Sexta-feira, Junho 27, 2008 

Erro

Cesare Pavese:

Viver é como uma longa soma em que basta ter errado o total das duas primeiras parcelas para já não nos conseguirmos safar.

E o que fazer quando apenas algumas parcelas numa extensa soma estão certas? Começar bem, errar, errar, voltar a errar, desistir de acertar - o erro mais mortal?

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Sexta-feira, Maio 02, 2008 

Via de sentido único

- E se não souberes ler o mapa, o que fazes?
- Podes sempre culpar os teus pais.
- Ou virar o mapa ao contrário.
- Humm...

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Quarta-feira, Abril 23, 2008 

A ressaca

Fazes-me festinhas?
Parecem os artistas suplicar a cada entrevista.
Fazes-me festinhas?
O meu romance não presta, a minha música não é de preto, não corre um pingo de originalidade nas minhas veias.
Amoleçam-me, amem-me, sou capaz de morrer dentro de pouco tempo.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Quarta-feira, Março 12, 2008 

Cantiga de amigo

...lia um texto sobre blogues, e lembrava-me de como é fácil cair em certas armadilhas. Julgava eu, que escrevendo, me sobraria tempo para pensar sobre o escrito. Catadupa - catadupa, escrevia, sem pensar, primeiro rascunho. E ali brilhava o texto, e eu publicava, e estava tudo pronto, e seria necessário reafirmar o medo que prendia a solidão a um canto do quarto. O canto oposto de onde escrevo - a geometria da escrita depende da mudança das estações; o sol declinado sobre o monte de jornais, quando a tarde se emociona; o rádio ligado, Lou Reed sintonizando a sua estação preferida - estação certa na estação certa, primavera, a caminho do sol. A margem entre a sombra e a luz era um canteiro - e não quero com isto retirar força à literalidade da paisagem; não há metáfora que possa condenar a realidade. Realmente lia, realmente escrevia e realmente fazia primavera sobre as manchas pretas dos jornais acumulados; e a solidão amedrontava-se. Um passo em falso, o alçapão, um focinho de toupeira que espera; a mão sobre o jornal, e de como provavelmente poucas palavras serão capturadas pela ave de rapina que dá pelo nome de leitor de blogues. Um texto armadilhado, o possível quando o cansaço é um aperto amoroso no texto contínuo que vai nascendo. Não tenho palavras preferidas, nenhuma presa guardada na jaula. Todas me fogem, e na sua voluptuosidade matreira levam a minha última esperança de descanso, de silêncio.
Na verdade, há em cada intervalo no silêncio que compõe este texto um inimigo. Quando escrevo, combato; e quase sempre caio por terra. E nem posso dizer - como um pássaro. A liberdade de um combatente é nula. E continuo a ler, enredado na mira do inimigo meu amigo. Meu amigo.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Domingo, Fevereiro 24, 2008 

A casa

Não havia um homem nesta casa. Quando entrou, o mestre disse-me para me sentar a um canto. Como nenhum canto estava livre, sentei-me no meio da única divisão, circular e com uma chaminé no centro. O mestre caminhou em meu redor; três voltas completas. A cada passagem pela minha frente, as montanhas desapareciam. Reapareciam. Desapareciam. Quando parou, o mestre soprou nas minhas costas: "O que vês lá fora, as montanhas ou o intervalo entre cada corpo?" "Qual corpo?" - perguntei. "O que neste momento tu não vês." E calou-se. Passado algum tempo, adormeci. Agora, acordo, e vejo que nenhum homem habita esta casa.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008 

O homem

O homem parado na margem pensou: "Não consigo parar o rio. O rio consegue parar-me a mim. E se eu me tornasse o rio?"
Não podia ter escolhido pior altura. Naquele momento, começou a chover, e o céu tornou-se o rio que ele ambicionava ser.
Ficou ali parado, fronteira entre céu e rio, risco no espelho que os dois usavam.
O movimento é o reflexo de água na água.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008 

Falhar melhor

(...) Sabes, eu acho que não tens razão. Acho que as pessoas se apercebem mesmo daquilo que são, daquilo que podem ser, daquilo que, no limite conseguem ser. O problema é que, no limite, nunca conseguem deixar de ser aquilo que são. E quase todas conseguem ser muito pouco, ou muito, mas mal. Podem disfarçar, querer passar por aquilo que não são, mas sabem que não são como pretendem ser. Pretender significa querer ser, mas também fingir. Ninguém usa uma máscara de forma inocente. Todos sentem o rosto verdadeiro por baixo. Os que não sentem, não chegam a saber o que são. Os que sentem, sofrem. Porque saber que se é uma coisa, apenas aquela coisa, e não se conseguirá nunca ser outra, apenas pretender, é, mais que uma dura pena, a consistência que mantém qualquer sociedade a funcionar. Funcionamos à custa de não sabermos corrigir o que que somos. Persistimos em ser, e não é um erro; a nossa natureza verdadeira é o erro, aquilo que a toda a hora corrigimos. Falhar? Falhar melhor? Nunca acertar, ou estatisticamente acertar mais vezes do que os outros. O único consolo que nos resta. (...)

