31/12/07

Olímpio

Procurei um parágrafo de Vila-Matas que li ontem, quando pensei nele (e já não o via há tantos anos). Não encontrei, mas falava de cada um de nós como paginador, cujo trabalho ingrato consiste em ir adequando o texto à página sem saber o que virá a seguir; a metáfora aproximava esta tarefa à vida: compor as coisas que fazemos na esperança que essas coisas se encaixem perfeitamente no tempo que virá. Hoje a notícia desordenou todos os parágrafos que a vida tinha alinhavado para ele. Conheci-o pouco, mas marcou muito. Um tipo culto, excelente livreiro, óptimo gráfico, exigente editor da revista Intervalo. Não é justo que o Paginador lá em cima trate assim gente como ele. Procurem o nome do Olímpio Ferreira na ficha técnica dos livros da Tinta da China, da & Etc, da Averno (belíssimos, os livros produzidos para esta editora). Em sua memória.

[Sérgio Lavos]

30/12/07

Ao balanço de 2007 (blogues)

Meus amigos, meus bloggers, caros, caríssimos:
Em tempos, quase que fui convencido a entrar num convento. Não para uma visita turística, nem para filmagens demoradas e consequente consagração fílmica mundial. Nada disso. Nem sequer era um convento feminino, apesar de, durante muito tempo, terem pairado no meu espírito umas imagens de freiras a divertirem-se com objectos de dimensões generosas, mas adianto-me ao falar de cinema italiano dos anos 70. Pensando bem, não era um convento. Era um seminário. Mas sobrava-me em rebarbagem hormonal o que faltava em fé, e tudo se conjugou de uma forma perfeita: escapei a uma vida consagrada ao silêncio. Agora, falo, falo, falo, mas não me peçam para falar de Deus nesta quadra, até porque, garanto, a blasfémia de Richard Dawkins (A Desilusão de Deus) concorreu em grande estilo com a de Christopher Hitchens (Deus Não é Grande) no capítulo das ofertas natalícias deste ano. Enfim, paradoxos da modernidade.
Amigos, pois então deixai que eu vos aborreça um pouco mais, com o meu top blogger do ano. O cálculo complicadíssimo que fiz para chegar ao resultado final acabou por valer a pena. É fácil: os meus blogues do ano são quase todos os que tenho linkados na coluna da direita, excepto os seguintes que, por hábito ou desfastio, clico diariamente e portanto nomeio os blogues, mesmo blogues do ano a sério:

A Causa Foi Modificada (imagino o torso masculino que este troféu não mereceria, se o maradona se dignasse vir aqui)
Irmão Lúcia (longe da selecção olímpica, amigo, muito longe, mas nem por isso mais perto do Céu)
Estado Civil (lamento o carácter recíproco e amiguista desta nomeação, mas, ainda assim, obrigado)
In Absentia (independência, rigor, descomprometimento - parece o programa do governo, mas é muito melhor)
As Aranhas (mais um a equivocar-se redondamente com Diespinnen)
Pastoral Portuguesa (ele não merece, pelo menos enquanto não revelar o tortuoso processo que levou ao anagrama de "Rogério Casanova")
Diário (e não me chames amigo, por favor)
Ana de Amsterdam (como não??!! O melhor)
Terapia Metatísica (o prémio póstumo, com um pedido especial de regresso)
A Vida Breve (o esteta mais sacana da blogosfera portuguesa).

[Sérgio Lavos]

29/12/07

O prazer do esquecimento

Leia o seguinte texto:
Sentado no meu cadeirão, lendo (finalmente) Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas, vejo o céu ir ganhando as cores do fim do dia, e o tempo a ir atrás, desaparecendo para lá dos telhados cinzentos e das chaminés de Inverno, fumegando. A verdade é que não leio, escrevo. E escrevo achando que é cada vez mais reduzido o tempo que temos para deixar o tempo passar, fluir sentindo cada minuto desaparecer. A leitura é um bom cronómetro do tempo interior. Se deixarmos os sentidos levantar voo, melhor ainda; dá para pensar em tudo o que guardamos para pensar depois, dá para que o corpo se vá infiltrando no pensamento, sentir o cheiro da pele, a pulsação, o movimento interno a construir a imobilidade externa: tudo é imóvel, fora do corpo, o tempo é uma larga extensão que a memória percorre.
Li o livro? Acompanhei a história desse médico inverosímil, o seu percurso para o desaparecimento? Se o li, já desapareceu, confirmo a intuição de Blanchot. A história desapareceu do lugar onde estava: aquela hora em que eu, sentado no cadeirão ao fim da tarde, percorri as páginas em sossego.
Uma acumulação inútil sobrepõe-se a tudo. Não sou um pessimista, mas convivo muito bem com o realismo do desaparecimento. Brinco com isso, escrevo ludicamente sobre o assunto, leio autores que desapareceram ou autores que dedicam as suas histórias ao tema. As estantes enchem-se de livros em que eu nunca irei pegar, nem sequer para ler as primeiras linhas. Se o que leio irá desaparecer, salvo milhares de livros do esquecimento - tudo o que não leio continuará a existir.
Alguém me sopra ao ouvido: as histórias que os livros contam nunca desaparecerão; sobreviverão aos escritores, aos homens. Recuso esta ideia antiga. Um mundo sem homens, onde as histórias insistem em viver, guardadas em bibliotecas borgeanas que ninguém poderá visitar. Imagino o ar de uma biblioteca vazia - o pó rarefeito cobrindo os livros, lentamente, até que se deixe de ver as palavras que estão escritas nas capas; até que desapareça o nome dos autores. A biblioteca, contudo, não está lá. No meu cadeirão metafísico, apenas existo eu e o livro que leio - a biblioteca é um esforço da imaginação, portanto mais material do que algo que tenha uma existência real e eu nunca tenha imaginado.
Anualmente, fazem-se balanços do que já se leu. Arruma-se os livros nas tristes prateleiras da memória. Transforma-se o livro em coisa inanimada, sem vida, um breve lapso de tempo preso num irrecuperável fim de tarde, a que nunca poderemos voltar. Classifica-se, cataloga-se, destrói-se a alma do livro.
Leu o texto precedente? Durará o tempo em que eu o escrevo, recuso que algum papel o condene ao esquecimento.

[Sérgio Lavos]

28/12/07

Ao balanço de 2007 (cinema)

Este ano, há um papel com palavras escritas que correspondem, grosso modo, aos filmes que vi (terão sido mais que em anos anteriores). À frente de cada título, um número. Não há uma ordem. Talvez pudesse ter ordenado no fim, escrever noutro papel, do 1º ao, digamos, 5º. Mas não é necessário.
Suponho então (diz-me a vozinha no fundo da consciência) que este ano há uma lista dos melhores. A questão é simples: o tempo precisa de barreiras; as listas anuais pelo menos fazem-nos esquecer que mais um ano passou, e vimos mais alguns filmes, e lemos mais alguns livros, e ouvimos mais alguma música nova, e nem por isso ficámos mais sábios ou menos descrentes. Acomodamos o marasmo a um calendário imaginário. Que seja. Um blogue é uma forma de prolongar o tédio; a realidade não basta, é necessário aborrecer os outros com os nossos gostos.
Portanto, aqui vai:

1º: INLAND EMPIRE, David Lynch
2º: Death Proof, Quentin Tarantino
3º: Eastern Promises, David Cronenberg
4º: Zodiac, David Fincher
5º: Control, Anton Corbijn

[Sérgio Lavos]

26/12/07

Ao balanço de 2007 (música rock)

E por falar em crítica musical, o álbum Boxer pode ser o equivalente a uma tarde bem passada com os amigos, recordando histórias com mais de 10 anos; os aforismos de Agustina (sem Bessa-Luís) podem ser de um estirpe diferente dos de Matt Berninger (duvido que o rapaz aguentasse um serão inteiro a inalar naftalina num qualquer palacete do Minho, ouvindo histórias antigas de vinhateiros do Douro e escutando as confissões das tias velhas que, imagino, apenas vivem nos livros de Agustina); mas a verdade é que, para "álbum rock" (o que é isso?), não está nada mal. O mais ouvido (de longe) do ano.

Ou então, repousai as espadas e ouvi os LCD Soundsystem, que conseguem provar em Sound of Silver que a reciclagem pode ser mais do que uma moda para os próximos tempos - a diferença entre reciclar e recriar pode estar a um James Murphy de distância.

E depois... há uns gajos que podem não ser tão perfeitos como Johann Sebastian, tão complexos como um Ludwig van, mas enfim, tem muito de ultraviolence, paranóia pós-moderna para usar em conjunto com o derradeiro gadjet que a mãe ofereceu no Natal - ouvir um disco novo de Radiohead é como (agora sem metáfora) regressar ao convívio de antigos amigos - e que, ainda por cima, consegue fazer derreter o gelo que se tinha formado aquando do último Hail to the Thief. No passo, conseguindo revolucionar (um pouco mais) o meio musical, indicando o caminho a seguir pelos músicos do futuro.

Enfim, não sei se isto está de acordo com os parâmetros do bom-gosto. Não sei se falar de pop-rock está dentro das regras do convívio e da civilização. Não sei se o uso de metáforas a declinar para o mau-gosto deve ser autorizado em textos sobre música. Mas que estes foram os três álbuns que me deram mais pica (será sensato, utilizar esta palavra?), foram. Do ano. E das próximas décadas. Portanto, para sempre.

