Segunda-feira, Abril 28, 2008 

Um país de sombra

Não poderia ser outra, a pergunta de Francisco José Viegas: em que merda de país é que estamos? Que país é este que vê um jornal nacional fazer capa com uma figurinha tenebrosa, Prince of Darkness de trazer por casa, Cunha Vaz de seu nome, o cromo do mês e dos meses que virão, amigo do seu amigo, no dizer do Henrique Fialho, estratega falhado e com sucesso de Menezes a Carmona, figurinha de cera que se põe em bicos de pés e que deseja ser o maior da aldeia - presumo que mandando num partido, um qualquer, e tornar-se cacique do coqueiro onde vivemos. Ah, lembrei-me: este é o país que teve como primeiro-ministro um homem que perdeu um concurso televisivo para... primeiro-ministro com um sindicalista corrupto, é o país que tem como actual primeiro-ministro um homem que durante alguns anos partilhou o prime-time televisivo com o concorrente de concurso derrotado, em tribuna de excelência para preparar o caminho. Agências de comunicação? Por Zeus, eles apenas partilham a essência do seu mister com as putas: existem porque alguém lhes paga para trabalhar. E os jornalistas? Chafurdam alegremente na lama. Parabéns a todos.

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Abril 27, 2008 

A herança

Levaremos com setenta vezes sete anos de PS, quem quer que seja o futuro líder do PSD. E a culpa, lamentável, não será de MFL, ou PPS, ou até de PSL. A culpa é, não há outra maneira de dizê-lo, de Cavaco. Esse que numa semana assobia para o lado perante o tiranete Jardim e na seguinte afirma que as novas gerações - aquelas que sofrem na pele as consequências de dez anos de cavaquismo - não se interessam pela política, pelos políticos e pela história de Portugal. Curiosamente, a candidata Manuela Ferreira Leite, quando pertenceu ao governo liderado por Cavaco, ocupou um cargo que, ouvi dizer, tem alguma preponderância na hipotética sabedoria da juventude. Pois, parece-me que o facto de ignorância ser uma palavra que poucos jovens conseguem escrever correctamente pode ser uma consequência directa de dez anos entretidos com assuntos tão elevados como o financiamento do Ensino Superior pelo bolso dos portugueses ou os cortes nas bolsas de investigação para pós-graduados; em desprimor da simples educação das questões essenciais da vida: quem somos? De onde vimos? Quem nos governa? E será que merece governar-nos?
O despudor beatífico com que Cavaco assobia para o lado, como se tivesse vindo de um planeta distante para se tornar presidente de todos os portugueses e tivesse deparado com um mundo desconhecido e estranho aos seus hábitos, se não fosse tão repugnante, seria quase digno de um Oscar. E é esta a figura que a direita idolatra.
O problema de Salazar não foi a ditadura de 48 anos; os filhos, legítimos e bastardos, que deixou por aí, são a praga que teremos de suportar sabe-se lá até quando. Para quando a morte, definitiva, do Pai?

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Abril 25, 2008 

25 de Abril

Não me parece ser difícil chegar a uma conclusão: que mais vale viver mal em liberdade do que bem em ditadura. Bem sei que haverá quem não concorde, quem sonhe com um passado em que privilégios e direitos se confundiam, um passado longínquo no qual a manutenção de um estatuto era a única razão para a mudança. Quem suspira pelas criadinhas, o choffeur, a porta aberta e as flores no aniversário, quem lamenta o fim do pudor e o princípio de uma liberdade sexual que conquistou tudo o que havia para conquistar, quem entretém o seu tempo perdendo-se num passado de salões brilhantes e políticos que eram pais da nação, ah, todos estes que foram esmagados pela roda da História, poderia ter pena deles, porque lhes compreendo os sentimentos - a velhice é um cortejo de desilusões, medo e memórias - mas a verdade é que exulto porque são os últimos representantes de um mundo extinto. Nenhuma língua poderá descrever com precisão a sensação de viver em liberdade; esta língua que agora se aproxima apenas se pode usar porque houve uns quantos que se importaram, que recusaram a desistência, que quiseram a mudança, por boas ou más razões, as correctas. Não há derrota que se possa obter que não passe por uma vitória; reclamar contra o 25 de Abril é a principal herança da Revolução. Dizer, falar, escrever. O que somos.

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Quarta-feira, Abril 02, 2008 

