Quinta-feira, Maio 22, 2008 

Berlim (excertos) #4

Foto: Susana Viegas

As primeiras cerejas, chegaram. Não vale a pena lamentar o fim do hábito de esperar pela fruta da época; continuemos a fingir que durante o ano inteiro não foi possível encontrar cerejas à venda.
Em Berlim, bancas de fruta e legumes encontram-se nas estações de metro, nos terminais de comboios; por trás da banca, raparigas polacas ou ucranianas vigiam quem passa e esperam que quem passe pare e compre os morangos, os espargos, as cerejas. Meio quilo custa quatro euros - muito mais do que por cá, contrariando a tendência de preços da cidade. O ruído dos comboios, contínuo (passa um de dois em dois minutos), o movimento das pessoas, mais lento do que se poderia esperar, as raparigas de olhos azuis vincados pelo excesso de maquilhagem remexendo na fruta, acondicionando os montes, colocando as maçãs dentro dos sacos, moeda passada de mão em mão.
E as cerejas, brilhando sobre tudo; uma rapariga de lábios da cor da cereja que trinca, relógio da estação no meio-dia, o barulho de um comboio a parar.
Há um ritmo certo para as estações; um ciclo natural para as cerejas. Em Maio, as mãos das raparigas esperam que o tempo curto a que a cereja tem direito seja prolongado para além do razoável. Mas nenhum artesanato pode contra a decadência da casca, da carne, o cheiro a podre que virá. Dentro de alguns horas, a estação fecha, o resto das cerejas vai para o lixo, a rapariga parte no último comboio da noite. Terá de ser assim.

[Sérgio Lavos]

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Berlim (excertos) #3

Foto: Susana Viegas

Na minha bagagem, tenho por hábito levar um livro de algum modo relacionado com a cidade que visito. Conhecer os lugares através da literatura sempre foi mais fiável do que usar um guia turístico. Vila-Matas e Montálban acompanharam-me nas viagens que fiz a Barcelona, Virginia Woolf foi comigo para Londres (e Nick Hornby, em espírito). Mas Berlim era um problema. A língua um escolho, o desinteresse pela literatura alemã (excepto a poesia) uma montanha. Parti sem lastro, sem livros. Mas, compensando, levei muitas imagens. E de quem? Haverá Berlim que não seja a de Wim Wenders, a cidade de Asas do Desejo, de Tão Longe, Tão Perto? Um anjo da Vitória a um metro de distância, a meio da cidade, no centro do Tiergarten, o anjo da panorâmica sobre a cidade, o anjo que Damiel não quer ser, sombra vigilante pairando sobre os edifícios de uma cidade a preto e branco, ainda antes da queda do Muro. A memória atraiçoa a memória, no entanto. Já lá vão anos desde a última vez que vi qualquer um dos dois filmes, e pouco me lembro da história; mas recordo o fascínio, o primeiro fascínio do primeiro filme que vi de Wenders. Não há filme imperfeito que não possa captar a perfeição de um lugar. A paisagem precisa do olhar deslumbrado do estilista; a viagem confirmou a impressão deixada pela câmara de Wim Wenders.
Não precisei de literatura, levei as imagens na bagagem. Berlim pelos olhos de um anjo.

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Maio 21, 2008 

Berlim (excertos) #2

Foto: Sérgio Lavos

A sub-população ajuda a justificar o ar limpo e airoso dos transportes públicos; a tradicional eficiência alemã completa a ideia. A verdade é que poderia ter corrido mal noutra cidade qualquer. Mas o modo como a urbe se organiza, de um centro verde, o Tiergarten, para a periferia cortada a meio pelo fantasma de um muro, explica a perfeição da rede de transportes. Os comboios circulam em redor deste centro, cruzando-o uma ou duas vezes apenas, e o metro atravessa diametralmente o círculo sem incomodar o descanso que a paisagem proporciona. E depois é sempre fantástico passearmos por uma cidade que faz lembrar Metropolis, de Fritz Lang, com as linhas de comboio suspensas a alguns metros das ruas, as carruagens deslizando sobre as cabeças, cortando o horizonte verde que espreita a cada esquina. Por duas ou três vezes, vêem-se edifícios ligados por corredores no ar, e parece que a realidade (mais precisamente, os arquitectos que projectaram a estrutura) imita o cinema. De qualquer modo, quem vive em Berlim nem precisa de desfrutar da eficiência da rede de transportes públicos - todas as ruas são dotadas de ciclovias; milhares de bicicletas circulam, e lá se vai a ideia de que viver numa cidade é menos saudável do que viver fora dela.