[Sérgio Lavos]

A crítica musical e outros universos

Ó Rui (podia tratá-lo por caro mas não tenho vontade alguma de fingir que sou um moço bem educado), claro que a pop é três acordes, meia bola e força. Por acaso tem azar, porque até cita discos que são razoavelmente complexos, mas enfim, ofereço-lhe essa de bom grado.
Mas quer-me parecer (acho graça quando alguém escreve quer-me parecer; a pobreza da expressão comove-me) que há aqui um pequeno preconceito que passo a explicar (passo a explicar também é das minhas preferidas): a pop é coisa menor que qualquer um pode perceber e/ou executar/criar. Logo, a escrita sobre pop é menor e idem os que sobre ela escrevem. Estou quase tentado a concordar consigo (repare que já lhe atribuí esta ordem de pensamento, mesmo que não seja a sua; perdoe-me o maniqueísmo), assinalando como excepção eu próprio, visto gostar muito de mim.
A partir daí, grosso modo, a gente escreve tudo da mesma forma e somos, vaga e geralmente, uns patetas - ou escrevemos patetices. (Gosto da parte em que dizem que não temos referências. Aprecio sobremaneria quando indivíduos que não me conhecem me reduzem intelectualmente sem saberem se estudei engenharia ou fotografia, se leio Heidegger ou livros de culinária. Não leio Heidegger, claro - acho-o um pateta.)
Ora, não augurando, da parte que me toca, a escrever, em jornais, mais que patetices (pois, grosso modo, essa é condição essencial para ser publicado - um bom texto nunca foi, nunca será publicado num jornal, e qualquer pessoa que tenha estudado, por exemplo, filosofia, sabe isso), acho caricato que, digamos, um texto de Manuel Gusmão não seja considerado uma verborreia inenarrável de referencialidade abusiva exclusivamente centrada em maus poetas e escrita apenas e só para gáudio onanístico de um pequeno salão de medíocres, mas um texto bem escrito sobre uma canção não possa ser algo respeitável. (Eu pessoalmente não quero que seja respeitável; por mim tornava os textos - e o jornal - desrespeitador; mas isso são opções.) Da mesma forma não vejo o mesmo furor em esventrar a prosápia medíocre de um Vasco Correia Guedes, ou o péssimo - péssimo - português da maior parte dos nossos cronistas, que me abstenho de mencionar (doem-me os dedos se premir certa sequência de teclas).
É mais difícil, percebe, porque essa gente (termo que roubo ao bom Correia Guedes, Eça de quinta com amargura no lugar do cérebro) escreve sobre assuntos "respeitáveis". E, meu Deus, se o portuguesinho gosta de respeitabilidade e seriedade. Essa gente sabe (acha o Rui) de CINEMA, essa gente sabe de LITERATURA. Essa gente por vezes, mas só por vezes, até ouve pop, mas quando ouve não cai nessa armadilha dos pobres de a engrandecer ou tratar com respeito. Não, essa gente não cai nessa patetice porque essa gente LÊ (ao contrário destes moços, trabalhadores indiferenceiados resgatados à estiva).
Duvido, por exemplo, que o Rui Manuel ache os seus textos uma patetice, ou pomposos, ou pedantes. Chame-lhe intuição. Eu não lhe noto capacidade para tratar a literatura por tu, mas antes por sim minnha senhora como vai.(E no entanto, consta que a senhora é devassa.) Nada disto o diminui, note-se; apenas que padece do mesmo mal (ou ainda pior) que aponta; não tem, é certo a obrigação de ser claro. Também me parece que dando de barato que a pop é sempre a mesma coisa (como um romance), seria aborrecido ler o mesmo texto, apenas com uma ficha técnica diferente.
Enfim, tropeço na minha (inexistente, como decerto já notou) argumentação.
Quero com isto dizer (outra expressão que merece a minha comoção) que o assunto define o olhar dos pretendentes a intelectuais sobre os textos sobre o assunto. Posso por outro lado (hipótese a considerar) estar ressabiado.
Termino dizendo que não me leve a mal tanto impropério. Nas minhas horas menos problemáticas (tem dias que a gordura no fogão me conduz a um fugaz abismo existencial) gosto de o ler.
Desejo-lhe bons discos, já que do resto não percebo puto(excepto BD, é bom de ver, os moços da pop gostam sempre de BD).
Ouço o disco dos National e saudinha.

João Bonifácio

(Esqueçam o texto do Rui Manuel Amaral. Esqueçam as vezes que já sentiram vontade de escrever um texto com o mesmo sabor a fel a propósito do, sei lá, Manuel Gusmão. Gosto especialmente da referência ao Manuel Gusmão. E também ficava bem, digamos, um Joaquim Manuel Magalhães. Ou assim. E lembrem-se que um texto é apenas composto de palavras. A música não precisa delas - e ainda assim, alguém tem de fazer o trabalho sujo).

[Sérgio Lavos]

22/12/07

Pepe Carvalho

Nos livros de Manuel Vásquez Montálban com Pepe Carvalho, o que mais me cativou não foram as tramas intricadas, os ambientes negros, as mulheres fatais vindas de policiais noir antigos; nem sequer foi a Barcelona que me pareceu tão mais bela que a verdadeira, quando finalmente a visitei, ou tão bela como, mas diferente. Nem a hábil leveza da escrita, como quem se exercita no ofício da guerra com apenas uma caneta como arma (dispenso o uso da pena). O que me deixou, literalmente, a salivar, foram as descrições, fulgurantes, precisas, pomposas, da preparação dos elaborados pratos que o detective cozinha para os seus convidados (Francisco José Viegas aproxima-se, com Jaime Ramos, deste hedonismo desencantado).
Cada refeição começa-se a preparar com a antecedência minuciosa de um gourmet - a escolha dos ingredientes é, evidente, fundamental. A textura, o cheiro, a aparência, o toque, a leveza; e, sobretudo, a confiança nos habituais fornecedores - isto de cozinhar assemelha-se em muito a consumir uma droga; a confiança no dealer é essencial. Depois, as mãos sobre a comida em bruto, a sua dança, a escolha da ordem com que os legumes, peixe, a carne, são cortados e colocados dentro dos tachos. A descrição das lâminas a cortar a polpa dos frutos - o presunto servido antes, os queijos, o vinho. O amor ao detalhe é tão grande que ultrapassa largamente qualquer outra passagem dos romances. Cozinhar é uma volúpia que poucos descobriram - e quem realmente gosta de comer acaba por querer, mais cedo ou mais tarde, controlar todo o processo que leva ao prazer.
Montálban provoca este desejo de comer - a literatura para o estômago de que falava Julien Gracq, no seu sentido mais literal e benigno. Um bon-vivant, esse velho e estafado cliché, terá de necessariamente amar a vida ao ponto de a achar uma desilusão. Um detective mergulhado em caos e corrupção é o derradeiro hedonista - ainda bem que a ficção se aproxima mais da vida mental do escritor do que da realidade que retrata.

[Sérgio Lavos]

20/12/07

Coppola

Esperamos sempre qualquer coisa, a qualquer momento, daqueles que gostamos. Dado que foi adiada, até Março, a estreia em Portugal do novo (sim, NOVO, dez anos depois) filme de Francis Ford Coppola, resta-nos o consolo de irmos lendo sobre a obra, Youth Without Youth.
Vale a pena, a surpresa e o calor podem surgir a cada frase. Na reportagem de hoje, na revista Visão, publicada originalmente na Time, a determinada altura é-nos dito que uma amiga de adolescência ofereceu a Coppola o livro de Kerouac, Pela Estrada Fora. O homem vive. E suscita em nós a inveja. Tudo bem; podíamos, de alguma maneira estranha, conseguir aplacar a inveja por não termos conseguido criar Apocalypse Now ou, vamos lá, o primeiro e o terceiro Padrinhos. Se o conhecêssemos, teríamos de reprimir a vontade de o esmurrar e substituí-la (com dificuldade) por uma sentida vénia - é assim que se deve proceder perante sua Eminência. Mas haver no passado uma enamorada (termo que nunca devia ter caído em desuso) que tem o bom-gosto de oferecer o livro de Kerouac, isso parece-me imperdoável. Inveja, inveja. E que bom sonharmos que aquela miúda de olhos verdes que, por um reflexo caprichoso de sombra, parecia olhar para nós enquanto jogávamos basquetebol no recreio, poderia um dia vencer a timidez (a nossa, claro, a nossa) e dirigir-se-nos portando um exemplar de Agulha no Palheiro nas mãos (a velha edição da Livros de Brasil, evidente). O que me aconteceu de mais parecido com este devaneio, o empréstimo de O Estrangeiro por uma colega loura por quem eu nutria pouco mais do que uma vaga simpatia (se bem que...), descambou em desastre completo. A começar pelo facto de eu achar que o interesse dela era puramente intelectual - essa coisa de debater pontos de vista sobre o livro, discutir ideias, trocar opiniões em vez de fluidos corporais; e a acabar no facto do livro ter desaparecido para sempre num vórtice que se localizava exactamente por trás do móvel encostado à cama onde dormia, um lugar tão inacessível como o é o paraíso para os grandes capitalistas e os raquíticos ignorantes. Nunca tive coragem de confessar o pequeno incidente; e ela nunca teve necessidade de me perguntar pelo livro (era loura, era virgem - só podia -, imagino o rubor que sentia de cada vez que pensava na ideia).
Coppola teve uma mulher que lhe ofereceu o livro de Kerouac e tornou-se no que se tornou. Imaginem o que me teria acontecido se alguma vez aquela morena de olhos verdes tivesse ganho coragem para se aproximar de mim com o livro de Salinger nas mãos.

(Ah, e Coppola tem a filha que tem; há homens que bem poderiam repartir a sorte que lhes calha com o resto de nós.)

[Sérgio Lavos]

Michel Gondry


Há nos videos de Michel Gondry uma vontade de regresso que toca qualquer um agora na casa dos 30, ou prestes a entrar nela. Pode não haver uma identificação completa com os fétiches infantis (nem sempre há paciência para os peluches "qu'iduchos" perseguindo Bjork), mas a verdade é que Gondry consegue mostrar uma criatividade assombrosa na perseguição de uma quimera: um estado de espírito entre sonho e memória de infância (há quem afirme que um e outra não estão assim tão distantes). Nas longas-metragens, o realizador francês conseguiu prolongar o imaginário dos vídeos, consubstanciado na excelente parceria com a imaginação delirante do argumentista Charlie Kaufman, em Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Desde a praia de infância até ao mundo visto à escala de uma criança, são várias as imagens marcantes do filme.
As diferenças de escala, a distância entre mundo sonhado e mundo real, a natureza como refúgio das agressões da cidade, as metamorfoses, de criança a adulto, de um objecto noutro, as coreografias de aparência caótica desenhando uma ordem concreta, tudo temas que se reproduzem de video para video. Como neste, um dos meus preferidos, Dead Leaves and the Dirty Ground, dos White Stripes. Ou de como um video pode introduzir uma inovação ao nível da representação de uma ideia cinematográfica. Dois tempos que coincidem, o passado projectado no presente (ou dois presentes existindo simultaneamente), numa solução técnica original que consegue criar uma imagem cristal (duas camadas de tempo sobrepostas) deleuziana. Grande cinema no pequeno écrã: e a música ao nível das imagens.