Bruni vs Sarkozy

Descontando os eventuais méritos políticos de Nicholas Sarkozy, anda por aí gente entusiasmada por ele ter, sejamos claros e javardos, engatado uma gaja irrepreensivelmente boa, a Bruni, de primeiro nome Carla. Faz-me pena ver a inveja desta gente, e faz-me pena também ver o político que atiçou meio país com uma afirmação de calculada piromania (a "rocaille") fotografado em tudo quanto é jornal e revista cor-de-rosa e jornal e revista menos cor-de-rosa (no Libération, é semana sim, semana também), acompanhando de uma mulher que, claramente, não é do seu campeonato.
Para começar, a diferença de alturas: ora, é ver a Madame Bruni de saltos rasos e casaco a imitar uma Jackie Kennedy extemporânea e o pobre do arménio de sapato de tacão reforçado, para de imediato imaginar o impacto que este homem teria caso não fosse presidente de um país que ainda não percebeu que já não poderá recuperar a glória perdida. Só me lembra Tom Cruise e Nicole Kidman, o que desde logo é péssimo sinal; ou não corressem os boatos sobre o actor que correm. A imprensa inglesa divertiu-se à grande, nos Dia das Mentiras, à conta de esta "ligeira" discrepância entre Sarko e Bruni; a notícia de que Monsieur le Président estaria a fazer um tratamento que visaria esticar as articulações para ganhar alguma altura e diminuir a diferença para a Primeira-Dama é, por si só, hilariante e humilhante; para Sarkozy, claro.
Mas não termina aqui o calvário calculado de Sarkozy. A avaliar pela sua ex, Cecilia, ele sofre claramente de um complexo que costuma atingir muito homem ao longo da vida: a busca incessante de uma mulher modelo, vulgo usar e deitar fora e voltar a escolher outra mulher exactamente com as mesmas características físicas; dito de outra maneira, Sarkozy está sempre a comprar o mesmo broche para espetar na lapela. Ora, esta patologia indica duas coisas: falta de imaginação e uma culpa por ter terminado com a mulher anterior; assim como medo de arriscar, o que não me parece muito condizente com uma carreira política. Os jornalistas é que vão vogando na onda, aproveitando a novela em que se tornou a política francesa actual - recordando também a derrotada Ségolene, ex-candidata a primeira presidente francesa; até nisto os EUA podem bater a neurótica França.
Posto isto, expliquem-me lá a razão de tanto fascínio por tal homem. A direita rejubila, mas exactamente com quê? É que nem vamos lá com a política (penso que é disso que ainda estamos a falar); grande parte das primeiras medidas tomadas por Sarkozy foi no sentido do proteccionismo económico, velha prática dos governantes franceses, da esquerda de Mitterrand à direita de Chirac. E nem a Bruni safa Sarkozy (segundo uma sondagem, o casal famoso com mais probabilidades de não durar muito). Eu, por mim, prefiro a irmã, Valeria Bruni; excelente actriz, realizadora estimulante (Mais Depressa Um Camelo...), mulher dona de uma beleza tão discreta como a sua personalidade. Que Sarkozy faça bom proveito; escolheu a irmã errada - o que, sendo quem é, não surpreende.

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Quinta-feira, Março 27, 2008 

Actualidades

Tiro à sorte; e bem, o assunto deu: a visita de Sua Excelência, o Presidente da República, a Moçambique. Para ser mais preciso, a cobertura que o Público está a fazer a tão importante viagem - esqueçam, não vale a pena referir o Tibete, e sim, eu preferia não ter Jogos Olímpicos (que acompanho desde 1980, Moscovo, tinha uns singelos 5 anos), e ter o mundo a comportar-se de forma digna perante a ditadura chinesa. Mas esta viagem é importante, sim, e que bonito foi ver o deslumbre do jornalista Ricardo Dias Felner perante a popularidade da nossa primeira-dama em terras africanas. Juro que pisquei os olhos e abanei a cabeça, descrente; é que, por momentos, pensei estar a ler a Caras em vez do único jornal diário decente deste país. O mesmo jornal que anda há meses a descobrir picuinhices nas vidas passadas do primeiro-ministro. Ora bem, começam já a sair os coleccionáveis e as hagiografias de Cavaco, como acontece com Salazar, ou esperamos que o homem se fine?
Pronto, era só isto, mas que interessa?

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Domingo, Março 23, 2008 

Ai, pobre de mim

Que lamúrias deve estar neste momento o Calimero Pacheco* a congeminar, para continuação da sua crónica fabulosa sobre a opinião de litro? As "armas de destruição massivas" (perdoe-se o português sofrível), parte 2. A verdadeira questão deveria ser: por que razão ainda me dou ao trabalho de esperar por um arrependimento, uma contrição, uma dúvida que seja? Deveria ter desistido há muito tempo. Eu, pecador pertencente à furiosa "turba", me confesso, e acrescento um link mais para ele se sentir perseguido por meia blogosfera (que digo eu? blogosfera inteira). Coitadinho, que nem tem direito a debitar a sua sabedoria de pintainho num jornal com uma tiragem diária de 60 000 exemplares, mais uma revista semanal com 30 000, mais um programa de televisão visto por algumas centenas de milhar. A piedade que Calimero me merece apenas é atenuada pela raiva com que ataco a América; eu humildemente admito que sou um anti-americano primário (como milhões de nativos daquele território a norte do México que se preparam para votar em Barack Obama ou Hillary Clinton). Eu juro que nunca vi, e desprezo, filmes produzidos em Hollywood; juro que nunca ouvi, e lamento, Lou Reed ou Tom Waits, Strokes ou LCD Soundsystem, Bob Dylan ou Talking Heads; juro que nunca li, e detesto, autores como Poe ou Melville, Faulkner ou Fitzgerald, DeLillo ou Cormac McCarthy. Portanto, anti-americano primário, c'est moi (por isso falo francês). Não há qualquer argumento racional que eu possa usar para atacar a limpa e organizada invasão do Iraque. O caos que se seguiu, as pessoas que morreram, as consequências duradouras que todos prevêem para a região, tudo mentira, manipulações, demências de quem pensa mais com o seu primitivismo anti-americano do que com o cérebro. Pensamento controlado por ideologias pré muro de Berlim? Sou eu, o meu retrato perfeito. Admito, nunca me converti ao Santo Mercado, continuo a acender velinhas por Marx, Lenine, Trostki e Mao. Pois que Calimero tem razão. E tem razão com letras garrafais, enquanto nós, os milhares que o acossam, temos direito apenas a migalhas, míseros pontos negros na virtualidade blogosférica.
Calimero Pacheco, camarada, sofro consigo no seu isolamento. Acredite, o facto de poder ler um texto como o de Paulo Pinto, no Cinco Dias, que tem mais seriedade por centímetro quadrado do que qualquer quilómetro debitado pela sua pena, dá-me um gozo irreprimível. Há justiça no mundo: vozes de burro não chegam ao céu mediático - a constelação na qual Calimero Pacheco brilha acima de todas as estrelas. A turba será derrotada!

