Sexta-feira, Maio 02, 2008 

Maio de 08

Os tempos nunca foram tão bárbaros para a juventude inquieta a que cada geração tem direito. Faltam causas, é verdade. Sobra materialismo e mil e um gadgets para consumir. Imagine-se, os ideais até se podem comprar no e-bay, enquanto se espera que acabe de descarregar aquele álbum daquela banda que alguém ouviu e acha que daqui a seis meses vai ser ouvida por toda a gente que não está na onda.
Instantaneidade e simultaneidade. Tudo agora e várias coisas ao mesmo tempo - menos o sexo, claro, que os delírios de Zabriskie Point já foram há quarenta anos.
Por isso, a juventude de agora, que tem tudo menos carreira, casa e uma perspectiva estável de futuro, alegremente é alimentada pela teta dos pais de 75, que nada querem fazer para deixar de ser os salvadores de um país perdido no nevoeiro do fascismo.
O problema, caro Watson, é claramente este: isso tudo de que falam, precariedade, desemprego pós-licenciatura, novas oportunidades falhadas, desânimo, depressão e horror com pipocas à mistura é um eterno sonho de uma outra juventude: a dos nossos pais, que com todo o amor do mundo desejam que bem estar, paz, pão e liberdade sejam, não uma escolha dos seus filhos, mas o leite da teta que caridosamente oferecem. Não há uma única solução viável para acabar com o labirinto da falta de escolha que se apresenta a esta geração porque a vontade desapareceu há muito; os pais desta geração puxam a rédea de cada vez que ela se tenta libertar, em perpétuo movimento reaccionário. O resultado de uma revolução sem sangue é uma juventude sem pinga de sangue nas veias.
Independência ou morte? Morte a longo prazo, como o lume de uma vela a extinguir-se (enquanto se ouvem as palavras de uma rock star cantando o oposto).

[Sérgio Lavos]

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Domingo, Março 30, 2008 

McRúcula

Damo-nos conta de que o mundo caminha mesmo para o abismo quando queremos almoçar rápido, entre um compromisso e um filme, e não encontramos um restaurante decente de fast-food nas redondezas.
É como entrar numa nave espacial, o renovado Monumental; os imaculados brancos escondem cortinas e segredos, autópsias e vivisecções de gente à antiga. Agora, se quero comer um hambúrguer (ou uma hambúrguer, como se dizia antes) tenho de ir ao McDonald's, que, a dois passos, está às moscas, apesar do lifting das saladinhas e dos menus light. Ou então opto por um belo e gorduroso hambúrguer de soja, humm, que bom, não bastava ser soja, ainda é em forma de hambúrguer, ou então apenas resta uma loja Go Natural, outra Become Light, outra ainda de pizzas feitas à base de trigo não transgénico, tudo acompanhado dos habituais sumos de frutos tropicais ou de batidos de feno, ou essa maravilhosa invenção bastante apreciada por clones de vacas, os shots de relva (é a pura verdade, juro); não sei quantas (poucas) calorias apenas e o health-club fica mais barato e evita-se uma ida à Corporacion Dermoestética.
Este é o reino da salada de rúcula temperada com vinagre balsâmico, e temo pelo futuro das nossas crianças quando vejo um suposto dread como Kalaf Angelo a discorrer na sua crónica do Público sobre os horrores que sofre de cada vez que percorre as lojas gourmet em busca de vinagre balsâmico (mas final, o que é isso de vinagre balsâmico? algum néctar produzido no Olimpo, ou será uma espécie de líquido curativo que substitui a água oxigenada na limpeza das feridas?).
Enquanto ainda tento digerir um cozido bem regado a vinho da casa, imagino esta gente que julga que viver significa prolongar o sofrimento e a fome e chegar aos 120 anos, presa nos lares para onde os filhos os enviaram, a recordar o passado com lágrimas nos olhos, aquele prato de beterraba cozida naquele restaurante new age onde iam aos trinta, o sabor da água mineral Evian, apuradíssimo, encorpado, a saladinha de couve roxa, rúcula e tomate cherry a acompanhar e o belo remate, digo, sobremesa; um pedacinho de doce de abóbora lado a lado com raspas de casca de laranja (já dizia a minha mãe: "não queres? come raspas!).
Eu sei que sofrerei por todas as vezes que, em vez de comedidamente passar fome, ter escolhido comer de entrada presunto em vez de salmão, emborcar uma feijoada com tinto e ainda ousar comer um doce de ovos no final. Mas até lá, pelo menos alimento-me, não finjo.
E acabei, claro, por sair do Centro Comercial e ir ao McDonald's. Se há alguma mensagem nisto, é esta: este foi um dos textos em que usei mais termos em língua inglesa; a globalização do gosto, surpreendentemente, não vai lá pelo fast-food. O que nos espera é o império da comida light. Ou será que pensavam que a ASAE era só um acidente de percurso?