[Sérgio Lavos]

13/12/07

Um hífen

Talvez o principal problema deste blogue - escusam de encher a caixa de comentários a apontar todos os outros problemas - seja uma mísera marca linguística. Um hífen.
Começou bem, com pinta de blogue decadentista com pretensões a qualquer coisa que nunca se veio a tornar (não explico). Prossegui, seguindo as indicações do blogger - todos os passos, o nome, que não sei já como surgiu mas que me pareceu evidente, o nome que assina, e... o url. Não aceitou à primeira a proposta: que existia um qualquer auto-retrato. A banalidade do título tinha o seu preço. Adiante. Inverti a ordem das coisas. E de algum modo, sempre que tenho de digitar retrato-auto, lembro-me do mecânico bate-chapas onde o meu pai levava o carro - a palavra bate-chapas espichada na parede de cimento da oficina, a tinta a escorrer por ali abaixo para sempre. Há fardos mais pesados.
O problema é mesmo a ortografia. Em tempos, a questão colocou-se de forma muito simples: deveria escrever Auto-Retrato, a forma correcta (como isto é um título, vá lá, uma espécie de título, as duas palavras que compõem o termo começam com maiúsculas) ou Auto-retrato, a grafia adoptada por alguns blogues que linkaram este? Como mudei durante algum tempo, acabei por deixar ficar assim como está, até porque aprecio mais a anglicização do termo, a partir de self-portrait (e que me desculpe o André, principalmente ele, que jogou as suas cartas a favor da primeira versão).
Muito tempo depois, como numa história infantil, tenho diversões versões do nome grafadas pela blogosfera fora. Auto-retrato, Auto-Retrato, simples; mas também retrato-auto ou Retrato-Auto, ou Retrato-auto(o que eu aprecio bastante, tendo a conta a tal história do bate-chapas), auto retrato e Auto retrato e Auto Retrato, todos sem hífen, talvez para poupar a maçada de pensar em qual será a grafia correcta. Mas o meu preferido, porque simplifica (e de que maneira) as coisas, tem de ser o do Rogério Casanova. Ora bem, a sua fantástica ginástica linguística chegou a um hermético O Invisual Grego às Avessas. Confesso que levei tempo (pr'aí... hum... três minutos) a descodificar o anagrama, mas haverá melhor definição do que tem sido feito neste blogue, desde o início?
Talvez fosse boa ideia fazer um acordo ortográfico com todos os blogues que hiperligam o auto-retrato: e que tal mudarem o nome deste blogue, na barra de links, para O Invisual Grego às Avessas?

(É claro que bati, de longe, o meu recorde de auto-linkagem. À consideração da Carla, para a série metabloggers do it better.)

Adenda: devido ao acto caridoso de um comentador anónimo (os meus preferidos), corrigi o nome em cima. Lamentavelmente, já muitos leitores tinham mudado o nome do link para um versão incorrecta do anagrama. Portanto, poderão corrigir para a versão correcta (O Invisual Grego às Avessas), ou não, ou voltar à forma inicial (Auto-retrato), ou não, ou o que quiserem. Não acredito em Deus (e ele, pelo andar da carruagem, também não deve acreditar em mim) nem em direitos de autor. Mas gosto de adendas. Da aliteração. Bonito.

[Sérgio Lavos]

Passado


[Sérgio Lavos]

12/12/07

Uma história

Um dos textos mais imaginativos que já me passaram pelas mãos foi escrito por um colega de escola. A partir do nada.
Tínhamos de escrever sobre qualquer coisa - um ensaio, um conto, um daqueles exercícios um pouco idiotas de escrita criativa que os professores de português são obrigados a fazer de vez em quando. Não me recordo do texto que escrevi (terá sido uma longa e chata digressão sobre o sistema que nos obrigava a fazer a PGA ou um qualquer conto de uma página ao estilo Robert Heinlein, um dos dois, um dos dois, assim tem sido a minha vida). Lembro-me de forma bastante clara da extravagância sobre o nada que esse colega inventou. A professora delirou. (Alguém - algo? - me sopra ao ouvido - "todos os textos são sobre nada" - mando calar a vozinha: "não sabe que isso é um cliché?"). A professora leu o texto alto para a turma (e não falo de crianças, estaria para aí no 10º ano), como bom exemplo da criatividade juvenil. Curioso era o facto de esse colega ser um aluno medíocre, bom de bola (pé esquerdo assassino, marcava cantos directos em jogos dos distritais de Leiria e tinha um toque de bola que fazia lembrar o Balakov, gingar e passar, sempre a vinte à hora). Bom também no capítulo mulheres. Para que queria ele então saber escrever? Estudar? Escrever é para nerd de primeira fila (alto, alto, que nessa altura eu já andava pelas últimas). Que benefício lhe poderia trazer a escrita? Tinha quantas namoradas quisesse, jogava bem à bola, que lhe interessavam os livros? A verdade é que a história que ele inventou foi uma desculpa para a preguiça. Encostado pela obrigação de mostrar algo, naquele momento, naquela aula, inventou, criou. Não é para todos. Aproveitou o aperto? Não sei, não o vejo há mais ou menos 15 anos, e a última vez que tive notícias dele, estava bem na vida, casado e tal, essas coisas a que todos chegam. O seu lampejo foi breve, ele nem deve ter ligado. Ah, e também não se tornou futebolista. Julgo que a carreira se terá perdido entre a preguiça e a vontade de viver encostado à vida. Histórias.
Conclusão? Para quê insistir então, se a felicidade está tão perto?

[Sérgio Lavos]

09/12/07

O mal dos blogues (3)

Escrever para um blogue é condenar um texto ao esquecimento. À partida, todo o texto nasce condenado ao esquecimento, é verdade. E os blogues também apareceram para servirem de depósito para a criatividade de quem os cria, outro nome para a gaveta do passado.
Há duas fases principais no processo de escrita - o impulso inicial, que leva à escrita nem que seja para ser apagada cinco minutos depois, e a vontade posterior de divulgar o que se escreveu - há muito, quase tudo, de ego nesta segunda fase. Os blogues permitem eliminar uma série de problemas: a avaliação por parte do outro, ainda antes da publicação; a reescrita séria e empenhada daquilo que se escreve (a maior parte dos bloggers escreve directamente para ser publicado, sem passar por corrector ortográfico); o arrependimento (apesar da possibilidade de se poder apagar depois). Publicar num blogue elimina os escolhos com que um texto se depara. Mas a verdade é que são esses escolhos que permitem a solução dos problemas do texto. Por isso, o texto publicado em blogue é, à partida, mais fraco do que aquele que chega à fase de impressão. Para além disso, existe uma diferença de esforço entre quem escreve para uma publicação periódica e quem escreve pensando num livro. Uma escala crescente de exigência: blogue - revistas e jornais - livros.
É claro que um mau escritor é-o em qualquer suporte. Daí o lugar-comum que vemos escrito por muitos bloggers - de que existem muitos textos blogosféricos melhores do que muita coisa que se publica em papel. Ora, isso não diz nada acerca de coisa nenhuma; nem sobre os textos virtuais nem sobre a qualidade média da literatura publicada em livro. Mas acaba por ser mais imediato, mais fácil, e portanto menos exigente, a publicação em blogue. Por enquanto.
A evolução natural deste estado de coisas leva a duas situações: o progressivo abandono, por parte do escritor, do suporte livro; a crescente tendência para os conteúdos criativos da Internet serem pagos, seja directamente, pelos donos dos sítios onde o escritor publica, seja indirectamente, através da publicidade que aparece nos blogues. É claro que os puristas irão reclamar - quem está por cá desde o início acha que o diário virtual deve continuar a ser o exercício jaculatório que até agora tem sido. Este modo de pensar não ajuda ao respeito pelo texto: uma rede de blogues onde o leitor tivesse de pagar para aceder aos conteúdos não significa que os blogues que nascem como nódulo de uma rede social desaparecessem. Mas os melhores blogues passariam a ser valorizados - e o trabalho intelectual seria compensado.

(1) e (2)

[Sérgio Lavos]

08/12/07

Ler os outros

Deixei de apreciar a polémica. Nos blogues, é bom de ver. No resto, nem chega a existir (os fogachos ateados por figuras mais ou menos mediáticas não contam).
Que querem, que fale das polémicas de antigamente - a Questão Coimbrã, o manifesto anti-Dantas, as diversas diatribes em que Luiz Pacheco se viu envolvido? A que distância estamos - em estatura, moral ou intelectual, os polemistas de agora são como anões prostrados diante de montanhas.
Polémicas políticas em blogues? Nem sou da velha escola, comecei a escrever há tempo insuficiente tanto para conhecer tudo como para merecer o respeito de quem lê. Os galões, nos blogues como na vida, são ostentados à mínima veleidade de quem se arrisca.
Tenho uma opinião sobre a esterilidade dos textos produzidos? Uma opinião vale o que vale - a opinião do que grita acaba sempre por se sobrepujar à daquele que apenas a murmura. A palavra escrita apenas é lei quando a inscrevem no código civil. Tudo o mais são casualidades do tempo.
Posso ler durante horas textos que conduzem a nada, becos sem saída, retóricos ou infrutíferos, labirintos de figuras de estilo que alojam no centro um gigantesco buraco negro (perdoem-me a contradição cientificamente errada). Horas que poderiam ser aproveitadas para outras frivolidades mais enriquecedoras - o problema é apenas meu, mas a psicose abunda nos blogues. Basta saber que as maiores audiências são atingidas por blogues de pendor ou político ou sexual. A política será o viagra de um país deprimido?
Ler com tempo, acontece muito pouco em blogues. A meia-dúzia de textos diários que se aproveita vale a pena. Mas a mecânica das coisas é cansativa: ler um ecrã certamente não se aproxima da sensação de ter um livro aberto ao artesanato da interpretação.
A humildade, infelizmente, não surge suficientemente cedo na vida. Ler como quem não espera nada, escrever como se apagasse tudo, eis o possível engodo.

