10/11/07

House e o tabaco

(...)A ironia de House consiste em repôr o mistério na esfera da interioridade. No mundo me que a saúde se tornou o ponto de articulção das expectativas existenciais e em que não morrer se tornou a contrafacção da Graça, a doença é a boa metáfora da interioridade. House, porém, recusa identificar a Graça com a Medicina: gosta de roubar a doença aos pacientes e assumi-la como sua. É o que está em causa no seu lema "everybody lies", que significa: um doente (ou culpado) não sabe que o é (e não pode portanto ajudar-se). Só a doença existe e, assim, não há nela qualquer interioridade. A impessoalidade deste mistério impede toda a comunhão; e testemunha disso é essa forte imagem de um médico que, através de uma vidraça (ou do véu da ilusão), observa os seus pacientes sem se aproximar.(...)

Não terei lido, até agora, melhor texto sobre House, M.D. Onde? No Ipsílon, ontem, escrito por Francisco Luís Parreira numa recensão a um desses sub-produtos de merchandising associados a uma série de sucesso. Curiosamente, no mesmo dia em que, no mesmo jornal, Vasco Pulido Valente voltava a investir contra o fascismo sanitário que transverte as sociedades democráticas actuais - outra maneira de caracterizar a campanha anti-tabágica que vai alastrando pelo mundo. Um excerto:

(...)Imagino quem, de facto, quererá este mundo sufocante e asséptico, obcecado com a "saúde"? Gente, como é óbvio, com pouca imaginação. Por mais forte que seja o culto e a idolatria do corpo, a velhice chega. E, com ela, a irrelevância, a obsolescência, a solidão. Esta sociedade de velhos trata muito mal os velhos. A ideia (e a propaganda) de uma adptação contínua é uma grande e cruel mentira. Os velhos são um embaraço. Um peso que se atura, que se arruma num canto, que se mete num "lar". Setenta anos de esforço para durar acabam num limbo à margem da verdadeira vida, quando não acabam no sofrimento e na miséria. O Ocidente está a criar um inferno. Por bondade, claro.

É interessante que, ao mesmo tempo que recusamos a morte e a velhice como processos intrínsecos ao acto de viver, e tornamos a vida um simples adiar da morte, nos entusiasmemos por séries como House, que explicitamente defende valores contrários aos dominantes. Gostamos do politicamente incorrecto apenas em forma de ficção? Procuramos uma fuga ao "real", construindo simulacros de vida para tornar suportável o insuportável. Fugimos.

[Sérgio Lavos]

1 comentário:

P.E. disse...

Claro que fugimos...