[Sérgio Lavos]

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Terça-feira, Maio 20, 2008 

Berlim (excertos) #1

Foto: Susana Viegas

Na praça Breitscheid, a primeira impressão não foi a melhor; cosmopolitismo sujo, restaurantes de fast-food a espalhar lixo em redor, bric-à-brac de lojas ao melhor estilo de praia, souvenirs e livros de saldo, turistas mais ou menos serenados à procura de um lugar melhor para visitar, freaks de garrafas de tinto na mão a atirar migalhas aos rafeiros que os acompanham, músicos mal amanhados a pedirem meças ao seu jeito desajustado. A igreja Kaiser Wilhem-Gedänichts é uma ruína cuidada no meio de escombros da pós-modernidade. O resto da igreja, o altar que as bombas pouparam, apinhado de pessoas espreitando um princípio da história; a nova igreja em frente - no fundo uma desilusão, com edifício da Bayer e centro comercial Europa à mistura, e o berço do festival de cinema, o Zoopalast, envergonhado a um canto da praça.
Naquele nódulo do tecido urbano, a cidade concentra parte do pior, deixando no entanto entrever, acomodada às linhas planas que se estendem a partir dali, a geometria clara e rigorosa que se ergueu a partir de uma ferida. Uma luminosa cicatriz no mapa da Alemanha.

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Maio 18, 2008 

Nationalizar a indústria

Uma semana fora e o único facto político decente foi o memorável concerto dos The National a que não assisti. Rezam as crónicas que até cegos começaram a ver enquanto ouviam os rapazes tocar e o Matt Berninger gingar pelo meio do público - ouviam mesmo Berninger gingar e gritar, não exagero. Assim, falando de cor, à distância, digo apenas: desconfiem dos milagres. É o que eu faço sempre que ouço falar da IURD ou da recuperação económica do país.

[Sérgio Lavos]

 

Minguante nº 10

Da revista Minguante também saiu um novo número. Com um conto meu. Sigam este link.

[Sérgio Lavos]

 

Malagueta #9


Novo número da revista Malagueta. Aqui.

[Sérgio Lavos]

Quarta-feira, Maio 07, 2008 

The Last Shadow Puppets



The Age of the Understatement

É notório: Alex Turner e Miles Kane andaram mesmo a ouvir Scott Walker. O primeiro vídeo foi realizado por Romain Gavras.
Kiss me properly and pull me apart.

[Susana]

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Segunda-feira, Maio 05, 2008 

Um escritor promissor

Carta recebida por L. V. de Camões em 1572:

Exm.º Sr.

