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05/07/11

E agora vamos falar de coisas sérias

Calhou uma vez mais estar de férias durante o Tour. Não vou tecer considerações (não tenho jeito para bordados) sobre as suspeitas de doping que perseguem os grandes ciclistas nem a monumental vaia que Contador ouviu durante a apresentação da prova. Toda a gente sabe que os franceses facilmente cedem ao prazer da irascibilidade, e por isso - mais o Flaubert, o Godard, o Camus e o Zidane - lhes devemos perdoar. Adiante. Parece que este ano vai haver montanha a sério. Andy Schleck is my man, se sabem do que estou falar. Como não é o Djokovic nem o Nadal. Gostaria de ter visto este um escocês ganhar Wimbledon, mas não foi desta que Andy Murray superou os seu complexo de inferioridade perante a musculatura do sobrinho do central do Barcelona de Cruyf. Mas o ténis é um jogo de meninas (como maradona e David Foster Wallace se esforçaram por provar). O ciclismo é aquela coisa da glória e da superação e da absoluta verdade de que apenas se poderá ganhar recorrendo a meios ilícitos. O problema não é este ou aquele ciclista serem suspeitos de alguma coisa; o problema é que parece não haver outra maneira de lá chegar, ao topo. A dúvida paira sobre todos, como num filme de Hitchcock. Mesmo os que nunca são apanhados. E isso deixa-me vagamente chateado; por exemplo, aborrece-me que aquele que parecia o mais puro talento surgido nos últimos anos, o herdeiro de Marco Pantani, tenha entregue a alma ao Diabo e o corpo a várias transfusões de sangue, e por duas vezes seguidas. Ricardo Ricco sprintando serra acima era um espectáculo do outro mundo. Mas... como diria Gregory House, "a vida não é justa", e por vezes a glória vai parar aos lutadores com grande capacidade de fintar as equipas anti-dopagem. Enfim, só me lembro disto porque revi hoje um episódio da série no qual é tratado um grande campeão americano pelo médico. E claro, esse grande campeão americano dopa-se. E no fim, safa-se. É a vida.
 Enquanto vou, eticamente dividido, assistindo na Eurosport ao excelente relato da Volta (bela dupla de comentadores aquela, por vezes complementada por um francês irascível chamado Olivier - ou será um belga? Afinal, é monegasco. - que não se importa de ser o saco de pancada dos outros dois), espero pelos primeiros jogos da pré-época. Confesso que a satisfação de ver partir Villas-Boas rumo a melhores paragens foi um pouco atenuada quando foi revelado o nome do novo treinador - Pinto da Costa terá algo na manga, ao escolher alguém chamado Vítor Pereira para o lugar. Resta-me esperar que meia equipa seja vendida - e quando escrevo "meia", refiro-me ao João Moutinho e ao Falcao, os outros podem ficar - e acreditar cegamente nos três ou quatro defesas-esquerdos que Jorge Jesus vai testar no lugar do Fábio Coentrão. Tirando isso, está tudo bem com o Benfica; temos jogadores suficientes para ter duas equipas a disputar o campeonato (haverá maneira de autorizar uma alteração nos regulamentos?) e o pelotão de avançados em linha de espera para substituir Cardozo dá-me razões de sobra para confiar numa boa campanha na Taça da Liga. Isso e os dois Salvios (ou Ramires, como preferirem), os dois Di Maria (Gaítan e a maravilha que sobrou do Barcelona) e os três defesas direitos que não irão tirar o lugar a Maxi Pereira. No entanto, confesso sentir um pouco de inveja do adversário (?) da Segunda Circular. É tempo do Benfica começar a apostar noutros mercados; queremos um Thadeus von Rumpelstiltskin no ataque; um Varsaj Snhjors no meio-campo; e esperanças sul-americanas a treinar na Academia (ah, esperai, isso já temos). 
 Jogos contra equipas da terceira divisão suiça: um must de qualquer pré-época, para compor as bombásticas capas da Bola e ajudar ao entusiasmo dos milhões de benfiquistas que vivem no Seixal. Pelo andar da carruagem, talvez nem sobre muito tempo para espreitar os Mundiais de atletismo, lá para Agosto. O Verão é longo - e a pilha de livros habitual uma vez mais não será desbastada. Boas férias desportivas.

