Segunda-feira, Maio 05, 2008 

Um escritor promissor

Carta recebida por L. V. de Camões em 1572:

Exm.º Sr.

recebemos com mui agrado a obra que nos propôs para publicação, e a ela dedicámos atenção e tempo que julgámos ser necessário à fruição devida.
O começo de uma intensa pujança colocou-nos logo de sobreaviso. Longas horas de deleite esperavam por nós, não ouse julgar o contrário, e a perfeita singeleza daqueles primeiros versos não deixavam lugar para dúvidas. Avançámos com confiança e a cada nova estrofe o espanto e a admiração cresciam em nossos corações, tal o labor e a perícia, dignos de um Virgílio ou de um Dante, que sua excelência demonstrava; o ritmo, o labor da construção, a exaltação heróica de um povo, a intromissão da mão divina nos assuntos terrenos, o modo como intercala os mundos conhecidos e os desconhecidos, todos estes predicados nos foram entretendo em tal enlevo que nos fomos mantendo acordados, durante horas e horas de puro prazer estético.
Não chegou uma leitura apenas, confessamos; aquelas páginas, ali pousadas sobre a mesa, continuavam a clamar por nós. Depois de duas leituras, decidimos, no entanto, não ir além com a publicação. Como já deve ter percebido, não se trata daqueles casos muito comuns de recusa por falta de qualidade literária, qualidade que na sua obra é, de resto, indiscutível; mas talvez – e isto se calhar vai parecer-lhe estranho – de um excesso de qualidade; ou seja, cremos que, apesar de a temática da obra ser extremamente actual, a estrutura e a linguagem adoptadas dificultam frequentemente a compreensão da história, fazendo com que o livro não possa ser compreendido no seu todo por um público que não seja suficientemente culto e sofisticado. Talvez as gentes deste tempo não estejam preparadas para um tal avanço nas letras. Como tal, lamentamos o incómodo e agradecemos a profunda emoção provocada em nós pelas páginas por si escritas. Aconselhamos a guardar como o mais rico tesouro a obra que escreveu, para que as gerações vindouras possam descobrir tal manuscrito e assim maravilhar-se com uma relíquia perdida da literatura.

Muito respeitosamente nos assinamos,

(assinatura ilegível)

[Sérgio Lavos]

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Terça-feira, Fevereiro 05, 2008 

Escrever torto

Não queria ter publicado neste blogue o texto que Dóris Graça Dias não chegou a ver publicado no Expresso. O tal texto. Aquele texto de opinião sobre o Rio das Flores, que misteriosamente foi recusado pelo director do Expresso himself sob o pretexto de "falta de qualidade". Ora, eu não queria ter publicado porque o texto nem é carne nem é peixe: não elogia nem desfaz a obra. É uma criancice amedrontada que, enquanto estava a ser escrita, já previa a polemicazinha futura. Um texto com medo de si próprio, que nem sequer se atreve a desmontar o romance de Miguel Sousa Tavares como ele merece, que não consegue mostrar o que aquilo verdadeiramente é: literatura de cordel, enfarta-brutos, um desastre ecológico a produzir-se em sucessivas edições em papel.
O respeitinho é muito, eu sei, mas pergunto: por onde andam os críticos com tomates, que não têm medo de pegar num romance popular e avaliá-lo sem usar pinças e luvas esterilizadas, por aquilo que ele é e não aquilo por aquilo que representa? À excepção de um texto do José Mário Silva para a Time Out, nada. Nicles. E ter sido dada alguma atenção ao romance de MST, já não foi pouco. Acabou por ter mais sorte que José Rodrigues dos Santos, por exemplo.
O que é lamentável é eu ter que dar razão à direcção do Expresso, sabendo que, caso a crítica tivesse sido feita com a atenção e competência devida, teria tido o mesmo destino que o texto de opinião inventado por Dóris Graça Dias. Miguel Sousa Tavares, transferido há não muito tempo do Público para o Expresso com um estrondo de estrela de futebol, não teria admitido tal afronta, desse por onde desse. E agora é vê-lo de beicinho estendido, lamentando a inveja dos mesquinhos que se atrevem a não gostar dele.
Será esta a Michiko Katukani que o país merece? Não se arranjará nada melhor?

(Ler, por favor, este texto que diz tudo o que deve ser dito, do Luís Rainha - que saudades eu tinha de o ler - no Cinco Dias)

[Sérgio Lavos]

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Quinta-feira, Novembro 01, 2007 