[Sérgio Lavos]

06/12/07

Inland Empire DVD

É, neste momento, o dvd mais desejado: INLAND EMPIRE (Atalanta). Disponível a partir de dia 7, este dvd inclui alguns extras para o coleccionador/fanático decorar: "Lynch 2" (30 min); "Pretty as a Picture: The Art of David Lynch" de Toby Keeler (75 min); Rui Pedro Tendinha entrevista o realizador e elenco de "Inland Empire";DVD ROM (Dossier e artigos de imprensa, Fotos.

"Se gostou ou não gostou, é irrelevante, o importante é ter estado aqui" afirma-se no email informativo citando Luís Miguel Oliveira (para o Público). Sublinho o carácter irrelevante do gosto estético perante a reconhecida qualidade artística deste filme: a palavra do crítico vale por todas as opiniões anónimas que tenham sido escritas.

[Susana Viegas]

05/12/07

Eastern Promises

Não me interessa discutir até que ponto Eastern Promises se afasta do resto da obra de David Cronenberg. Não é uma questão, porque toda a obra anterior do canadiano é díspar entre si, apesar dos inevitáveis temas que se repetem.
Cronenberg afirma-o numa entrevista à revista Positif: o que lhe interessa é o corpo. O de Viggo Mortensen, marcado pelas tatuagens das prisões russas e os outros menos despidos mas igualmente marcantes: o recém-nascido, o corpo de Vincent Cassel, reprimindo o desejo em relação a Viggo, os corpos martirizados das prostitutas. Por isso, Cronenberg mostra a violência como um momento de excepção, um momento de ruptura na precariedade absoluta de um corpo. A lâmina na garganta, duas vezes, e a luta corpo-a-corpo na sauna, são singularidades que se inscrevem de modo tão decisivo na carne como as tatuagens que os criminosos ostentam. A violência de uma luta, a dança das lâminas, a coreografia tensa da ameaça - como nos quadros de Francis Bacon inspirados nas fotografias de lutadores de Edward Muybridge. Toda a violência imaginada sobre o corpo tem, por sua vez, uma pulsão erotizante; Bacon percebeu-o, Cronenberg não terá sido inocente ao sublinhar o contexto homoerótico da relação entre Nicolai (Mortensen) e Kirill (Cassel).
Mas a violência do filme não é verosímil. Pode ser realista, no sentido em que o realizador encena a realidade de forma convincente. Mas a violência não é ilustrativa, como o é num docudrama como o recente (e ainda não estreado em Portugal) Tropa de Elite, pretendendo representar uma realidade, o ambiente nas favelas no Rio de Janeiro, fazendo uma tangente ao real, recorrendo aos truques habituais: a câmara aos solavancos, o estilo jornalístico, a caução da verdade com o genérico inicial afirmando que o filme foi baseado numa história verdadeira.
Cronenberg não está interessado em histórias verdadeiras. O seu cinema é um cinema de ideias (sem ser programático). A violência não tem qualquer gratuitidade, pertence ao próprio esquema do filme. Os rituais de purificação das personagens permitem que o espectador perceba o impacto que a violência pode ter sobre o corpo. O realismo de Cronenberg é, portanto, da ordem da imaginação cinematográfica, da fábula; daí a artificialidade dos inserts, planos muito curtos, em close-up, da violência a ter lugar. Como em Eisenstein, a montagem serve para vincar no espectador a excepcionalidade da situação retratada. Michael Haneke, em Caché, recorre precisamente ao mesmo artifício. Em Eastern Promises, a morte do mafioso russo pelo adolescente curdo surge de forma imprevista; o golpe da navalha no pescoço é um golpe na consciência do espectador, transporta-o de imediato para território desconhecido. O choque é brutal, como acontece no filme de Haneke, na cena do suicídio do imigrante argelino: e quem vê é puxado sem remédio para dentro da cena. Ora, a realidade não é assim. Não há inserts no dia-a-dia (e Tropa de Elite não tem efeitos deste tipo). Filmes assim conseguem criar uma impressão de realidade necessariamente distante da realidade de onde partem.

[Sérgio Lavos]

03/12/07

Livros

Da primeira vez a que assisti a uma queima de livros, não consegui salvar nenhum exemplar para a minha biblioteca pessoal. As capas já tinham sido rasgadas, milhares de corações amontoavam-se a um canto do armazém, esperando pela sua vez, aguardando que os atirassem para a pira infernal. Curioso, as palavras que outros produziram dão uma bela fogueira intelectual, fumo negro e tudo. Nas mãos dos funcionários diligentes, as páginas de Shelley, Shakespeare, Milton ou Henry James, ganham um valor combustível nada desprezável. Tudo arde - Hitler provou-o a seu tempo. Há aquela história do escritor a morrer de frio, que utiliza o manuscrito de 900 páginas do seu único romance para atear o fogo que o mantém vivo - quem disse que a literatura não pode salvar o mundo?
Os livros que eu vi morrer, sem possibilidade de intervenção, eram ingleses. Restos da editora Wordsworth que não tinham sido vendidos, clássicos em fase acelerada de desaparecimento. A editora faliu, mas por Inglaterra ainda se encontram à venda em muitas livrarias. Na altura, custavam, salvo erro, 500 escudos, duas libras. Não fiquei com nenhum exemplar, queria mais do que o miolo sem capa de um livro - não julgai o livro pela capa, é verdade, mas um livro a que falta uma das suas partes é um livro coxo, uma mulher sem atractivos físicos que a evidenciem do resto do género. Com o papel que ardia, morriam as minhas hipóteses de ler uma porção muito pequena daquela parcela de livros que Almada Negreiros dizia nos caber em vida. E vale sempre a pena acharmos que ainda vamos encontrar o livro que nos vai mudar a vida; começamos a ler cativos dessa fé.
Em Inglaterra, está a ser construído o maior depósito de livros não lidos no mundo; todos os livros esquecidos, assim como jornais e revistas, num só espaço, selado para todo o sempre. Em A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Záfon, há um equivalente ficcional a este espaço. O cemitério dos livros esquecidos, edições inteiras de inutilidades ou restos de preciosidades descatalogadas pelo gosto dos leitores. Entre destruir livros e armazená-los num não-lugar para todo o sempre, uma linha que se quebra. A notícia do Guardian é exaustiva: milhares de quilómetros no meio do nada, acumulando o nada que o resto do mundo não quis ler. A dimensão material dos objectos armazenados e a enormidade do conhecimento que o objecto livro guarda, somadas, criam uma espécie de buraco negro da sabedoria humana. Conhecemos bibliotecas assim - mas estas são regularmente ressuscitadas por quem consulta os tomos arquivados. Mas o armazém estará inacessível ao público, serve apenas de depósito para as sobras de livros, jornais e revistas da Biblioteca Nacional Britânica, uma das maiores do mundo. O edifício tem uma escala gigantesca - comparável à grandeza do que lá vai ser guardado. Túmulos para livros, como é comentado neste texto. Tanta palavra, para nada.

(Obrigado ao Armando pela dica)

[Sérgio Lavos]

Jigsaw falling into place

01/12/07

A expiação

Como introdução a Paranoid Park de Gus Van Sant, fica em escuta na barra lateral a música que Nino Rota compôs para Amarcord. Pode parecer um anacronismo forçado, mas não é. É absolutamente inesperada esta homenagem ao cinema europeu mas, tendo em conta as decisões estéticas que percorrem os filmes de Van Sant, não será um anacronismo. Nino Rota compôs bandas sonoras incríveis, foi um artista que soube acompanhar o nível de outros artistas como Fellini, Zeffirelli ou Coppola. Ao onirismo de Rota, Gus Van Sant junta ainda Elliot Smith e as paisagens sonoras de Hildegard Westerkamp (que surgia, por exemplo, com os sinos de igreja de Last Days) e de Ethan Rose. Quanto à interpretação de Gabe Nevins (Alex), pouco mais haverá a acrescentar tendo em conta a unanimidade de opiniões: ele é perfeito como adolescente em expiação. Paranoid Park poderá ser a continuação temática de Elephant, a adolescência e o contacto irreversível com a morte de alguém, a ausência dos adultos nas decisões fundamentais. Como lidar com a morte de alguém quando se conhece tão pouco o outro, quando se procura viver tudo intensamente? Alex desliga-se do que está mais próximo, a culpa da morte de outra pessoa (ainda que não tenha sido voluntária), para se preocupar com o que nunca o poderá atingir, a fome em África ou a guerra no Iraque. A culpa não se exterioriza, não está fora de si nem do seu país. A culpa fica nele quando decide não contar a ninguém. Lembrando directamente Dostoievski ou Kierkegaard, é como um espinho cravado com o qual terá de viver, terá de levar para onde quer que vá. Ainda que a culpa o dilacere, pensa na fome em África e continua a sua vida interrompida de adolescente.

[Susana Viegas]

28/11/07

Don't Come Knocking

Já se passaram vinte anos desde a última colaboração entre Wim Wenders e Sam Shepard com Paris, Texas (1984), mas o tom mantém-se. Don't come knocking é, provavelmente, um dos filmes mais simples de Wenders e um dos argumentos mais típicos de Shepard: haverá um dia em que a vontade de largar tudo é mais forte mas será demasiado tarde para mudar de ideias. Neste filme (estreia-se agora mas é de 2005) reencontramos o imaginário de Shepard, escritor de crónicas e peças de teatro, e encontramos o actor já envelhecido e é difícil de imaginar um homem mais sedutor do que ele. Parece-me que a sedução se deve à simplicidade no modo de representar. (O mesmo acontecia em Days of Heaven (1978) de Terrence Malick.) Sam Shepard consegue a paradoxal harmonia entre o intelectual, escritor, o contador de histórias de solidão e abandono, das memórias de infância, da vida em motéis, e uma presença rural, as mãos ásperas, as rugas vincadas, os dentes tortos, sempre numa atitude isenta de artifícios. Também ele faz parte da paisagem humana que retrata, o fim do mítico oeste selvagem americano.