- Inicialmente publicado no Arrastão -

05/01/11

Ocupar o tempo

A ocupação do tempo é uma coisa séria. Tão séria que desafio quem me vier falar em passatempo a um duelo nas minhas condições: que leve uma resma de palavras cruzadas, sopas de letras, selos e moedas, as suas armas, eu levarei as minhas, um ou dois filmes e alguns livros mais; ou apenas uma folha. Uma folha e uma caneta – dêem-me papel e tinta, e eu em troca oferecerei o mundo (se o mundo quisesse ser oferecido por mim). Não, não é de uma arrogância indesculpável eu achar que ocupo melhor o tempo a ler um livro do que a preencher quadradinhos com números, grelhas com cruzes e borrões; pode não ser melhor, mas é pelo menos mais estético. Portanto, não falamos de uma questão de ética. E mais do que baixar o nível, eu estou a levantar a moral dos filatelistas e numismatas que me lêem – amigos, o vosso passatempo é tão importante como o meu; ambos servem o mesmo propósito, gastar o tempo – enquanto a ilusão for possível (gastar o tempo) também continua a ser uma hipótese teórica inventar o tempo. Para que foram inventados os relógios, senão para isso? Dominar, encontrar objectos que preencham a planura niilista da existência. E esse sacana que ri nas minhas costas é assim mesmo: não é exclusivo, aceita ser cheio por qualquer um ou de qualquer coisa. O tempo é como um terreno vazio num município com presidente corrupto, à espera do loteamento que virá. Pode acontecer que seja construído um belo edifício com fins culturais, uma obra de um arquitecto moderno de um ateliê nórdico, uma marca essencial na paisagem urbanística. Mas também pode suceder que seja construído um qualquer monolito de cimento para habitação social que depois é pintado de várias cores para disfarçar o puro horror da desarmonia geométrica. (Bem, não é uma boa comparação; quantas vezes acontece a primeira situação?) Seja como for, a ideia é essa: se do ponto de vista da utilidade do tempo, é tão inútil ler um livro como coleccionar bules de chá, por que razão escolher a primeira opção em detrimento da segunda? Ah, mas a culpa é da sociedade! A sociedade empurra alguns mortais para o abismo da pretensão, para o flagelo da Arte – com arrebitada maiúscula e tudo. E pior que um esteta consumado é um criador julgando que, ao escrever, está a enganar o tempo; não há força alguma que consiga transformar a natureza do tempo, ser uma espécie de espaço em aberto – não é contradição nem jogo de palavras; se pensar bem, chegará à conclusão que recordar o que passou depende apenas de um movimento (imaginário) no ar, um estender de mão milagroso. E a estreita relação entre espaço e tempo há muito foi autorizada pela Ciência. Ainda hoje lamento não ter avançado muito na colecção de selos iniciada aos treze anos. Aquela caixa cheia de papel e tinta de algum modo sorri para mim, lá longe no tempo (vêem?) A ocupação do tempo é uma coisa séria, e por isso se tivesse continuado (sem terminar, o coleccionador nunca dá por terminada a sua obra) eu seria alguém acima de qualquer suspeita, não o pretendente a um trono vazio na minha família: aquele que recusou a seriedade da vida e trocou-a pela Arte. Perdi-me.
E talvez não possa reencontrar-me enquanto a felicidade sentida pela recusa do coleccionismo comece a fazer algum sentido. Tenho várias pistas a seguir. Ainda bem. Há o fetiche dos coleccionadores literários. Desde Nabokov, o real amante de borboletas e ninfetas inacessíveis, até ao inventado homem que constrói puzzles a partir de pinturas, no romance A Vida - Modo de Usar, de Perec, há muito por onde escolher. O ofício tem uma mitologia associada, romântica à partida, mas que de modo inevitável leva a reflexões sobre a natureza dos actos do coleccionador. Que obsessão, que espécie de loucura precisa ele? Não é verdade que os psicopatas em série são coleccionadores de cadáveres, de rituais macabros, de objectos de morte? E João de Deus, o outro João César Monteiro, não é ele um esteta perverso que gosta de guardar pelos da púbis de jovens donzelas? Poder-se-á dizer que um artista confere uma aura de respeitável grandiosidade a algo