseguem. Leio assombrado por uma maldição de contornos masoquistas. Quero lá saber de tudo o que não li nem lerei! Chega-me o que leio diariamente.
Atormentado, eu?

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Janeiro 07, 2008 

Um pouco de aritmética

Não sei se repararam (isto é retórica, ignorem) mas não fiz um balanço dos livros lidos no ano que passou. Bem sei que não interessa a ninguém (não de certeza a quem vem aqui parar à procura de "fotografia sacanagem onanismo"), mas gostaria de explicar o seguinte: tudo o que li o ano passado provavelmente não foi publicado o ano passado (correndo o risco de me ter esquecido de quase tudo o que li; e não aponto). O primeiro livro de 2007 é Doutor Pasavento, e estou a acabar de ler agora (não agora, enquanto escrevo, claro, à minha frente tenho dois livros do Luiz Pacheco, o terceiro que me lembro de comprar não o encontro, e ando à pesca de uma citação que, pelo andar da carruagem, não vou publicar). Mas comecei a ler muita coisa que não terminei, decidi-me especializar nisso, dada a minha experiência de vida. Li no outro dia que bastavam as primeiras linhas para se perceber se vale a pena avançar na leitura de um livro. Não precisava de ter lido tal banalidade, a minha experiência teria sido suficiente (mas fica sempre bem escrevermos que lemos qualquer coisa para corroborar o que dizemos). Portanto, muita coisa má me passou pelas mãos; ou então não percebo nada disto; ou então o trabalho que faço cansa e por isso nem Joyce nem Bergman entram nas contas do meu rosário. Curiosamente, fui lendo, bastante fluido, um ensaio de que vi excelentes referências, e avancei, avancei, até chegar a meio e perceber que o livro não acrescenta nada ao que eu já sabia. Não que eu soubesse muito antes, mas o livro chove não molha, e a desilusão tardia quase que vai levando a melhor à minha decisão de terminar a coisa (mais tarde direi de que livro falo; ou escrevo sobre ele; veremos). Deste modo, designo como livro do ano, de entre os publicados em 2007, Boca do Inferno, do Ricardo Araújo Pereira. É o livro do ano porque foi o único livro do ano passado - e nem me venham falar em Sebald, ou Kafka, ou (espreito por cima do ombro para ver as pilhas dos lidos), Doris Lessing. Não, agora a sério: é mesmo o melhor livro novo que eu li no ano passado. Mesmo tendo lido outros (na pilha vejo Jorge de Sena, Dexter, ambos de 2007, e outros que não são; o primeiro gostei, o segundo é fraco, quando comparado com a série).
Reformulo: li mais livros publicados em 2007 do que tinha escrito ao início; do que tinha pensado ao início. O que significa uma de duas coisas: a minha memória é má; a minha memória é selectiva, destacando os melhores do ano automaticamente. O primeiro livro de 2007 (Vila-Matas) é portanto o quarto ou o quinto; pouca sorte.
A anarquia é esteticamente perfeita, quando falamos de livros. Em 2008, quantos livros de 2008 não lerei? E quantos do ano que passou? Fica para o próximo balanço.

[Sérgio Lavos]

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Mais um chupista

Ao jornalista do Público que ontem aqui chegou pesquisando no Technorati sobre Luiz Pacheco: mais coragem. A sério, meia blogosfera produziu o seu elogio fúnebre, com mais ou melhores palavras do que eu, bem podia ter avançado umas páginas mais no trabalho. Tinha alguma vontade de continuar a cavalgar a onda, mas vamos lá ver: já tudo foi dito. E se lhe lessem os livros? Podem responder: practicamente não se encontram. Verdade, verdade, toda a gente gostava de o ver a fazer figuras - vestido de Pai Natal, a exibir um belo manguito para a câmara - mas ninguém justificava a existência do que ele escrevia. Saíram há uns anos dois livros na Oficina do Livro que cairam, em pouco tempo, no esquecimento; a correspondência com António José Forte, idem; alguém ainda encontra, da Quarteto, um livro de que não recordo o nome, e que agora não me apetece pesquisar na Internet, por aí? Não. E está esgotado? Nunca, devem ter vendido uns 500, se tanto. Pensando bem, não precisam de lhe ler os livros. Agora, o dinheiro já não lhe faz falta. O guito para o pão, para matar a fome dos filhos e a sede do fígado, o pilim que cravou a tantos ao longo dos anos. Mas quem ficou a dever-lhe mais? Os senhores professores que agora emitem opiniões sobre a importância da sua obra. Emitem, repetem, o filme foi visto tantas vezes. Ninguém aprecia ser visto em más companhias; um homem não é sua obra - é a sua vida. Repito eu, que não o conhecia, e vamos aguardar o que virá, futuras edições respigando os restos, e nada lhe irá parar ao bolso. É assim a morte. Mais triste do que a vida (e se ela consegue ser triste!)

[Sérgio Lavos]

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Boca do Inferno

Escrever sobre o livro de Ricardo Araújo Pereira é pouco sensato; primeiro, porque o juízo do público já o colocou num patamar acima de qualquer crítica; segundo, porque Miguel Esteves Cardoso já o leu (e quatro vezes!) e antecipou-se a este texto; terceiro, porque qualquer texto que eu escreva sobre as crónicas do humorista arrisca-se a fazer figura de parente pobre ao lado de... qualquer crónica que apareça no livro recenseado. No fundo, escrever sobre o livro de Ricardo Araújo Pereira é como dançar sobre artesanato (parafraseando um conhecido fenomenólogo e estudioso dos rituais de acasalamento galináceos de que agora não quero recordar o nome).