[Susana Viegas]

27/11/07

Rua de sentido único

Procuro sentido: como quem diz, condoído. Lamento que, até ao momento presente, nenhuma luz consiga revelar, com a necessária nitidez, o contorno da morte. Nenhuma luz. Que é, como quem diz, sombra mergulhada na sombra, negro silencioso. Frio. A feliz percussão das palavras sobre o luminoso dia - os espaços entre as palavras, margens que distanciam a floresta bifurcada. No outro dia, percorri, durante os minutos que demorou uma viagem de autocarro, o tempo de uma vida. Os papéis acumulados de uma vida não chegavam a ser um acumular de inutilidades, perfeitas inutilidades - mas não sou dado a sentimentalismos. Pensei em perfeitas inutilidades como quem pensa na próxima refeição ou nos olhos da mulher que nos espreita. Perfeitas. Procurei sentido, comovido. Uma tabuleta indicava: rua com trânsito condicionado, entre tais e tais horas. Prometi a mim próprio que a essa, determinada, hora, ali regressaria. Passar naquela rua. Não cumpri. Perdi-me na sombra das horas cobrindo a distância entre os lugares por onde entretanto fui caminhando. Procurei sentido. Não encontrei o sentido dentro de mim.

[Sérgio Lavos]

A escala das coisas

Somos sempre melhores, olhados por aqueles que gostam de nós. Somos sempre melhores, à distância, pelas palavras daqueles que gostam de nós. Sempre melhores do que somos. Somos sempre melhores do que aquilo que julgamos ser, ou então somos piores e ninguém nos ama. Os outros esperam sempre mais de nós do que aquilo que temos para dar. Damos sempre menos do que aquilo que os outros merecem receber (ou então não vale a pena ser - é necessário conseguir manter as expectativas dos outros sempre bem nutridas, de maneira a que haja sempre qualquer coisa para dar). Somos sempre piores do que aquilo que achamos que somos. Os outros acham que somos piores do que deveríamos ser - mas preferimos continuar a ser qualquer coisa que é quase mas não é; deixar alguma coisa para o fim. Somos melhores para poucas pessoas na vida - muito poucas; as mesmas pessoas que nos vêem no nosso pior. Apenas conseguimos mostrar o pior de nós às pessoas que amamos. O melhor e o pior, a totalidade do que somos. Mostrar o pior é uma forma de amar. Somos sempre piores do que queríamos ser; suficientemente bons para poucos gostarem de nós. Poucos, a quem serve o melhor e o pior. Até um dia.

[Sérgio Lavos]

22/11/07

Ian Curtis: um tributo

Qual era a pergunta? Se Control fosse um filme sobre um zé-ninguém em vez de ser um biopic sobre Ian Curtis, seria tão bom como dizem?
Primeiro, existirá algum juízo estético que seja virgem, separado de pré-conceitos e da experiência de quem escreve? Esqueçam, era apenas retórica.
Eu fui ver Control porque sim, os Joy Division, e em especial Ian Curtis foram decisivos no meu percurso pessoal. Eu, eu, eu. Não há capacidade, nem vontade, para escapar à aleatoriedade das escolhas. Se o Ian Curtis retratado por Anton Corbijn fosse próximo daquele que eu conhecia (imaginava), gostaria do filme; se não, não gostaria. Aconteceu o mesmo com Last Days - o Kurt Cobain tinha perdido, para mim, a aura que se criara em vida. Porque a criação de um mito tinha ficado irremedivelmente ligada à adolescência - e a idade adulta obriga-nos a matar os nossos ídolos. Kurt Cobain morreu muitos anos depois de ter colocado o cano da espingarda na boca - mas morreu. A diferença está na distância em relação ao tempo em que Curtis viveu. Nunca precisei de o matar porque nunca foi o meu ídolo. O que eu admiro é apenas a arte, a poesia e a música criada em conjunto com os outros Joy Division (mais os outros, parece, e a prova é a continuação como New Order).
Li alguns textos de gente que nem tinha uma especial admiração pela figura. Ajudam a distanciarmo-nos do impacto do realismo que perpassa do filme. Contudo, sabemos que o realismo é uma falsa questão. A intenção de Corbijn é, acima de tudo, esconjurar uma obsessão. Ele sim, teve de matar o seu ídolo (confessa-o em entrevistas). A frieza era improvável, a reflexão irónica impossível (ao contrário do que acontece em Last Days). O exorcismo envolve sempre uma carga emocional intransponível. As dificuldades de Corbijn passavam sobretudo por transmitir a emoção de uma memória em forma de imagens em movimento (as fotografias encenavam uma realidade, criavam o mito - e isso suspeito que Corbijn não queria). O método não se fundou numa recusa do percurso conjunto de Corbijn e Ian Curtis (reforço o nome do músico, o filme é sobre ele, a banda é mais uma peça do enigma, o enigma que cada Homem é sempre); a imagética está lá - o preto e branco urbano-depressivo, a gabardine, os cigarros, as ruas cinzentas de Manchester e Macclesfield, a poesia em voz-off (sim, sabemos que as letras de Curtis eram poesia), a loucura controlada da Factory. Mas o filme consegue elevar-se acima do poster de quarto de adolescente - há vida, sangue e tripas, choro e traição e amor. E acima, de tudo, confusão e perda. Irrealidade, alienação do mundo. Ian Curtis era isto? Sabemos que sim, são essas as nossas expectativas. Corbijn também conhecia as nossas expectativas. E com isso em mente, esforçou-se por destacar o homem da imagem que o mundo tem dele. O facto de ter decidido adaptar o livro de Deborah Curtis, a viúva atraiçoada, foi o clique que lhe conferiu a credibilidade necessária; haverá fãs que não lhe perdoaram. Fez muito bem, ninguém conhecia melhor Curtis do que a sua namorada de adolescência.
Não falei de cinema. Mas existem pormenores soberbos, claro, toda a gente sabe quais são: o traveling inicial; a simultaneidade de acontecimentos nos planos de conjunto (quando Ian e Deborah se conhecem, a entrevista com Annick); a paisagem devastada por onde Curtis passeia o seu desespero, a incrível sequência do suicídio, tensa, tensa até ao limite do insuportável, porque sabemos, sabemos, o que vai acontecer, e porque Samantha Morton é uma actriz fenomenal, e está muito bem acompanhada por um Sam Riley em esforço camaleónico de interpretação. O plano final, o fumo sobrepondo-se ao fundo natural, ali tão perto, tão perto do cimento cinzento do subúrbio. Factos que definem o filme, e que compensam um ou outro cliché a que Corbijn não consegue (ou não pode) fugir.
O filme consegue superar as intenções iniciais: é um biopic, mas tem uma ideia de cinema. As soluções encontradas não são circunstanciais, intensificam as ideias do autor. Sem referências, com pouca cinefilia, resta saber se Corbijn consegue criar uma marca de autor, como criou nos vídeos e nas fotografias. Por enquanto, Control chega. E sobra. Faz juz à singularidade grandiosa de Ian Curtis.

[Sérgio Lavos]

O Silêncio dos Livros

George Steiner é um pessimista. Imaginamos que não o seria aos vinte, nem aos trinta, por isso desculpamos-lhe a amargura; quem não chegou ainda a velho não sabe o que é olhar para a frente e não ver caminho a desbravar. A trágica natureza humana.
O que faz um homem velho, que devotou uma vida ao conhecimento, perseguindo a sabedoria pela via mais difícil, a dos livros, quando se torna pessimista? Escreve um texto elegíaco sobre os livros, uma homenagem em letra de forma a toda a sua vida.
Steiner tem um estilo de escrita reconhecível, no qual avulta a profunda erudição e a capacidade de criar ligações entre ideias e autores. A este conhecimento enciclopédico, Steiner alia um entusiasmo sempre disponível, incapaz de deixar de admirar intensamente as obras dos grandes génios nas artes e na ciência - e para ele, a ciência é o ramo que nunca se devia ter separado da filosofia (foi essa uma das principais ideias da conferência que deu há umas semanas na Gulbenkian). Usa os nomes dos seus génios pessoais como fétiches ou mnemónica para as suas linhas de pensamento - Homero, Platão, Aristóteles, Shakespeare, Milton, Mozart, Turner. É um classicista, certo, e desde sempre foi - o ensaio que o tornou conhecido, No Castelo do Barba Azul, é uma resposta ao texto de Eliot, Notas para a Definição de Cultura, modernista nos seus propósitos, quando não no conteúdo (mas aí, a verdade é que Eliot já não tinha o optimismo da juventude quando o escreveu, em 1948). Nunca foi moderno, na sua intransigência na defesa de um gosto que recusa a modernidade - repetiu na conferência uma frase chave: "Ao lermos a Odisseia, acharemos sempre que é mais moderna que o Ulisses, de Joyce". Apesar deste conservadorismo estético, ou em consequência dele, digamos, Steiner tornou-se um autor popular fora dos círculos académicos - imagino que atraindo a inveja dos especialistas das diversas áreas que toca - a filosofia política, a estética, a literatura. De resto, o seu combate à especialização de saberes no mundo actual acaba por ser uma defesa da sua própria obra e sentido de vida. Não surpreende.
Um autor que oscila entre o pessimismo e a nostalgia de um passado melhor apenas poderia ter a visão que tem dos livros. Em O Silêncio dos Livros, acreditamos mais no livro como objecto sagrado, o seu uso inicial, do que objecto de estudo e manuseamento rápido. Steiner fala do uso inicial dos livros, da sua etimologia - como depósito das leis que governam o Homem, sejam elas religiosas ou humanas. A acumulação do conhecimento em livros, ao longo dos séculos, permitiu uma universalização dos saberes. Não me parece que Steiner aprecie esta democratização, apesar de implicitamente defender o acesso das grandes obras a toda a gente. Mas o tom elitista que adopta ao abordar o actual declínio da leitura trai a sua atitude inicial. A realidade desmente o pessimismo endémico. Tudo está mais acessível - a Internet apenas é um mal para quem ou não a sabe utilizar ou utiliza mal - e não substitui, nem nunca irá substituir o prazer de ler um livro, recolhido no silêncio (na Internet, há ruído de toda a espécie a atravancar os sentidos). As ameaças à liberdade de publicar, duvido que sejam agora mais prementes do que sempre foram - a liberdade de dizer, escrevendo, acabará sempre por se sobrepor à vontade de poder das diversas religiões e ideologias. E a Internet permite essa liberdade - enquanto não houver restrições à circulação da informação. Podemos questionar a qualidade da informação - mas temos a possibilidade de o fazer, escolhendo. O controlo exercido pelas antigas ditaduras tornou-se uma sombra longínqua (no mundo ocidental, pelo menos). Existe um risco de um regresso a tempos sombrios? Sem dúvida, haverá sempre. Não seria tão interessante lutar contra isso se não existisse esse perigo.
A ameaça do ritmo do mundo actual aos livros é um falso problema. Havendo mais oferta, há mais possibilidade de escolha - mas as obras que definem uma existência continuam a poder ser lidas - há, de certeza, neste momento mais traduções da Odisseia disponíveis do que há cinquenta anos. Ou há trezentos. Steiner diz que dificilmente aparecerá outro Shakespeare - mas apenas há um por milénio; esperemos mais 500 anos. Enquanto vem e não vem, podemos ir lendo os autores que não são génios (é a centelha de Deus, acessível a poucos), recolhendo nos livros a maior dádiva de todas: a possibilidade de se escolher aquilo em que se acredita.