que a maioria daqueles que a ela se dedicam não merece. Um filatelista, não esquecer, é um ser sombrio e chato que prefere estar enfiado num quarto, à luz de uma parca vela (deixem-me manter a imagem de outra época), mudando de lugar pequenos pedaços de papel com uma pinça em vez de, digamos, conviver. Nada contra a liberdade alheia, diga-se, mesmo quando ela é desperdiçada (lá está, gastar o tempo); mas a liberdade é o que se faz com ela, se quisermos acomodar a outra frase sobre a vida a esta espécie de sinónimo da mesma. E haverá colecções porventura mais estimulantes da imaginação, se é que se pode ir por aqui. No limite, será possível coleccionar tudo; há quem se entretenha a somar desgostos amorosos, por exemplo, e a dedicação e as horas passadas no quarto a meditar sobre o amor acabado dão todo o ar de coleccionismo. Há quem prefira o contrário disto, experimentar mulheres – Casanova, o grande coleccionador do amor vão – ou despachar homens. Não sei se o coleccionador amoroso tem consciência do seu passatempo; e talvez nem se possa caracterizar esta actividade como coleccionismo; não há uma clara intenção do amante serial, nem uma vontade de um dia terminar a colecção – é claro que, tratando-se deste tema, “vontade” é a palavra-chave: por muita vontade que se tenha de terminar uma colecção, a sua natureza perene, infindável, é o que leva alguém a iniciá-la. Seria fácil fazer uma analogia com a vida, por aí, mas não quero contribuir para essa colecção maldita: a dos lugares-comuns que usamos para tentar compreender o que é a vida.
Seria como o quadro fragmentado, transformado em puzzle, do velho de Perec. Ou como a colecção de caixas chinesas amada por uma personagem de romance – existe, não existe? Caixas chineses para uma rapariga de olhos amendoados, bonecas de porcelana para a levemente gótica e tresloucada adolescente de um conto de terror, animais empalhados para o comum empregado de motel ainda a viver com mãe. Norman Bates, o coleccionador que ninguém gostaria de ser, no tal motel à beira da estrada – antiga via importante, entretanto abandonada, e isso lembra-me todos os lugares desamparados do mundo. Tonino Guerra elenca as igrejas abandonadas de Itália e completa o passatempo escrevendo um poema a cada uma delas. Uma colecção de poemas dedicada a um conjunto de edifícios em ruínas. Velhos hotéis à beira-mar; antigas casas senhoriais; estalagens perdidas em localidades que em tempos eram pontos de passagem importantes; prédios na cidade, entalados no seu triste ensimesmamento entre novas maravilhas da arquitectura moderna. Podia pegar num bloco de papel (há quem os coleccione, mas parece-me mais uma banalidade imperdoável) e ir pelas ruas de Lisboa desenhando fantasmas; usar uma máquina fotográfica. Mas falta-me – eu sei há tanto tempo – o método para tal tarefa. Talvez por isso nunca tenha conseguido continuar uma colecção. Os despojos devem estar ainda dentro da cómoda no meu quarto de infância – ruínas, apenas ruínas agora: uma caixa cheia de selos de diversas proveniências, carimbados com datas que vão, se bem me lembro, desde os anos 30 até aos meus doze anos. Desordem, esquecimento. E as moedas, ainda estarão lá, ou terei oferecido essa colecção ao meu irmão, também ele não muito dedicado numismata? Prefiro continuar com os meus actuais passatempos.
E tenho muito que contar: a pilha de livros abandonados – como as igrejas de Tonino – à espera do tempo, da paciência, da dedicação que merecem. Estão ali, pousados numa aparente ordem, acusatória, difamante. Não os li, talvez nunca os leia, alguns certamente voltarão para a prateleira – infame destino -, para o local de repouso eterno de um livro nunca lido até ao fim. Fazem companhia a todos os textos que nunca terminei, pertencem à mesma linhagem. Todos os textos que nunca terminei e não apaguei, que continuam a existir para me lembrar de duas coisas: o meu falhanço mas, sobretudo, a minha esperança – algum dia haverá um último ponto final para todos os meus cadáveres adiados. E este será mais um resgatado ao limbo. Um item fora da colecção, um morto ressuscitado. Ele vive.

