Quarta-feira, Julho 16, 2008 

Americana

Desde que li Pela Estrada Fora que tenho decidida a viagem de uma vida. Assumir o cliché não é uma coisa fácil; contudo, não lhe consigo escapar. América fora, de costa a costa, procurando perder-me do mundo. Falar de uma viagem que não sei se irei algum dia concretizar pode parecer um gesto de pedantismo inútil ou de imaturidade temporã. Mas cada viagem começa antes de verdadeiramente começar. A antecipação, como no sexo, é quase tudo. O que vai alimentando a vontade é a literatura, o cinema, a fotografia, a arte. O lugar-comum da Americana, nos livros da geração beat, de Don deLillo, de Sam Shepard; nos filmes de Hal Hartley ou Wim Wenders (fabuloso o último, sobre o qual não cheguei a escrever, Don't Come Knocking, também com Shepard como actor e argumentista), de Terence Malick (novamente Shepard em Days of Heaven); nas fotografias de Ansel Adams ou Dorothea Lange, nos quadros de Hopper e dos seus mestres da Ashcan School. Uma viagem alimenta-se das imagens que a antecedem, é simultaneamente um acto primordial, eco de um nomadismo perdido, e um rito eminentemente cultural, de partilha e de conhecimento. Conhecer a América antes de a conhecer, neste momento acompanhando a deambulação de Pedro Duarte Bento no Vontade Indómita; e as fotografias, excelentes.
Chego a pensar que a realidade me irá desiludir; uma imagem é um corte no mundo, que deixa de fora tudo o que não lhe interessa. Não importa. A América, na verdade, não existe; ou não sabemos nós que tudo é ilusão, engano dos sentidos?

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Julho 02, 2008 

Até já

Houve um tempo em que dizia preferir os escritores que mudavam de lugar, os viajantes, os que precisavam da vida para escrever sobre ela. Continuo a ler alguns desses, mas nunca li uma linha sequer de Ernest Hemingway, por exemplo. Entretanto, descobri que na realidade leio com mais prazer os que se limitam a ficar, esperando que a vida os encontre no lugar onde se fixam. Os que procuram o sentido no interior das palavras, ou os que sabem que nenhum sentido é possível no exterior delas - o que, no fundo, vai dar ao mesmo. Agora que me movo, viajo, e acumulo parcelas de tempo fora de mim - exteriorizo-me - reencontro coisas conhecidas quando regresso aos escritores que nunca partiram.
Sei que Walser morreu enquanto caminhava na neve - movimento sobre o breve instante - e sei que Sebald viajou incansavelmente à procura dos vestígios de uma outra forma de viagem - a memória. Mas também sei que Walser, ao desaparecer, recusou o mundo e o nomadismo que a ele está associado; e por vezes reconheceu assim a escrita. Como Sebald terá encontrado uma explicação para as imagens quando mergulhou na abstração das palavras. Viajar e parar, reconhecer o que esquecemos, deixar assentar a poeira sobre a memória transitória do movimento; nada é tão simples como parece. Viajar é tentar de novo, recordar. O neo-platonismo vacilante.

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Maio 30, 2008 

Berlim (excertos) #5

Foto: Sérgio Lavos

É uma daquelas verdades que se tornam reais quando por elas passamos: em Berlim, a história susteve o seu impulso durante algum tempo, deixando marcas nos edifícios, nas ruas, sobretudo nas pessoas.
Não são só apenas os museus ou os monumentos; ao caminhar na rua, podemos deparar com um sinal de outro tempo, uma placa de metal incrustada no passeio, em frente a uma casa, assinalando a vida de um judeu proeminente que terá ali vivido e que acabou morto num campo de concentração. Duas linhas paralelas atravessam grande parte da cidade, duas linhas irregulares que avançam pelos passeios, pelas ruas, cruzando jardins e parques, duas linhas dolorosas que são como uma cicatriz no tecido urbano - o vestígio que resta do Muro de Berlim. Ninguém poderá escapar à tragédia. Para um turista ela tem um significado apenas pitoresco, para um imigrante nada pode significar; mas um berlinense dificilmente escapará aos ecos que se repercutem no presente. O rigor alemão e o amor à ordem, que poderão ter conduzido o país no passado a becos sem saída, transformaram a cidade de Berlim num gigantesco memorial, numa memória viva - oitenta por cento da cidade foi erigida depois da destruição da Segunda Guerra Mundial, e existem áreas da cidade que não têm mais de quinze anos, edificadas depois da queda do Muro.
A cidade é simultaneamente passado e presente, memória do caos e presença viva da ordem; a geometria regular repete a cidade de outros tempos, provando que o espírito de um povo é imutável. A linguagem da técnica pode conduzir ao horror mas também sobreleva aquilo que de melhor tem o ser humano; o equilíbrio precário manter-se-à até quando?