(O Silêncio dos Livros, de George Steiner, com um texto adicional pouco interessante de Michel Crépu, é editado pela Gradiva.)

Texto publicado no Arte de Ler


[Sérgio Lavos]

19/11/07

Bem controlado


Para Control, Anton Corbijn não arriscou, não foi além da ilustração do que era já do conhecimento público, Ian Curtis era um depressivo apático mas um escritor fabuloso. O que é pena, pois se Corbijn não estivesse preocupado com o rigor, com uma vontade de “ressuscitar” Ian, a imaginação poderia ter guiado o filme. A imagem de Martin Ruhe é extraordinária, a gradual definição dos contrastes acentuando o preto sobre o branco é subtil, os actores não poderiam ser melhores, mas, no todo, Control é um cliché: era previsível que a imagem fosse a preto e branco e que as letras das músicas revelassem o espírito. Formalmente, é um filme que se leva demasiado a sério quando o tema em questão já era suficientemente fechado e sufocante. É natural que, para Corbijn, 24 Hour Party People de Michael Winterbottom seja apenas um filme engraçado porque, nos seus antípodas, Control é como um murro no estômago que pede aos espectadores uma constituição forte e uma vontade deliberada de sadismo.
Sem espaço para a criatividade que deveria ser o trabalho cinematográfico, sem imaginação no trabalho de argumento, é decepcionante esta recriação de uma vida tão irrepetível como a de Ian Curtis (e no entanto tão comum a tantos anónimos) porque não mostra uma visão pessoal sobre Ian. Se não fosse pela música dos Joy Division, iríamos ver um filme cinzento e angustiante, sobre um homem depressivo, apático, com uma vida cinzenta e monótona? Ainda que não houvesse interesse pessoal pelo artista, um bom realizador conseguiria criar uma personagem autónoma e não uma recriação do que todos já sabemos ter sido a vida de Ian Curtis.
Não fosse sobre Ian Curtis, dar-nos-íamos ao trabalho de ir ver Control? Não me parece porque, cinematograficamente, é um filme menor, ou, pelo menos, era de esperar mais de Anton Corbijn, mais do que a encenação das imagens que captou dos verdadeiros Joy Division enquanto fotógrafo; era de esperar que Corbijn fosse tão bom realizador quanto fotógrafo. O facto de ser uma filme sobre Ian Curtis é por si um tema redutor e, por isso, cabe à genialidade do realizador (não é o caso) criar a sua personagem ainda que só de raspão apanhe o original, ainda que só na diagonal diga respeito à vida dessa pessoa. Neste aspecto, um bom exemplo é
Last Days de Gus Van Sant, onde Blake é uma personagem fictícia, é uma criação cinematográfica de Van Sant e não uma cópia de Kurt Cobain. Isto para dizer que um docudrama não deveria ser uma mumificação de alguém que se admira mas antes uma interpretação que faça diferença.


[
Susana Viegas]

15/11/07

NADA 10


Novo número para a revista NADA:

. O Corpo e a Carne: Duplicidades Contemporâneas, JORGE LEANDRO ROSA
. A geração de 60/70, as metamorfoses da política e os dilemas da tecnociência, entrevista a JOSÉ LUÍS GARCIA por Helena Jerónimo e João Urbano
. Intersecções, confrontações, apropriações, incorporações, comparações, relações: A arte biológica vista do laboratório, LUÍS GRAÇA
. E o elevador irrompeu em direcção ao céu,atravessando as nuvens, rumo ao infinito…, SUSANA VENTURA
. Irene Izes, JOÃO OLIVEIRA
. Incontornável, A DASILVA O
. Estudos Culturais e Formas de Arte Pós-Moderna:Os Novos Movimentos Sociais?, BYRON KALDIS
. A Construcção Política da Esperança Colectiva, DANIEL INNERARITY
. O futuro começa agora, entrevista a RUDOLF BANNASCH por Paulo Urbano e João Urbano
. A Máquina Desejante de João César Monteiro SUSANA VIEGAS
. Birland & Balde de FACS, ADAM ZARETSKY
. Reflexões SILVA CARVALHO
. O Homem sem Bagagem JOÃO URBANO

[Susana]

13/11/07

Sol no marmeleiro

Contra o fanatismo

Contra o Fanatismo, de Amos Oz, é um curto ensaio, em três partes, sobre a impossibilidade. Entre Israel e a Palestina não existe apenas um muro e cinquenta anos de ódio cultivado por dois povos que, basicamente, têm a mesma origem étnica: os israelitas e os palestinianos. Não esquecendo que israelita tanto se pode referir a um judeu semita ou a judeu de leste, a um árabe semita ou a um imigrante norte-africano. O problema da nacionalidade é uma mistificação: a nação palestiniana não existe - e dentro da nação israelita, artificial e nascida da culpa do Ocidente em relação ao Holocausto, a verdadeira essência do radicalismo tem outra origem: uma cultura de milénios. A religião, para os israelitas, é, muitas vezes, um pretexto. Não parece ser para os palestinianos, mas, como Oz afirma, o fanatismo antecede qualquer religião, e ultrapassa-a.
E de que impossiblidade falamos? Da impossibilidade de um radical ouvir as vozes moderadas, primeiro, e a outra parte, depois. Da impossibilidade de conseguir que um fundamentalista saia da sua trincheira e tente compreender o que o Outro pensa e sente. E, sobretudo, da impossibilidade da razão se manifestar no meio da loucura fanática. Amos Oz é judeu, mas desde sempre foi crítico de muitas atitudes militaristas e repressoras do estado de Israel em relação à Palestina. É um moderado, mas nunca um pacifista. Uma diferença que ele reafirma, e que o distingue das vozes que defendem uma realidade inconcretizável: a paz perpétua. O pragmatismo de um moderado coloca em prática objectivos realistas, quando estão em causa questões territoriais ou de convívio étnico e religioso. Mais do que isso, de acordo com Oz, o moderado aceita tacitamente a presença do Outro; o radical pretende exterminá-lo, ainda que finja moderação ou acordo.
Qual o verdadeiro papel da religião, nesta impossibilidade? A religião, para o radical, acaba por ser uma razão pouco razoável. É ela que fundamenta as decisões do político radical, é ela que o legitima perante a maioria da população. No conflito israelo-árabe, a sequência é óbvia: à ocupação do território em 1946 segui-se a reacção de quem já lá vivia; ao que se seguiu a consequente retaliação, que rapidamente levou à supressão de um direito fundamental do ser humano: o direito de escolher quem o governa. A democracia israelita, ao mesmo tempo que tem uma representação parlamentar oriunda da minoria árabe, surge em zona de fronteira como um exército repressivo da vontade palestiniana. Talvez Oz leve a argumentação longe de mais ao colocar o ênfase da sua análise na essência do radicalismo. Talvez na realidade o estado judaico esteja apenas a ser pragmático na defesa das suas fronteiras. Haverá ódio a germinar na raiz das decisões israelitas?
No fim, a maior impossibilidade que o ensaio de Oz denota é a da sua voz se fazer ouvir por entre a poeira levantada pelos radicais de ambos os lados. A lucidez de um homem só de nada vale perante a loucura de muitos. E essa é a maior derrota para os dois povos.

(O livro é editado pelo Público)

(Texto antes publicado no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

11/11/07

A nudez dos mortos

O assunto tem regresso recorrente. Ou, para sermos mais certeiros, nunca deixa de estar na ordem do dia. Ontem, morreu Norman Mailer - e voltou-se a falar disso, nos blogues e na nota biográfica de Pedro Mexia para o Público, por exemplo.
Mailer morreu, mas nem por isso as manchas da sua vida foram apagadas. Enfrentem isso, quem gosta dele. Eu não ligo, e apenas me lembro disso quando a veia tablóide de gente mais ou menos séria nas suas intenções sobressai de modo evidente. O escritor que morreu era misógino, violento, virulento. E, ah, era liberal - o que contradiz a ideia de superioridade moral da esquerda. Mailer esfaqueou uma das seis mulheres com quem foi casado. O horror para as feministas - alguns livros queimados à mistura. A obra, que não morreu - por enquanto - também era tudo isto. Mulheres (no geral) e homens (de estômago mais sensível), façam um favor aos vossos escrúpulos - não o leiam. Ou melhor, leiam-no - seria doce a vingança depois do túmulo (e escrevo isto sem calafrios).
Filipe Guerra ensaiou uma interessante aproximação ao problema, depois de uma revelação recente, a prova pública de que Pepetela e Luandino Vieira colaboraram activamente numa qualquer purga de contornos estalinistas, algures em Angola. Ignoro a escrita de Pepetela. Confesso que fiquei desapontado com Luandino Vieira. Mas não por razões de gosto. Talvez pela estética da figura, pela aura mítica do escritor recluso que recusa os louros que o mundo lhe oferece. Enquanto imaginei Luandino recusando o prémio como consequência do apelo da solidão, de uma entrega ao esquecimento, a sua obra pareceu-me prenhe de um apelo irresistível. Li mais do que conhecia, escrevi sobre isso, achei na atitude do escritor toda a motivação para cultivar um gosto pela obra. Resumindo, antes de gostar do que Luandino escreve, gostei da figura que imaginei que ele fosse. Um homem bom? Não é essa a questão, parecia-me um homem verdadeiro. E agora, o arrepio? Filipe Guerra acerta: não porque Luandino seja um crápula (como o era Céline, ou Ezra Pound), um falso ingénuo (como Sartre ou Saramago) ou simplesmente alguém com o coração no sítio certo mas as mãos no sítio errado (como Mailer ou Hemingway ou Roth). A razão é simples: Luandino foi um funcionário ao serviço da barbárie, e isso torna-o cúmplice de gente sem imaginação, sem desejo de liberdade. E a obra? Admiro-a exactamente com a mesma intensidade que admirava antes.
Temos os nossos mitos, as figuras que julgamos ser tão perfeitas como a obra que criam. Porquê? Procuramos na arte o reconhecimento de nós próprios, enquanto parte de um grupo, enquanto essência real de uma ideia: ser humano. Projectamos nos artistas que amamos aquilo que gostaríamos de ser, o arquétipo. Mas eles, sabemos bem, insistem em desiludir-nos. Persistem em ser humanos. Como nós. Ao contrário da obra produzida - essa é que pode aspirar a ser perfeita e imortal.

