29/12/11

Livros do ano (4)

Puta que os pariu! 
O livro de que o Portugal de hoje precisava, a longamente esperada biografia de Luiz Pacheco, por João Pedro George.
Não serão assim tantos a recordar o escritor e editor e tudo. Viveu mais do que a maioria de nós, cada ano espremido e gozado até ao limite? Ou foi um proscrito por vontade própria, imune às tentações do bem estar burguês e da mediocridade de uma vida plana? Um miserável, um excêntrico hipocondríaco, um falhado que nunca chegou a cumprir o seu desígnio maior, a mais clara ambição, ser romancista? O pedinte, o sem abrigo - como a moralidade caridosa chama a quem decide viver, ou para isso é empurrado, na rua -, o pai de muitos de quem nunca soube cuidar, porque para ter uma "família" é preciso ceder ao impulso do conforto material, às regras sociais que ele tanto fazia por quebrar, o mau marido e péssimo gestor de vida (a linguagem tecnocrata dos nossos dias tem rótulos para estas coisas), o rapaz traumatizado por um pai distante e uma mãe galinha, crescido entre a riqueza relativa e o abandono; o funcionário público que trabalhava num organismo do Estado Novo ligado à censura, durante anos e anos batendo a continência a homens piores do que ele, até que o grito "Puta que os pariu!" teve de impor-se, e ele se tornou aquilo que talvez ambicionasse desde que abandonara a casa onde crescer: um libertino marginal, como tantas vezes lhe perguntaram nas entrevistas da última vintena de anos, dadas ou vendidas ao sensacionalismo suave de um jornalismo cultural que procurava avidamente o seu "louco", o que se expunha, o que dizia mal, o que se estava a borrifar para as meias tintas da sociedade portuguesa e do mesquinho meio cultural português. Um libertino marginal, repete-se a pergunta? Nunca, e o ziguezague de Pacheco ao longo dos tempos, entre a aceitação da categoria maldita e a recusa, prova que era tudo folclore, fogo-de-artifício, ignorância de quem o entrevistava.
Luiz Pacheco era tudo isto, claro, mas não era. Era quem queria ter sido, e passava fome e mendigava e vivia como muito bem entendia. A biografia de João Pedro George não pretende chegar a conclusões, apesar de um ou outro aparte sociológico que talvez fosse desnecessário. Mas é provável que eles apareçam por força da circunstância desta obra ter surgido a partir da escrita de uma tese de doutoramento em Sociologia - a depuração que certamente o trabalho académico sofreu na passagem para a edição comercial poderia ter ido mais longe. Mas isto é um pormenor. O livro de João Pedro George é exaustivo, bem escrito, obsessivo. E a admiração que o biógrafo poderia sentir pelo escritor parece a cada passo ser toldada pelo rigor da verdade - o que, neste caso, obriga a que pouco seja omitido. Caramba, uma biografia é uma biografia, terá de ter a ambição de contar tudo. Por isso, o fôlego deste trabalho é, e sem querer fugir ao lugar-comum nestas situações, uma pedrada no charco, uma agulha no palheiro, uma raridade absoluta. Nada a ver com as croniquetas de rainhas e princesas que agora se tornaram moda, escritas com os pés por gente que nem o significado da palavra iliteracia conhece. Um género nobre nos países anglo-saxónicos de que seria bom haver réplicas no nosso pobre meio editorial. 
Quem era Luiz Pacheco? Um homem que o Portugal de hoje não merece. E, para dizer a verdade, o do tempo dele também não. O homem que diria a esta tenebrosa turba que nos governa e à mancha de mediocridade que a rodeia "Vão para a puta que os pariu!".

Puta que os Pariu! - a Biografia de Luiz Pacheco, de João Pedro George, editado pela Tinta da China.

28/12/11

Filmes do ano (3)

Uma das coisas que me divertem - provavelmente porque gasto demasiado do meu tempo em desnecessárias inutilidades (e claro que há inutilidades necessárias, mas isso é outra vindima) - é espreitar os comentários dos espectadores no Cinecartaz do Público. Depois de ver os filmes, por princípio; que nunca uma opinião me faça alterar o fundamento dos meus preconceitos. Há umas semanas, fui ver um filme que declaro, desde já, ser fabuloso: O Tio Bonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores. Não vale a pena queixarmo-nos da extensão do título em português; em tailandês é ainda mais extenso e certamente mais impronunciável, quase tanto como o nome do realizador desta obra: Apichatpong Weerasethakul. Certamente que todos se lembrarão que este filme ganhou a Palma de Ouro do ano passado e que esta decisão foi um incómodo para muita gente. Em concreto, recordo uma polémica nas páginas da Sight & Sound. Que o filme era demasiado hermético, lento, inacessível. Ora bem, o filme é seguramente hermético, lento, pouco acessível. Mas esta análise revela de forma mais decisiva os preconceitos e as limitações de quem a faz do que esclarece exactamente que objecto é este. A verdade, subjectivamente falando, é que o filme é uma experiência sensorial do outro mundo, uma viagem psicadélica entre tempos e espaços, uma provocação aos limites da verosimilhança extraordinariamente arrebatadora. Vivemos - nós, que apenas vemos imagens, sombras no ecrã - entre fantasmas, os fantasmas que visitam o tio Bonmee enquanto ele vai morrendo. E a morte, aqui, não é um abismo, não é um corte violento nem um nó dramático, à maneira do cinema ocidental. Não conheço o suficiente da cultura tailandesa para poder especular sobre a filosofia zen que motiva Apichatpong. Sei que a morte - e a vida, sobretudo a vida, a dolorosa preparação para a morte - não é o mesmo vulto negro do filme de Bergman, por exemplo; é um acidente, uma aceitação, uma desolação serena. Os espíritos da natureza, a irmã morta, o filho desaparecido em busca da alma que as fotografias roubam, o quotidiano pacífico de uma plantação, o ritmo das colheitas, o sol e as sombras da floresta. Um mundo afastado do mundo, do ritmo da cidade que é incrivelmente condensado naquela cena final em que uma família (que inclui um jovem monge budista que foge do silêncio do mosteiro) olha concentrada para um televisor num quarto de hotel, a realidade fora da realidade que acabámos de viver durante duas horas. Tudo desapareceu, com o desaparecimento de Bonmee, a derradeira viagem de regresso ao útero materno, a gruta inicial.

O Tio Bonmee que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, de Apichatpong Weerasethakul, com Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas e Sakda Kaewbuadee. 

26/12/11

Livros do ano (3)

"DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Para aqueles que insistem diluir
isto que escrevo aquilo que vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema , o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz."



Mulher ao Mar, de Margarida Vale de Gato, ed. Mariposa Azual (2010)

25/12/11

Filmes do ano (2)

George Clooney aprendeu com os grandes mestres do filme político - Alan J. Pakula, Sidney Pollack, o Coppola de The Conversation. E o que colheu nestes filmes - a paranóia, o gosto pela construção das personagens, a sensibilidade que transforma histórias vulgares nos meios políticos em obras sobre a miséria da alma humana - as peças políticas de Shakespeare são, devem ser, a matriz deste género cinematográfico - é usado com uma sabedoria formal assinalável. O sentido de ritmo de Idos de Março é a correia de transmissão de um argumento inteligente e complexo. Começamos a meio de uma campanha eleitoral para a presidência, ainda na fase das primárias democratas (há ecos de Taxi Driver nestas sequências iniciais). Há um candidato que parece ser mais idealista - Clooney - e os seus dois assessores, desempenhados por Philip Seymour Hoffman (o experiente, vagamente inspirado, até fisicamente, no sinistro Karl Rove, antigo conselheiro de Bush Jr.) e Ryan Gosling, o novato, a quem todos auguram um futuro brilhante. Gosling, o idealista, que trabalha para o candidato por concordar com muitas das suas ideias políticas. Mas a política é suja, não pode haver nela lugar para idealismos. A trama adensa-se quando surge uma jovem apoiante (a excelente Evan Rachel Wood) que seduz Meyers (Gosling). Sexo, poder, controlo. Tudo o que a política é, o mundo de sombras a que Meyers queria escapar, a sua essência. A composição de Gosling é certeira, perfeita - o olhar do jovem idealista transforma-se, torna-se cínico e frio, vingativo. E o filme torna-se grande com esta metamorfose. Ninguém está a salvo.

