07/02/09

Tarnation


Partir do impossível para chegar ao provável (fazer uma aproximação à vida): o objectivo de Jonathan Caouette em Tarnation.
 
O trabalho de organização das imagens captadas desde a infância funciona como uma memória imutável, permitindo fixar em película aquilo que, por natureza, é fugaz. A montagem, os ritmos, o texto que legenda o filme, constroem uma obra que, na sua concretização, já não se pode chamar de documental. A ficção (tempo de criação) não existe enquanto texto (a escrita do guião) mas sim enquanto organização de uma narrativa pré-existente - a vida de Caouette. Para além de esta técnica, temos a outra ficção, mais vulgar, da reencenação de acontecimentos - a memória representada perante as câmaras. E é de exposição que a obra de Caouette trata: um reality-show emocional que na aparência é uma sessão de terapia e auto-conhecimento mas na realidade acaba por ser um despudorado momento de submissão à sociedade do espectáculo. 

O que ficou na sala de montagem? Quantos metros de filme levando a vida de Caouette noutro sentido foram preteridos em favor das imagens finais? Qualquer filme não é apenas a soma das suas partes - é também o que o realizador recusa; mas quando falamos da própria vida, o que fica de fora? O filme de Caouette anula as diferenças entre ficção e documentário, esclarecendo algumas dúvidas, tanto a nível de forma como de conteúdo. A objectividade é uma impossibilidade, e qualquer documentário será sempre uma obra de ficção: e os melhores são ficção pura - veja-se, por exemplo, I'm Not There ou Last Days e esqueça-se Milk.

[Sérgio Lavos]

3 comentários:

Victor Afonso disse...

Este "Tarnation" é um filme que estou para ver há que tempos e ainda não vi...

gonçalo jordão disse...

...Veja-se 'The Long Holiday' de Johan van der Keuken (foi exibido, por exemplo, no DOC 08): onde em 'Tarnation' há puro exibicionismo e uma confrangedora ausência de padrões, neste filme há linguagem, subtileza, honestidade (a possível, claro - cinema é cinema). A tal pergunta "O que é que foi deixado de fora'", pertinentíssima em 'Tarnation', já que é impossível vê-lo sem reservas, sem questionar até onde é que podemos eventualmente estar a ser manipulados, perde a relevância (pelo menos a prioridade) no filme de van der Keuken.

Sérgio Lavos disse...

Não conheço esse filme, mas fiquei com vontade de o ver. O que mais irrita, e é ao mesmo tempo mais estimulante, em Tarnation, é essa manipulação fácil dos sentimentos. Vou investigar mais...