04/01/08

Ainda a crítica

Caro Francisco:

apesar de não parecer - parece, de resto, uma crítica muito séria - penso que João Bonifácio se refere a Manuel Gusmão, neste excerto, em termos, no mínimo, sarcásticos. O ponto dele é simples: se o Manuel Gusmão pode, e é elogiado por isso, também ele pode produzir "uma verborreia inenarrável de referencialidade abusiva exclusivamente centrada em maus poetas e escrita apenas e só para gáudio onanístico de um pequeno salão de medíocres." Ou não? Ou o que Manuel Gusmão escreve é mesmo decisivo para o entendimento e consequente compra do livro recenseado? Lá beleza tem, sem dúvida - e ele, sem ironia, é um grande poeta. Mas adequar-se-à ao meio - um suplemento de jornal - em questão? É que, vamos lá ver, o outro exemplo citado, o Pedro Mexia, é o oposto, em estilo, em influências, do Manuel Gusmão - escreve claro, sem rodriguinhos de subjectividade e sempre a tentar escapar a qualquer referencialidade nebulosa; capaz de, imagine-se, falar da história que um romance conta ou, pior ainda, referir dados biográficos quando fala do autor do livro. Em que pé é que estamos? Poderá um crítico musical escrever como um poeta sem cair no ridículo?

(Não sabia que o "entusiasmo" se pode fingir?)

[Sérgio Lavos]

3 comentários:

JL disse...

[mas sabes que o "orgasmo" se pode fingir, espero. :) ]

Anónimo disse...

"entendimento e consequente compra"?!

Sérgio Lavos disse...

Caro anónimo:

compreendo a sua objecção: Eu próprio objectei essa passagem do meu texto, 24 horas de o ter escrito, da segunda vez que o li. "entender" um texto apenas é possível depois de o lermos na íntegra, ou não é possível. Por vezes, até é desejável que não seja entendido, de todo. Ou seja mal-entendido, não interessa. Neste caso, o que eu provavelmente pretendia escrever é que o crítico poderia falar em concreto do livro e não perder-se em mil e um caminhos paralelos que podem não ter nada que ver com a obra recenseada. Provavelmente, o leitor precisa primeiro de "entender" a obra para depois a ler e desaprender. A opinião do crítico, para o leitor pode ser boa de dois modos: induz o leitor a interessar-se pelo livro ou introduz uma leitura que depois o leitor critica com a sua própria leitura.
De qualquer modo, a frase que escrevi não faz muito sentido. Talvez escreva um texto mais desenvolvido depois.