Idos de Março, realizado por George Clooney, com Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Evan Rachel Wood, Paul Giamatti e Marisa Tomei.

24/12/11

Livros do ano (2)

"Uma linha extremamente ténue separa esta «humanização» de uma aquiescência resignada com a mentira como princípio social: neste universo «humanizado» é a experiência íntima autêntica, não a verdade. No final de The Dark Knight, de Christopher Nolan, filme que também «humaniza» o seu super-herói, apresentando-o cheio de dúvidas e fraquezas, assistimos à morte do novo procurador judicial Harvey Dent, um feroz perseguidor das máfias que sucumbiu à corrupção e se tornou culpado de vários homicídios. Batman e Gordon, o seu amigo polícia, pressentem o golpe que a moral da cidade sofreria se os crimes de Dent viessem a ser conhecidos. Por isso, Batman convence Gordon a preservar a imagem de Dent declarando que o responsável pelos seus crimes é Batman. A necessidade de perpetuar uma mentira a fim de proteger a moral da população é a mensagem final do filme: só uma mentira pode salvar-nos. Não admira, pois, que, paradoxalmente, a única figura verdadeira do filme seja o Joker, o vilão por excelência. O objectivo dos seus ataques terroristas a Gotham City torna-se claro: os ataques só serão interrompidos quando Batman arrancar a sua máscara e revelar a sua verdadeira identidade. A fim de impedir este desfecho e de proteger Batman, Dent declara aos jornais que Batman é ele - uma nova mentira. Do mesmo modo, outra mentira tem ainda lugar, quando, para ludibriar o Joker, Gordon encena a sua morte (fingida)."

Viver no Fim dos Tempos, Slavoj Zizek, tradução de Miguel Serras Pereira, ed. Relógio d'Água.

Filmes do ano (1)

Um melodrama inscrito na linhagem de David Cronenberg e Michael Mann. Ryan Gosling e Carey Mulligan em dois grandes papéis. Não é um filme perfeito: dispensava-se o excesso de câmara lenta, a contemplação exibicionista de Nicolas Winding Refn. Mas vale pela perseguição de carros e pela fabulosa sequência inicial, pela tensão acumulada, pelo desempenho dos actores. O prémio de realização em Cannes traz atrás de si um rasto de polémica, mas, para minha surpresa, confesso, o filme tem muito mais qualidades do que defeitos. Um realizador a seguir.

Drive, de Nicolas Winding Refn, com Ryan Gosling e Carey Mulligan.

23/12/11

Livros do ano (1)

"Quando nascemos, alguma divindade marca com uma cruz preta o nosso nome e a partir daí a vida não dará tréguas, não encontraremos senão obstáculos, chacota, ciladas, e teremos de suar a mais pequena alegria, remando, lutando contra a corrente, vendo os afortunados a deslizar na margem, de trunfo na mão, e sem nos permitirem a menor distracção, pois é isso que se espera de nós, que cedamos um instante ao desânimo para que a arma penetre até ao cabo."

Prosas Apátridas, Julio Ramón Ribeyro, tradução de Tiago Szabo, ed. Ahab.

20/12/11

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer -- vai por esse campo
de crateras extintas -- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração -- ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna -- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite


não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira -- não esqueças o ouro
o marfim -- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto, em Horto de Incêndio, ed. Assírio & Alvim. Encontrado aqui.

16/12/11

Christopher Hitchens (1949-2011)

Depois de Nietzcshe, mais um ateu famoso que morre antes de Deus. Christopher Hitchens. Mas não a verve, a veia de polemista, o apurado gosto, a ferocidade do crítico. Os seus textos, as aparições na televisão. Os livros. Sobretudo, Deus Não é Grande, manifesto ateísta dominado por uma pulsão provocatória que ultrapassa demasiadas vezes a racionalidade argumentativa. Hitchens, como muitos ateus, era um militante, um crente. E, como muitos crentes, era um fundamentalista. Confudiu fé com religião, a imaterialidade da primeira com os erros das instituições que servem a segunda.

Pormenores. A inteligência do crítico e o arsenal retórico de que abusava em discussões muitas vezes pareciam deixar à distância eventuais erros de julgamento. O que desculpamos a um homem equivocado é quase sempre uma medida da nossa própria sensatez. A Hitchens, desculpamos muito. Viver terá de se aproximar do que foi a existência dele. Um fogo-de-artifício breve, e depois o céu escuro. Para tanto, Deus não deverá ser chamado.

Cinco anos

Aqueles cinco anos, dediquei-os a esquecer
os dezoito anteriores. Uma questão de prioridades,
ou essa coisa de construir a personalidade
de que os manuais de psicologia falam.

Não sabia ser, talvez o que queria.
Os encontros e a fortuna fizeram o resto:
bastaram alguns meses para ter um rosto
que se distinguisse da multidão, o pormenor
que eu julgava ser diferente.

A roupa, a pose, e a poesia.
Uma imagem a defender em acaloradas discussões,
becos sem saída, e na dobra
dos dias um amor que recusava a sua
natureza provisória.

O fulgor da provisão e do engano,
rebater argumentos recusando ler
mais do que os livros da moda,
uma vontade de poder frágil
como a vida de um vitelo recém-nascido.

Mas a força, ah, a força da ignorância.
Não saber o que o dia traz,
o seu declínio, era imparável.
A imortalidade na ponta dos dedos
que agarravam a manhã nascendo, o álcool

refazendo o seu percurso,
cumprindo a sua missão,
permitindo o esquecimento.

Foram cinco anos que se multiplicaram
pelo corpo dentro; não soube reconhecer
a primeira derrota. Todas as que se seguiram
trouxeram uma nova forma de evitar a vida:
escrever sobre ela, como se eu não lhe pertencesse,

um fantasma correndo sobre a tela.

15/12/11

Ulysses (5)

Ainda ando por lá. Como era de prever, demoro mais tempo do que tinha pensado. O tempo e a sua relatividade não são para aqui chamados; mas passados dois meses, não serei o mesmo. Contudo, passou apenas meio dia em Dublin - e várias linhas narrativas se cruzaram, avanços e retrocessos, memórias e devaneios, caos ordenado pelas frases perfeitas de Joyce. A ordem nasce do rigor sintáctico. Do ritmo das frases, da fonética. O sentido é por vezes incerto - ou assim parece ao leitor, a quem não vive dentro da cabeça do narrador - mas o texto nunca deixa de respirar, de fluir. Frases curtas, onomatopeias e canções. E os diálogos, resgatando da abstracção o texto, dublinescos, verdadeiros.

14/12/11

W.G. Sebald e George Whitman

O escritor alemão morreu há dez anos, num acidente de carro perto de Norwich. George Whitman é seguramente menos conhecido. Americano expatriado, amigo da geração beat, fundador da mais bela livraria do mundo, a Shakespeare and Company. Tinha noventa e oito anos, e, até ao dia derradeiro, leu. Whitman era uma relíquia de outros tempos e a livraria que ele criou, em 1951 (primeiro com um nome de mulher, Mistral, o seu primeiro amor), uma ilha no meio do negro mar em que se vai transformado o negócio dos livros. Tratar o livro como mais do que um objecto que passa de mão em mão a troco de dinheiro é um luxo em vias de extinção. Entrar numa livraria e não sermos invadidos por uma maré de produtos a que, por comodismo, se convenciona chamar "livro", uma raridade. 
Sebald era também um bibliófilo. Um amante do conhecimento. O acaso quis que os dois morressem no mesmo dia, dez anos a separar as duas mortes. Por conveniência do destino, um epitáfio comum, de dois homens que talvez se tivessem conhecido e que certamente terão muito a conversar, caso se reencontrem. Num mundo onde as conveniências dos tecnocratas se tornaram lei, é preciso celebrar gente assim. Nunca foram muitos. Vão sendo cada vez menos. Os resistentes.