recebemos com mui agrado a obra que nos propôs para publicação, e a ela dedicámos atenção e tempo que julgámos ser necessário à fruição devida.
O começo de uma intensa pujança colocou-nos logo de sobreaviso. Longas horas de deleite esperavam por nós, não ouse julgar o contrário, e a perfeita singeleza daqueles primeiros versos não deixavam lugar para dúvidas. Avançámos com confiança e a cada nova estrofe o espanto e a admiração cresciam em nossos corações, tal o labor e a perícia, dignos de um Virgílio ou de um Dante, que sua excelência demonstrava; o ritmo, o labor da construção, a exaltação heróica de um povo, a intromissão da mão divina nos assuntos terrenos, o modo como intercala os mundos conhecidos e os desconhecidos, todos estes predicados nos foram entretendo em tal enlevo que nos fomos mantendo acordados, durante horas e horas de puro prazer estético.
Não chegou uma leitura apenas, confessamos; aquelas páginas, ali pousadas sobre a mesa, continuavam a clamar por nós. Depois de duas leituras, decidimos, no entanto, não ir além com a publicação. Como já deve ter percebido, não se trata daqueles casos muito comuns de recusa por falta de qualidade literária, qualidade que na sua obra é, de resto, indiscutível; mas talvez – e isto se calhar vai parecer-lhe estranho – de um excesso de qualidade; ou seja, cremos que, apesar de a temática da obra ser extremamente actual, a estrutura e a linguagem adoptadas dificultam frequentemente a compreensão da história, fazendo com que o livro não possa ser compreendido no seu todo por um público que não seja suficientemente culto e sofisticado. Talvez as gentes deste tempo não estejam preparadas para um tal avanço nas letras. Como tal, lamentamos o incómodo e agradecemos a profunda emoção provocada em nós pelas páginas por si escritas. Aconselhamos a guardar como o mais rico tesouro a obra que escreveu, para que as gerações vindouras possam descobrir tal manuscrito e assim maravilhar-se com uma relíquia perdida da literatura.

Muito respeitosamente nos assinamos,

(assinatura ilegível)

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Maio 02, 2008 

Via de sentido único

- E se não souberes ler o mapa, o que fazes?
- Podes sempre culpar os teus pais.
- Ou virar o mapa ao contrário.
- Humm...

[Sérgio Lavos]

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Maio de 08

Os tempos nunca foram tão bárbaros para a juventude inquieta a que cada geração tem direito. Faltam causas, é verdade. Sobra materialismo e mil e um gadgets para consumir. Imagine-se, os ideais até se podem comprar no e-bay, enquanto se espera que acabe de descarregar aquele álbum daquela banda que alguém ouviu e acha que daqui a seis meses vai ser ouvida por toda a gente que não está na onda.
Instantaneidade e simultaneidade. Tudo agora e várias coisas ao mesmo tempo - menos o sexo, claro, que os delírios de Zabriskie Point já foram há quarenta anos.
Por isso, a juventude de agora, que tem tudo menos carreira, casa e uma perspectiva estável de futuro, alegremente é alimentada pela teta dos pais de 75, que nada querem fazer para deixar de ser os salvadores de um país perdido no nevoeiro do fascismo.
O problema, caro Watson, é claramente este: isso tudo de que falam, precariedade, desemprego pós-licenciatura, novas oportunidades falhadas, desânimo, depressão e horror com pipocas à mistura é um eterno sonho de uma outra juventude: a dos nossos pais, que com todo o amor do mundo desejam que bem estar, paz, pão e liberdade sejam, não uma escolha dos seus filhos, mas o leite da teta que caridosamente oferecem. Não há uma única solução viável para acabar com o labirinto da falta de escolha que se apresenta a esta geração porque a vontade desapareceu há muito; os pais desta geração puxam a rédea de cada vez que ela se tenta libertar, em perpétuo movimento reaccionário. O resultado de uma revolução sem sangue é uma juventude sem pinga de sangue nas veias.
Independência ou morte? Morte a longo prazo, como o lume de uma vela a extinguir-se (enquanto se ouvem as palavras de uma rock star cantando o oposto).

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Abril 28, 2008 

Um país de sombra

Não poderia ser outra, a pergunta de Francisco José Viegas: em que merda de país é que estamos? Que país é este que vê um jornal nacional fazer capa com uma figurinha tenebrosa, Prince of Darkness de trazer por casa, Cunha Vaz de seu nome, o cromo do mês e dos meses que virão, amigo do seu amigo, no dizer do Henrique Fialho, estratega falhado e com sucesso de Menezes a Carmona, figurinha de cera que se põe em bicos de pés e que deseja ser o maior da aldeia - presumo que mandando num partido, um qualquer, e tornar-se cacique do coqueiro onde vivemos. Ah, lembrei-me: este é o país que teve como primeiro-ministro um homem que perdeu um concurso televisivo para... primeiro-ministro com um sindicalista corrupto, é o país que tem como actual primeiro-ministro um homem que durante alguns anos partilhou o prime-time televisivo com o concorrente de concurso derrotado, em tribuna de excelência para preparar o caminho. Agências de comunicação? Por Zeus, eles apenas partilham a essência do seu mister com as putas: existem porque alguém lhes paga para trabalhar. E os jornalistas? Chafurdam alegremente na lama. Parabéns a todos.