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Sexta-feira, Outubro 19, 2007 

Memento

O nosso amor pelas coisas pode estar ligado ao nosso amor pelas pessoas. O nosso amor pelas coisas funda-se num tempo concreto - e num rosto absoluto, de um amigo ou de uma amante. De um filho. As coisas que percorrem, desde um tempo longínquo, o caminho que percorremos. As coisas que, unidas, sobrepostas, somadas, são o próprio caminho. As coisas de que gostamos - livros, filmes, quadros. Uma paisagem, um jardim, um edifício. Em tal lugar eu amava e através do amor que sentia por ti sentia o amor pela imagem que via. "Trust". Deixavas-te cair no vazio, de olhos fechados, e eu apanhava-te. Aquele era o nosso lugar, e eu apanhava-te. Aquele era o nosso filme; nada poderá apagar o momento em que o registo foi feito: nada apaga um momento no passado em que a imagem coincidiu com o acreditávamos estar nascendo. O nosso amor pelas coisas baseia-se na mais concreta das abstrações: o amor pelo outro. Não há lugares sem emoção, sem memória. Eu recordo. Julgo que ainda recordas. Espero. O lugar em que a coisa amada e o amor se confundiram. Espaço e tempo confluindo. Caos com ordem formando-se, destacando-se, organizando-se. A crença na ordem. Nascendo.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas: ,

 

Calar

Se envelhecer é um risco, nem quero pensar no risco que possa ser esquecer.
Esquecer o que antes sabíamos de cor. De coração. É nas entranhas que se esconde o que sabemos (nunca na memória). O instinto. Pegar numa situação, um acontecimento, e revirá-lo, de ponta a ponta, remexer, de alto a baixo, saber o que fazer com os imprevistos do dia-a-dia. Empurrar o tempo contra o tempo - de modo a que avance. Medir a tensão - em pontos de contacto, nervo - entre certo e errado. Antes, distinguir o certo e o errado. Ter a certeza de sabermos distinguir o certo e o errado.
Nunca saber é a maior sabedoria. Viver na inocência. Se o inferno é o esquecimento, a maior virtude é a ignorância. A felicidade mais certa é ignorar que uma criança sabe mais da vida que o mais sábio dos sábios. Ignorar o lugar-comum anterior (da ignorância), iludirmo-nos com o conhecimento; convencermo-nos de que a procura de conhecimento é o único sentido possível para o desejo. Tornar o cumprimento da felicidade o fito possível.
Reconhecer na palavra o limite do conhecimento. Saber que dizer a palavra não é mais do que repetir a palavra. Evitar tudo isto. Evitar. Tudo. Envelhecer. Calar a palavra. Emudecer.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Outubro 10, 2007 

Saber

No limite, não há sabedoria que não seja zen. O aforismo ocidental tenta concentrar esperteza e rapidez de raciocínio - mas consegue apenas atingir o estado de witt, indispensável em convívios de outros tempos ou conversas de agora, ineficaz em termos de profundidade de pensamento. O aforismo zen alude sempre a algo que as palavras não dizem - a verdade que se esconde no ritmo do verso, a superfície clara de um lago de águas turvas. Digamos que o aforismo é um vício pós-moderno e a sabedoria zen é intemporal - a intensidade que concentra as multiplicidades essenciais do mundo.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Quinta-feira, Julho 26, 2007 

Movimento

Não há sangue e mortos na sala de cinema quando saio. A realidade continua a passar fora do ecrã, imune à violência. A vontade que tenho, ao entrar, é de apenas ver um filme. Um filme não salva a vida (nem redime o cinema). O tempo que separa cada filme é necessário para valorizar o que se vê. A espera é fundamental. Há quem consiga que o tempo entre cada filme se estenda; há quem não passe um dia sem as duas horas em que a outra realidade actua. O filme incendeia o escuro da sala e regista algum tempo de vida de pessoas que nunca mais vamos ver. Vida que toca a vida do lado de cá. Imagens fixando o movimento na memória. Memória em movimento.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas: ,

Segunda-feira, Junho 25, 2007 

Cuidar dos vivos

Nenhum deus sustém a realidade. No ângulo cego de um espelho, ela diariamente nos confronta. Cuidamos dos vivos, mas apenas os mortos nos procuram.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Quarta-feira, Junho 20, 2007 

À noite

E. Mais um quadro de que preferia não falar. Eu agora estou sentado; olho para ele. Decorei a casa como quem prepara o coração para um tempo de insuportável sofrimento. Cada pintura aguarda o seu momento; esperam, conspiram enquanto durmo. Eu preparei-as para isso. Não me obrigues a falar desse quadro, em particular. Esse não. Pousa as mãos sobre as teclas. Vou fumar um cigarro. Estou cansado, a noite cobriu-se de nuvens, talvez vá fechar a janela. Eu estou a ver o quadro. Não te respondo. Decorei o quadro. Sei-o de cor. A porta do quarto espera. Quem sairá primeiro?