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Quinta-feira, Maio 22, 2008 

Berlim (excertos) #4

Foto: Susana Viegas

As primeiras cerejas, chegaram. Não vale a pena lamentar o fim do hábito de esperar pela fruta da época; continuemos a fingir que durante o ano inteiro não foi possível encontrar cerejas à venda.
Em Berlim, bancas de fruta e legumes encontram-se nas estações de metro, nos terminais de comboios; por trás da banca, raparigas polacas ou ucranianas vigiam quem passa e esperam que quem passe pare e compre os morangos, os espargos, as cerejas. Meio quilo custa quatro euros - muito mais do que por cá, contrariando a tendência de preços da cidade. O ruído dos comboios, contínuo (passa um de dois em dois minutos), o movimento das pessoas, mais lento do que se poderia esperar, as raparigas de olhos azuis vincados pelo excesso de maquilhagem remexendo na fruta, acondicionando os montes, colocando as maçãs dentro dos sacos, moeda passada de mão em mão.
E as cerejas, brilhando sobre tudo; uma rapariga de lábios da cor da cereja que trinca, relógio da estação no meio-dia, o barulho de um comboio a parar.
Há um ritmo certo para as estações; um ciclo natural para as cerejas. Em Maio, as mãos das raparigas esperam que o tempo curto a que a cereja tem direito seja prolongado para além do razoável. Mas nenhum artesanato pode contra a decadência da casca, da carne, o cheiro a podre que virá. Dentro de alguns horas, a estação fecha, o resto das cerejas vai para o lixo, a rapariga parte no último comboio da noite. Terá de ser assim.

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Berlim (excertos) #3

Foto: Susana Viegas

Na minha bagagem, tenho por hábito levar um livro de algum modo relacionado com a cidade que visito. Conhecer os lugares através da literatura sempre foi mais fiável do que usar um guia turístico. Vila-Matas e Montálban acompanharam-me nas viagens que fiz a Barcelona, Virginia Woolf foi comigo para Londres (e Nick Hornby, em espírito). Mas Berlim era um problema. A língua um escolho, o desinteresse pela literatura alemã (excepto a poesia) uma montanha. Parti sem lastro, sem livros. Mas, compensando, levei muitas imagens. E de quem? Haverá Berlim que não seja a de Wim Wenders, a cidade de Asas do Desejo, de Tão Longe, Tão Perto? Um anjo da Vitória a um metro de distância, a meio da cidade, no centro do Tiergarten, o anjo da panorâmica sobre a cidade, o anjo que Damiel não quer ser, sombra vigilante pairando sobre os edifícios de uma cidade a preto e branco, ainda antes da queda do Muro. A memória atraiçoa a memória, no entanto. Já lá vão anos desde a última vez que vi qualquer um dos dois filmes, e pouco me lembro da história; mas recordo o fascínio, o primeiro fascínio do primeiro filme que vi de Wenders. Não há filme imperfeito que não possa captar a perfeição de um lugar. A paisagem precisa do olhar deslumbrado do estilista; a viagem confirmou a impressão deixada pela câmara de Wim Wenders.
Não precisei de literatura, levei as imagens na bagagem. Berlim pelos olhos de um anjo.

