Um país de sombra
[Sérgio Lavos]
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Não me parece ser difícil chegar a uma conclusão: que mais vale viver mal em liberdade do que bem em ditadura. Bem sei que haverá quem não concorde, quem sonhe com um passado em que privilégios e direitos se confundiam, um passado longínquo no qual a manutenção de um estatuto era a única razão para a mudança. Quem suspira pelas criadinhas, o choffeur, a porta aberta e as flores no aniversário, quem lamenta o fim do pudor e o princípio de uma liberdade sexual que conquistou tudo o que havia para conquistar, quem entretém o seu tempo perdendo-se num passado de salões brilhantes e políticos que eram pais da nação, ah, todos estes que foram esmagados pela roda da História, poderia ter pena deles, porque lhes compreendo os sentimentos - a velhice é um cortejo de desilusões, medo e memórias - mas a verdade é que exulto porque são os últimos representantes de um mundo extinto. Nenhuma língua poderá descrever com precisão a sensação de viver em liberdade; esta língua que agora se aproxima apenas se pode usar porque houve uns quantos que se importaram, que recusaram a desistência, que quiseram a mudança, por boas ou más razões, as correctas. Não há derrota que se possa obter que não passe por uma vitória; reclamar contra o 25 de Abril é a principal herança da Revolução. Dizer, falar, escrever. O que somos.Etiquetas: Mentalidades, Política
Descontando os eventuais méritos políticos de Nicholas Sarkozy, anda por aí gente entusiasmada por ele ter, sejamos claros e javardos, engatado uma gaja irrepreensivelmente boa, a Bruni, de primeiro nome Carla. Faz-me pena ver a inveja desta gente, e faz-me pena também ver o político que atiçou meio país com uma afirmação de calculada piromania (a "rocaille") fotografado em tudo quanto é jornal e revista cor-de-rosa e jornal e revista menos cor-de-rosa (no Libération, é semana sim, semana também), acompanhando de uma mulher que, claramente, não é do seu campeonato.Etiquetas: Política
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Que lamúrias deve estar neste momento o Calimero Pacheco* a congeminar, para continuação da sua crónica fabulosa sobre a opinião de litro? As "armas de destruição massivas" (perdoe-se o português sofrível), parte 2. A verdadeira questão deveria ser: por que razão ainda me dou ao trabalho de esperar por um arrependimento, uma contrição, uma dúvida que seja? Deveria ter desistido há muito tempo. Eu, pecador pertencente à furiosa "turba", me confesso, e acrescento um link mais para ele se sentir perseguido por meia blogosfera (que digo eu? blogosfera inteira). Coitadinho, que nem tem direito a debitar a sua sabedoria de pintainho num jornal com uma tiragem diária de 60 000 exemplares, mais uma revista semanal com 30 000, mais um programa de televisão visto por algumas centenas de milhar. A piedade que Calimero me merece apenas é atenuada pela raiva com que ataco a América; eu humildemente admito que sou um anti-americano primário (como milhões de nativos daquele território a norte do México que se preparam para votar em Barack Obama ou Hillary Clinton). Eu juro que nunca vi, e desprezo, filmes produzidos em Hollywood; juro que nunca ouvi, e lamento, Lou Reed ou Tom Waits, Strokes ou LCD Soundsystem, Bob Dylan ou Talking Heads; juro que nunca li, e detesto, autores como Poe ou Melville, Faulkner ou Fitzgerald, DeLillo ou Cormac McCarthy. Portanto, anti-americano primário, c'est moi (por isso falo francês). Não há qualquer argumento racional que eu possa usar para atacar a limpa e organizada invasão do Iraque. O caos que se seguiu, as pessoas que morreram, as consequências duradouras que todos prevêem para a região, tudo mentira, manipulações, demências de quem pensa mais com o seu primitivismo anti-americano do que com o cérebro. Pensamento controlado por ideologias pré muro de Berlim? Sou eu, o meu retrato perfeito. Admito, nunca me converti ao Santo Mercado, continuo a acender velinhas por Marx, Lenine, Trostki e Mao. Pois que Calimero tem razão. E tem razão com letras garrafais, enquanto nós, os milhares que o acossam, temos direito apenas a migalhas, míseros pontos negros na virtualidade blogosférica.Etiquetas: Entretenimento, Política
Contra o Fanatismo, de Amos Oz, é um curto ensaio, em três partes, sobre a impossibilidade. Entre Israel e a Palestina não existe apenas um muro e cinquenta anos de ódio cultivado por dois povos que, basicamente, têm a mesma origem étnica: os israelitas e os palestinianos. Não esquecendo que israelita tanto se pode referir a um judeu semita ou a judeu de leste, a um árabe semita ou a um imigrante norte-africano. O problema da nacionalidade é uma mistificação: a nação palestiniana não existe - e dentro da nação israelita, artificial e nascida da culpa do Ocidente em relação ao Holocausto, a verdadeira essência do radicalismo tem outra origem: uma cultura de milénios. A religião, para os israelitas, é, muitas vezes, um pretexto. Não parece ser para os palestinianos, mas, como Oz afirma, o fanatismo antecede qualquer religião, e ultrapassa-a.Etiquetas: Literatura, Política
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