[Sérgio Lavos]

10/11/07

House e o tabaco

(...)A ironia de House consiste em repôr o mistério na esfera da interioridade. No mundo me que a saúde se tornou o ponto de articulção das expectativas existenciais e em que não morrer se tornou a contrafacção da Graça, a doença é a boa metáfora da interioridade. House, porém, recusa identificar a Graça com a Medicina: gosta de roubar a doença aos pacientes e assumi-la como sua. É o que está em causa no seu lema "everybody lies", que significa: um doente (ou culpado) não sabe que o é (e não pode portanto ajudar-se). Só a doença existe e, assim, não há nela qualquer interioridade. A impessoalidade deste mistério impede toda a comunhão; e testemunha disso é essa forte imagem de um médico que, através de uma vidraça (ou do véu da ilusão), observa os seus pacientes sem se aproximar.(...)

Não terei lido, até agora, melhor texto sobre House, M.D. Onde? No Ipsílon, ontem, escrito por Francisco Luís Parreira numa recensão a um desses sub-produtos de merchandising associados a uma série de sucesso. Curiosamente, no mesmo dia em que, no mesmo jornal, Vasco Pulido Valente voltava a investir contra o fascismo sanitário que transverte as sociedades democráticas actuais - outra maneira de caracterizar a campanha anti-tabágica que vai alastrando pelo mundo. Um excerto:

(...)Imagino quem, de facto, quererá este mundo sufocante e asséptico, obcecado com a "saúde"? Gente, como é óbvio, com pouca imaginação. Por mais forte que seja o culto e a idolatria do corpo, a velhice chega. E, com ela, a irrelevância, a obsolescência, a solidão. Esta sociedade de velhos trata muito mal os velhos. A ideia (e a propaganda) de uma adptação contínua é uma grande e cruel mentira. Os velhos são um embaraço. Um peso que se atura, que se arruma num canto, que se mete num "lar". Setenta anos de esforço para durar acabam num limbo à margem da verdadeira vida, quando não acabam no sofrimento e na miséria. O Ocidente está a criar um inferno. Por bondade, claro.

É interessante que, ao mesmo tempo que recusamos a morte e a velhice como processos intrínsecos ao acto de viver, e tornamos a vida um simples adiar da morte, nos entusiasmemos por séries como House, que explicitamente defende valores contrários aos dominantes. Gostamos do politicamente incorrecto apenas em forma de ficção? Procuramos uma fuga ao "real", construindo simulacros de vida para tornar suportável o insuportável. Fugimos.

[Sérgio Lavos]

09/11/07

Animais domésticos

Queria apenas chamar a atenção para o regresso de Alexandra Barreto ao ofício diário do blogue, depois da Seta Despedida. Ela, a sua escrita elegante e os Animais Domésticos que a inspiram. Ainda bem.

[Sérgio Lavos]

07/11/07

No I in the threesome



Ouvir atentamente Interpol, No I in the threesome. O realizador, o californiano Patrick Daughters, tem um currículo recente mas notável com Yeah Yeah Yeahs, Kings of Leon, Muse e Feist, esta com o coreografado 1234, um plano-sequência sem cortes. Aliás, um só plano parece ser a técnica preferida.

[Susana]

05/11/07

O local de filmagens

Stalker é um filme de Andrei Tarkovsky de 1979. O filme pode ser dividido segundo dois critérios visuais: o primeiro, em tons sépia (porque o sépia suja todas as imagens, cobre de lama paredes, rostos, roupas) com planos da cidade onde Stalker vive; e o segundo, num deslumbrante poema às intensidades da natureza, agora já na interdita Zona. A Zona é um lugar contaminado, poluído pelos escombros da abandonada fábrica, o óleo é ainda visível na superfície da água ainda que peixes insistam em lá viver. Na Zona, a água inunda o terreno, ensopa a terra, predominando ainda na chuva, no rio, na cascata, no interior das casas, sempre a água, translúcida ainda que poluída. É um hábito de Stalker levar pessoas para a Zona a troco de algum dinheiro. Desta feita, conduz o Professor (ou a Ciência) e o Escritor (ou a Arte) para a Zona com o objectivo de alcançarem a sala da esperança onde os desejos se tornam realidade e de onde quase ninguém regressa.

Qual a origem do misticismo do lugar? No início do filme fala-se de um meteorito que caíra e destruíra a vila mas esse contacto alienígena, justificaria os processos de auto-conhecimento pelos quais os seus visitantes involuntariamente passam? A perigosidade de entrar na Zona é imensa e incalculável: a todo o instante mudam as armadilhas, muda a fisionomia do terreno, perigosidade avivada pelo facto de não se poder andar pelo caminho mais curto nem se poder voltar atrás. É verdade que há indícios do terreno mudar, mas também há indícios de tudo ser criação abusiva de Stalker, o único que conhece as regras da Zona. As outras personagens também duvidam e perguntam a Stalker como é que ele sabe que ali se podem realizar os desejos. Ele simplesmente sabe. A filmagem decorreu em parte na Estónia, perto de Tallin, num campo radioactivo, partículas químicas que terão alimentado a ideia de lugar como organismo vivo – que se desloca, que deseja, que engana, que respira e que dialoga com os humanos.

Os recursos cinematográficos de Tarkovsky concentram-se na imagem e nos actores: o zoom é extraordinariamente lento, os rostos devidamente enquadrados (as personagens surgem, surpreendentemente, pela parte inferior do enquadramento contrariando a perspectiva natural). Uma das vantagens de um realizador de cinema ser também ensaísta é contribuir para a sua própria interpretação. Assim, este filme, juntamente com Andrey Rublyov (1969) e Solyaris (1972), faz parte de um conjunto teórico escrito por Tarkovsky (Esculpir o Tempo, em tradução brasileira) sobre as possibilidades cinematográficas de representação directa do tempo. Como libertar o tempo (ou duração) da montagem (ou movimento)? Criando a imagem cinematográfica no próprio local de filmagens. É interessante afirmar que o local de filmagens seja tão criativo quanto o realizador ou os actores, como um interveniente do filme. Com Stalker, parece que esta afirmação ganha mais verdade. É o tempo que controla o ritmo, os lentos zooms, os rápidos travellings; o tempo é a duração de cada plano e o ritmo de cada movimento. Cabe ao realizador esculpir o tempo, dar-lhe forma, compreender a pressão do tempo no momento das filmagens.

Cada plano, nasce no local da filmagem e não na mesa de montagem porque a montagem, a reorganização artificial dos planos fixos, sem duração, não é fiel à matéria-prima do cinema: o tempo. Por este motivo, são poucos e longos os planos nos filmes de Tarkovsky, porque, idealmente, o tempo seria o único agente no cinema tornando o realizador o canal privilegiado de passagem dessa intensidade, intermediário que preserva a pureza da duração registada no local, a pressão da passagem do tempo. Stalker pertence ao lugar tanto como a aranha que lhe passa nos dedos. Na impossibilidade de mostrar a pressão do tempo em imagens fixas do filme, opto por mostrar em movimento porque só enquanto estão em movimento, estas imagens existem.

(texto inicialmente publicado no Verdete)
[Susana Viegas]

Os 5 filmes do dia 5


Em resposta ao desafio da Rita, indico os 5 filmes da minha vida listados no dia 5 (amanhã seriam outros) :
. Johnny Guitar Nicholas Ray 1954
. Les quatre cents coups François Truffaut 1959
. Naked Mike Leigh 1993
. Lost highway David Lynch 1997
. Code inconnu Michael Haneke 2000.

e passo ao Harry , Domingos, Armando , Filigraana e H.

[Susana Viegas]

04/11/07

Interpol

Os Interpol continuam, ao terceiro álbum, Our Love to Admire, a produzir música da mesma maneira: um excelente sentido de ritmo - a bateria e o baixo em jogos que fazem lembrar, claro, a banda de quem não vou pronunciar o nome - a voz com um timbre parecido com... o vocalista daquela banda cujo nome não vou escrever, mas em que cada letra, por muita perversidade que contenha (como em Evil) soa límpida, despida de negritude e depressão. Talvez seja por serem de Nova Iorque, e não de Manchester (não sei porque refiro esta soturna cidade industrial inglesa). Seja como for, alguns passos à frente de grande parte da onda neo-pós-punk que ainda varre a música, apesar dos anos que decorreram desde Is This It, dos Strokes. Não é despicienda, a referência, mas a grit (principalmente se comparados com os seus conterrâneos) que não têm é compensada pela elegância do estilo.
Mais sexo e menos sombras - a dose certa dos Interpol - e não, não mencionarei a banda que eles respiram por todos os poros em Evil, a minha música preferida. Para ouvir na Quarta-Feira, ao vivo, e nos próximos dias na barra da direita.