*Expressão cunhada pelo Pedro Vieira

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Terça-feira, Novembro 13, 2007 

Contra o fanatismo

Contra o Fanatismo, de Amos Oz, é um curto ensaio, em três partes, sobre a impossibilidade. Entre Israel e a Palestina não existe apenas um muro e cinquenta anos de ódio cultivado por dois povos que, basicamente, têm a mesma origem étnica: os israelitas e os palestinianos. Não esquecendo que israelita tanto se pode referir a um judeu semita ou a judeu de leste, a um árabe semita ou a um imigrante norte-africano. O problema da nacionalidade é uma mistificação: a nação palestiniana não existe - e dentro da nação israelita, artificial e nascida da culpa do Ocidente em relação ao Holocausto, a verdadeira essência do radicalismo tem outra origem: uma cultura de milénios. A religião, para os israelitas, é, muitas vezes, um pretexto. Não parece ser para os palestinianos, mas, como Oz afirma, o fanatismo antecede qualquer religião, e ultrapassa-a.
E de que impossiblidade falamos? Da impossibilidade de um radical ouvir as vozes moderadas, primeiro, e a outra parte, depois. Da impossibilidade de conseguir que um fundamentalista saia da sua trincheira e tente compreender o que o Outro pensa e sente. E, sobretudo, da impossibilidade da razão se manifestar no meio da loucura fanática. Amos Oz é judeu, mas desde sempre foi crítico de muitas atitudes militaristas e repressoras do estado de Israel em relação à Palestina. É um moderado, mas nunca um pacifista. Uma diferença que ele reafirma, e que o distingue das vozes que defendem uma realidade inconcretizável: a paz perpétua. O pragmatismo de um moderado coloca em prática objectivos realistas, quando estão em causa questões territoriais ou de convívio étnico e religioso. Mais do que isso, de acordo com Oz, o moderado aceita tacitamente a presença do Outro; o radical pretende exterminá-lo, ainda que finja moderação ou acordo.
Qual o verdadeiro papel da religião, nesta impossibilidade? A religião, para o radical, acaba por ser uma razão pouco razoável. É ela que fundamenta as decisões do político radical, é ela que o legitima perante a maioria da população. No conflito israelo-árabe, a sequência é óbvia: à ocupação do território em 1946 segui-se a reacção de quem já lá vivia; ao que se seguiu a consequente retaliação, que rapidamente levou à supressão de um direito fundamental do ser humano: o direito de escolher quem o governa. A democracia israelita, ao mesmo tempo que tem uma representação parlamentar oriunda da minoria árabe, surge em zona de fronteira como um exército repressivo da vontade palestiniana. Talvez Oz leve a argumentação longe de mais ao colocar o ênfase da sua análise na essência do radicalismo. Talvez na realidade o estado judaico esteja apenas a ser pragmático na defesa das suas fronteiras. Haverá ódio a germinar na raiz das decisões israelitas?
No fim, a maior impossibilidade que o ensaio de Oz denota é a da sua voz se fazer ouvir por entre a poeira levantada pelos radicais de ambos os lados. A lucidez de um homem só de nada vale perante a loucura de muitos. E essa é a maior derrota para os dois povos.

(O livro é editado pelo Público)

(Texto antes publicado no Arte de Ler)

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Segunda-feira, Outubro 22, 2007 

Homo Sapiens Watson

Não deveria ser assunto que merecesse um texto aqui, depois de ter lido esta brilhante refutação de Vasco Barreto no Cinco Dias; ainda assim, há coisas que se tornaram um hábito, e nem assim se tornam confortáveis. Os textos que defendem, de forma mais ou menos velada, mais ou menos hábil, as afirmações de James Watson, têm em comum o fantasma recorrente da liberdade de expressão. E o espantalho do politicamente correcto, para afastar as mentes mais susceptíveis. Torna-se cansativo. Para além de aturarmos a pesporrência ignorante de um prémio nobel desatinado, levamos com os habituais especialistas em tudo e coisa nenhuma, que, à primeira oportunidade, se socorrem da agenda política do costume.