O que este país precisa

Dos tomates e do sentido de liberdade de Luiz Pacheco, em vez desta "apagada e vil tristeza".

12/12/11

FCSH 1993

Lembro-me dele,
dormindo na última fila de Inglês I,
recuperando as horas perdidas
na Feira da Ladra das quintas,
vendendo discos, CD's, cassetes de vídeo porno.

Por vezes, acordava e dizia qualquer coisa
vagamente sábia - era mais velho do que a maioria,
voltara aos estudos, como então se dizia,
mas trabalhava, trabalhava como poucos de nós -

precisávamos de estar por ali, faltando à faculdade,
fumando cigarros no pátio onde alguns anos depois montaram uma feia
esplanada com cadeiras de plástico e chapéus de sol veraneantes,
precisávamos de sair
ir à Gulbenkian, deitar na relva
esticados ao sol, olhando o tempo retroceder por força da inércia,
e depois ler todos os livros de que não precisávamos,
sem subversão nem revolução, apenas
alguma preguiça, ter um livro para ler
e não o fazer, dormir até ser tarde demais,
adiar a derrota -

e ele andava a comprar discos para os vender
na Feira e a alguns de nós nas aulas.

Por vezes, eu visitava a banca, aos Sábados,
comprava-lhe bandas, músicas, motivos
para esquecer, gostos emprestados.

Ainda estão para ali, e ouço-os talvez mais
do que ouvia na altura.

Anos depois, soube que se tinha
perdido numa estrada a caminho do Sul,
uma curva, um metro a mais, desolação.

A morte é a memória de um rosto
que se vai perdendo, um breve relâmpago.

Uma banalidade tremenda.
Vale a pena?

05/12/11

Encontro

Roubo ao passar por ele, grave decisão,
a dignidade da solidão,
e recolho-o em minha casa,
decidido a derrotar a miséria humana
e todos os seus reclusos, a quem os pontapés
que a vida dá deixaram de doer, e as feridas
comidas pelos animais traidores
que em tempos lhe fizeram companhia
parecem cintilar, cicatrizando,
promessa de absolvição.

Grande história, a que lhe contaram os pais -
no seu berço ouvia mentiras e acreditava nelas,
preparava-se para aquilo a que se chama maturidade,
o desprezo da vida adulta, intermitente
e carcomida pelo medo e pela hesitação,
a sombra de uma derrota como um cão
mordendo as pernas.

As mentiras, rosto do conforto familiar -
narrativas, livros, fieis depositários de um grandioso engano -
os sorrisos disfarce, demónios entrando pela pele,
percorrendo o sangue e saindo em golfadas pela boca.
Antes vinho, carrascão,
bebido na companhia amena dos outros desterrados,
almas penadas encostadas às esquinas das ruas
cravando ao próximo alguns minutos mais de esquecimento,
tocando o frio da calçada, na radiosa celebração da bebedeira.

Deixai-me efabular sobre o desconhecido
a quem nunca guardei, e acreditar que na recusa,
e  na vergonhosa metáfora de um poema,
vencerei a morte e a sua finta, jogador medíocre
a quem a sorte soube dar o merecido destino.

Não tenho direito a gravar nesse nome a minha cruz -
a luz de um novo encontro é breve, e a manhã tarda.

04/12/11

Melancolia (mas da parva)

Lars von Trier conseguiu. Outra vez. Criar um mastodonte pretensioso, caricato e obcecado com o seu próprio umbigo. Melancolia é tudo isto em tons sépia, como convém num filme sobre o fim do mundo - ou lá o que é -, uma obra sobre cortar os pulsos que quase nos impele a isso. Desprovido de subtilezas - mas o realizador nunca se preocupou com isso -, repetindo temas anteriores, um grito na cara do espectador com a densidade filosófica do correio sentimental da revista Maria. 
Em tempos, gostei de Ondas de Paixão - mas admito que, se eu o revisse, talvez mudasse de opinião. Dogville é excelente, por conseguir chegar a um nível de abstracção que o transforma num objecto que reflecte sobre a sua própria importância, um ensaio metaficcional sobre o mal e as suas consequências, uma obra conceptual sobre os limites da artificialidade e do naturalismo da representação cinematográfica. O contrário de Dogville é Melancolia: indigesto e farto, depósito de citações de pintores - Pré-Rafaelitas, Românticos alemães -, uma espécie de paródia involuntária ao cinema da contemplação metafísica - como se fosse um Malick de quinta categoria ou um Tarkovsky superficial, sem espessura - e manifesto da neurose pessoal do realizador dinamarquês. Só se safa mesmo Kirsten Dunst, que parece ter conseguido fazer melhor figura que outras mártires do cinema de von Trier, como Björk ou Charlotte Gainsbourg (fraquíssima, o que é uma pena tendo a conta a linhagem da qual descende). 
A polémica do último festival de Cannes - o elogio provocatório e infantil a Hitler - é uma nota de rodapé, perante o desastre preguiçoso e auto-contemplativo que é Melancolia. Prémio de Melhor Filme Europeu do Ano? Não quero saber quem seriam os outros concorrentes...

Passarinhos e melancolia

Virginia Astley, From Gardens Where We feel Secure. É o único álbum em casa. Piano, flauta, oboé e sons da natureza. Coros virginais. O chiar de um baloiço. Balir de ovelhas. Música melancólica para dias cinzentos, não tão perto do new age que não justifique o incondicional amor. 
Os sons recriam imagens, ligações do inconsciente. O filme de Peter Weir, Piquenique em Hanging Rock. As meninas do colégio privado que se perdem na Natureza. Sinos na distância, a chamada para a missa de Domingo. A igreja de infância? Não, essa era clara, caiada, plena de Verão; arraial com foguetes e alegria. Igrejas inglesas, perdidas na neblina. Os Cinco no campo inglês. Os contos de Arthur Conan Doyle, especialmente o Cão dos Baskervilles - english marshes. A outra Virginia, a de As Ondas. As caminhadas de Sebald no meio de ruínas. A perda e o esquecimento. A recuperação da memória, emergir do passado. Um pulmão de aço. Como na música dos Radiohead. Ordem no caos.

02/12/11

Sudden

Jeff Wall em Santiago de Compostela. E eu não estou lá.

Deriva

Andar à deriva poderá parecer uma imagem poética, ou pior, o destino de um romântico. Mas na realidade é um lastro pesadíssimo. Terá de haver método na viagem, uma perda estruturada, uma certeza. Uma deriva com um rumo traçado.

29/11/11

George Harrison

Passam hoje dez anos desde que partiu para outras paragens aquele que é considerado, pelas melhores famílias, o mais genial Beatle. Não sei, ninguém pode saber, e pouco importa. All in all, é tudo um sonho. Apenas a maravilhosa claridade da guitarra de George Harrison é real. E eterna.

06/11/11

Cinismos

No outro dia, alguém que me conhece mal mas julga conhecer-me pelo que os outros dizem, chamou-me cínico. Senti-me ofendido - com algum dramático exagero, claro. Ele corrigiu para sarcástico. Mais perto. Não sei se o erro se deveu a uma percepção errada do sentido das duas palavras - na realidade, o que eu dissera aproximava-se mais do sarcasmo do que do cinismo. Apurei com a idade essa qualidade, e tento também acrescentar alguma ironia. Cínico, por favor, é que não. Luto diariamente para manter-me um idealista. Mesmo que o mais sensato fosse o cinismo - o cínico está condenado a acertar no que afirma, não chega a acreditar em nada, sai sempre por cima. Sobretudo, não acredita na bondade do ser humano. Eu ainda acredito. Serei talvez um sarcástico ingénuo. Quem diria?

