02/09/07

Ruínas

Nenhum modo de olhar os espaços vazios é correcto. Formas diferentes de interpretar a ausência; as ruínas são memória de uma construção ou elementos a mais na paisagem? Deverão desaparecer, e ser substituídas por novas construções? A memória é um valor a preservar?
Enquanto o grande romance americano vive da exaltação do presente e da perpétua motivação para um tempo mítico que virá - mesmo os mais pessimistas, Roth e deLillo à cabeça, Faulkner meditando sobre a decadência, são grandiloquamente exaltantes - o romance europeu é sempre literatura em desagregação, que sobrevive, persiste sobre as ruínas de um império antigo. Se muitas vezes o império é a própria língua - e a língua inglesa, neste caso, mantém a sua vitalidade graças ao sopro que vem do outro lado do Atlântico - quase sempre ele é uma coisa bem real. O fim da colonização e o ressentimento culpado são temas muito portugueses. Já em outros lados a reflexão vai mais longe, a Roma e à Grécia conquistada. Em W. G. Sebald, por exemplo, a memória culpada do Holocausto convive com uma outra culpa de séculos, que de modo algum é cristã - Nietzsche exageraria? As ruínas que povoam (contraditório, eu sei, mas é mesmo assim) os espaços, na obra de Sebald, são nós temporais onde se cruzam histórias de exílio e de derrota, mas também da mais vergonhosa conquista. A atenção aos pormenores dos edifícios, as descrições demoradas da paisagem, o convívio entre o Homem e a Natureza, tudo isto contribui para que os diversos tempos de presença humana na velha Europa se autonomizem e se confundam. No olhar do emigrante judeu nos E.U.A. repousa a memória de uma culpa. O perseguido carrega o peso do seu destino, com toda a carga de descupabilização do carrasco que isto implica. As fotografias que o emigrante vê são também lugares de ruína. Levamos a destruição atrás - em Sebald, nem os novos são novos, porque fogem e porque são culpados. Kafka escreveu também e sempre sobre isto. A paisagem é o espelho de quem a habita. Na América tudo é novo, e desmesurado. Na Europa, somos personagens de um texto de Sebald - sombras carregando a culpa e as ruínas de um tempo que passou.

(JQ, tens de me explicar as tuas razões contra Sebald. Escreve, que eu não tenho o teu mail.)

[Sérgio Lavos]

2 comentários:

José Quintas disse...

Sérgio, o que me levou àquele reparo sobre Sebald foi bem simples. ter sido “obrigado” a estudar Teoria da Literatura e ter comprado semanários no passado com demasiada regularidade desgastou o meu interesse em consumir críticas literárias em papel, pelo que é aqui e era no Adloca Infecta (actualmente, Desmancha Prazeres) que tenho encontrado sugestões que têm batido certo com o meu gosto. Nesse processo, comprei “Vertigens” há uns meses e, ao fim de várias tentativas, não consigo entrar no livro, nem pelo princípio, nem pelo meio, nem pelo fim. A escrita e o “assunto” não me cativam. Deu para ver que há ali uma melancolia/decadência que poderia atrair-me, mas por cima disso, raios, existe uma secura que fecha as lombadas do livro com força no meu nariz.

Sérgio Lavos disse...

O bom de Sebald é que a melancolia não é piegas, é seca, árida, sem solução. É difícil de entrar, sim, porque é difícil perceber para onde é que o livro te vai levar, quais as intenções dele, mas no entanto... Por acaso, o Vertigens ainda não li. E gostei mais dos Emigrantes do que de Austerlitz; talvez seja uma questão de ler o livro certo.