Qual não foi a minha surpresa ao ver o habitualmente (para mim) inatacável Desidério Murcho juntar-se ao coro de carpideiras, com João Miranda à cabeça. Deste último, já não se espera muito. Na cabeça da alegre tropa fandanga de fãs que linka o Blasfémias e parasita a caixa de comentários, não há superioridade genética que resista à solidão do neurónio. Normal. Como também é o facto de a maior parte dos Mirandettes não snifar sequer a agenda política do ídolo - a revelada e a oculta (ou já ninguém se lembra de Pinochet, esse grande defensor da liberdade de expressão à força de armas, ou de Salazar, paladino da virtude libertadora do silêncio à luz de velas - pingando quentes sobre a pele -?).

Isto é João Miranda. Mas Desidério Murcho? Vejamos o que me interessa, citando:

Em conclusão, Watson pode estar a ser vítima do “politicamente correcto”. Hoje é proibido pensar que as pessoas podem ser diferentes umas das outras em capacidades cognitivas, sendo tais diferenças correlativas às suas origens genéticas. Tal como é proibido dizer que o aquecimento global não é provocado pelos seres humanos. A proibição em si é grave, pois mostra até que ponto estamos em pleno pesadelo orwelliano.

Primeira frase, o "politicamente correcto". E o que pensa o PC? Que é errado achar que as pessoas podem ser diferentes em termos de capacidade cognitiva, se estas diferenças forem causadas por diferentes origens genéticas. Abandonemos a paráfrase. O que existe de falacioso nesta frase? Não foi ainda provada uma correlação entre origem genética e capacidades cognitivas. Portanto, não há argumento racional que possa contradizer o facto de ser eticamente mais correcto achar que todos os seres humanos possuem as mesmas potencialidades a nível cognitivo, independentemente da sua origem geográfica ou étnica. E porquê? Porque a genética provou que apenas há uma raça humana, o Homo Sapiens Sapiens. Como, de resto, Desidério Murcho sabe, se esquecer por um momento a sua própria agenda anti-politicamente correcto.

O pensamento "claro e disciplinado" da filosofia deveria servir pois, antes de mais, para reflectir na razão de acreditar mais em estudos científicos que analisam a média do QI de diferentes grupos étnicos norte-americanos (a famosa Curva de Bell) do que numa evidência científica mais que comprovada. O QI, e as medições que dele se fazem, está longe de ser um valor absoluto. Já a homonogeidade genética de toda a Humanidade, ninguém com boa-fé poderá colocar em causa.

Dispenso-me a outro tipo de considerações em relação à lógica enviesada do texto de Desidério Murcho. Se a premissa é errada - a suposta cientificidade a qualquer prova dos estudos de demonstram as diferenças cognitivas de acordo com a "raça" - nenhuma argumentação pode ser considerada válida. Ou , vá lá, inteligente.

A cegueira provocada pela sanha anti-politicamente correcto é uma doença que alastrou tão rapidamente como o próprio PC (e não é estranho que a sigla maldita se confunda com o partido do mesmo nome - é a política, estúpido!). Que gente com um "pensamento claro e disciplinado" se associe (indirectamente) a nebulosos comentadores de tudo e nada, é que é surpreendente. Por vezes, é preciso pouco para despertar o monstro. Um cientista idiota e racista não é pouco.

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Sexta-feira, Agosto 31, 2007 

Morte aos assassinos

Eu gostava de ter visto o mesmo empenho que muitos bloggers agora estão a ter quando, há uns tempos, se falou de uma reunião de partidos de extrema-direita europeus em Lisboa, organizada pelo PNR. O empenho em corrente que protesta contra o facto de um evento cultural organizado por um partido político, uma organização privada, portanto, com regras próprias, neste caso o PCP, convidar alguém, neste caso uma organização de extrema-esquerda, as FARC, para a Festa do Avante, é admirável. Repare-se, o movimento iniciado por Tiago Barbosa Ribeiro, do blogue Kontratempos, e logo secundado por meia blogosfera de direita, não se insurge (belo e liberal termo) em particular contra a presença de membros de PC's de países comunistas, embora o facto seja referido; o principal problema é mesmo a FARC. Um pedido a todos os subscritores desta corrente: quando Robert Mugabe visitar Portugal a convite do Governo (que, não sei se sabem, representa todos os cidadãos do país, ao contrário do PCP, que representa apenas os seus próprios eleitores), redobrem o esforço, multipliquem a indignação, protestem, protestem contra o indigno gesto do Estado português. E, já agora, gostaria de ver outra coisa que não a menorização e desculpabilização da extrema-direita portuguesa nos prezados blogues associados deste benemérito gesto da próxima vez que, sei lá, ela decidir colocar um cartaz de teor racista em pleno Marquês do Pombal ou organizar reuniões com elementos comprovadamente criminosos, portugueses e estrangeiros, e que, para além do mais, querem lançar "a vertigem totalitária onde quer que actuem".
Sem falar dos estados criminosos que empurram outros países para o caos e para a deriva totalitária; e que matam gente aos milhares. Democracias, diziam?
Éramos todos tão perfeitos se fôssemos coerentes, não éramos?