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008 

Correspondência

Milhares de cartas inundaram a caixa de correio, a perguntar a mesma coisa: por onde andas? Respondi a todas, sentado numa esplanada para fumadores enquanto a chuva ia e vinha. Café? Confirmo. Cigarro entre os dedos? Claro. Alcoólicos perdidos no dia, copo atrás de copo? Sempre. A esferográfica na mão (não tinha tinta para a caneta) e sentia-me um passo à frente da modernidade. Eu espreitava por cima do ombro - que mulher feia ela se tornou, e eu conheci-a tão nova. A minha caligrafia é um acidente geográfico, Himalaias em potência - nem eu percebo, por vezes, o que escrevo. Tusso um pouco, mas como não fumo muito não chega para afirmar: sofro de catarro. Uma mulher passa, desvia o olhar, mas as calças de ganga apertadas segredam-me ao ouvido: "escreve, responde às cartas". Um yuppie com pretensões intelectuais - estão a ver o estilo, camisa e blaser, suíças crescidas - sai para a rua, dedo no ouvido, telemóvel na outra mão, a gritar para quem o ouve: "É o que eu te digo, a terceira guerra mundial vai começar". Achei normal, hoje em dia qualquer um pode ser profeta, ou melhor; comentador político. E era mesmo: "esta cena da Jugoslávia, foi ali que começou a primeira e a segunda, vai começar ali a terceira. A Espanha não aceita, a França também não, a Itália não estou a ver, os Estados Unidos só fazem merda". Lá ao fundo, uma voz meio desesperada ouve-se: "Amor, o café está a arrefecer". Espreito para dentro, olhar cruzado, regresso ao papel timbrado de hotel, escrevo cartas. Nos próximos dias, receberão uma resposta no correio. Entretanto, aproveito o sol e dou uma última passa, esmago a beata. Espreguiço-me. "Amanhã falamos, temos de ir à neve ainda este ano".
A terceira guerra mundial ali à esquina.