Lovely

Gemma Arterton. A feminista.

04/11/11

Experience (1)

O relato autobiográfico de Martin Amis, Experience, é um irregular exercício de vaidade auto-depreciativa, uma tentativa de satirizar o seu "eu" jovem e conflituoso, distanciando-se dele no mesmo passo. Os conflitos com Kingsley evoluem em função do precoce ego inchado de Martin e da consequente tentativa de superação do pai. Freud lido à luz da herança artística: o risco de Martin seguir o mesmo ofício do pai é compensado pela distância em todas as outras matérias da vida. Martin implicitamente não aprova o comportamento mulherengo do pai e tanta ser (ou, pelo menos, assim o afirma) um marido melhor. Rejeita as ideias políticas conservadoras (que raiam o racismo em algumas questões) a exibe uma mentalidade progressista (mas não são quase sempre os filhos inteligentes o contrário do exemplo dos pais?). E, à fria e inglesa distância no trato com os filhos que Kingsley nunca deixou de praticar, Martin responde com uma proximidade aberta com a sua descendência.

Não é preciso de dizer que toda esta informação pode ser uma fraude. E a empáfia muito segura de si não esclarece a suspeita. Tirando isso, um estilo vivo, claro e elegante mantém o leitor sempre à tona.

01/11/11

White Rabbit


One pill makes you larger
And one pill makes you small
And the ones that mother gives you
Don't do anything at all
Go ask Alice
When she's ten feet tall

And if you go chasing rabbits
And you know you're going to fall
Tell 'em a hookah smoking caterpillar
Has given you the call
Call Alice
When she was just small

When men on the chessboard
Get up and tell you where to go
And you've just had some kind of mushroom
And your mind is moving slow
Go ask Alice
I think she'll know

When logic and proportion
Have fallen sloppy dead
And the White Knight is talking backwards
And the Red Queen's "off with her head!"
Remember what the dormouse said;
"Keep your head"

Keep your head"

31/10/11

Ponto de fuga

Uma ideia. A caminho do sul
fomos os dois ter contigo.
Tu não esperavas,
mas por vezes não gosto de falhar
ou admitir que falhando dou sentido ao que faço,
quando o que eu faço, o que todos nós fazemos,
pouco sentido tem.

(Não escrevo qualquer sentido porque parti,
eu com ele, ao teu encontro, e quando te vi senti o
mesmo que ele, cedi a uma divindade de existência duvidosa, amor.)

Uma ideia. Simples. O sul, ponto de fuga
que não entrava nos nossos hábitos,
uma imagem inventada por poetas
ou o longo plano afastado de Minghella naquele
filme que tu juravas nunca vir a amar.

Mas vieste a encontrar o fio que nos unia
na malha tecida de outra história de paixão e
infortúnio.

Ou talvez tenhas cedido;
o jogo de derrotas fáceis
é determinante para compreender
as razões de nos mantermos juntos.

E chegámos, e tu vieste ter connosco, e perdemo-nos.
Depois fomos de carro até ao fim do mundo,
e parámos a tempo. Iremos parar sempre a tempo,
é essa a minha ideia. Eu, tu. Mais
de um mundo esboroado que apenas ele,
com as suas reconhecidas qualidades de engenheiro,
soube reconstruir, apontar o sul.

(Ou o oeste, tanto faz, o oeste por onde um dia havemos de passar).

A minha ideia. E eu sei que entendes.

29/10/11

Alexandria

                                  "Quando de repente, à hora da meia-noite, se ouvir         
                                                                                              passar a turba invisível
                                                                                   com músicas requintadas [...]
                                               
                                               K, Kavafis, «O Deus abandona António»
                                    
I


onde se perderam aqueles cadernos a que
teimosamente tornavas para escrever
de novo e de novo as mesmas frases
descalços pés apoiados na arcada da varanda
o sol dando-te no rosto cadernos onde
teimosamente ensaiaste alguns
gestos um verão inteiro atrasando-te
onde estão esses cadernos que não 
chegaste a rasgar e a costurar de novo
onde com ténues fios brancos e estreitas
agulhas apenas alinhavaste frases
esses comprados em estações 
de autocarro furtivamente guardados 
em gavetas de armários com chave
(...)

Tatiana Faia, in Lugano, edição Artefacto

28/10/11

The sense of an ending, Julian Barnes

A história contada por Julian Barnes em The Sense of an Ending (que vai ter o título em português de O Sentido do Fim*) é uma história de enganos e descobertas. Reencontrar o fio perdido de uma memória de juventude, de um acontecimento que surpreendeu e marcou um grupo de amigos, em particular o narrador do livro, Tony Webster. O avanço da narrativa faz-se na incerteza. O narrador não sabe o que aconteceu, nem porquê, e vai descobrindo à medida que o leitor descobre. A técnica usada não é especialmente inovadora mas é eficaz a vários níveis: serve a ideia da história e conduz o leitor a um caminho de percepções erradas e ideias construídas e desfeitas, um caminho em que o equívoco pode levar ao desastre e actos impulsivos à tragédia. 
O tema do romance evoca Expiação, de Ian McEwan, no seu pressuposto narrativo, mas a resolução do problema acaba por ser diferente em Barnes. Enquanto McEwan investe no pathos, criando uma personagem, Briony, cujo lastro de culpa que um acto ingénuo, uma errónea interpretação da realidade - normal numa criança de 12 anos - leva a um desespero apenas mitigado pela doença da esquecimento, Tony acaba por ser apenas um peão do destino, e o conhecimento tardio das razões que levaram ao suicídio de Adrian, o amigo de juventude, é um fantasma que o assombra - e assombrará, dado que o livro termina no vazio; da vida de Tony, a conclusão de um percurso de passividade e desistência. A aceitação da calma burguesa, que contradiz os ideais de uma juventude forjada nos swinging sixties, é o espelho invertido do brilhantismo de Adrian, derrotado pelo seu próprio tumulto.
As frases elegantes, a cadência realçando o modo como o narrador olha para o mundo, o domínio perfeito do suspense que qualquer boa história deverá exibir, fazem deste livro um cúmulo na obra de Barnes, que acabou por ser premiado com o Booker. Se mereceu ou não, pouco interessa; o resultado final oferece-nos algumas perfeitas horas de leitura, e isso é suficiente.

*Não concordo com esta tradução. Literalmente, poder-se-ia traduzir por "A sensação de um fim" ou, mais livremente, "O sentimento de um fim". É esse o significado da expressão. Mas é claro que Barnes também tentou dar outra dimensão ao título, e neste caso a palavra "sentido" parece bem aplicada. Contudo, o artigo usado em inglês é o indefinido, "an" e não o definido, "the". E quem lê o romance (ou novela) percebe que "fim" é usado no sentido de "closure", resolução. O enigma de um suicídio, a razão que vai para lá da frase de Camus. A grandiloquência da solução encontrada não se justifica.

Nota: a capa da edição portuguesa (da Quetzal, a sair em meados de Novembro) não é totalmente falhada. Mas por que é que não usaram a da belíssima edição original? Mistérios...

O último segredo (de Polichinelo)

"uma imitação requentada, superficial e maçuda"

"abrir com grande estrondo uma porta que há muito está aberta"

"É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorrecções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte."

Tenho quase a certeza de que foi José Tolentino Mendonça, poeta mas também hermeneuta dos textos bíblicos, quem redigiu a nota do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura a propósito da mais recente besta célere de José Rodrigues dos Santos e da pomposa cretinice com que veio anunciar ao mundo que "Jesus não era cristão" e "Maria não era Virgem". O tom indignado da nota, de resto, não era necessário: o ridículo de tais "revelações" de Rodrigues dos Santos não merece troco.

