02/09/07

Caminhar

Em Sebald, outra coisa me interessa: caminha-se muito. As figuras andam de um lado para o outro, percorrendo ruas de cidades antigas ou agrestes caminhos de campo, vão a encontros a pé ou então de comboio, que é também outra forma de percorrer a paisagem de olhos abertos. A primeira forma de transumância, andar - as antigas migrações dos povos primitivos, ao sabor das estações e da abundância de alimentos, eram totalmente utilitárias. Mas a verdade é que a sedentarização permitiu que o Homem pudesse atribuir um valor diferente ao acto de caminhar. Os exegetas e cenobitas são muitas vezes também grandes caminhantes - a espiritualidade reencontrada no esforço de andar. Nas cidades, uma forma de ir ao encontro desta espiritualidade perdida é caminhar - olhando os edifícios, as pessoas perdidas de si próprias, a caminho de um qualquer compromisso quotidiano, observar as pequenas histórias. Meditar: a palavra que mais sentido faz em movimento. A viagem é tanto exterior como interior. E o encontro que existe entre os edifícios cobertos de história e a história pessoal de quem caminha é o que permite os momentos de revelação das figuras de Sebald, o acto de platonicamente recordar qualquer coisa antiga esquecida. Mas em Sebald este reinvestimento da verdade não produz um acto de iluminação, místico ou transcendental. Antes retira o véu que cobre a essência fatalista da existência: tudo tende para o fim, para as ruínas. E as figuras que por lá caminham acabam por regressar aos lugares que as assombram. Não há reconstrução possível.

[Sérgio Lavos]

3 comentários:

Luís-Carlos Silva disse...

A primeira metade do teu post fez-me recordar o peripatetismo...

Um abraço.

João Ventura disse...

É também isso que me fascina em Sebald. Essa intromissão do passeante na paisagem, não como contemplador sensível ou espectador indiferente, mas como alguém que procura fixar e trazer até nós a consternação do mundo.

Sérgio Lavos disse...

Caro João Ventura:
nem mais. Não existe contemplação romântica em Sebald. As figuras (como num quadro) pertencem à paisagem, é esta que permite compreender melhor a condição essencial do mundo.