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008 

Respiro

Talvez nestes últimos tempos tenha havido mais do que um assunto que me tenha despertado a atenção, de entre a modorra quotidiana de notícias que, diariamente, inunda os jornais. Poderia dispensar a ligeira constipação que se apoderou da última frase - não poderei afirmar seriamente que a arrogância de que essa frase está enferma não seja um defeito, mas administro, em doses homeopáticas, a arrogância a algumas coisas que faço.
Não queria desaguar aqui: aqui. Antes preferia continuar a falar dos assuntos que me interessaram e dos quais não falei. Deveria falar? Quando escrevo não falo, parece-me evidente, embora uma voz na minha cabeça me vá ditando coisas com as quais nem sempre concordo. Mas, é sério, deveria referir que isto ou aquilo me afectou profundamente, aquela coisa ou a outra me indignou apaixonadamente, um ou outro acontecimento me transformou de maneira decisiva? Tenho as minhas razões para me manter calado. A menor das quais é o desinteresse que isto possa ter para quem me lê. Mas, se me lêem, é porque tem interesse.
O principal motivo de orgulho, desde que fui silenciando o tribuno que habita em mim (5º esquerdo, ali mesmo ao pé do fígado), é a sensação de controlo de estragos, de higiene totalitária, que este blogue respira. Algumas recaídas quase que deitaram tudo a perder. Acessos súbitos de vaidade, tropeções mais ou menos públicos, alguma tosse inconsistente a meio da peça do silêncio que neste momento está em cartaz por estas bandas. Mas o tempo apaga tudo (menos as insistentes nódoas da tarte de mirtilos do verão passado). E tudo se esquece, ao sabor do vento que sopra os textos mais antigos lá para baixo (não espreitar, por favor). Cada vez mais penso - e não estou sozinho nesta demanda - que o ideal seria escrever sem dizer absolutamente nada (a dupla negativa aconselha-se). Sei que neste campeonato teria a concorrência de quase todos os colunistas que escrevem em jornais portugueses. Melhor, retiro o que afirmei na última frase. A maior parte da gente que escreve por aí diz tudo sem escrever absolutamente nada. De jeito. Sabe tudo sem saber realmente nada. E o realmente nada seria, neste caso, calar o impulso de ganhar uns cobres e deixar-se ficar sentado no silêncio, imaginando a neve que não cai lá fora, enquanto o mar desaba a sua impotência sobre a areia de um fim de tarde de verão.
Deixo em paz o colunista encostado ao doce cadeirão da improbabilidade poética, o malfadado colunista escrevendo o texto que leio com tal intensidade que no momento seguinte o esqueço, um suspiro nos lábios, agora não, que não me interessa. O tribuno grita. Vou ali amordaçá-lo, não quero discursar sobre nada que interesse minimamente ao eventual leitor deste texto. O momento seguinte, de libertação completa, me espera. (Utilizo o brasileirismo para não quebrar o ritmo da frase). E como quebrei o ritmo da frase, escrevo uma mais sem dizer nada. Respiro sobre a língua, e ela encolhe-se.

[Sérgio Lavos]

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Quarta-feira, Janeiro 23, 2008 

Os outros

Curiosamente, apesar dos propalados baixos níveis de literacia do país, encontro mais gente arrogante que ignorante. Quando eu próprio era arrogante, achava toda a gente ignorante. Portanto, eu sei o que essa gente sente. E tenho pena. Do seu sofrimento. Emocional, social. Físico. Não sei se sabem, mas a arrogância provoca maleitas físicas, pequenas coisas preocupantes. E chatas. Aftas. Furúnculos. Hemorróidas. Talvez por isso, falar com gente assim causa-me pena. Leio-lhes o sofrimento na pele. O esgar subtil. A carantonha retesada. O nervo sináptico ligando o cu à boca, transportando os excessos cá para fora. A arrogância, desconfio, é uma doença. Com variados sintomas - os físicos, já expostos, e os psíquicos. Má educação é outro nome para este terrível flagelo que atravessa uma classe circunscrita da nossa sociedade; do sangue azul ao sangue vermelho reciclado, do nobre depauperado ao burguês enconado, do velho rico fascista ao novo rico malabarista. E, em casos avançados da doença, a loucura pode aparecer. Daquela galopante, senil, babada, raiada, balbuciada, mal-educada. Portanto, via sacra sofrida que esta gente pena. Da hemorróida à loucura, o passo é curto.
Os ignorantes divertem-me. E ensinam-me. Ensinam-me a humildade - eu confesso que me esforço para aprender. Vou aprendendo. Curando as aftas. Os furúnculos. (O resto nunca tive). Divertimento e sabedoria, uma tábua rasa pronta a receber todo o conhecimento do mundo - como não admirar a ignorância? Aprendemos mais do que ensinamos, e os arrogantes vão continuar a sofrer de achaques, a contorcer-se, a espumar de raiva, a empalidecer, a esticar o nariz até tocar no tecto, como focas, a modular a voz até se assemelhar a um trombone, uma longa nota, estridente e cava, que não tem maneira de acabar. Deixemos a purulência arrogante refastelar-se na sua própria bílis. Ganhar bolor. Apodrecer.
A ignorância é uma benção.