22/10/11

Trêsporcento/Elefantes azuis

O rock português tem vivido nos últimos anos um fulgor que ultrapassa, de certo modo, o dos anos 80, considerada a década de ouro do género em Portugal. Das bandas da editora Flor Caveira e Amor Fúria a projectos que reúnem músicos que vêm da década de 90, tem havido muito por onde escolher; e ouvir. É verdade que na maior parte dos casos, o som está demasiado colado às influências, mas há alguns projectos que têm conseguido ser minimamente criativos, afastando-se do modelo original quanto baste.
Mas a música também é também corrente de influências, e um dos maiores prazeres de um melómano (estamos a falar de pop/rock, mas usemos o pretensioso termo) é descobrir acordes antigos em novas músicas, melodias de bandas de que gostamos numa canção de um novo projecto. Os Trêsporcento conseguem ser um objecto musical que cruza as duas particularidades - a criatividade e o gosto por referências acima de qualquer suspeita - de modo significativamente estimulante. Este é a primeira música deles a rodar intensamente nas rádios, graças à Antena 3, e é retirada do álbum "Hora Extraordinária". É excelente.

(Devo evidenciar que o facto do Lourenço Cordeiro, benfiquista dos sete costados, pertencer à banda, não me influenciou minimamente na escrita deste post.)

Pequenas derrotas

As pequenas cobardias do dia a dia são como pedras moendo devagar; o coração acaba por se transformar num animal encolhido, tremendo de medo. E somos mais depressa derrotados.

18/10/11

Barnes/Booker

Os prémios pouco têm a ver com literatura, mas isso não significa que The Sense of an Ending não seja uma grande novela. Uma belíssima e serena reflexão sobre os equívocos da juventude, sobre o declínio e sobre as subtis mudanças que sofremos à medida que vamos envelhecendo. Um grande livro de Julian Barnes. Esteja ou não satisfeito com o reconhecimento, merece os parabéns.

A Casa é Infinita/Tomas Tranströmer

Primavera de 1827, Beethoven
iça a sua máscara da morte e parte.

As rodas continuam a girar nos moinhos da Europa.
Os gansos selvagens voam para Norte.

Aqui é o Norte, aqui é Estocolmo
piscinas apalaçadas e condomínios.

Os toros na lareira Real
desabam de Alerta! para À Vontade.

A paz prevalece, vacinas e batatas,
mas os poços da cidade respiram profundamente.

Pela noite, canhões são levados em segredo pela Ponte do Norte,
como se fossem paxás sentados em cadeirões de veludo.

O pavimento de pedra fá-los vacilar
donzelas mendigos cavalheiros.

Implacavelmente quieta, a placa
com o negro fumando.

Tantas ilhas, tanto para remar,
os invisíveis remos contra a corrente!

Os canais são transitáveis, Abril Maio
e o mês de Junho, doce e gotejante como mel.

O calor chega às ilhas mais distantes.
As portas na aldeia estão abertas; menos uma.

O ponteiro do relógio-cobra lambe o silêncio.
As encostas rochosas brilham com a paciência do geólogo.

Aconteceu assim, ou quase.
É uma obscura história de família

sobre Erik, derrotado por uma maldição,
inutilizado por uma bala disparada directo à alma.

Foi à cidade, encontrou um inimigo,
e regressou de barco, doente e cinza.

Fica de cama todo aquele verão.
As ferramentas na parede estão de luto.

Ele jaz acordado, ouve o esvoaçar felpudo
das mariposas, as suas companheiras ao luar.

A sua força esvai-se, tenta lutar em vão
contra a armadura de ferro, o amanhã.

E o Deus das profundezas grita das profundezas
"Entrega-te a mim! Entrega-te!"

Todo o movimento à superfície se volta para dentro.
Ele é despedaçado, recomposto.

O vento levanta e os arbustos
de rosas selvagens ondulam à luz fugidia.

O futuro floresce, ele olha
para o caleidoscópio auto-giratório

e vê trémulos e indistintos rostos,
rostos de familiares ainda por nascer.

Por engano, o seu olhar apanha-me
enquanto eu passeio aqui em Washington

por entre casas imponentes sustentadas
por colunas alternadas.

Prédios brancos que parecem crematórios,
onde o sonho dos pobres se transforma em cinza.

A suave encosta descendente torna-se mais íngreme
transformando-se subtilmente num abismo.


(Versão a partir da tradução de Robin Fulton para inglês, incluída no livro New an Collected Poems, ed. Bloodaxe Books.)

16/10/11

Laços

Reencontro familiares que já não via há perto de vinte anos. Os rostos envelhecidos espreitam-me de um sonho. Os meus recorrentes sonhos sobre a infância e a adolescência, os sonhos dos lugares a que não poderei voltar - sabemos que ao passado não se pode regressar. Há contudo uma alegria, uma breve percepção de alegria, no reencontro: a pele gasta e as rugas não escondem a expressão que eu conhecia. Volto a vê-los e é como se os vinte anos tivessem sido um sonho. E as vozes, são também as mesmas. Fantasmas vivos, que conversam, ouvem e riem.
Não sei ainda se fiz mal em me afastar deles ou se fiz bem, para os poder recuperar numa idade em que finalmente consigo valorizar os laços de sangue. O amor, mais ou menos manso, que nos ensinam desde o nascimento.

Constanza style

Toronto, 15 de Outubro de 2011. Foto de Graeme Bacque encontrada no Facebook.

15/10/11

Uma fábula

A estupidez é uma forma de violência
que impõe a sua lei num país de cobardes e oportunistas,
gente que aceita a sua condição de moeda de troca
menos valiosa do que os escravos que vinham de África
- ao menos sabiam da sua condição, eram mais lúcidos -
e mais depressa descartável, porque nem a força do trabalho
serve num tempo em que tudo se joga no vazio,

a crise financeira abateu
os corações e tornou o povo fraco
derrotado ordinário sereno e feliz
acomodado ao conforto burguês dos
bens hipotecados, dos empréstimos a prazo,
da esperança que regressa na próxima mudança de governo,
da sensação de fim, da pacífica eutanásia

de um vigor de que não se tem memória,
de uma força há tanto desaparecida
que apenas se prolonga na falsidade
da literatura, em verso ou em prosa,
escritos de antigos heróis cujas estátuas povoam
as nossas rotundas -
a modernidade chegou com uma inauguração autárquica

e com o aplauso geral das senhoras de estola (aquelas
que pensávamos ser apenas figuras de ficção)
e dos mafiosos príncipes da desolação,
chupando fálicos charutos e sorrindo para as câmaras
de televisão, rindo na cara do povo que lhes deu o voto
e lhes desculpa o roubo, a cara-de-pau, a ostentação,
e tudo mais que dali venha, pois o respeito

é bonito, e aprendemos a ser homens aceitando
o eterno constante, o que aprendemos na escola,
a admirar ao longe os feitos de uns barbudos
revolucionários que trouxeram a "liberdade" à pátria,
ou então aprendemos a desdenhar
e a culpar esses barbudos revolucionários
pela decadência agravada.

Imagens do presente que repetem
derrotas do passado, e o desassombro
permanente, a satisfação de aceitarmos o cansaço,
de sabermos que pouco podemos fazer para mudar
a epidemia geral da estupidez, a sua carantonha feia,
habituados e tristes, fodidos e anestesiados,
mal pagos pelos criminosos que escolhemos

para decidir as nossas vidas,
abraçamos de bom grado o que aí vem,
e nenhum fervor provisório, nenhum terramoto,
nos resgata do estado de estupor a que decidimos
submeter aquilo que somos, aquilo que achávamos ser,
o que em tempos julgaríamos alcançar.