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Abril 27, 2008 

A herança

Levaremos com setenta vezes sete anos de PS, quem quer que seja o futuro líder do PSD. E a culpa, lamentável, não será de MFL, ou PPS, ou até de PSL. A culpa é, não há outra maneira de dizê-lo, de Cavaco. Esse que numa semana assobia para o lado perante o tiranete Jardim e na seguinte afirma que as novas gerações - aquelas que sofrem na pele as consequências de dez anos de cavaquismo - não se interessam pela política, pelos políticos e pela história de Portugal. Curiosamente, a candidata Manuela Ferreira Leite, quando pertenceu ao governo liderado por Cavaco, ocupou um cargo que, ouvi dizer, tem alguma preponderância na hipotética sabedoria da juventude. Pois, parece-me que o facto de ignorância ser uma palavra que poucos jovens conseguem escrever correctamente pode ser uma consequência directa de dez anos entretidos com assuntos tão elevados como o financiamento do Ensino Superior pelo bolso dos portugueses ou os cortes nas bolsas de investigação para pós-graduados; em desprimor da simples educação das questões essenciais da vida: quem somos? De onde vimos? Quem nos governa? E será que merece governar-nos?
O despudor beatífico com que Cavaco assobia para o lado, como se tivesse vindo de um planeta distante para se tornar presidente de todos os portugueses e tivesse deparado com um mundo desconhecido e estranho aos seus hábitos, se não fosse tão repugnante, seria quase digno de um Oscar. E é esta a figura que a direita idolatra.
O problema de Salazar não foi a ditadura de 48 anos; os filhos, legítimos e bastardos, que deixou por aí, são a praga que teremos de suportar sabe-se lá até quando. Para quando a morte, definitiva, do Pai?

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Abril 25, 2008 

25 de Abril

Não me parece ser difícil chegar a uma conclusão: que mais vale viver mal em liberdade do que bem em ditadura. Bem sei que haverá quem não concorde, quem sonhe com um passado em que privilégios e direitos se confundiam, um passado longínquo no qual a manutenção de um estatuto era a única razão para a mudança. Quem suspira pelas criadinhas, o choffeur, a porta aberta e as flores no aniversário, quem lamenta o fim do pudor e o princípio de uma liberdade sexual que conquistou tudo o que havia para conquistar, quem entretém o seu tempo perdendo-se num passado de salões brilhantes e políticos que eram pais da nação, ah, todos estes que foram esmagados pela roda da História, poderia ter pena deles, porque lhes compreendo os sentimentos - a velhice é um cortejo de desilusões, medo e memórias - mas a verdade é que exulto porque são os últimos representantes de um mundo extinto. Nenhuma língua poderá descrever com precisão a sensação de viver em liberdade; esta língua que agora se aproxima apenas se pode usar porque houve uns quantos que se importaram, que recusaram a desistência, que quiseram a mudança, por boas ou más razões, as correctas. Não há derrota que se possa obter que não passe por uma vitória; reclamar contra o 25 de Abril é a principal herança da Revolução. Dizer, falar, escrever. O que somos.

[Sérgio Lavos]

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Um poema

a manhã sacode os lençóis
sobre metais distraidamente preciosos
pede ajuda ao vento
que ele te joeire o melhor trigo
comê-lo-ás saudando o sol de frente
o rosto cavado a terra benévola
desfere aí o golpe
e não fiques à espera do dilúvio
quem é que não voa
depois de triturada e chupada a medula
para o esquecimento de uma montanha?

Sérgio Pereira, in Istmos e Hordas, edições TOMAHAWK, 1997

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