12/07/07

Cansei do Inverno

Durante muitos anos, não fui à praia.
Ir à praia. A ideia não é igual para todos. Há quem vá para estar horas a fio na areia, outros preferem o mar, outros a esplanada em frente e uma cerveja que nunca desaparece. Durante muitos anos, nenhuma destas versões me atraía. Reconheço algumas expressões de desprezo, aí no meio da multidão (reduzida, que estamos em tempo de férias) - tenho a sensação de que a maior parte dos que param para ler o que se escreve neste blogue não se reconhece no que vou dizer a seguir; ou reconhecem-se demasiado. De qualquer das maneiras, a reacção pode ser desagradável. Como sentir os grãos de areia a esvoaçar em dia ventoso. Ou acordar com a pele queimada de um lado, depois de uma sesta que julgávamos retemperadora. Ou levar com uma bola de miúdo. Ou ouvir as conversas do vizinho - aí, lamento, mas isso nem sempre é mau. Quem não gosta de escutar uma boa história de faca e alguidar, que se retire em silêncio deste tugúrio.
A questão é: há um tempo na vida em que gostar de praia menoriza; em que se torna foleiro gostar de praia. A ideia é esta: férias, férias grandes depois do período de aulas; sol, mar, o sabor do sal na pele: tudo miragens. Há um tempo na vida em que ter estilo é ficar enfiado em casa, papando livro atrás de livro (o sol lá fora), esquivando-se a qualquer contacto com outros humanos (calor, luz intensa lá fora), inferiores que se expõem aos raios violeta que nem lagartos dependurados de muros em ruínas. O Inverno pode ser um estado de espírito. Ninguém ouviu dizer que Kafka gostasse de praia - apesar do livro de Murakami. Nem Nietzsche. Nem sequer Rimbaud ou Baudelaire. A soturnidade é uma forma de vida - meio mais rápido de atingir o êxtase da sabedoria. Ler livros na praia? Uma contradição insanável. Nenhuma frase de Beckett resiste ao horizonte marítimo. Depois, existe o problema da educação, para quem gosta de se julgar um dandy perdido no tempo. O cavalheiro inglês não se apanha na praia, nem que use um daqueles fatos de banho do início do século passado. Alguém imagina Oscar Wilde de bermudas? (OK, eu talvez imagine, mas isso não é coisa para revelar aqui - estraga a pintura). E para metade da blogosfera, estas coisas realmente importam. Pensar em Evelyn Waugh torrando ao sol da Caparica não é um pesadelo bom. Apenas se concebe o intelectual brasileiro - e ele existe - passeando em Copacabana, a espreitar a bunda da classe baixa. Ou nem isso, há quem viva em São Paulo. E em São Paulo pode ser normal ser branquela - veja-se o caso dos Cansei de Ser Sexy. Mas distancio-me da questão.
Eu também fui assim. E há quem ainda seja, bastante entrado na idade. Há quem morra assim, sem sentir os prazeres de um banho de horas; sem usufruir da onda de melanina que a absorção dos raios solares provoca, aquela vaga sensação de euforia que se segue a um dia de praia; sem poder se dar ao luxo de olhar mais do que demoradamente para o topless da modelo em frente, entre um cochilo e outro. Esqueçam os contras, e sobretudo esqueçam o estilo - um homem em pleno verão não precisa de estilo nem de verdade; é-lhe suficiente o leve torpor de um dia luminoso, belo e esquecido de si mesmo.

[Sérgio Lavos]

2 comentários:

Fernanda disse...

belo texto.
me pegou de jeito.

bjs

Sérgio disse...

é sempre bom ler comentários elogiosos utilizando expressões a que o meu português ainda não está habituado. obrigado.