- Texto publicado na revista Alice -

03/06/09

A obscenidade dos comboios

Aquela última sequência da Intriga Internacional, de Hitchcock, quando vemos um comboio a entrar num túnel, imediatamente a seguir ao beijo de Cary Grant e Eva Marie Saint. Não mostrar dizendo tudo. É assim que funcionam os sonhos: sublimam a realidade e substituem-na por símbolos. Freud teria razão. Sonhar com comboios apenas pode ser o óbvio.
Limitemo-nos à vida acordada. O prazer de viajar de comboio associa-se aos mistérios de infância. Recordo que vivia a poucos quilómetros de distância da linha do Oeste, e havia certas noites, quando o silêncio dominava, em que o ruído dos comboios nocturnos se podia ouvir, longe. Convenhamos que, para um adolescente assombrado pela insónia, aquele som vago, de origem incerta, podia ser aterrador. Não acreditava que os comboios pudessem circular à noite. Era tão simples como isso. Mas assustava-me a sério. E punha em andamento a máquina da imaginação criando sonhos inquietos.
Agora, o comboio é um utilitário. Usado diariamente, perde o halo misterioso que tinha. As viagens de longa distância, no entanto, continuamItálico a associar-se ao prazer, mas de outras coisas. Ler um livro numa viagem de Lisboa ao Porto, olhar a paisagem do Oeste, lembrar outros livros, como O Crime no Expresso do Oriente, passados em comboios. A razão do prazer: é como se fosse uma casa em movimento. Nós estamos lá parados, e já nos movemos. Sem darmos por isso, vamos de um ponto ao outro em pouco tempo. Paradoxos da relatividade. (Não nos podemos esquecer que o exemplo habitualmente utilizado para demonstrar a teoria da relatividade restrita tem a ver com andar de comboio. Porquê: a suspensão do tempo num comboio é quase palpável).
Lamento não ter feito o inter-rail, principalmente depois de ver o filme Antes do Amanhecer e o rosto absolutamente belo de Julie Delpy. Mas uma obra de arte é sempre uma possibilidade remota, e não há romantismo que possa salvar dessa miragem estatística que é conhecer alguém como Delpy numa viagem de comboio.
Entre lamentações e declínios, talvez já não acredite em interpretações psicológicas; em comboios e em tudo o resto. Mas o prazer continua a existir. Sublimado ou não.

(Versão melhorada de um texto publicado no Arquivo Fantasma)

02/06/09

A ocupação dos dias

A ocupação do tempo é uma coisa séria. Tão séria que desafio quem me vier falar em passatempo a um duelo nas minhas condições: que leve uma resma de palavras cruzadas, sopas de letras, selos e moedas, as suas armas, eu levarei as minhas, um ou dois filmes e alguns livros mais; ou apenas uma folha. Uma folha e uma caneta – dêem-me papel e tinta, e eu em troca oferecerei o mundo (se o mundo quisesse ser oferecido por mim). Não, não é de uma arrogância indesculpável eu achar que ocupo melhor o tempo a ler um livro do que a preencher quadradinhos com números, grelhas com cruzes e borrões; pode não ser melhor, mas é pelo menos mais estético (se até Oscar Wilde falou disso, é porque de ve ser). E mais do que baixar o nível, eu estou a levantar a moral dos filatelistas e numismatas que me lêem – amigos, o vosso passatempo é tão importante como o meu; ambos servem o mesmo propósito, ocupar o tempo. Esse sacana que ri nas minhas costas é assim mesmo: não é exclusivo, aceita ser cheio por qualquer um ou de qualquer coisa. O tempo é como um terreno vazio num município com presidente corrupto (e assim descrevo muito mais de metade das cidades do país), à espera do loteamento que virá. Pode acontecer que seja construído um belo edifício com fins culturais, uma obra de um arquitecto moderno de um ateliê nórdico, uma marca essencial na paisagem urbanística. Mas também pode suceder que seja construído um qualquer monolito de cimento para habitação social que depois é pintado de várias cores para disfarçar o puro horror da desarmonia geométrica. (Bem, não é uma boa comparação; quantas vezes acontece a primeira situação?) Seja como for, a ideia é essa: se do ponto de vista da utilidade do tempo, é tão inútil ler um livro como coleccionar bules de chá, por que razão escolher a primeira opção em detrimento da segunda? Ah, mas a culpa é da sociedade! A sociedade empurra alguns mortais para o abismo da pretensão, para o flagelo da Arte. E pior que um esteta consumado é um criador que julga que, ao escrever, está a enganar o tempo; não há força alguma que consiga transformar a natureza do tempo, que é ser uma espécie de espaço em aberto – não é contradição nem jogo de palavras; se pensar bem, chegará à conclusão que recordar o que passou depende apenas de um movimento (imaginário) no ar, um estender de mão milagroso. Ainda hoje lamento não ter avançado muito na colecção de selos iniciada aos treze anos. Aquela caixa cheia de papel e tinta de algum modo sorri para mim, lá longe no tempo (vêem?) A ocupação do tempo é uma coisa séria, e por isso se tivesse continuado (sem terminar, o coleccionador nunca dá por terminada a sua obra) eu seria alguém acima de qualquer suspeita, não o pretendente a um trono vazio na minha família: aquele que recusou a seriedade da vida e trocou-a pela Arte. Perdi-me.

