22/10/07

Mudança

Estava a ver o "Câmara Clara", bem sentado, confortável, a olhar para o ar também confortável (alguém maldoso diria acomodado) do Zé Pedro e, principalmente, de Pedro Ayres Magalhães, e imaginava o que seria o Bairro há trinta anos, quando meia-dúzia de voluntariosos decidia imitar as bandas que via no NME e ouvia em vinis importados de Inglaterra (Miguel Esteves Cardoso explicou tudo muito bem explicadinho na sua "Escrítica Pop"). Não é a minha história. Conheci os Xutos por alturas do "Circo de Feras"; respeito - mas não vibro. Aprendi a gostar de alguma música com Zé Pedro - num programa de TV dos princípio dos anos 90, o Vira o Video, que ele apresentava em conjunto com a Xana e o Henrique Amaro; os Young Gods, as vezes que passaram Gasoline Man no programa! E a improvável fama para os Mão Morta - em Budapeste.
Quinze anos depois, trinta anos depois, depois da comenda e da consagração nacional, depois dos anos de estrada e da música de combate dos Xutos, da cena facho-romântica dos Heróis do Mar, depois de tudo, a calmia da meia-idade. Zé Pedro é Zé Pedro. Já Pedro Ayres foi provocado várias vezes. Manteve-se calado. Falou-se de política. Falou-se do percurso de Nick Cohen, jornalista criado pela esquerda e como tal edipianamente distante da esquerda.
(É tempo de alguém que ainda seja de esquerda escrever um livro sobre todos os intelectuais e ideólogos de esquerda que chegaram à meia-idade a apoiar cegamente a administração Bush ou a tibieza de Durão Barroso. Que percursos são estes? Que motivações? Que complexo ou recalcamento conduz homens como Cohen ou os neoconservadores, ou Pacheco Pereira, ou José Manuel Fernandes? Mudou mesmo alguma coisa nestes homens?)
Não há revolução que não precise de sangue quente e pouco neurónio. E não há revolução que não deixe de fazer sentido quando se chega aos 40 e já se conseguiu conquistar tudo o que havia para conquistar. Vejo os dois músicos, e sei que o Zé Pedro deixou a má vida, os abusos, e imagino-o sentado à lareira, recordando ultrapassadas rebeldias. Pedro Ayres Magalhães tem ar de bon-vivant. Comida e bebida. Desfrutar. Olhando para o passado sem ansiedade, com ironia mais ou menos arrependida.
Não é uma coincidência que ambos os músicos tenham referido a admiração comum por Bob Dylan. Dylan, de guitarra sob o braço cantando para uma multidão com desejo de revolução (a pandilha folk), já se via quarenta anos depois trovando sobre o desencanto do mundo, do tempo que o espartilha, da mudança. Dylan nunca quis fazer revoluções, a não ser na sua própria maneira de ver as coisas. A grandeza de um homem não está naquilo que consegue mudar, mas sim no que consegue guardar do tempo que mudou. Não sei que outra definição possa ter a sabedoria.

[Sérgio Lavos]

5 comentários:

JL disse...

:)

pedro vieira disse...

estava pronto a aplaudir de pé o texto mas o arrematar com o dylan gelou-me um pouco o entusiasmo, assim que, de súbito, me entrou pela memória adentro o trovador dylan a tocar para o papa. há coisas que nem a troupe folk encharcada em lsd teria conseguido prever. sua santidade ao lado do gafanhot gigante zé antónio? náááá...

Sérgio Lavos disse...

agora sei porque não gosta de Bob Dylan. é verdade que o recital para o Papa não é coisa que abone a favor dele, mas o homem está velho e precisa de agradar a todas as capelinhas - que a fama é uma coisa bonita mas ir para o céu ainda é mais.

Happy and Bleeding disse...

ahahahaha, é a nódoa branca na carreira do Dylan. perdoemos-lhe, sim? :)

josé quintas disse...

“A grandeza de um homem não está naquilo que consegue mudar, mas sim no que consegue guardar do tempo que mudou” serve como definição de sabedoria, mas onde está a grandeza em ser uma máquina registadora eficaz? Coleccionar memórias e conhecimento é o máximo a que podemos aspirar? Vamos então ser essénios dentro de grutas de betão enquanto os romanos de agora destroem o que resta do mundo, ou gurus numa palhota a olhar para o umbigo ou para o céu sem querer saber dos milhões na miséria. Até parece que já não adianta agir nem tentar mudar o que está por perto. frase funesta para um post que não o era.