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Segunda-feira, Agosto 20, 2007 

O terrorismo dos outros (2)

A tomada de posição envergonhada de Miguel Portas (que não me lembro já se foi ou não para Bruxelas com o meu voto) e a consequente indignação das castas donzelas liberais do nosso burgo fez-me lembrar um sketch dos Monty Python, o da "Inquisição Espanhola". "Ah, ah! Nobody expects the Spanish Inquisition!! e tal... estão a ver qual é. A reacção da seita que ainda anda a matutar na volta que irá dar ao cerebrelo para explicar uma ou outra tomada de posição em termos de economia ou, digamos, política externa norte-americana (e isto é apenas um exemplo, diga-se) a gritar: aí está, eles saltam quando menos se espera! Saltam, saltam, em defesa das acções dos seus militantes e simpatizantes de base, os simpáticos idealistas do mau-cheiro corporal, carne para encher canhão de manifestação ideologicamente dirigida. O segundo texto de Miguel Portas no seu blogue era desnecessário. Se se defende um acto de puro vandalismo, tem de se ir até ao fim na defesa, justificada ou injustificadamente. Para gáudio dos Torquemadas do nosso país, ateando alegres fogachos fátuos pelo país fora.

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O terrorismo dos outros

Não sei que piso do Inferno está reservado para ecoterroristas - o mais recente termo a entrar no vocabulário do taxista médio, que, entre o engenheiro recambiado para a escola profissional de onde saiu e insultos ao condutor da frente, ainda terá tempo para se indignar contra meia-dúzia de rafeiros habitualmente com casota posta na costa vicentina que decidiram ir mijar onde não deviam (a propriedade é um roubo, lá dizia o outro); sei sim que o lugarzinho para políticos oportunistas e demais ressabiados do atoleiro iraquiano (vulgo, os "liberais" da nossa praça) deve ser bem perto da suite imperial lá do sítio. Algures entre os advogados e os bem intencionados moralistas, a sua bela vista para a eternidade.

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Quarta-feira, Maio 23, 2007 

Fanáticos

Não é impossível um escritor tornar-se político - já aconteceu; mais difícil é um bom escritor tornar-se um bom político (veja-se o caso de Mario Vargas Llosa). Pode ser mais comum um mau escritor se transformar num bom político (pense-se em Vaclav Havel). E, de qualquer modo, na maior parte das vezes as aspirações políticas são mínimas ou desprovidas de bom senso. A passagem de José Saramago pela política activa demonstra o caso de forma exemplar.
O problema tem que ver com a natureza das duas funções. O político é, quase sempre, um ser desprovido de imaginação que compensa esta falta com uma tendência para a mentira, a falsidade ou a grandiloquência, muitas vezes ocorrendo separadamente e, nos casos mais sintomáticos, juntas. Pior ainda, o político confunde mentira com imaginação e inclui-se muitas vezes nos seus delírios mitómanos, achando que o poder que lhe foi delegado lhe confere carta branca para entrar na História. Todo o político sonha com a eternidade. Quase todos apenas conseguem notoriedade ou, nos piores casos, enriquecimento ilícito, durante algum tempo.
O escritor é alguém que usa a criatividade para produzir novas imagens, nunca mente. Está suficientemente protegido para poder praticar o seu ofício sem sobressaltos. Sabe que quem lê não espera mais do que outra realidade, diferente daquela onde vive. Diferente de uma realidade onde a mentira e a hipocrisia são indissociáveis da socialização. Neste mundo, o político move-se como uma enguia entre as mãos.
Amos Oz, escritor israelita, no livro do Público que saiu há uns tempos, "Contra o Fanatismo", traça uma linha entre escritor e político, definindo um modo de intervenção que tanto se aproxima do engagement clássico como se afasta - Oz nunca toma partido por nenhum dos lados, israelita ou palestiniano. O mais difícil de conseguir, a neutralidade absoluta; principalmente porque Oz é israelita e de esquerda - facilmente podia descambar para um dos lados. Os três ensaios do livro são extraordinários, e mais exemplares se tornam quando chegamos ao fim a achar que nenhuma das sugestões avançadas por Oz serão sequer pensadas pelos líderes políticos a quem ele apela. Oz, como outros intelectuais israelitas e palestinianos, labora no fracasso. Porque pertence a uma espécie diferente dos líderes políticos - os tais homens sem imaginação, reduzidos à insignificância de poderem mandar no presente. E de saberem que nunca irão transformar o futuro.