06/01/09

A forma da realidade

Chega uma altura em que olhamos para todos os inícios que nunca tiveram continuação, contos inacabados, poemas compostos de medonhos versos, fragmentos incompletos de coisa nenhuma, escolhas de vida interrompidas sem razão.

Somando tudo, chegamos a nada; um texto literário (onde incluo também ensaios e crónicas) não é, claro, a simples soma das suas partes. Apesar dos indícios em contrário, evidente: abrir o Livro do desassossego, de Bernardo Soares, ao acaso não é brincar com o destino; há poucas hipóteses de não depararmos com uma frase genial ou um aforismo significativo; ler diários de gente acima de qualquer suspeita é sempre compensador. Mas a genialidade tem escolhos no caminho; O ofício de viver, de Cesare Pavese, é exemplar: análises da sua própria produção literária seguidas de observações a livros de outros, intercaladas por lamentos narcisistas de natureza sexual que deixariam orgulhoso qualquer adolescente.

Somando tudo, nada fica, não existem obras que mereçam ser chamadas de tal por publicar. O livro chega às mãos do leitor como um objecto definitivo; o processo de escrita é tão moroso e dramático como o da Natureza criando montanhas ou glaciares. Escrever fragmentos é destruir momentos preciosos de vida, o que obriga à grande reflexão: se não tiver continuidade, vale a pena o esforço?

Por isso, um diário é sempre uma traição à literatura. Qualquer escritor que se dedique ao registo minucioso dos seus dias, arrisca-se a cair na pequena vaidade, ou pior, na redundância. André Gide deixou à posteridade quarenta anos de vida em letra de forma, que no fundo nada acrescentaram à sua obra. E saber que os diários de Kafka foram despojadas de qualquer marca humana — as imagens eróticas que recentemente foi revelado terem sido encontradas nos manuscritos deixados pelo escritor checo — apenas confirmam a suspeita: a irrelevância de um diário apenas interessa a estudiosos monográficos de um autor ou a incuráveis curiosos; esqueçam a literatura.

E assim, chegamos à idade plena da Web 2.0. Aqui estamos, publicando fragmentos diarísticos, pedaços de criatividade mais ou menos sofrível, pensamentos para o mundo ler — mesmo que não queira. A internet, esse círculo dantesco de despojados do conhecimento real, deixou que blogues, fotoblogues, fóruns tomassem conta da vida de muitos que deveriam confiar os seus escritos ao morno conforto da gaveta. Estamos no século XXI e podemos usufruir, quase em tempo real, das confissões de milhões de aspirantes a Gide e a Kafka. George Orwell, blogger involuntário, daria a sua permissão para o serviço que estão a prestar aos seus diários? A luta é constante: quem publica na blogosfera pretende o reconhecimento da importância desta actividade, e converter escritores mortos aos blogues não é um pecado que não possa ser perdoado.

Mas podemos apontar o dedo. Os diários de Orwell, enquanto foram sendo escritos, aspiravam a nada menos que à clandestinidade, no tempo mais próximo. A escrita diarística, mesmo quando cultivada por escritores publicados, não tem como objectivo imediato a publicação. E quando esta acontece, é resultado ou da posterior notoriedade do escritor, ou das incontroláveis maquinações do ego do autor, ou, quase sempre, da doença incurável que é a vida — os diários póstumos servem muita gente, desde os editores famintos de novidades do mundo dos mortos até às viúvas inconsoláveis em consequência do fim abrupto de um rendimento fixo.

