Entrei no convento de Pedralbes com a certeza do reconhecimento. Nunca tinha lá estado, mas o conjunto de edifícios de estilo mediterrânico, pedra clara e vegetação antiga, parecia-me familiar, de outro tempo. Em Barcelona, terá sido talvez a maior surpresa. Muitos lugares eu já conhecia de outra viagem, alguns anos antes; outros não, eram uma absoluta novidade. Duas visitas não são suficientes para que a cidade se entranhe. Ao ponto do reconhecimento trazer banalidade a cada sítio. A única cidade que se pode vangloriar de ter mudado a minha infância é Lisboa. Entre dois lugares localizados em dois tempos: uma aldeia derrotada pelo tempo que se passou e uma cidade que não conseguiu ainda substituir em pleno a época do deslumbramento inocente dos primeiros anos. Se, neste momento, há outra cidade que possa concorrer com Lisboa, ela será Barcelona - apesar de Londres. Mas não evito a estranheza, claro. A sensação de que caminho num sonho, a pisar terreno virgem. A certeza de que cada novo caminho me ensinará menos sobre os sítios do que sobre mim próprio. Deve ser essa a maior alegria do viajante.Etiquetas: Migalhas
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Quando penso nos curiosos hábitos do Homem,
Meu amigo, confesso, fico baralhado.
Ezra Pound
(versão de)
[Sérgio Lavos]
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Se quisermos ser pessimistas (e banais) podemos afirmar que a arte é sobrevalorizada. Recontextualizar significa quase sempre valorizar o que, no seu contexto de partida, pouca importância tem. E recontextualizar significa também, quase sempre, teorizar sobre a arte produzida, desse modo atribuindo séries de intenções, de sentido, ao acto do criador. Temos de dar esse passo, claro, caso contrário a arte deixa de ter qualquer razão para existir. O acto de descodificação da possibilidade, isto é, da eventualidade do criador ter pensado de determinado modo quando estava a produzir a obra, é por si só um acto criativo. O crítico e o teórico (eles existem, não é?, mesmo que não necessariamente por esta ordem) intervêm no processo criativo unindo as pontas soltas desse processo. Falam de escolas, de sentido, de alusões, de intertextualidade e, evidente, de contexto. A questão será: até que ponto precisa a arte da carga teórica que lhe sucede? Falsa questão, por uma simples razão: esta carga teórica surge sempre como ferramenta, voluntária ou não, do criador. Mesmo as escolas que menos dependem da conceptualização e se gabam de produzir arte da forma mais aleatória ou inconsciente possível - pense-se no surrealismo ou no expressionismo abstracto de Pollock - não se conseguem desprender do lastro da teorização. A desconstrução da arte, que no fundo é o fundamento principal do modernismo ( e do que se lhe seguiu, seja o que for que se lhe queira chamar) necessita sempre do reconhecimento de um passado. A "construção" (aqui entendida como o oposto de desconstrução), ainda que não exista formalmente, acaba por intervir no processo criativo; quem desconstrói conhece aqueles que o antecederam, estudou-os, amou-os e por fim odiou-os, mata o pai e julgar criar uma coisa completamente nova no seu lugar. A arte deixou de se interessar pela imitação e vive da re-criação, colou-se à vida e integrou-se no quotidiano. Desistiu da transcendência porque se deu conta que os mestres não podiam ser sobrepujados. Apenas repudiados e destruídos. E, no melhor dos mundos, esquecidos.Etiquetas: Arte
Gosto tanto de algumas unanimidades como desaprovo outras. Não cultivo a atitude de ser sempre do contra nem cedo sempre às imposições da moda. O meu meio-termo é o meu gosto, e apenas erro quando não sei do que falo – e admitir isto não diminui o pecado. O meu filme preferido de entre os que Martin Scorcese dirigiu é “No Direction Home: Bob Dylan” – e o segundo bem poderia ser “A Minha Viagem em Itália”. E arriscaria ainda um terceiro: "The Last Walz”. Arrisco deitar fora “O Touro Enraivecido” e principalmente a sua melhor obra de ficção, “Taxi Driver”. Guardando os seus documentários religiosamente.