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Sexta-feira, Maio 04, 2007 

Encurralados

Fumar é uma questão de liberdade. Fazer amor também, para todos os efeitos. Qualquer que seja a variação, tudo é permitido dentro de portas. Houve tempos em que se proibia a sodomia, mas nenhum país desenvolvido se atreve ainda a reprimir actos de natureza exclusivamente pessoal. O que se quer fazer, e já foi feito em muitos países, é equiparar o acto de fumar a actos de natureza sexual. O caminho inverso já foi percorrido antes; pense-se no charuto de Monica Lewinski. As alusões ao falo que envolvem a actividade são evidentes desde antes de Freud. Legisle-se contra a perversão, portanto. Anseio pelo prazer que retirarei de fumar quando a lei for aprovada. O que antes era natural, partilhado, social, mundano, passa a ser anti-natura, individual, egoísta, privado. Viva a perversão do fumo! Libertinos de todo o mundo (ocidental), rejubilai! Mais um prazer proibido (e culpado) se acrescenta à lista de bizarrias que temos à nossa disposição. Fumar a seguir ao sexo deixará de ser um momento de calmia depois da tempestade. Um prazer ameno. De cigarro na boca, seremos como Sade seduzindo e pervertendo as mentes mais puras.
Não há nenhuma diferença entre um puritano sexual e um proibicionista. A sua natureza assemelha-se. A ditadura do bem-estar começa a tomar conta do mundo. Queremos mulheres com a silhueta de raparigas de 13 anos, músculos tonificados aos 50 e uma morte limpa, sem sofrimento. Estimulamos a investigação científica e queremos encontrar a cura para todas as doenças (como se fosse possível morrer saudável) e ao mesmo tempo especulamos sobre a eutanásia e deixamos os velhos abandonados à sua tristeza em lares habitados por sombras de vivos. Merece mais atenção um pobre fumador que apenas deseja poder viver com o seu vício sem ser importunado do que um velho abandonado pela família como um cão.
Vamos sendo encurralados pela lei do mais forte. A democracia que protege as minorias esquece-se por vezes dos direitos das maiorias. Não desejo mais saúde nem bem-estar; apenas o direito de poder fazer o que quero, desde que não prejudique os outros. Mesmo que os outros me queiram prejudicar. A minha liberdade.

[Sérgio Lavos]

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Sábado, Março 24, 2007 

Os amigos

Não sei se repararam, mas o amável exercício da amizade a que Vasco Pulido Valente (VPV) se sujeitou no Público é uma aguçada espada de dois gumes apontada na direcção de Paulo Portas. O Luís M. Jorge acha que VPV diz bem de PP. Mas se lermos de fio a pavio o artigozinho, não encontraremos um único elogio ao homem, ao político, ao estadista, ao putativo salvador do naufrágio em que a direita embarcou há algum tempo - e isto, inclui, claro, o mais desfasado partido do espectro político, o CDS, ou PP, ou CDS-PP, ou o que lhe queiram chamar.
A verdade é que o malabarismo estilístico de VPV pode ter um de dois resultados, e parece-me que neste caso conseguiu exactamente o oposto do que admite fazer atingindo aquilo que pretendia realmente atingir. Eu explico: nada há na crónica que indique que VPV coloque Paulo Portas num patamar mais elevado do que a bitola com que aquele costuma despachar a classe política em geral. Já conhecemos o rol de lamentos: a degradação da classe, a incompetência, o populismo e a falta de preparação para os cargos, sobretudo a ausência de uma aura de nobreza que, diz-se, em tempos era associada aos políticos. Não é preciso ler Platão para acreditar em utopias. Mas, na realidade, quantos homens verdadeiramente grandes eram políticos, nos últimos cem anos. 5? Mais do que isso? Há, no entanto, um mito a perpetuar, uma necessidade extrema de acreditar que a liderança de um povo é uma tarefa destinada aos melhores Homens disponíveis. Nunca foi assim - e a discussão acerca das habilitações académicas de José Sócrates é mais uma prova disto. O nosso homem da grande área netse jogo é VPV. E caramba, se dá gosto olhar para as movimentações linguísticas que ele ensaia, o estilo gingão de velho número dez ameaçando e fintando, finalmente disparando sem hipótese para o adversário.
Mas o estilo não é tudo, e revela quase sempre as fraquezas de quem se perde em rodriguinhos desnecessários. É preciso estar atento; o que VPV faz na crónica, é olhar para a esquerda e centrar para a direita, distraindo o adversário. Dizendo mal dos inimigos de Portas, repisando a tradicional litânia junto ao muro das lamentações a que estamos habituados - há uma senhora, neste caso, que é indirectamente visada. Nem por um momento se nega que Portas e os seus partidários tenham sido inocentes na vergonhosa situação que se viveu no passado fim-de-semana. Em nenhuma altura se questiona a capacidade camaleónica de Portas e o seu valor intrínseco: será bom ou mau ele ter andado aos ziguezagues todos estes anos, em busca do palanque certo para se colocar em bicos de pés, atropelando quem foi encontrando pelo caminho? Enquadrar-se-à a condução perigosa de Portas nos parâmetros de excelência que VPV defenderá (presumo eu) para a classe política? - apesar de nunca sobre eles ter escrito, dado a sua tendência para revelar apenas o negativo dos retratos tirados.
Será Paulo Portas o modelo de político a seguir, ou aquele "óptimo ministro da Defesa" é um sapo vivo que chega, por momentos, a soar a ironia camiliana? Que espécie de impulso leva VPV a considerar, sem se rir por dentro, ser perfeitamente "legítimo" ameaçar e insultar e querer tomar pela força um partido político? Onde pode residir a credibilidade de VPV, que parece ser historiador, quando troca a verve e a saudável acidez que reserva para quase todos, justa ou injustamente, por uma mal-disposta e amena indignação esgrimida em nome de uma, mais do que provável, amizade a um escroque? Terá perdão? E terá Portas percebido o que VPV acha mesmo dele?