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

 

Poker

O melhor de tudo é colocar as cartas na mesa. Baixar os braços. Abandonar, sorrindo, o jogo. Não recear a porta que ao fundo se abre para quem perde. E, à saída, lançar uma última mirada à mulher mais bela da sala.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

 

Sintaxe

Gostaria de poder emendar um texto antigo sobre a arte de errar e voltar a errar; e nunca emendar. Nada de Beckett, nada. Falhar uma vez é um risco. Nunca acertar é um destino cumprido. Seria tão mais fácil aceitar algumas consequências se fosse tão árduo mudar a vida como é um texto. Desacertar palavras. Reconhecer a impossibilidade de sentido. A ordem do mundo impele o discurso para o sentido pleno. Impede a desordem do discurso. Jogos de palavras com a morte em fundo.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Sexta-feira, Junho 08, 2007 

Uma traição

Escasseia o tempo para derivações literárias. Limito-me a pegar em novelas de autores com poucas ambições e raro entendimento da eficácia da escrita. No outro dia, acabei de ler um ensaio escrito em 1943 por um autor sérvio menos conhecido do que deveria ser. A tradução inglesa, editada pela Bloomsbury Press, levou o título de "A Silence Less Spoken Than Often", o que me parece de uma irrepreensibilidade exemplar. Apetece-me colocar aqui o nome do tradutor: Susan Margolies-Simic; ao ler um livro traduzido para uma língua que não a mãe, arrisca-se sempre bastante. Pensar na longa cadeia que o texto percorreu até chegar às nossas mãos pode ser perturbante. As hipóteses de recebermos o pensamento original do autor são curtas. "Não se traduzem quadros, nem música." A desvantagem da literatura em relação às outras artes é limitadora. Mas há ganhos; cada traidor que tenha a sorte de tocar nas palavras do autor pode adicionar um pouco de si próprio. Susan Margolies-Simic a custo consegue disfarçar as suas pretensões literárias. A geometria rítmica da tradução da inglesa denuncia mais que amor ao autor sérvio. Imagino nas palavras uma reminiscência longínqua, um som circular a sumir-se na sintaxe inglesa. A distância entre a Sérvia e a Inglaterra é maior do que a geografia mostra. Há duas línguas, dois alfabetos, uma tradição literária a separá-las. A única réstia de salvação para esta traição mais que perfeita é o hífen ligando os dois apelidos da inglesa. Não pode haver qualquer dúvida: o que une as duas línguas é o amor. A traição assim, apenas pode ser perdoada.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Maio 30, 2007 

Água turva

Uma ideia: o passado embalado, etiquetado, à venda em doses bem medidas, de duração limitada, finitas. Quando chego a casa, retiro da embalagem a coisa; o produto, como se fosse uma droga. alguma ansiedade (muitas vezes simulada), alguma desilusão - disfarçada de tristeza. Coloco o passado na máquina. Começa a rodar, mas não faço a viagem, não regresso. A máquina não recria o passado, não o reproduz, não nada. Limita-se a desbobinar uma outra história. Um simulacro de passado, outro que existe no lugar daquele que se tornou inacessível. Do conforto do presente, observamos o tempo diluir o passado em água turva. Sem a certeza do acontecimento em primeira mão, sem a nostalgia infantil de sabermos que a vontade é suficiente para que tudo se repita. Não temos isso, agora. Uma máquina, apenas. E, à nossa frente, um passado que desconhecemos.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

 

Play

Precisamos do ruído. Que se propague o som no silêncio, que o preencha. Sento-me no silêncio e sinto nele a ausência de alguma coisa. Não há qualquer significado no silêncio; o vazio não precisa de significados. Apenas de sentido. Precisamos de sentido? Pedimos o som, ou as letras entre espaços, alguém a quem não impressiona o silêncio. Não sabemos viver no silêncio - e apenas nele encontramos o sentido. Não sabemos viver na reclusão de um corpo. Contudo, nenhum outro sentido existe para além do corpo. O nosso, o outro.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas:

Sexta-feira, Maio 25, 2007 

Zodiac (3)

Não há apenas beleza no mundo. Não há beleza no mundo. O assassino não consegue ver beleza no mundo. A verdadeira culpa não nasce do arrependimento; mas sim da impossibilidade do assassino poder ver a beleza do mundo. Uma coisa mutilada de si própria.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas: ,

 

Zodiac (2)

Mas o problema da sociedade é atribuir demasiada importância ao mais comum dos acontecimentos de uma vida: a morte. Se assim não fosse, haveria com certeza menos possibilidade de um qualquer homem perdido de si realizar o seu sonho; a eternidade é sempre possível por momentos. Um momento. A vítima e o seu algoz.

[Sérgio Lavos]

Etiquetas: ,

 Subscrever

Powered by Blogger
and Blogger Templates