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Quarta-feira, Maio 21, 2008 

Berlim (excertos) #2

Foto: Sérgio Lavos

A sub-população ajuda a justificar o ar limpo e airoso dos transportes públicos; a tradicional eficiência alemã completa a ideia. A verdade é que poderia ter corrido mal noutra cidade qualquer. Mas o modo como a urbe se organiza, de um centro verde, o Tiergarten, para a periferia cortada a meio pelo fantasma de um muro, explica a perfeição da rede de transportes. Os comboios circulam em redor deste centro, cruzando-o uma ou duas vezes apenas, e o metro atravessa diametralmente o círculo sem incomodar o descanso que a paisagem proporciona. E depois é sempre fantástico passearmos por uma cidade que faz lembrar Metropolis, de Fritz Lang, com as linhas de comboio suspensas a alguns metros das ruas, as carruagens deslizando sobre as cabeças, cortando o horizonte verde que espreita a cada esquina. Por duas ou três vezes, vêem-se edifícios ligados por corredores no ar, e parece que a realidade (mais precisamente, os arquitectos que projectaram a estrutura) imita o cinema. De qualquer modo, quem vive em Berlim nem precisa de desfrutar da eficiência da rede de transportes públicos - todas as ruas são dotadas de ciclovias; milhares de bicicletas circulam, e lá se vai a ideia de que viver numa cidade é menos saudável do que viver fora dela.

[Sérgio Lavos]

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Terça-feira, Maio 20, 2008 

Berlim (excertos) #1

Foto: Susana Viegas

Na praça Breitscheid, a primeira impressão não foi a melhor; cosmopolitismo sujo, restaurantes de fast-food a espalhar lixo em redor, bric-à-brac de lojas ao melhor estilo de praia, souvenirs e livros de saldo, turistas mais ou menos serenados à procura de um lugar melhor para visitar, freaks de garrafas de tinto na mão a atirar migalhas aos rafeiros que os acompanham, músicos mal amanhados a pedirem meças ao seu jeito desajustado. A igreja Kaiser Wilhem-Gedänichts é uma ruína cuidada no meio de escombros da pós-modernidade. O resto da igreja, o altar que as bombas pouparam, apinhado de pessoas espreitando um princípio da história; a nova igreja em frente - no fundo uma desilusão, com edifício da Bayer e centro comercial Europa à mistura, e o berço do festival de cinema, o Zoopalast, envergonhado a um canto da praça.
Naquele nódulo do tecido urbano, a cidade concentra parte do pior, deixando no entanto entrever, acomodada às linhas planas que se estendem a partir dali, a geometria clara e rigorosa que se ergueu a partir de uma ferida. Uma luminosa cicatriz no mapa da Alemanha.

[Sérgio Lavos]

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Quinta-feira, Agosto 09, 2007 

Lugares

Será sempre necessário voltar a terra para se perceber a verdadeira alma dos lugares. Andar a pé. Apanhar um comboio e sair para fora da cidade. Sentado, e em movimento, a paisagem corre em direcção a sítio nenhum. A milhares de quilómetros de distância dos nossos dias comuns, visitamos as mesmas casas, desfilando, os mesmos ermos entre prédios, vazios, rios esquecidos da sua função inicial, pontes de cimento ligando os homens, fios eléctricos acompanhando a correria das cidades suburbanas, das aldeias perdidas, de tanto em tanto tempo unindo-se a postes, os eléctrodos tremeluzindo no fim de tarde, manchas difusas contra o reflexo na janela, guindastes sobrevoando as ruínas, alicerces de casas por construir, confusão de homens abrigando-se da chuva, alpendres improvisados, a água caindo molemente no zinco, fumo entre cansaço, o ruído de um camião sobrepondo-se ao matraquear surdo do comboio, a paragem, pessoas descem, pessoas sobem, a carruagem pára no lugar, o tempo continua a correr, o movimento impele a carruagem , o tempo desfaz-se lá fora. Lugares por dentro de lugares, a familiaridade, a repetição da mesma vida noutro espaço.

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Cidades

As cidades, nenhuma é igual; associamos a paisagem urbana a estados de espírito e depois estes estados de espírito a estações do ano ou a sensações físicas. Dizemos: a alegria das ruas, como se fosse sempre verão; ou a taciturnidade de certa marginal ao fim da tarde, entre o regresso a casa e a preparação para a noite. Quando visitamos uma cidade pela primeira vez, deixamos que o estranhamento se prolongue durante toda a viagem: queremos ficar deslumbrados pela diferença. Por isso se diz que quem viaja foge apenas de si próprio. Duvido que o turista moderno medite nisto ao folhear panfletos de agências turísticas ou ao marcar, com a urgência dos dias entre feriados e fins-de-semana, o resort apropriado para umas férias descansadas. É difícil escapar a isto, impossível fugir à globalização do lazer e do turismo. O estado de espírito é tão raro ser atingido, exige tal esforço de vontade, que arriscamo-nos a passar os dias deslumbrados pelo olhar dos outros.
O objectivo: encontrar nas cidades uma originalidade que seja, algo que julguemos apenas nosso. A ilusão do carácter único do olhar.