[Sérgio Lavos]

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Sexta-feira, Março 17, 2006 

Mr. Hide

A clique de Cavaco parece que afinal pode provocar alguma comichão, a julgar pela crónica de Vasco Pulido Valente, hoje no Público. Não sei se houve alguém que tivesse caído na história do candidato de esquerda, mas a composição da equipa do presidente prova até que ponto a candura de Cavaco foi estudada ao milímetro. Haverá quem não preveja a força de bloqueio que se prefigura para os próximos tempos? Sabemos como a sintonia de Sócrates e Cavaco se limita às questões económicas. O primeiro calar-se-á de bom-grado nas questões sociais (aborto, direitos das minorias, eutanásia, direito dos trabalhadores - e o uso do jargão sindicalista não é inocente), se o segundo não levantar muitas ondas às propostas económicas que possam surgir nos próximos tempos. Ah, a perfeição deste monstro de duas cabeças é desarmante. Tenham medo, tenham muito medo.

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Março 15, 2006 

Portas e Cavaco

Não queria armar-me em profeta descamisado do subúrbio, mas não me parece que a coincidência da subida ao trono de Cavaco e o redesembainhar da espada do alegre moribundo Paulo Portas seja passível do esquecimento generalizado do comité central do comentariado nacional. Ele há amigos, ele há os ex-patrões, eu sei, mas não se devia brincar com certos sinais que vão acontecendo, e eu já vi esta história. Eu, que lia o Independente com um fervor quase pueril quando ainda não sabia que ser contra o poder estabelecido não era necessariamente ser anarquista (admito, ingenuidade burra), mas que em minha defesa afirmo que aquilo de que eu gostava mesmo no jornal era das crónicas do Miguel Esteves Cardoso, digo agora que sei o que espera o país - ainda que este se esteja marimbando - nos próximos tempos: o regresso do paladino da direita ao sítio onde ele melhor se sente, e não estou a falar, evidente, das feiras e mercados nacionais. A cadeira da oposição. Vasco Pulido Valente, de entre as opiniões que eu li, foi o único que intuiu isso, mas os laços - directos ou indirectos - que o unem a Portas não lhe permitiram descarregar a tradicional bílis sobre o homem. Pacheco Pereira afiou a pena, contas antigas por cobrar (Santana Lopes, lembram-se?). De resto, o deserto. A teia de influências mexe-se com o movimento provocado pelas patas do dono ao regressar. O que se espera? A curto prazo, a queda do acidental Ribeiro e Castro e a ascensão do próprio ou de um qualquer delfim que se preste ao serviço sujo. Ou não. Quem sabe a que partido e a que políticos quererá Paulo Portas fazer oposição? Alguém cuja ambição pode tomar, numa má manhã, proporções desmedidas, é disso que falamos. O poder é coisa passageira, a glória dura um pouco mais. Paulo Portas saiu do governo de Santana sem honra e muito menos glória, mas ainda assim, num país onde o político pode ser o pior crápula, por cima. Era uma questão de tempo, dizemos. Cavaco que se cuide. O seu PSD, também. A treta do projecto ideológico de direita é areia de atirar para os olhos, anos e anos de aprendizagem em jornais dotaram-no das armas que mais se adequam ao combate. A pergunta é: ainda terá crédito?

[Sérgio Lavos]

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Terça-feira, Março 07, 2006 

Tuga

Se há defeito que não estimo em mim é a tendência para a portugalidade, a irreprimível inclinação para o espírito tuga que me impele a ver em todo o político um espelho de mim próprio, às vezes deprimido, às vezes alcoolicamente eufórico, quase sempre ladrão e com uma preocupante fraqueza no que à verdade diz respeito. Não é de agora, e nem preciso de pedir a ajuda do ansiolítico-mor da praça dos comentadores nacionais para referir os escritores de oitocentos que passavam o seu tempo a vergastar costumes de forma desprendida e plena de witt, com Eça à cabeça, pois claro. O que me falta, como à maioria dos portugueses, é estilo. Sou azedo, quase sempre, e não suporto a arrogância de quem me toma por semelhante dos milhões de basbaques que desbaratam a educação que o estado lhes ofereceu e a inteligência que Deus lhes deu babando para cima de jornais desportivos ou novelas da TVI, conforme o género, de quando em quando quem sabe treslendo uns tomos daqueles de que as vedetas falam no ecrã, o ubíquo leitor Marcelo à cabeça. E, lá está, quem erradamente presume que o meu entedimento é, por natureza, moldado pelo património genético de uma nação em desespero de causa, não me merece o mínimo respeito. Pense-se em Sócrates, por exemplo. Rabiado pela excelência de um palácio dos longínquos mares do norte, mugindo do lado de fora para a multidão que o segue cá dentro, e, maravilha das maravilhas, descobrindo a dinamite que irá rebentar de vez com o país. Se provinciano não fosse um termo de tão fraca linhagem, poderíamos ficar por aqui, mas aquilo que me ocorre dizer é apenas isto: idiota de frágeis genes. E eu, imbecil, que o aguento, e aguento a desfaçatez de quem acha que, imitando os outros que resplandecem, algum dia alcançaremos o mirífico fim do pelotão de que nos afastamos tão rápido como uma Clara Ferreira Alves à vista de CCS. Paciência é coisa que me falta. A grande originalidade portuga é o umbigo que teimamos em massacrar com o dedo enquanto invejamos a velocidade com que os outros se nos adiantam. Exportêmo-la.

