23/01/08

Os outros

Curiosamente, apesar dos propalados baixos níveis de literacia do país, encontro mais gente arrogante que ignorante. Quando eu próprio era arrogante, achava toda a gente ignorante. Portanto, eu sei o que essa gente sente. E tenho pena. Do seu sofrimento. Emocional, social. Físico. Não sei se sabem, mas a arrogância provoca maleitas físicas, pequenas coisas preocupantes. E chatas. Aftas. Furúnculos. Hemorróidas. Talvez por isso, falar com gente assim causa-me pena. Leio-lhes o sofrimento na pele. O esgar subtil. A carantonha retesada. O nervo sináptico ligando o cu à boca, transportando os excessos cá para fora. A arrogância, desconfio, é uma doença. Com variados sintomas - os físicos, já expostos, e os psíquicos. Má educação é outro nome para este terrível flagelo que atravessa uma classe circunscrita da nossa sociedade; do sangue azul ao sangue vermelho reciclado, do nobre depauperado ao burguês enconado, do velho rico fascista ao novo rico malabarista. E, em casos avançados da doença, a loucura pode aparecer. Daquela galopante, senil, babada, raiada, balbuciada, mal-educada. Portanto, via sacra sofrida que esta gente pena. Da hemorróida à loucura, o passo é curto.
Os ignorantes divertem-me. E ensinam-me. Ensinam-me a humildade - eu confesso que me esforço para aprender. Vou aprendendo. Curando as aftas. Os furúnculos. (O resto nunca tive). Divertimento e sabedoria, uma tábua rasa pronta a receber todo o conhecimento do mundo - como não admirar a ignorância? Aprendemos mais do que ensinamos, e os arrogantes vão continuar a sofrer de achaques, a contorcer-se, a espumar de raiva, a empalidecer, a esticar o nariz até tocar no tecto, como focas, a modular a voz até se assemelhar a um trombone, uma longa nota, estridente e cava, que não tem maneira de acabar. Deixemos a purulência arrogante refastelar-se na sua própria bílis. Ganhar bolor. Apodrecer.
A ignorância é uma benção.

[Sérgio Lavos]

3 comentários:

Rui Miguel Brás disse...

julguei que os baixos níveis de literacia do país só justificavam a arrogância, embora ignorantes sejamos todos em relação a qualquer coisa. eu mesmo sei que ignoro duas ou três coisas. ao menos não ignoro que ignoro. isso faz de mim menos ignorante? ignoro a resposta.

e quanto a aprender com os ignorantes, devo dizer que - apesar de ignorar quem pertence e não pertence à categoria - aprendo bastante com os arrogantes. no outro dia aprendi uma excelente receita de caldeirada com um pulha arrogante. aqui há semanas, aprendi - também com um sujeito de arrogância extrema - a dar xeque-mate em seis jogadas. coisas da vida.

Sérgio Lavos disse...

Rui,

como eu escrevo, há uma idade para aprender com arrogantes - eu passei por lá - e há uma para aprender com ignorantes. há-de chegar a um ponto em que os arrogantes já não têm nada para te ensinar, apenas para te irritar. quando a ignorância não é arrogante - também existe disso - pode-nos ensinar uma coisa muito simples - humildade em relação ao que sabemos - que, no fundo, não é nada, como dizia o outro. e o arrogante não tem o discernimento suficiente para chegar a esta conclusão simples.

Rui Miguel Brás disse...

não será arrogante assumir que algumas pessoas (os arrogantes) não têm "discernimento suficiente" para chegar à mesma conclusão? não poderá ser, somente, assumir essa conclusão e estar-se a borrifar para ela? e estar a borrifar-se, é uma atitude arrogante ou ignorante? ou ambas? e se assim é: como separá-las? porquê separá-las?