Que Scorcese consiga ser melhor quando fala das suas paixões não deixa de ser surpreendente. Ou pensando bem, não é. Porque Scorcese é um meticuloso cinéfilo que enriquece a sua obra com o conhecimento adquirido na obra de outros. É claro que existe um modo scorcesiano de fazer cinema – aquela maneira de acumular tensões sem nunca mostrar verdadeiramente um núcleo dramático que justifique essas tensões; e isto é uma qualidade. Quando Travis Bickle, em "Taxi Driver", finalmente cede aos demónios interiores, o ritmo do filme torna-se decrescente, um balão esvaziando-se até que nada reste. A violência não é gráfica nem explosiva; é um esgar no rosto de Robert de Niro ou uma improvisação em frente ao espelho. Nada acontece apenas uma vez. Uma continuidade nos actos da personagem de Bickle imita as flutuações constantes da cidade de Nova Iorque, o seu pulso. Tudo é normal na cidade que nunca dorme – e em "Nova Iorque Fora de Horas" confirma-se em tom de burlesco a loucura encenada de "Taxi Driver".
Falando de um filme, torna-se fácil ganhar-lhe apego. Regressemos portanto a "No Direction Home", fabuloso testemunho dedicado a alguém que já está além da História – da sua injustiça suprema, dos seus ciclos inevitáveis de vida e morte. E acaba por ser tudo menos curioso que Bob Dylan, uma das mais perfeitas encarnações do Homem americano, tenha sobrevivido ao peso de o ser persistindo numa reclusão casmurra, encerrado numa misantropia que é o espelho do seu génio. O documentário de Scorcese esquiva-se a grandes teorias – sempre uma armadilha – e concentra-se nos pormenores. As entrevistas perigosas, no fio da navalha; o relato dos músicos que o acompanharam; a reacção do público conservador da música folk aos concertos electrificados da digressão de "Bringing It All Back Home" – o seu álbum esquizofrénico; a zanga com Joan Baez.
O mistério de Dylan fascina por ter criado uma obra que configura o espírito de um tempo. E Dylan apenas se tornou um mito quando se rebelou contra as suas raízes e se reinventou enquanto músico. Em 1965, Dylan previu o fim da utopia do movimento hippie? Não será assim, apenas prosseguiu o caminho de uma outra utopia; no caso, criativa, espaço de singularidade artística. O seu maior feito – que ele, como se vê em "No Direction Home", acaba por desvalorizar em termos de importância simbólica. Scorcese capta o percurso feito de desvio e transgressão, focando o seu olhar nos pormenores, seja uma entrevista ao músico em que este é provocado por um jornalista de intenções duvidosas, seja no relato feito no tempo presente, em que Dylan se expõe revelando as sombras desconhecidas da sua história.
Ao conhecermos o músico na intimidade das histórias durante tanto tempo guardadas, compreendemos melhor a razão das mudanças que ocorreram nos últimos 40 anos na América. Mérito para Martin Scorcese. Partindo do particular para o universal, tornando a micro-história pista de leitura para a grande História, sobretudo asseverando a importância da cultura pop para o entendimento pleno de uma sociedade, Scorcese atingiu a perfeição. Que tenha assim sucedido em forma de documentário, não me parece que venha mal ao mundo. O cinema também pode servir como testemunha de um tempo que vai passando. Para sempre.
A história do violinista famoso que decide tocar para uma multidão de transeuntes em hora de ponta não é exactamente original, mas prova qualquer coisa. Há aquele video do Badly Drawn Boy, aqui há uns anos, em que ele aparece a tocar na rua perante a ausência de reconhecimento de quem passa. Julgo que o video testava sobretudo a notoriedade do músico, e neste aspecto distinguia-se da experiência de Joshua Bell, incentivada pelo "Washington Post". O que prova ao certo, então? Havia uma resposta, e procurei-a nos meus apontamentos da última viagem a Londres.Etiquetas: Arte
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"Reparaste no modo como a luz incide no alpendre, cruzando o verão, regressada de outro tempo?"