Ainda há tempo?

14/10/11

The sense of an ending (em eco)

O sentimento de um fim. O título do livro de Julian Barnes rima estranhamente com o estado do país. O dia de ontem, acabado de passar, anuncia tragédias iminentes, o desastre absoluto. Oficialmente em depressão, a nação parece caminhar em direcção ao abismo. A Europa afunda-se, e nós com ela. Resta-nos confiar na História; nos seus ciclos e na sua provisão, aceitar que não é apenas o bem estar económico que traz felicidade. A palavra que se tornou tão desprezada em determinados círculos continua a fazer sentido. A história não vai acabar.

13/10/11

The Sense of an Ending - na companhia de Ulysses (5)

Julian Barnes preparou o terreno até chegar à primeira surpresa do livro, mas eu não percebi. O que era, até certo momento, uma desapaixonada memória de juventude transformou-se numa reflexão sobre o sentido da vida a partir da célebre primeira frase de Camus: "O suicídio é a única questão filosófica".
Não me interessa resolver agora esse problema - ainda há quem se atreva a tentar? - mas antes realçar a perfeição do efeito. Os sinais, subtis, de que a narrativa iria sofrer uma inflexão dramática - como a vida, lá está, como a vida - foram semeados pacientemente por Barnes, sem nunca deixar de cativar o leitor  com episódios mais ou menos picarescos da história das personagens. Curiosamente, a tal questão filosófica é um tema que terá mais a ver com as pretensões da juventude do que com a sabedoria da velhice. Mas apenas o desenrolar do fio do romance poderá confirmar esta intuição.
Entretanto, em Dublin decorre o funeral de Paddy.

11/10/11

Ulysses (4) - na companhia de Julian Barnes

Sair do caos da Dublin joyceana para a memória ordenada de Julian Barnes. 
O título do seu mais recente romance, The Sense of an Ending*, contém uma promessa de revelação. Melancólico e banal, poético e coloquial. Depois da leitura de Nada a Temer, apeteceu-me voltar a Barnes. A mulher dele entretanto morreu. Pat Kavanagh, uma das protagonistas de uma querela literária no meio britânico com Martin Amis, de quem era agente. Amis e Barnes eram amigos, e também eles se afastaram depois da zanga.**
A sombra da mulher, cairá sobre a novela? As primeiras trinta páginas parecem ser a típica narrativa de um escritor a entrar na idade crepuscular. Há aqui e ali alguma ironia distanciada - sobretudo na descrição que o narrador faz das tolices de juventude - mas a carga humorística característica de Barnes parece ter-se esvaziado.
As dores da velhice pesam; mais no corpo do que no espírito, como Stephen Dedalus ainda não sabe. Nem Joyce saberia quando estava a escrever o seu Ulysses. A vitalidade transbordante da epopeia dublinesca nada tem a ver coma serenidade desiludida de Barnes. Por isso, vou continuar a ler os dois em paralelo. Até ver.

*Belíssima capa, a da edição inglesa. Hardback Jonathan Cape, elegante e sóbria, com estilo e graça. As editoras portuguesas continuam a não seguir os bons exemplos porquê?

**Será que depois do desaparecimento dela, em 2008, eles restabeleceram a amizade? Estas histórias paralelas dos escritores começam a interessar-me como nunca até agora. As biografias sempre me passaram ao lado, e apenas recordo de ler com bastante proveito a escrita por Nicholas Shakespeare sobre Bruce Chatwin, um tijolo de 1000 páginas que li durante dois, três meses de um verão da década passada - ou talvez da anterior, não sei; mas foi no verão, isso é certo. A vida de Chatwin - um dos meus heróis literários dos vinte anos - foi uma história mais bem contada do que qualquer uma das suas novelas. Apenas os relatos de viagem - Na Patagónia, Canto Nómada - conseguem ir mais longe na efabulação, na invenção.

09/10/11

Este não é o verso

Não nos ensinaram a perder.

Tanto tempo passado e os mesmos pulhas
lixam-nos a vida, e não é a mãe, não é o pai -
são os pulhas lá fora que nos tramam,
à nossa vulgaridade burguesa,
a necessidade de controlar o tédio,
de pertencer a um mundo tão fragmentado
que nenhuma imagem o poderá remendar.

E perdemos amigos verdadeiros
para ganharmos amigos que nunca iremos conhecer;
perder, perder, perder,
antes de naufragarmos na velhice
e então esquecer a sério os amigos que perdemos,
e a memória dos amores que não iremos recuperar.

Lixam-nos a vida com a permissividade que
nos leva a sentir menos o sofrimento dos outros,
e nós deixamo-nos lixar, felizes
na nossa pacífica derrota, isolados num mundo a que
dizemos não pertencer - mas como pertencemos!

Tudo o que nos ensinaram foi
a saber como ganhar; todas as lições erradas,
e agora submetemos os nossos filhos
à mesma dança envenenada, o testamento
deixado a uma vida que não espera,

porque nada tem a perder.

Ensinaram-nos todas as coisas erradas; e é tão
inútil, a alegria de aqui estar.

06/10/11

Ulysses (3)

Como ser popular sem deixar de ser erudito? Como retratar a alma de uma cidade e dos seus habitantes, de todas as classes e proveniências, criando uma obra de arte que transcende de algum modo tudo o que foi feito antes? Como soar a Pogues nunca abandonando o caminho da epopeia de inspiração homérica? Uma viagem em circuito fechado, urbana, que tem a respiração de uma longa jornada de regresso de casa, marítima.

Tomas Tranströmer

Não correu como eu desejaria, mas não deixa de ser uma boa surpresa.

LISBOA

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!


"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.


A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?

(Tradução de Luís Costa, encontrado aqui.)

04/10/11

C'est si charmant...

... que não resisto.

Stereolab

Os Stereolab são uma daquelas bandas tão elegantes que nada vão perdendo com o passar do tempo. Pop de luxo, com a voz maravilhosa de Laetitia Sadier planando sobre sintetizadores alienígenas e violinos melancólicos. Uma combinação que comove o coração, de tão perfeita. E o vídeo é excelente, inspirado em Jean Cocteau. Não queria que o que eu vou escrever a seguir soasse mal, mas... já não se faz música assim; beleza pura. 

Ulysses (2)

In long lassoes from the Cock lake the water flowed full, covering greengoldenly lagoons of sand, raising, flowing. My ashplant will float away. I shall wait. No, they will pass on, passing chafing against the low rocks, swirling, passing. Better get this job over quick. Listen: a four-worded wave-speech: seesoo, hrss, rsseeiss, ooos. Vehement breath of waters amid seasnakes, rearing horses, rocks. In cups of rocks it slops: flop, slop, slap: bounded in barrels. And, spent, its speech ceases. It flows purling, widely flowing, floating foampool, flower unfurling.

Pág. 45, ed. Wordsworth.

03/10/11

Ulysses

Falando de pretensão: David Lodge sugeriu-me a leitura de Ulysses. Não sou de ouvir vozes, mas acontece - e nesses momentos, tenho de obedecer, qual seguidor de Charles Manson em busca de celebridades ricas. 
Primeira tentativa. Conheço - conheci, em tempos - quem tenha tentado várias vezes sem êxito. Mas eu tenho uma estratégia (que, se tudo correr bem, vou sabotar): ler um determinado número de páginas por dia, mantendo a média ao fim da semana. Fácil. E tem sido como entrar num labirinto. De frases sublimes, de alusões incompreensíveis, de espelhos que reflectem sombras vagas. Curioso é ter-me deparado com poucas palavras que não conheça. Alguns vocábulos irlandeses, é certo, dos quais um ou outro familiares (demasiados filmes com irlandeses e os Dubliners também ajudam). Citações em latim de que se depreende o sentido. Referências clássicas fáceis de detectar por quem não tenha passado metade da vida a brincar com jogos de computador (mas, esperem, eu passei). E aquela imersão na consciência das personagens que deixa qualquer um ligeiramente aturdido; pela destreza na passagem do discurso indirecto simples para o livre e daí para a stream of consciousness, na primeira pessoa. Orgânico parece ser o adjectivo que costuma ser usado, nestas ocasiões. Uma máquina de escrever orgânica. Pode ser.