[Sérgio Lavos]

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Quinta-feira, Julho 12, 2007 

Cansei do Inverno

Durante muitos anos, não fui à praia.
Ir à praia. A ideia não é igual para todos. Há quem vá para estar horas a fio na areia, outros preferem o mar, outros a esplanada em frente e uma cerveja que nunca desaparece. Durante muitos anos, nenhuma destas versões me atraía. Reconheço algumas expressões de desprezo, aí no meio da multidão (reduzida, que estamos em tempo de férias) - tenho a sensação de que a maior parte dos que param para ler o que se escreve neste blogue não se reconhece no que vou dizer a seguir; ou reconhecem-se demasiado. De qualquer das maneiras, a reacção pode ser desagradável. Como sentir os grãos de areia a esvoaçar em dia ventoso. Ou acordar com a pele queimada de um lado, depois de uma sesta que julgávamos retemperadora. Ou levar com uma bola de miúdo. Ou ouvir as conversas do vizinho - aí, lamento, mas isso nem sempre é mau. Quem não gosta de escutar uma boa história de faca e alguidar, que se retire em silêncio deste tugúrio.
A questão é: há um tempo na vida em que gostar de praia menoriza; em que se torna foleiro gostar de praia. A ideia é esta: férias, férias grandes depois do período de aulas; sol, mar, o sabor do sal na pele: tudo miragens. Há um tempo na vida em que ter estilo é ficar enfiado em casa, papando livro atrás de livro (o sol lá fora), esquivando-se a qualquer contacto com outros humanos (calor, luz intensa lá fora), inferiores que se expõem aos raios violeta que nem lagartos dependurados de muros em ruínas. O Inverno pode ser um estado de espírito. Ninguém ouviu dizer que Kafka gostasse de praia - apesar do livro de Murakami. Nem Nietzsche. Nem sequer Rimbaud ou Baudelaire. A soturnidade é uma forma de vida - meio mais rápido de atingir o êxtase da sabedoria. Ler livros na praia? Uma contradição insanável. Nenhuma frase de Beckett resiste ao horizonte marítimo. Depois, existe o problema da educação, para quem gosta de se julgar um dandy perdido no tempo. O cavalheiro inglês não se apanha na praia, nem que use um daqueles fatos de banho do início do século passado. Alguém imagina Oscar Wilde de bermudas? (OK, eu talvez imagine, mas isso não é coisa para revelar aqui - estraga a pintura). E para metade da blogosfera, estas coisas realmente importam. Pensar em Evelyn Waugh torrando ao sol da Caparica não é um pesadelo bom. Apenas se concebe o intelectual brasileiro - e ele existe - passeando em Copacabana, a espreitar a bunda da classe baixa. Ou nem isso, há quem viva em São Paulo. E em São Paulo pode ser normal ser branquela - veja-se o caso dos Cansei de Ser Sexy. Mas distancio-me da questão.
Eu também fui assim. E há quem ainda seja, bastante entrado na idade. Há quem morra assim, sem sentir os prazeres de um banho de horas; sem usufruir da onda de melanina que a absorção dos raios solares provoca, aquela vaga sensação de euforia que se segue a um dia de praia; sem poder se dar ao luxo de olhar mais do que demoradamente para o topless da modelo em frente, entre um cochilo e outro. Esqueçam os contras, e sobretudo esqueçam o estilo - um homem em pleno verão não precisa de estilo nem de verdade; é-lhe suficiente o leve torpor de um dia luminoso, belo e esquecido de si mesmo.