Do plágio como uma das belas-artes

Eu, como todos os escritores por publicar (ou publicados, mas sem sucesso), também tenho uma teoria sobre o plágio de Miguel Sousa Tavares. Para ser verdadeiro, eu tenho uma teoria para todo e qualquer plágio, excepto para casos de escritores de génio, e esses, meu deus, são raríssimos.
A teoria é esta: o plágio é sinal de inteligência; corrijo: o plágio é sinal de esperteza, com a agravante de ser consistente com uma das principais qualidades que um escritor deve ter: o olho para reconhecer os grandes que o precedem. No limite, qualquer escritor que não seja génio, com aspirações a escrever alguma coisa de jeito, deve fazer como Bruce Chatwin: abrir uma dúzia de clássicos enquanto escreve, e ir copiando ao sabor da pena, copiosamente copiando, frase a frase - um pouco de Flaubert, uma pitada de Tolstoi, um gosto de Kafka (o escritor mais fácil e mais óbvio de imitar) ao lado, aqui e ali Sterne polvilhando a prosa, quem sabe alguma elegância de Henry James para melhorar a linguagem, algo de Proust a acompanhar. E não falo apenas de uma vaga inspiração - isso é tolice, o resultado final acaba por ser um sabor amargo a uma falta de originalidade tremenda, um pouco como ler "O Meu Nome é Legião" depois de "O Som e a Fúria" ou qualquer romance de Miguel Real como digestivo aprés "Memorial do Convento". Amigos, trabalhem com método: cortando e copiando, como não? Mas faça-se com estilo; não adianta mergulhar em livros de História e fazer copy/paste de factos, como MST faz. Entediante, aborrecido. Imaginem: se os originais já o são, o que será a cópia? Roubar? Em grande. É que enfiar uma frase de Pessoa entre uma exclamação de Virginia Woolf e um longo parágrafo digressional de Saramago não é plágio: é o talento a revelar-se. Não é uma questão de coser os pontos bem cosidos; é saber esconder as costuras. Chatwin conseguiu, mal ou bem - os romances, bom... são fracos; mas os livros de viagem são soberbos. E estou comovidamente grato apenas a ele - porque sei que já pagou as suas próprias dívidas de gratidão aos amigos que conheceu depois de partir. Um copo com Wilde no Paraíso - o sonho de um copista de génio.
O problema, na verdade, é que Miguel Sousa Tavares não plagia. Não tem coragem (ou talento) para tanto. É um enfadonho jornalista a escrever uma reportagem num tom neutro, chatíssimo, sem marca própria, sem nervo, colando com cuspo datas e acontecimentos longínquos numa sequência infindável de personagens que têm tanta profundidade como o papel em que o seu nome é impresso. Resultaria em jornal ou em revista? Não duvido. Resulta como produto de marketing claro e evidente (ser figura televisiva; ter boa figura; ser polémico)? Claro que sim. É literatura? Vasco Pulido Valente já ditou a sentença. Está tudo dito.
Confie nos bons conselhos que lhe dão, homem, plagie, nem sabe o que está a perder (e os seus leitores também)!

[Sérgio Lavos]

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Quinta-feira, Outubro 11, 2007 

Doris Lessing (2)

Há sempre a velha questão da morte. Lessing nasceu em 1919. Não arrisco nada se disser que o prémio foi atribuído antes que. É claro que seria uma tragédia se, por exemplo, Philip Roth desaparecesse durante o próximo ano. Borges passou incólume pelo mundo, e nem a velhice o resgatou à casmurrice dos membros da academia (alimentada por uma viagem turística extemporânea ao Chile). Ele ainda continua por cá - e não há-de tardar até vermos um conto dele adaptado a filme (se até Saramago...). Não há, é claro, critérios límpidos - e demasiadas vezes há razões políticas. Culpar quem? O comité, composto de vinte nórdicos que ninguém conhece, que tiveram como antecessores gente que andou durante décadas a dar prémios a pouco ilustres autores escandinavos, desconhecidos no resto do mundo, num tempo em que, imagino, a maior parte dos bons escritores não estava disponível em sueco? E depois, as questões políticas, humanitárias. Não digam que é um prémio de literatura, por favor. Lessing nasceu na Pérsia (que agora se chama Irão) e viveu na Rodésia (agora Zimbabué). Feminista. Marxista. O fardo do homem branco. Nobel de quê?

[Sérgio Lavos]

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Doris Lessing

Não faço ponto de honra de não ler os prémios Nobel que ainda não li. Mas não leio. Doris Lessing é excepção, dos laureados dos últimos anos, e talvez regresse a ela. Curiosamente, depois de ter lido há mais de 15 anos um romance (que não tenho, não me recordo do nome e não vou verificar na Wikipedia, correndo o risco de falar de algo que, efectivamente, não li), li recentemente um excelente conto incluído no volume "Modern British Short Stories": "To Room Nineteen". Merece? Não é questão que se coloque; nunca é, e é sempre. Um circo que actua num mundo paralelo à literatura. Divertimento intelectual para as massas. Marketing para totós no seu melhor estilo.

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Outubro 10, 2007 

Literatura às postas

Bem servido, bem regado, como o bom bacalhau português. Carne suculenta, a escorrer azeite, virgem virgem, as postas bem dispostas sobre o prato, Philip Roth para aqui (7/1), Don de Lillo para ali (25/1), a acompanhar, bom vinho, boas postas, Murakami (5/1 [??]) com umas ervinhas aromáticas, digestão fácil, aperitivo levezinho, toma toma, e para prato principal, un Pinchonzinho (10/1), vai? acompanhado de um arrozinho malandro, escondidinho, um mimo, ou prefere um Vargas Llosa (20/1), tradicional, sabor de outro tempo, assenta bem no estômago, apesar da digestão complicada, e para segundo prato, un Ian McEwan (40/1)), no caso de ter preferido o Pynchon para primeiro, é mais suave ao paladar, ou então um Cormac (50/1), para ficar sem fome durante muito tempo. Para sobremesa, um Salman Rushdie (100/1) ou um Paul Auster (100/1), o primeiro pode ser servido acompanhado de um cálice de Joyce Carol Oates (9/1), óptima colheita, bebe-se de um gole, ou então de uma Margareth Atwood (20/1), complemento possível para uma dieta exótica - Adónis (14/1), David Malouf (50/1) ou Amos Oz (6/1). E no fim, um óptimo Bob Dylan (100/1), seco, perfumado, para fumar devagar ao som do silêncio - e olhe, aproveite e leia um livro; um Kundera (33/1), colheita vintage, de 1967. Bom proveito.

(Nunca: Murakami. Já: Don de Lillo. Daqui a uns anos: McEwan.)

[Sérgio Lavos]

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