A esposa perfeita

Sela Ward.

02/10/11

Trigo

Grãos caindo sobre a secura
da terra,
na ponte
as chuvas cessavam,
as
mãos que
misturavam na cova
sementes
e as enterravam tão fundo
que o deus debatendo-se
aos repelões no sangue
de súbito entrava num
silencioso transe.

Tudo se movia nos seus olhos,
e do futuro vigiava como
um velho o eco dos passos
hesitando em volta dos
cadáveres - a plena podridão.

01/10/11

Noites de Verão

Final insatisfatório

I've seen 4 movies that Clint Eastwood directed: Million Dollar Baby, Changeling, Mystic River, and Gran Torino. IMO all 4 of them shared the same characteristics of being too long and slow-paced, appearing aimless, and having boring scripts with unsatisfying endings. They're the type of movies that have me going "This looks interesting" at first, but then by the end I'm thinking "Maybe this really wasn't the type of story that could be made into an entertaining movie". Yet he's hailed as a director. I don't know a whole lot about film, so I was just wondering how much of this is his fault as the director as opposed to it being the fault of the writer(s), and how much he has a hand in changing things to make the movie better as far as pacing and plot go.

De um utilizador do IMDB. A opinião, não surpreendentemente, define a diferença entre um bom e um mau filme, mostrando como o cinema bem feito se aproxima tanto da vida, "demasiado duradoura e lenta, parecendo não ter sentido, com um argumento chato e um final insatisfatório". É isto.

Trust (2)

Mas o amor, claro, é atirar-se de olhos fechados para os braços de uma incerteza. Arriscar a queda desamparada.

Trust

A confiança comporta-se como uma ponte em plena tempestade: se as fundações são fortes, aguenta-se; mas quando cai, leva tudo atrás. Talvez por isso seja mais cómodo ficar do lado de cá da margem, e pagar de vez em quando uma viagem ao barqueiro do Hades, para nos levar ao Inferno dos outros.

28/09/11

Que se lixe

Estamos a chegar a Outubro e estão cerca de trinta graus, todos os dias. O cheiro do fumo das castanhas aparece deslocado; não faz frio e a chuva é uma recordação não muito recente. Vamos culpar o aquecimento global por este excesso divino? Não, prolonguemos o prazer: enquanto der para sentir o ar quente na pele, ó júbilo! E uma esplanada com imperial e tudo. Que se lixe o fim do mundo.

27/09/11

Forever Binoche

Abro a porta

Abro a porta.
Tenho cuidado com os vidros partidos.
Olho constantemente para o mapa 
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa antes de dormir.


Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.


Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz, 
com ou sem vodka.


Golgona Anghel, em Vim Porque Me Pagavam, edição Mariposa Azual.

24/09/11

Nevermind - vinte anos que passaram a correr

No dia 24 de Setembro de 1991, o álbum Nevermind sai para as lojas; no dia 11 de Setembro de 2001, dois aviões embatem nas Torres Gémeas e matam quase 3000 pessoas.
 As duas datas, sem nada que pareça aproximá-las, acabam por ser duas importantes balizas da geração a que pertenço. Em 1991 eu ainda achava que nunca chegaria à idade adulta; em 2001, eu já tinha entrado nessa idade sem me ter dado conta. Até que uma realidade tingida de ficção me desperta.
 A experiência do mundo é sempre individual, solitária; mas os dois acontecimentos certamente marcaram milhões de filhos da bonança dos oitenta. Curiosamente, somos nós, os da Geração Rasca, que agora mais sofremos as agruras de um capitalismo precário.
 E os Nirvana, o que têm eles a ver com isto? Deixando um pouco de parte a música, o impacto de Nevermind foi um fogacho que rompeu o domínio da mentalidade consumista a que o mundo estava submetido naquela época. E, simultaneamente, o exemplo de como o capitalismo joga todas as mãos com um trunfo no bolso: os putos niilistas de Aberdeen, uma pequena cidade no Noroeste dos EUA, tornaram-se de um dia para o outro estrelas planetárias, os heróis que vieram substituir Axl Rose e rock bem composto que formava o gosto da juventude. Como diz Mickey Rourke (outro herói dessa década) em The Wrestler, os Nirvaram chegaram e estragaram isto tudo. E o capitalismo abraçava os que o desprezavam - como sempre o fez.
 E é fácil de perceber como: a pose rebelde do hard rock era um postiço tão evidente como as lutas simuladas do wrestling. Axl Rose batia na namorada mas era um menino mimado com demasiado dinheiro nas mãos e um talento mais do que duvidoso (e nesta frase não entra Slash). As tabelas eram dominadas pelo eurotrash e a britpop ainda não atingira o seu auge. E, de repente, surge uma banda que na aparência tinha um som violento, que remexia as entranhas; e pareciam tão reais, as letras de Kurt Cobain, a sua dor. Os adolescentes marginalizados encontravam o seu herói; e a onda varreria o mainstream, o tal fogacho.
Ao longo do tempo, muito se escreveu sobre as razões por detrás do êxito. Chegou-se a acordo sobre um ponto: entre as linhas de baixo vigorosas de Krist Novoselic, a bateria pujante (e brilhante) de David Grohl, a acidez das guitarras e a voz agreste de Kurt Cobain, escondia-se uma doçura pop que devia mais aos Beatles do que ao punk. Em parte esta acepção é verdadeira: Cobain admirava a banda inglesa. Mas os especialistas musicais não precisariam de ir tão longe. No punk - a linhagem directa dos Nirvana - sempre houve muito pop. Ou será que os Ramones nunca ouviram Beach Boys? E os Sex Pistols, não serão eles um dos melhores exemplos de aproveitamente da cultura popular de sempre - a imagem, acima de tudo, a pose?
 In Bloom, a segunda faixa do álbum, é a prova disfarçada: no vídeo, a banda finge ser dos anos 60 - as raparigas gritam e puxam os cabelos, os rapazes deliram. A ironia provocatória da evocação era auto-indulgente. Servir os servos, como cantaria depois Cobain. As multidões ululantes eram servidas. Vendidos, sim, mas a gozar o melhor tempo da vida.
Os três sempre tiveram um sentido cénico insuperável. Cobain provocava, Novoselic seguia-o, Grohl é, sempre foi, um bom actor. Se assim é, o que diferenciava os Nirvana das bandas rock que os precederam? Encenar a verdade sempre foi o mais difícil. E Cobain acabaria por perceber isso demasiado tarde.
E a música, claro, a equação: um dos melhores baixistas rock dos últimos anos; um Cobain que decidiu incorporar melodias trauteáveis nas suas composições; e um baterista que entrou e revolucionou o som da banda. O que mudou, de Bleach para Nevermind, passou muito pela entrada de Grohl. As variações rítmicas de Nevermind - a tal cadência lento-rápido-lento roubada aos Pixies - encaixam-se na perfeição às melodias vocais e instrumentais. E a produção de Butch Vig aprimora o som, limpa-o de impurezas, corta e cola até se encontrar o single perfeito.
Mas as massas de jovens que os adoravam - no sentido religioso do termo - não poderiam perceber estas subtilezas. A eles - a mim - atraía o desespero urgente de dizer alguma coisa ao mundo. Os gritos de Cobain eram também os gritos dos jovens que o bem-estar material e o desconforto espiritual tinham castrado. Os slackers, os loosers (da canção de Beck), a geração rasca.

23/09/11

Cosmocópula

O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro


Natália Correia

Wonder woman

Nikontruffaut

Vou subindo as escadas.