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Maio 30, 2007 

Madeleine

Entrei no convento de Pedralbes com a certeza do reconhecimento. Nunca tinha lá estado, mas o conjunto de edifícios de estilo mediterrânico, pedra clara e vegetação antiga, parecia-me familiar, de outro tempo. Em Barcelona, terá sido talvez a maior surpresa. Muitos lugares eu já conhecia de outra viagem, alguns anos antes; outros não, eram uma absoluta novidade. Duas visitas não são suficientes para que a cidade se entranhe. Ao ponto do reconhecimento trazer banalidade a cada sítio. A única cidade que se pode vangloriar de ter mudado a minha infância é Lisboa. Entre dois lugares localizados em dois tempos: uma aldeia derrotada pelo tempo que se passou e uma cidade que não conseguiu ainda substituir em pleno a época do deslumbramento inocente dos primeiros anos. Se, neste momento, há outra cidade que possa concorrer com Lisboa, ela será Barcelona - apesar de Londres. Mas não evito a estranheza, claro. A sensação de que caminho num sonho, a pisar terreno virgem. A certeza de que cada novo caminho me ensinará menos sobre os sítios do que sobre mim próprio. Deve ser essa a maior alegria do viajante.
Mas, o convento de Pedralbes. A subida até surgir a torre à esquerda. As casas, do lado direito, o jardim ao fundo, mergulhado no silêncio de musgo que as pedras de séculos respiram. Entrei e fiz a habitual visita turística, os folhetos, o miúdo a correr, alguma história. Pouca gente, era cedo. O claustro, encerrando as freiras numa dupla prisão, era ensombrado pelo som de uma fonte central - a água é sempre o elemento fundamental nos lugares do silêncio. Em Évora há um claustro semelhante - será na Sé? Mas aquilo que, de imediato, me ocorreu foi uma das sequências do último Padrinho, de Copolla. Quando Al Pacino antecipa o fim do seu poder, a sombra dissolvendo a aura de outrora. Espreitei para dentro de algumas celas, imaginei as freiras devotas entregando a Jesus os seus dias; no convento, a entrega é sobretudo física. Joga-se a salvação eterna, mas isso é apenas um pretexto; o que está em causa é o fardo da matéria terrena. Acredito que quem é devorado pela reclusão monástica o faça em desespero de causa - fugindo às dores do agressivo mundo que rodeia os muros do convento. Michael Corleone refugiado não é uma imagem forçada. Há alguma verdade nesta memória.
Mas Pedralbes é mais do que medo e salvação, histórias contadas para assustar crianças. É um fantasma de um filme. Em "Vertigo", de Hitchcock, Scottie persegue Madeleine até uma missão católica, Dolores. Madeleine entra na capela e um som de órgão ouve-se. Julgamos que alguém toca, no filme. Engano, a música está na banda-sonora. Em Pedralbes, entrei na capela atraído pelo som de música. Da rua, quase não se ouvia. Lá dentro, as ondas sonoras, vindas de algum canto invisível, inundavam o espaço. Sentei-me ali, e imaginei Madeleine a desaparecer por uma porta ao canto do altar. Scottie vem depois, a música perseguindo-o. Nasce da tela - a capela mantém-se enclausurada em silêncio. Scottie sai, a música continua. Na capela do convento de Pedralbes, nenhuma porta se via do lado direito do altar, nenhuma porta desembocava no cemitério onde descansa Carlotta Valdes. A música, entretanto, parou. Imagino que não vejo a freira que saiu de uma sala até aí escondida, imagino que a música de Bernard Hermann continua a soar enquanto o olhar triste de Madeleine se detém na pedra fria do túmulo de Carlota, enquanto Scottie espreita, ali perto. No claustro de Pedralbes, um ritual antigo se repete. No silêncio e na sombra, um homem regressa à sua natureza. E reconhece na obsessão o antídoto para o medo.
Saio para a luz do meio-dia, a cidade permanece. No tempo certo.

[Sérgio Lavos]

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