18/05/20

Noite de Lisboa com auto-retrato e sombra de Ian Curtis

filamentos de gelatinoso néon
invadem a catedral em celulóide do filme nocturno:
arquitectura de asas abóbadas de vento
pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem
que rasteja de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar
mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo
duma geração de subúrbio presentes
aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça os vidros esfregados
nos ombros
no peito onde uma veia rebenta
para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
sobre o rosto suado
com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça
alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura só é perceptível
na súbita erecção do enforcado

Al Berto

Ian Curtis morreu há 40 anos.

11/05/20

De Without: Poems


(...)

Remembered happiness is agony;
so is remembered agony.
I live in a present compelled
by anniversaries and objects:
your pincushion; your white slipper;
your hooded Selectric II;
the label basil in a familiar hand;
a stain on flowery sheets.

(...)

Donald Hall

03/05/20

May

When I looked down from the bridge
Trout were flipping the sky
Into smithereens, the stones
Of the wall warmed me.

Wading green stems, lugs of leaf
That untangle and bruise
(Their tiny gushers of juice)
My toecaps sparkle now

Over the soft fontanel
Of Ireland. I should wear
Hide shoes, the hair next my skin,
For walking this ground:

Wasn’t there a spa-well,
Its coping grassy, pendent?
And then the spring issuing
Right across the tarmac.

I’m out to find that village,
Its low sills fragrant
With ladysmock and celandine,
Marshlights in the summer dark.

Seamus Heaney

24/03/18

O mal

Olá de novo,
diz o sacripanta, o infernal, o odioso tirano
desse tempo.
Olá de novo,
olho para ti e do fundo desse temporal
nasce uma acalmia tal
que não podes fazer nada senão sucumbir,
cair como essas folhas mortas pousadas destroçadas sobre a casa.
Olho para ti do fundo desse lago
e o teu rosto é um espesso logro
do qual não vais recuperar, sabes,
um tecido barato, fazenda podre,
espécie de lama desenformada
de onde não despontará nunca nunca vida.

A carta que enviaste está no lixo
e a breve trecho os teus passos
não serão mais do que um eco de uma sombra.
Olá de novo, vem a meus braços,
alegre idiota que pensa saber de cor
a melodia do meu maldito canto.
Não sabes, alegre idiota, e não conheces
a esquina onde te vou emboscar.
Que essa dança que te ofereço não é mais
material do que o último sopro do temporal.

E lá fora tudo se cala, tudo se cose, tudo é mortalha, falha, o mal.

06/02/14

365 forte

Este blogue não será o mais adequado a escrever sobre a actualidade. Ainda pensei continuar por aqui o que fazia no Arrastão, mas faz mais sentido fazê-lo num blogue colectivo. Por esse motivo, aceitei o convite para escrever para o 365 forte. Por aqui, a vida continuará, mas sem política.

31/01/14

"Vergados à sua vontade"


Ao longo da História, o prémio de maior vilão tem sido firmemente disputado entre a realidade e a ficção, e não se pode dizer que haja um vencedor previsível ou definitivo. O mal real, palpável, traduzido em actos hediondos, concorre com o mal ficcional, criado a partir de palavras ou do desempenho de actores.

Mas os vilões da ficção levam vantagem neste confronto. Conhecemos as motivações, convivemos com eles, chegamos a sentir as suas dores, as suas razões, as suas penas. A mestria do criador permite que muitas vezes sintamos simpatia por parricidas, assassinos em massa ou seriais. O anti-herói, uma das mais perversas categorias criadas por escritores - e que o cinema aproveitou, enriquecendo as palavras com inesquecíveis imagens -, colocou-nos num campo desconfortável: o da relatividade moral. Ao compreendermos as intenções de um assassino, ao vivermos com ele o desconforto, ao encontrarmos motivos para os seus actos hediondos, desistimos de parte da nossa humanidade? Talvez não. Porque ao confrontarmo-nos com o lado mais negro da alma humana - o vilão é sempre uma extensão da psique, uma emancipação do ego sobre os constrangimentos das regras de convívio social -, exorcizamos a violência gerada pelas agressões do quotidiano. Aceitamos os impulsos homicidas de Dexter porque há sempre uma extensão de nós que compreende o fascismo da violência que combate a violência. Entendemos a deriva niilista de Walter White porque vivemos as nossas vidas recolhidos na mesma placidez doméstica castradora de que ele tenta libertar-se ao longo da série.

Os escritores moldam as suas personagens como barro, mas moldam também os corações e o espírito dos seus leitores. Ao escolherem vilões como personagens principais, sabem que estão a conduzir o leitor para um jogo perverso. Quem ama uma história ama também quem a protagoniza. Mesmo quando no fim o vilão acaba por ser derrotado. Estamos do lado de quem, de Iago ou de Othelo? 