E a cada degrau vou esquecendo
a cadência vulgar do passeio;
turistas de Nikon ao peito, abandono-os
à sorte de uma vida estreita;
pouco depois, Truffaut à minha frente
e uma flor seca; e eu imagino chorar,
enquanto dou pão a um gato; o vazio
foi-se alojando nos ossos.

O frio que não faz, o romantismo esvai-se
(em sangue) e eu abraço-te.

Vamos; descendo as escadas.

21/09/11

Double Kool Thing

O sintoma

É revelador o tempo que David Lodge dispensa ao elogio dos escritores que conseguem criar personagens de carne e osso, mais próximas das pessoas do que a própria realidade nos permite estar. Do romance clássico de Jane Austen ao modernista James Joyce, acabando no pós-modernista Martin Amis, a análise que é feita parte sempre da capacidade que o romancista tem de revelar a consciência, o eu, das personagens. Se a bitola - de resto, toda a crítica anglo-saxónica repousa neste modelo - fosse aplicada aos romances de autores portugueses, viríamos a descobrir que desde o Modernismo - ou ainda antes, desde Eça - não existem verdadeiras personagens, antes tipos ou, na melhor das hipóteses, projecções do eu do autor. Da burguesia de Jorge de Sena às massas proletárias dos neo-realistas, das personagens conceptuais de Carlos de Oliveira aos bonecos do ventríloquo José Saramago, culminando no Lobo Antunes atomizado, que consegue, ao longo de dezenas de livros, inventar (?) personagens que falam e pensam sempre da mesma maneira, são poucos os escritores que escapam. José Cardoso Pires, Agustina, Mário de Carvalho, Mário Cláudio, mais um ou outro esporadicamente. E a nova geração parece ter aprendido as lições erradas - à excepção de Gonçalo M. Tavares. É raro o escritor português que domine o estilo indirecto livre - e é este o sintoma que denuncia a doença. 
Precisamos  de voltar a ler os clássicos, desta vez como deve ser.

...

Já não existem poetas;
o último morreu em agonia,
escrevinhando um ridículo poema de amor
para uma namorada cega.

16/09/11

Too afraid

"Honey, we all got to go sometime, reason or no reason. Dyin's as natural as livin'. The man who's too afraid to die is too afraid to live."

Cat people

Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar -
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.

Margarida Vale de Gato, em Mulher ao Mar, ed. Mariposa Azual

13/09/11

Marketing, mas do bom

Estive a ler textos antigos. Em 2006, começava a reler Rentes de Carvalho. Em 1996, conhecia-o de nome, alguém que vivia na Holanda me falou do escritor português que vendia apenas por lá. Dois anos depois devo ter lido o primeiro livro dele. Já não tenho a certeza, e não estou com vontade de ir espreitar os livros de capa branca da Escritor. Agora, todos o lêem. Ainda bem. Nem todos os marketeers têm lugar reservado no Inferno.

12/09/11

A inconsciência e o romance

Calhou ter em mãos o livro de David Lodge, A Consciência e o Romance, quando me deparei com uma frase do escritor israelita Lev Grossman: «Being a novelist demands arrogance […] "To be a good critic, you have to be humble." Não há acasos que possam ser descuidados, mesmo em assuntos tão pouco importantes como a literatura, ou ridiculamente menores, como a crítica literária. Lodge é também um (excelente, embora não tão valorizado como deveria) romancista, mas é sobretudo respeitado pelo seu trabalho académico e crítico. O caso é simples: a arrogância deverá ser uma das qualidades de um bom escritor; a modéstia nunca terá sido boa conselheira. Depreendo que Grossman estará a falar daquela arrogância que obriga o escritor a prosseguir, quando a razão aconselha o contrário. A velha questão: como escrever, o que escrever, depois de tudo que já foi escrito? Imagino que a dúvida terá levado, ao longo do tempo, ao desespero e ao suicídio; ou pior, à desistência. Robert Walser foi dos mais sensatos: internou-se num hospício e inventou uma escrita aparentemente indecifrável (até alguns investigadores com demasiado tempo em mãos a terem decifrado), até à morte - de resto excessivamente romântica para os usos da época; nem a tísica, nem a morte de amor, nem a descoberta de um corpo sobre a neve; tudo tão batido como o ferro às mãos do metalúrgico.
Mas há quem continue a escrever; e publique; e apareça em todo o lado envergando o sobretudo do "autor". Um mercado dentro do capitalismo, vivo e aparentemente de boa saúde. David Lodge acha que foi Charles Dickens o primeiro autor famoso. Não uma celebridade - outros já o tinham sido antes dele. Famoso. Não sei se terá sido Dickens o único autor famoso que tinha, digamos, qualidades inegáveis como escritor. Depois dele, a decadência.
O problema de muitos escritores contemporâneos é que lhes sobra em empáfia o que lhes falta em talento. A arrogância não será uma virtude, mas sim uma necessidade. Para continuar. E falhar. E voltar a tentar.
Quanto à humildade do crítico, a verdade da frase de Grossman é mais um desejo do que a realidade. Como poderá um romancista conter um ego em busca de reconhecimento ao escrever sobre os outros? Os grandes conseguem. Os outros não são críticos. 

Contra Mundum

Se eu quiser procurar boa crítica literária nos jornais portugueses, dificilmente a encontrarei. As excepções a esta regra são submetidas ao espartilho cada vez mais estreito do limite de palavras. A blogosfera - por muito que António Guerreiro não queira - apoderou-se desse espaço deixado vazio pelos media tradicionais. Há alguns blogues que poderia dar como exemplo; todos estão na barra lateral. Desses destaco o Contra Mundum, pela rigorosa reflexão condensada em breves actualizações, ritmo de trabalho em progresso. Obrigatório.

11/09/11

As novas gerações

Um dia iremos acordar falidos,
sem nenhuma hipoteca moral que nos salve
da ruína - e isto não é uma metáfora,
a bancarrota virá e seremos arrastados,
e o que diremos então dos passivos, desnecessários,
do amor e da poesia e das tardes cismando
nas acções por concretizar, a maré baixa
do rio ecoando fantasmas.

Esse dia, radioso, em que a necessidade dispensa o ócio;
a utilidade que o tempo edifica,
preencher os minutos, correndo de um lado
para o outro, construindo coisas mais reais do que a estupidez
da literatura, os seus ocasos verbais
imagens de um qualquer tédio – aí chegados, nós,
reminiscência de um tempo que os jovens
não recordarão – assim se orgulham de ser as novas gerações.

O dia - negro, furioso - erguer-se-á com homens a cair de prédios altos,
esse movimento descendente ressoando outros homens do passado,
e o símbolo fixar-se-á ao eixo temporal como um alicerce de aço: quando
um mundo acaba, homens matam-se para fugir à morte,
e não lamentaremos a ironia da desgraça - uma certa beleza
deflagra no momento em que no ecrã o corpo é um risco
no céu, uma mancha contra a cidade que se prepara para a derrocada
como se fosse uma velha actriz na sua última estreia.

Mas este dia, hoje, é límpido, agora, é límpido e claro;
choveu de manhã, é certo, mas a tarde irrompeu
como um insecto da toca, colocámos sobre os joelhos
a velha manta da melancolia, ligámos a televisão
e adormecemos a ver um filme romântico; chega-nos isso.
O crédito que nos proporciona a felicidade não sofre
das flutuações do mercado, seremos náufragos num mar de hipotecas
furadas, remando contra a corrente das empresas falidas; amarrados

a uma proa, a salvo da morte das sereias, actores de uma epopeia
suburbana que apenas deseja ser lida nos corredores
dos supermercados e nos comboios que regressam a casa.

Moral? Não nesta casa; a tarde, incurável,
não deixa que a noite se inicie. O ritmo familiar
é uma venda nos olhos - seguir, sempre, em frente.