Como acontece na vida, um filme precisa de pormenores para se definir, e desse modo definir o espectador. Pode ser um frame apenas, uma imagem composta por um conjunto de frames, uma sequência inteira, um diálogo, o que não é visível nem audível, o que sobrevive nas entrelinhas. O que luta para permanecer secreto, apenas intuído, nunca inteiramente revelado. Talvez por isso o cinema de David Lynch continue a ser cativante, apesar de Lynch testar, de filme para filme, os limites da paciência (e do bom-senso) de quem resiste. É um cinema de resistência, portanto, obra-de-arte entricheirada contra os limites da razão, desafiando a lógica mas sempre plena de sentido. É claro que a frase anterior não é um paradoxo. A seta do tempo em Lynch toma caminhos estranhos, a unidade espacial muitas vezes é apenas memória da harmonia clássica. Os limites da interpretação são estendidos até ao infinito; qualquer resposta é válida. No entanto, sabemos que Lynch pensa de maneira diversa da nossa. Por isso recusamos muitas vezes o exercício de indulgência a que ele nos submete, sem sequer nos darmos conta que a indulgência acaba por ser o nosso próprio erro. Remetemos Lynch para a gaveta dos casos clínicos, esquecendo o ensinamento dos grandes criadores do passado: a arte apenas se torna disruptora, de vanguarda, se deixar para trás o lastro, não só do passado, mas principalmente do presente. A vanguarda não é um exercício provocatório; é o reconhecimento de que o passado já não interessa e que apenas através da novidade, da experimentação, se pode criar um novo presente. E este movimento tectónico, de produção de novas margens para a arte, apenas se torna possível se, por um momento, abandonarmos todo o sentido; para que tudo faça novamente sentido - e para que a teoria tenha de novo o seu dia.Etiquetas: Cinema
A melhor música de 1982 está no novo álbum dos LCD Soundsystem e chama-se "Someone Great". Um belo cruzamento entre Kraftwerk e Human League, complementado por uma letra que contradiz o ambiente da música, introduzindo um elemento lírico surpreendente - a mulher que parte, os estilhaços da relação por todo o lado. James Murphy a cantar uma canção, digamos, romântica, também acaba por ser inusitadamente interessante. Como se fôssemos curtir a depressão para uma pista de dança com uma bola de espelhos, sozinhos no nosso desamparo muito 80's. O melhor álbum deste ano é "Sound of Silver", e esta a melhor música do álbum. Se não chegou ainda aos tops do mundo inteiro, então os 80 foram definitivamente melhores que a década em que esta música foi composta. Basta carregar no play aqui mesmo ao lado.Etiquetas: Política
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O rosto lúbrico de Jimmy Mason enrolando os lábios em redor da língua de Shakespeare, olhar saltando entre a mãe e Lolita, presente e futuro num loop de segundos - e a arma, atrás, sobre a cabeça, pousada sobre a mesa. O olho de Kubrick espreitava de um buraco qualquer no passado. E Nabokov ria-se com a seriedade da coisa. Professor Humbert, relatando a sua queda a partir de uma notícia sensacionalista de jornal, resignara-se à amargura de ter perdido tudo. Lolita. Lola. Como a Lola de Jarmush, Lolita diminuta convidando Bill Murray para a dança burlesca. Uma casa perdida nos subúrbios. Jardins e jardins repetindo-se em perfeita harmonia, vivendas brancas a perder de vista, os vícios privados embalados pela doce canção do dinheiro. Deus abençoe a classe média. Uma visita aos pobres de espírito. Mason apaixonado pelas vidas dos simples, terna Lolita perdida nos olhos do professor Humbert. Kubrick espreitando para a vida privada, escapelizando as emoções até restar apenas o osso. Desprovido de sangue, implacável. Aquela imagem entre presente e futuro, a câmara dançando sobre a indecisão de Humbert, um lapso momentâneo da emoção.Etiquetas: Cinema