[Sérgio Lavos]

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Sábado, Julho 07, 2007 

Aniversário

Por lapso ou vontade involuntária, na entrada mais abaixo, "Uma verdade", não referi o tema que tratava. Ao reler o texto, nem eu próprio sei se pretendia mesmo escrever sobre o que tinha inicialmente em mente: o meu aniversário. É verdade que nasci há 32 anos, aqui há uns dias, mas a importância do acontecimento é tão reduzida que nem para assunto de post serviu. A única razão para assinalar a data é ter esquecido o poema de Fernando Pessoa ("No tempo em que festejavam os meus anos/Eu era feliz e ninguém estava morto"). Esqueci-o e escrevi o rascunho com aniversário em fundo. Uma cedência ao lugar-comum da melancolia, admito, mas as razões que lhe estão associadas perdoam a falha.
Ninguém comemora aniversários. Uns bebem até esquecer que a data vai passando. Outros esquecem antes de beber e vivem como no poema de Mário de Sá-Carneiro ("Quando eu morrer batam em latas"). Mas sinceramente, ninguém pode, de maneira séria, celebrar a passagem do tempo. O nascimento, claro. Dou de barato esse pormenor relacionado. Não somos responsáveis pela nossa vinda ao mundo - porquê então lembrar anualmente o facto? Sem falar da perfeita aleatoriedade dos marcos temporais. Vivíamos melhor sem calendário? Viveríamos mais descansados, sem a pressão de cada aniversário. O assunto acaba por ser um pouco repugnante - lembra sempre os que escondem os anos que passaram, aqueles que queremos manter a uma distância sanitária.
Não gritar, não soprar velas, não partir o bolo. Dispenso tudo isso; mas, por favor, continuem-me a presentear com a vida material a que também tenho direito - objectos a que eu possa prender o meu afecto, tendo a certeza que nenhuma retribuição lhes é devida; o único tipo possível de amor desinteressado. Continuarei a esquecer aniversários (quem me conhece sabe que é assim). O meu próprio aniversário, espero um dia esquecê-lo. Não existe maior felicidade do que viver fora do tempo.

[Sérgio Lavos]

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Segunda-feira, Junho 25, 2007 

Verdade e consequência

Quem entra no auto-retrato em busca de hipocrisia que toma conta do mundo arrisca-se a sair pela porta dos fundos. Não há qualquer vontade de afastar o visitante brasileiro que aqui caiu. Espere, não vá embora. Fique um pouco. Falo de hipocrisia num ou noutro texto, é verdade. Entretanto curei a maldição - ficar de olhos raiados atrai sempre a espécie errada de deus. Não me interessam os hipócritas; na realidade, até que vagamente me atraem. Qualquer mentiroso compulsivo - e um hipócrita não passa disso mesmo - merece mais do que a minha atenção; a minha devoção. É difícil passear no labirinto da mentira; o minotauro espreita a cada esquina, a maldita verdade que estraga qualquer boa história. Neste ponto, afirmo: interessam-me os hipócritas até ao ponto em que não são apanhados a mentir. Quando são descobertos, deixa de ter interesse (e neste aspecto o erotismo assemelha-se à mentira). Um hipócrita é alguém que vive em constante humilhação, sorrindo para a pessoa que odeia, murmurando entredentes ressentimento e amargura, passeando em público a impotência de não chegar a ser um mitómano. O delírio em que este último vive é um problema de negação para o hipócrita - este julga ser racional, e portanto um ser em pleno auge social. Por vezes chegam longe - ou, como último recurso, tornam-se políticos. Mas carregam atrás de si pesadas grilhetas: sentir que nenhuma humilhação se compara à incapacidade de confessarem a verdade a si próprios. Imaginem: um hipócrita não aguentando o teatro em frente ao espelho; a encenação. No momento em que tudo é permitido, a mentira.
O escritor, esse, contraria a cada palavra a sua vocação de mitómano: quando quer mentir, diz a verdade mais límpida. O que vai tomar conta do mundo? Não espere nenhuma verdade neste texto, leitor. Muito menos hipocrisia.

[Sérgio Lavos]

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