Certamente que a rapidez e a facilidade que a escrita bloguística permite são fortes incentivos ao facilitismo. Mas a questão é esta: que semelhanças existem entre o acto de manter um blogue e escrever um diário privado? À partida, lamento, poucas, apesar da origem da palavra blogue (de weblog, diário da web). A verdade, que à partida já não é um valor absoluto, ainda é menos quando falamos de um blogue. O simulacro de real, que no fundo a internet é, alberga outra simulações: de literatura, sobretudo de vida. O que leva alguém a partilhar com o mundo inteiro o seu quotidiano, quando o poderia esconder num diário secreto? As motivações contam pouco, mas teremos sempre de conviver com a diferença, em termos de forma, entre um blogue confessional e um diário. O cadeado e a chave que as crianças usam são precisamente os objectos que o blogger dispensa ao clicar no “publish post”.

Entrar no jogo da realidade, escrever falando dos outros como se falássemos de nós próprios; falar de nós próprios como se os outros não estivessem a ler. Introduzir no circuito autor — leitor um terceiro elemento: a passagem do tempo. Um diário, quando publicado, segue a seta do tempo de forma natural, do passado ao presente; um blogue guarda o passado em arquivos que ninguém consulta e vive do presente do mais recente post, invertendo o avanço do tempo. A internet acelerou o tempo, é facto aceite, e sobretudo apagou o passado, transformando esse tempo numa amálgama indestrinçável de acontecimentos. Quando fazemos uma pesquisa no Google sobre determinado assunto, deparamos com páginas publicadas em alturas diferentes, muitas vezes sem uma referância directa à data original. A Wikipedia, na sua febre de constante actualização, arrisca-se a ter permanentemente informações erradas ou contraditórias; a fixação da verdade é impossível.

A realidade é, por natureza, fragmentada. A literatura é essencial para o ser humano porque sistematiza a realidade, oferece-lhe um fio condutor, uma continuidade, um sentido. Ao contrário da vida, que muitas vezes parece não ter uma finalidade, um romance caminha para um fim, e o Deus que o escreve (o autor) não é cruel como aquele que escreve o Universo — as personagens, quando nascem, sabem exactamente como irão acabar; uma obra de ficção é uma parcela de realidade atemporal, sem o peso da existência, e mesmo assim é o que mais se aproxima de uma explicação para o mundo (esqueçamos a racionalidade absoluta da filosofia). A consistência de um texto literário, a obrigatória unidade de tempo e espaço (Aristóteles ainda tem razão), é subvertida pela escrita diarística. O diário e o blogue imitam a forma da vida e, por isso, são menos perfeitos que um conto ou um romance. Até quando irá resistir essa forma arcaica de transcender a realidade, a literatura?

Sejamos optimistas: algum dia se publicará em blogues uma Odisseia que sublime o género humano. Assim acredito.

(Texto publicado antes na revista Malagueta)

[Sérgio Lavos]

02/05/08

Maio de 08

Os tempos nunca foram tão bárbaros para a juventude inquieta a que cada geração tem direito. Faltam causas, é verdade. Sobra materialismo e mil e um gadgets para consumir. Imagine-se, os ideais até se podem comprar no e-bay, enquanto se espera que acabe de descarregar aquele álbum daquela banda que alguém ouviu e acha que daqui a seis meses vai ser ouvida por toda a gente que não está na onda.
Instantaneidade e simultaneidade. Tudo agora e várias coisas ao mesmo tempo - menos o sexo, claro, que os delírios de Zabriskie Point já foram há quarenta anos.
Por isso, a juventude de agora, que tem tudo menos carreira, casa e uma perspectiva estável de futuro, alegremente é alimentada pela teta dos pais de 75, que nada querem fazer para deixar de ser os salvadores de um país perdido no nevoeiro do fascismo.
O problema, caro Watson, é claramente este: isso tudo de que falam, precariedade, desemprego pós-licenciatura, novas oportunidades falhadas, desânimo, depressão e horror com pipocas à mistura é um eterno sonho de uma outra juventude: a dos nossos pais, que com todo o amor do mundo desejam que bem estar, paz, pão e liberdade sejam, não uma escolha dos seus filhos, mas o leite da teta que caridosamente oferecem. Não há uma única solução viável para acabar com o labirinto da falta de escolha que se apresenta a esta geração porque a vontade desapareceu há muito; os pais desta geração puxam a rédea de cada vez que ela se tenta libertar, em perpétuo movimento reaccionário. O resultado de uma revolução sem sangue é uma juventude sem pinga de sangue nas veias.
Independência ou morte? Morte a longo prazo, como o lume de uma vela a extinguir-se (enquanto se ouvem as palavras de uma rock star cantando o oposto).