Mas a realidade é outra coisa. Mantém-nos à distância, impossibilitados de compreender actos extremos. O assassino em massa que, enfiado dentro de uma caixa de vidro, clama pela normalidade do que fez, é um estranho. Em vão lemos as notícias de jornal procurando saber as razões pelas quais alguém decidiu fazer o que fez. Conhecemos as confissões, as cartas escritas, os livros que relatam as atrocidades, mas haverá sempre uma zona de sombra a que não acederemos. O impulso homicida, o sadismo, parecem estar apenas a um palmo de distância, mas são inacessíveis, existem para lá da barreira de vidro. Por isso, não se compreende a defesa ensaiada por este advogado. Defensor de um dos cúmplices de uma mulher que matou três pessoas e tentou matar mais duas, decidiu associar o carácter da assassina, Joanna Dennehy, ao dos vilões do teatro shakespeareano. Afirma que o seu maquiavelismo e a capacidade de manipular quem a rodeava levaram a que o cliente que ele defende a tenha ajudado a cometer os crimes de que é acusada - como se o livre arbítrio se tivesse ausentado das decisões tomadas pelo cúmplice. Encontrar na literatura a defesa para a violência da realidade é arriscado, não lembraria a ninguém - ou lembraria apenas a um advogado, essa figura de moralidade esquiva também retratada com especial cuidado por muita ficção. Contudo, desconfio que os juízes não embarcarão na conversa do advogado. Olhamos para a fotografia da serial killer e encontramos ali a tal opacidade impenetrável, o limite que não queremos ultrapassar. Que diferença em relação aos vilões literários, figuras de apelo irresistível, companheiros de muitas horas bem passadas. A realidade é demasiado real para ser suportável.

30/01/14

Exílio

I'm not of those who left their country
For wolves to tear it limb from limb.
Their flattery does not touch me.
I will not give my songs to them.

Yet I can take the exile's part,
I pity all among the dead.
Wanderer, your path is dark,
Wormwood is the stranger's bread.

But here in the flames, the stench,
The murk, where what remains
Of youth is dying, we don't flinch
As the blows strike us, again and again.

And we know there'll be a reckoning,
An account for every hour... There's
Nobody simpler than us, or with
More pride, or fewer tears.


Um poema de Anna Akhmatova sobre os que ficaram, encontrado n'O Melhor Amigo.

29/01/14

O duelo


Rússia, pátria de Dostoievsky e de Gogol, a nação dos funcionários irascíveis e das paixões exacerbadas - pelo frio e pelo álcool. O carácter sanguíneo da alma russa - não posso falar com certeza sobre isso, mas acredito no que os escritores me vão dizendo - é um dos traços distintivos da literatura produzida, assim como da sua história. Raskolnikov, levado a um extremo de violência por necessidade, ou Ivan, o Terrível, o tirano retratado por Eiseinstein no filme homónimo, partilham características únicas. 

Depois de há uns meses ter sido notícia uma discussão sobre Kant que acabou com um disparo de pistola, hoje voltamos a ter mais uma prova da singularidade da alma russa. Dois homens envolveram-se num combate de ideias que acabou por ganhar uma fisicalidade inesperada, tendo tudo terminado na morte de um deles, à facada. Podemos lamentar o desfecho trágico da peleja, mas certamente temos de admirar que tudo tenha começado por causa da literatura. O eterno combate entre poesia e prosa teve o seu corolário lógico numa casa em Irbit, nos Urais, onde um convidado, antigo professor de literatura, não conteve a paixão na defesa da sua dama, a poesia, e assassinou o seu anfitrião, fervoroso defensor da prosa. Certamente que o álcool - se tudo tiver corrido de acordo com o esperado, terá sido vodka - e o frio extremo daquela região terão contribuído para tão funesto fim, mas a verdade é que a essência da discussão é tão original e irresolúvel que, de certo modo, acaba por ser natural o extremismo das duas posições. Vejamos: quem, na realidade, poderá preferir Tolstoi a Pushkin (que, recorde-se, morreu ao vigésimo nono duelo em que esteve envolvido, imitando Lenski, personagem da sua obra mais conhecida, Eugene Onegin), ou Tcheckov a Mandelstam? Será Dostoievski o escritor que melhor exprime as angústias da existência ou Tsvetaeva consegue ir mais longe na representação de todas as particularidades da condição humana? Será a poesia de Boris Pasternak superior à sua prosa? E Nabokov, o russo que escrevia em inglês, emigrante na América, representará melhor a literatura russa do século XX do que Anna Akhmatova, que lutou contra o regime estalinista sem nunca ter abandonado o país?

Na aparência, estes combates literários parecem fáceis de dirimir: a escolha entre poesia e prosa é absurda, pela sua natureza e pela sua forma. Contudo, não devemos menosprezar as contradições e o fogo da alma humana. No fim de contas, quem poderá afirmar com convicção, além de qualquer dúvida, que a literatura não é mais importante do que a vida?

28/01/14

Pete Seeger (1919-2014)


Conheço mal a história e a música de Pete Seeger. E estranhamente o que me trouxe a ele é uma daquelas lendas apócrifas que polvilham a história da música popular. A sua reacção ao concerto electrificado de Bob Dylan no festival de folk de Newport é mítica: furioso pela atitude rebelde do seu discípulo, Seeger terá pensado em cortar os fios dos amplificadores que alimentavam a guitarra de Dylan com um machado, porque não conseguia entender as palavras cantadas por baixo de toda a distorção eléctrica. No momento em que acontecia um ponto de cisão na carreira daquele que será o maior génio da folk, Seeger terá escolhido o conservadorismo, manter-se fiel à pureza do som acústico da folk. O cantor progressista, o activista socialista, não gostou da mudança na música e na atitude de Dylan. Acabaria mais tarde por reconhecer que se enganara, considerando que algumas das melhores canções de Dylan são eléctricas.

E para lá das histórias e do combate, há a música.