O que resta, então, fazer? Continuando na técnica de fragmentação de um texto em pontos (tão fácil, tão fácil), deixar o livro descansado, depois de todo o esforço físico que fizemos para chegar ao fim do livro (rir cansa todos os músculos do corpo, ó se cansa); ou pegar na obra e tentar mostrar por outras palavras, diferentes e necessariamente mais fraquinhas do que as de Araújo Pereira, por que razão Boca do Inferno não é apenas mais um livro de crónicas escrito por um humorista – no meio da enxurrada de tentativas pouco sérias de fazer humor que, nos últimos anos, tem inundado as livrarias.

Decidi-me a fazer nenhuma das duas acima. Nem fiquei quietinho a um canto, pensando em todas as boas piadas que eu gostaria de ter escrito em vez do sacaninha de cabelo rapado, nem me atirei à vaca fria, encetando um vão ensaio para uma hermenêutica do humor pereirano. Será que há por aí professores de literatura que queiram levar a cabo tal tarefa? Não é difícil, e sempre seria coisa produtiva, irritar mais a azia crónica de Vasco Pulido Valente - “não gosto, não li, o Eça de Queiroz é muitas vezes superior, assim como um fulano que eu conheci em Oxford e limpava retretes no intervalo dos livros que escrevia”.

Uma crónica tem de ter técnica (e recuso-me a tentar produzir uma metáfora futebolística). Uma crónica tem de ter estilo. Uma crónica tem de conseguir conciliar técnica e estilo – ou o estilo será uma conjugação feliz de todas as boas regras da técnica? Não li suficientemente sobre o assunto (sim sou um leigo); para dizer a verdade, não li nada. Nem me apetece pensar um pouco sobre o caso, debruçar-me, correndo o risco de cair do parapeito, sobre o tema (e aí vão três sinónimos em três frases seguidas). O que me interessa, simplesmente, firmemente, é que o texto consiga atingir o seu pressuposto inicial. E qual é o pressuposto inicial de um texto do Ricardo Araújo Pereira? Que o leitor acabe por fazer figura de parvo em transportes públicos. Eu explico, em vários passos: primeiro, o leitor senta-se exactamente ao lado da loura de pernas descobertas e busto que podia estar mais encoberto (se fôssemos o João César das Neves). Que hajam não sei quantos mais lugares vagos na carruagem, é um pormenor. Segundo, retira (ou tira, segundo algumas versões) da mala um livro que não é o último do Miguel Sousa Tavares. Se ainda não tinha percebido, eu explico-lhe: você, caro leitor, está sentado ao lado de uma mulher que poderia ser a futura mãe dos seus filhos a ler um livro escrito pelo Ricardo Araújo Pereira. E, passados poucos segundos, a primeira gargalhada. Não ligue ao olhar de reprovação da loura. Desconfie antes quando ela se levantar e dirigir-se ao lugar no lado oposto da carruagem. E aproveite para tirar partido da sua figura ao máximo: revire os olhos, convulsione (existirá, este verbo), soluce, deixe que as lágrimas assomem aos olhos (bela imagem, de uma poeticidade intensa). Está feliz? Não, caro leitor, está fazer figura de parvo.

Quem me conhece sabe que quando me dou ao trabalho de explicar por que razão gosto de alguma coisa, o efeito atingido é necessariamente o oposto do pretendido; se digo: leiam autores nórdicos e vejam cinema europeu, sei que estou a convencer o meu interlocutor a embrenhar-se nos labirintos de Jorge Luis Borges e a passar umas boas horas a ver westerns da era clássica de Hollywood; o que me deixa satisfeito, porque no fundo era isso que eu pretendia fazer ao início. Conheço-me bem demais (já me aturo há trinta... hum, vinte e dois anos), por isso reitero: não leiam Boca do Inferno. A sério, sabiam que o Miguel Sousa Tavares publicou um livro há pouco tempo?

(Sabiam que este texto não é inédito, já foi publicado noutro blogue?)

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Janeiro 06, 2008 

Luiz Pacheco (1925-2008)

Morreu Luiz Pacheco, que não era libertino, nem libertário, repetiu-o muitas vezes. Insistiam nisso, e ele sempre negou. O "toma" que ele aparece a fazer numa das fotografias mais conhecidas é dedicado ao país em que viveu. O anti-autor, o anti-resistente, o homem que poderia ter sido, mas não foi. No seu tempo, escrevia como poucos, meia-dúzia que também já desapareceu. Neste tempo, ninguém escreve como ele, no seu modo de adiar a literatura, escrever apenas pelo gesto, a estética da escrita. Sem pedir consagrações ou honrarias, prémios ou idolatrias. Deixou pouco, escreveu o que conseguiu escrever - porque escrevia apenas o que a sua liberdade permitia; nunca o que os outros esperavam dele; e os outros nunca esperaram muito dele. Se resistir, deverá isso à literatura. A vida não lhe podia exigir mais nada.

[Sérgio Lavos]

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