[Sérgio Lavos]

30/03/08

McRúcula

Damo-nos conta de que o mundo caminha mesmo para o abismo quando queremos almoçar rápido, entre um compromisso e um filme, e não encontramos um restaurante decente de fast-food nas redondezas.
É como entrar numa nave espacial, o renovado Monumental; os imaculados brancos escondem cortinas e segredos, autópsias e vivisecções de gente à antiga. Agora, se quero comer um hambúrguer (ou uma hambúrguer, como se dizia antes) tenho de ir ao McDonald's, que, a dois passos, está às moscas, apesar do lifting das saladinhas e dos menus light. Ou então opto por um belo e gorduroso hambúrguer de soja, humm, que bom, não bastava ser soja, ainda é em forma de hambúrguer, ou então apenas resta uma loja Go Natural, outra Become Light, outra ainda de pizzas feitas à base de trigo não transgénico, tudo acompanhado dos habituais sumos de frutos tropicais ou de batidos de feno, ou essa maravilhosa invenção bastante apreciada por clones de vacas, os shots de relva (é a pura verdade, juro); não sei quantas (poucas) calorias apenas e o health-club fica mais barato e evita-se uma ida à Corporacion Dermoestética.
Este é o reino da salada de rúcula temperada com vinagre balsâmico, e temo pelo futuro das nossas crianças quando vejo um suposto dread como Kalaf Angelo a discorrer na sua crónica do Público sobre os horrores que sofre de cada vez que percorre as lojas gourmet em busca de vinagre balsâmico (mas final, o que é isso de vinagre balsâmico? algum néctar produzido no Olimpo, ou será uma espécie de líquido curativo que substitui a água oxigenada na limpeza das feridas?).
Enquanto ainda tento digerir um cozido bem regado a vinho da casa, imagino esta gente que julga que viver significa prolongar o sofrimento e a fome e chegar aos 120 anos, presa nos lares para onde os filhos os enviaram, a recordar o passado com lágrimas nos olhos, aquele prato de beterraba cozida naquele restaurante new age onde iam aos trinta, o sabor da água mineral Evian, apuradíssimo, encorpado, a saladinha de couve roxa, rúcula e tomate cherry a acompanhar e o belo remate, digo, sobremesa; um pedacinho de doce de abóbora lado a lado com raspas de casca de laranja (já dizia a minha mãe: "não queres? come raspas!).
Eu sei que sofrerei por todas as vezes que, em vez de comedidamente passar fome, ter escolhido comer de entrada presunto em vez de salmão, emborcar uma feijoada com tinto e ainda ousar comer um doce de ovos no final. Mas até lá, pelo menos alimento-me, não finjo.
E acabei, claro, por sair do Centro Comercial e ir ao McDonald's. Se há alguma mensagem nisto, é esta: este foi um dos textos em que usei mais termos em língua inglesa; a globalização do gosto, surpreendentemente, não vai lá pelo fast-food. O que nos espera é o império da comida light. Ou será que pensavam que a ASAE era só um acidente de percurso?

[Sérgio Lavos]