[Sérgio Lavos]

03/11/07

Dylan/Blanchett


Todd Haynes, de quem vi dois filmes bons e de quem não vi mais dois que também serão bons - sendo os bons que vi Safe e Velvet Goldmine e os que não vi Poison e Far From Heaven -, decidiu homenagear Bob Dylan, em I'm Not There. Há imagens que correm no youtube, o filme estreou em Veneza, parece-me, e o buzz já soa há muito tempo. O hype começou com o próprio Dylan, é claro, quando caucionou a abordagem de Haynes. E continuou pela escolha de vários acores para desempenhar os vários Dylans, incluindo Cate Blanchett, a actriz com o rácio beleza/inteligência/talento mais alto da actualidade.
Teríamos, falando de Haynes, de passar pelo camp. Ele fez o mesmo em Velvet Goldmine, é esse o seu programa - mais acentuadamente do que Gus van Sant, por exemplo, que se limita a filmar adolescentes de modo mais ou menso discreto - em Elephant como agora em Paranoid Park. Senti-me ligeiramente defraudado quando, a meio de um filme quase intocável, Last Days, há uma sugestão qualquer de homossexualidade da personagem. Não é que talvez não se justificasse - o tom crístico do filme, a figura andrógina do pseudo-Kurt Cobain poderiam levar facilmente a esta alusão. Mas a verdade é que, ao derivar para esse aspecto, e sabendo nós quem van Sant é, a obra perde alguma credibilidade.
Van Sant e, no caso que me interessa, Haynes, passeiam-se por um mainstream marginal, se assim se pode dizer, repisando temas fortes e não deixando de deitar uma pitada da sua própria agenda nas obras que produzem.
Mas Bob Dylan talvez justifique o ângulo enviesado - dúvido que seja original. As faces de Dylan, as múltiplas personagens que constroem o nome - Bob Dylan - são tão falsas como o pseudónimo que arranjou para usar em vez do mais vulgar Robert Zimmerman. O documentário de Martin Scorcese, No Direction Home (o melhor filme dele, já o disse e repito-o) desenvolve-se formalmente de acordo com todas as regras do género - existem entrevistas, imagens de arquivo, perguntas a Dylan. Mas o resultado final vai muito mais longe que a soma das partes. A montagem, entrecortando episódios polémicos com as justificações do músico, colando em sequência as críticas dos detractores e as canções mais emblemáticas, serve de bússola para o olhar do cineasta. As palavras das figuras entrevistadas estão constantemente a ser dinamitadas pela força das imagens, das músicas. A trupe folk denuncia Dylan pela traição, por se ter vendido ao capitalismo; Dylan responde cantando, a afirmação de uma serena fúria de liberdade - e a liberdade mais pura, a do indivíduo perante os seus próprios desejos e visão do mundo; sem compromissos.
O que há a destacar, enquanto o filme de Haynes não estreia, é então a espantosa (e surpreendente) semelhança física entre Blanchett e Dylan. Daquilo que tenho lido, é mesmo o actor que mais se aproxima do fantasma Dylan. Não do verdadeiro - nunca saberemos quem é - mas da imagem que o mundo tem dele. O documentário de Scorcese prova duas coisas muito simples: é impossível sabermos realmente quem Dylan é (no limite, qualquer aproximação a qualquer um de nós é sempre parcial, e portanto, falsa); e, que importa, a realidade da vida de Dylan é apenas ficção, não poderia ser de outra maneira. Não é muito, para um cineasta - a dança entre realidade e ficção deve ser a principal preocupação que Scorcese deve ter, quer se movimente num registo ou no outro. Mas, para quem vê, saber que chegamos ao fim do documentário conhecendo ainda menos Dylan do que conhecíamos ao início, pode ser frustrante. Se quisermos saber mesmo quem é Dylan.
Eu não quero. Prefiro construir uma imagem mais ou menos verdadeira, contento-me com a ficção - afinal, tudo o que interessa; a realidade é demasiado escorregadia para que se deixe tocar.

[Sérgio Lavos]

01/11/07

Do plágio como uma das belas-artes

Eu, como todos os escritores por publicar (ou publicados, mas sem sucesso), também tenho uma teoria sobre o plágio de Miguel Sousa Tavares. Para ser verdadeiro, eu tenho uma teoria para todo e qualquer plágio, excepto para casos de escritores de génio, e esses, meu deus, são raríssimos.
A teoria é esta: o plágio é sinal de inteligência; corrijo: o plágio é sinal de esperteza, com a agravante de ser consistente com uma das principais qualidades que um escritor deve ter: o olho para reconhecer os grandes que o precedem. No limite, qualquer escritor que não seja génio, com aspirações a escrever alguma coisa de jeito, deve fazer como Bruce Chatwin: abrir uma dúzia de clássicos enquanto escreve, e ir copiando ao sabor da pena, copiosamente copiando, frase a frase - um pouco de Flaubert, uma pitada de Tolstoi, um gosto de Kafka (o escritor mais fácil e mais óbvio de imitar) ao lado, aqui e ali Sterne polvilhando a prosa, quem sabe alguma elegância de Henry James para melhorar a linguagem, algo de Proust a acompanhar. E não falo apenas de uma vaga inspiração - isso é tolice, o resultado final acaba por ser um sabor amargo a uma falta de originalidade tremenda, um pouco como ler "O Meu Nome é Legião" depois de "O Som e a Fúria" ou qualquer romance de Miguel Real como digestivo aprés "Memorial do Convento". Amigos, trabalhem com método: cortando e copiando, como não? Mas faça-se com estilo; não adianta mergulhar em livros de História e fazer copy/paste de factos, como MST faz. Entediante, aborrecido. Imaginem: se os originais já o são, o que será a cópia? Roubar? Em grande. É que enfiar uma frase de Pessoa entre uma exclamação de Virginia Woolf e um longo parágrafo digressional de Saramago não é plágio: é o talento a revelar-se. Não é uma questão de coser os pontos bem cosidos; é saber esconder as costuras. Chatwin conseguiu, mal ou bem - os romances, bom... são fracos; mas os livros de viagem são soberbos. E estou comovidamente grato apenas a ele - porque sei que já pagou as suas próprias dívidas de gratidão aos amigos que conheceu depois de partir. Um copo com Wilde no Paraíso - o sonho de um copista de génio.
O problema, na verdade, é que Miguel Sousa Tavares não plagia. Não tem coragem (ou talento) para tanto. É um enfadonho jornalista a escrever uma reportagem num tom neutro, chatíssimo, sem marca própria, sem nervo, colando com cuspo datas e acontecimentos longínquos numa sequência infindável de personagens que têm tanta profundidade como o papel em que o seu nome é impresso. Resultaria em jornal ou em revista? Não duvido. Resulta como produto de marketing claro e evidente (ser figura televisiva; ter boa figura; ser polémico)? Claro que sim. É literatura? Vasco Pulido Valente já ditou a sentença. Está tudo dito.
Confie nos bons conselhos que lhe dão, homem, plagie, nem sabe o que está a perder (e os seus leitores também)!

[Sérgio Lavos]

31/10/07

5 letras, 5 filmes

Ora bem, cinco filmes da minha vida, caro Solvstag? Um clássico, que já deve ter dado a volta ao mundo dos blogues centenas de vezes. Como até ando bem disposto, vou acrescentar alguma dificuldade à corrente. E que tal cinco filmes começados pelas letras do meu apelido, em inglês? Portanto um filme começado por L:

Lost Highway, de David Lynch - não é o meu preferido dele, mas Lavos não contém um M. Se Tivesse de dizer apenas uma razão para estar nesta lista, é o facto de, passados 10 anos, muitos visionamentos e alguns textos teóricos depois, ainda não ter entendido a totalidade do filme. Há pistas, claro, e quase que percebo por que razão o Mistery Man aparece em dois lugares ao mesmo tempo. Não é isso o mais importante, de resto. A ideia dos duplos estabelecendo pontos de contacto entre tempos e camadas de consciência é apenas um pretexto. Acima de tudo, a elegante esquizofrenia do desejo masculino. Soberbo.

Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla: o melhor do bando à parte do cinema americano dos anos 70 (com milhas de avanço em relação a Scorcese) realizou aquele será, durante os séculos vindouros, o melhor filme de guerra de sempre (logo assim, à distância). E o problema para a concorrência é que o filme nem sequer é de guerra - majestática ópera sobre a natureza humana (as Valquírias não estão lá por acaso).

Vertigo, de Alfred Hitchcock: cada mulher sublima-se e perde a sua individualidade, na cabeça de um homem. Na cabeça de um homem, todas as mulheres são uma mulher só. E cada mulher repete-se em cada nova mulher que se ama. Misoginia? Uma condenação, uma miserável deficiência ditada pelo gene Y que partilhamos. E Madeleine/Kim Novak (a Scarlett Johansson de Hitchcock) sabe tudo, desde o início. Trágico destino da inferior raça masculina, o engano.

On The Waterfront, de Elia Kazan: podia ter aqui a primeira parte do Padrinho, só para falar da cena da morte de Don Vito Corleone e da improvisação do outro mundo de Marlon Brando. Mas como tem de ser um filme começado por "O" (e podia ser também "On Connait la Chanson" ou "One Flew Over the Cuckoo's Nest"), falo do gingar e do rodopiar do estivador Brando em volta da loura pálida Eva Marie-Saint, na rua, a caminho da imortalidade. Assentemos nisto: James Dean era um menino chorão que deitou fora cedo de mais o pouco talento que tinha. Marlon Brando era grande. Enorme. Maior do que alguma vez o seu ego aguentou - e sempre sem fazer caso disso, em esforço. O Maradona da representação.


Some Like it Hot, de Billy Wilder: já vi vezes suficentes este filme para conhecer todas as cenas de cor e ter deixado de lhes achar piada. Mas isso não aconteceu ainda. A melhor comédia de sempre (para alguns - eu diria que está a par de "Monty Python e o Cálice Sagrado") continua tão eficaz como da primeira vez. E claro, Marilyn Monroe mostra que consegue mais do que ser, simplesmente, o arquétipo da espécie. Sabe representar. Gozar com a imagem que o mundo tem de si. A mão de Wilder seria certeira mais vezes; mas nunca com o estado de graça deste filme. Há alguns que conseguem ser perfeitos.

Passo o desafio ao Pedro Mexia, ao Luís Miguel Oliveira, ao Alexandre Andrade, ao Ivan Nunes e ao João Lopes, porque são eles quem melhor escreve sobre cinema na blogosfera e também porque, por esta mesma razão, não se vão dar ao trabalho de continuar a corrente. Sete anos seguidos de maus filmes, é o que dizem. Azar.

(Reparo que Brando aparece duas vezes; aparecem duas louras de Hitchcock; uma loura/morena que emula as mulheres de Hitchcock; e o ideal de beleza feminina, a falsa loura Norma Jean. Que padrão é este que detecto?)


[Sérgio Lavos]