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Sexta-feira, Março 03, 2006 

Humor

Ao contrário do que preconizaram durante anos, a idade não me trouxe sabedoria nem paz de espírito. Ocorrem-me duas razões para o sucedido: ou sofro de uma lamentável tendência para o pessimismo e receio a velhice muito antes do tempo ou aqueles que me avisavam incorreram num redondo engano. Mas nem tudo é mau, com o acumular dos anos fui criando uma espessura de pele que me torna imune a quase tudo o que, para outro qualquer, poderia ser desagradável ou prejudicial. Desde que não cutuquem a minha sagrada trilogia – família, família e família – posso dizer que consigo ser, quase todos os dias, um homem feliz. A qualidade que me permitiu este upgrade de personalidade poderá ter sido, desconfio, o sentido de humor. Nada de rancor, antipatia, ódio visceral. Tudo pode ser risível, se enquadrado no seu devido contexto. Não é à toa que os ditadores se caracterizam também por ostentarem uma preocupante tendência para a seriedade. A excepção, Fidel Castro, serve para confirmar a regra. (Não é gralha, alguém acredita que aqueles discursos intermináveis e monótonos são para levar a sério?) Serve esta palavreado introdutório para dizer o quê? Que, apesar da minha regular bonomia, me irritam algumas coisas. Por exemplo, e isto é a minha costela de esquerda a falar, desprezo a arrogância capitalista e o individualismo exacerbado, valores que vão fazendo a lei no mundo. Mas, tão claro como isto, lamento que a esquerda encare com excessivo rigor a sua luta. O humor, e nem sei quantas vezes já isto foi repetido, pode ser a mais afiada das lâminas. Os esquerdistas padecem do mal de se levarem demasiado a sério. Conseguem ser chatos, chatos como um dia de chuva londrina em pleno verão. Debitam discursos aborrecidos e arreganham com rapidez os dentes se as suas ideias são atacadas, ou pior, arengadas pelos direitistas. Os esquerdistas gostam de coisas como ideais, princípios, regras de boa conduta. Dogmas, dogmas, dogmas. Um esquerdista entediado consegue ser mais conservador do que o pior reaccionário, um esquerdista enfadonho faz temer qualquer revolução que se anuncie, um esquerdista maçador é um perigo para a democracia. Passe a retórica exacerbada. Ser de esquerda e ter um pensamento de esquerda são coisas diferentes. Penso em Miguel Esteves Cardoso, confessado monárquico e revolucionário encapotado, penso em Vasco Pulido Valente, jacobino disfarçado de liberal relutante. O riso não é apenas a menos desprezável das conquistas da razão; quando acontece, elimina as rugas que a vida reflecte no rosto, e a sua ausência é o pior agoiro para o tempo que se segue, em grande ou pequena escala.

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Pormenores

O professor doutor Diogo Freitas do Amaral é um daqueles homens raros, capaz de gerar consensos da esquerda à direita. Viu-se agora, no caso dos cartoons. O fartote que foi ter sido apanhado em falso, de calças na mão, congenialmente veniando os terríveis terroristas islâmicos. Os que esperavam por uma escorregadela do homem têm feito a festa. A direita, neste aspecto, depois de tanto tempo aguçando as facas, tem-se prestado ao serviço de modo conveniente e vivaço. É normal, ninguém nesse campo político lhe perdoou a traição. Começou no retrato excomungado da sede do CDS e culmina nas sugestões de demissão sopradas por gente tão diversa como o director do Público, Pacheco Pereira ou Vasco Pulido Valente. No outro campo, a esquerda socialista, que nunca viu com bons olhos a nomeação de Freitas por Sócrates, sorri para dentro. Será uma questão de tempo até à queda. Sem surpresa, apenas a extrema-esquerda (facção BE) ainda defende o ministro dos Negócios Estrangeiros, consequência evidente do convívio próximo em manifestações com o político católico. Mas que fez Freitas para provocar tanta indignação, chiste e rilhar de dentes? O dislate inicial é imperdoável, mas compreensível; não surpreendeu ninguém a atitude beata de subserviência ao um deus que já nada diz aos ateus que opinam nos jornais. O que já não se entende é o ataque que se seguiu à primeira correcção do rumo inicial: quando Freitas sugeriu que o Ocidente seria, actualmente, o primeiro agressor do mundo árabe, onde estava o erro ou a mentira? Alguém poderá provar o contrário? O burburinho que animou os detractores do ministro foi, no mínimo, suspeito. Quem grita é guerra! é guerra! não se comove com estas minudências, a melhor das intenções esbarra no choque de civilizações propagandeado por uma certa direita saudosista da Guerra Fria. Os ideólogos que temos alegram-se com pouco. Meus amigos, avancem lá, que eu morro de curiosidade, o que têm a dizer sobre o último livro de Francis Fukuyama?

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