20/02/08

Correspondência

Milhares de cartas inundaram a caixa de correio, a perguntar a mesma coisa: por onde andas? Respondi a todas, sentado numa esplanada para fumadores enquanto a chuva ia e vinha. Café? Confirmo. Cigarro entre os dedos? Claro. Alcoólicos perdidos no dia, copo atrás de copo? Sempre. A esferográfica na mão (não tinha tinta para a caneta) e sentia-me um passo à frente da modernidade. Eu espreitava por cima do ombro - que mulher feia ela se tornou, e eu conheci-a tão nova. A minha caligrafia é um acidente geográfico, Himalaias em potência - nem eu percebo, por vezes, o que escrevo. Tusso um pouco, mas como não fumo muito não chega para afirmar: sofro de catarro. Uma mulher passa, desvia o olhar, mas as calças de ganga apertadas segredam-me ao ouvido: "escreve, responde às cartas". Um yuppie com pretensões intelectuais - estão a ver o estilo, camisa e blaser, suíças crescidas - sai para a rua, dedo no ouvido, telemóvel na outra mão, a gritar para quem o ouve: "É o que eu te digo, a terceira guerra mundial vai começar". Achei normal, hoje em dia qualquer um pode ser profeta, ou melhor; comentador político. E era mesmo: "esta cena da Jugoslávia, foi ali que começou a primeira e a segunda, vai começar ali a terceira. A Espanha não aceita, a França também não, a Itália não estou a ver, os Estados Unidos só fazem merda". Lá ao fundo, uma voz meio desesperada ouve-se: "Amor, o café está a arrefecer". Espreito para dentro, olhar cruzado, regresso ao papel timbrado de hotel, escrevo cartas. Nos próximos dias, receberão uma resposta no correio. Entretanto, aproveito o sol e dou uma última passa, esmago a beata. Espreguiço-me. "Amanhã falamos, temos de ir à neve ainda este ano".
A terceira guerra mundial ali à esquina.

[Sérgio Lavos]

04/02/08

Respiro

Talvez nestes últimos tempos tenha havido mais do que um assunto que me tenha despertado a atenção, de entre a modorra quotidiana de notícias que, diariamente, inunda os jornais. Poderia dispensar a ligeira constipação que se apoderou da última frase - não poderei afirmar seriamente que a arrogância de que essa frase está enferma não seja um defeito, mas administro, em doses homeopáticas, a arrogância a algumas coisas que faço.
Não queria desaguar aqui: aqui. Antes preferia continuar a falar dos assuntos que me interessaram e dos quais não falei. Deveria falar? Quando escrevo não falo, parece-me evidente, embora uma voz na minha cabeça me vá ditando coisas com as quais nem sempre concordo. Mas, é sério, deveria referir que isto ou aquilo me afectou profundamente, aquela coisa ou a outra me indignou apaixonadamente, um ou outro acontecimento me transformou de maneira decisiva? Tenho as minhas razões para me manter calado. A menor das quais é o desinteresse que isto possa ter para quem me lê. Mas, se me lêem, é porque tem interesse.
O principal motivo de orgulho, desde que fui silenciando o tribuno que habita em mim (5º esquerdo, ali mesmo ao pé do fígado), é a sensação de controlo de estragos, de higiene totalitária, que este blogue respira. Algumas recaídas quase que deitaram tudo a perder. Acessos súbitos de vaidade, tropeções mais ou menos públicos, alguma tosse inconsistente a meio da peça do silêncio que neste momento está em cartaz por estas bandas. Mas o tempo apaga tudo (menos as insistentes nódoas da tarte de mirtilos do verão passado). E tudo se esquece, ao sabor do vento que sopra os textos mais antigos lá para baixo (não espreitar, por favor). Cada vez mais penso - e não estou sozinho nesta demanda - que o ideal seria escrever sem dizer absolutamente nada (a dupla negativa aconselha-se). Sei que neste campeonato teria a concorrência de quase todos os colunistas que escrevem em jornais portugueses. Melhor, retiro o que afirmei na última frase. A maior parte da gente que escreve por aí diz tudo sem escrever absolutamente nada. De jeito. Sabe tudo sem saber realmente nada. E o realmente nada seria, neste caso, calar o impulso de ganhar uns cobres e deixar-se ficar sentado no silêncio, imaginando a neve que não cai lá fora, enquanto o mar desaba a sua impotência sobre a areia de um fim de tarde de verão.
Deixo em paz o colunista encostado ao doce cadeirão da improbabilidade poética, o malfadado colunista escrevendo o texto que leio com tal intensidade que no momento seguinte o esqueço, um suspiro nos lábios, agora não, que não me interessa. O tribuno grita. Vou ali amordaçá-lo, não quero discursar sobre nada que interesse minimamente ao eventual leitor deste texto. O momento seguinte, de libertação completa, me espera. (Utilizo o brasileirismo para não quebrar o ritmo da frase). E como quebrei o ritmo da frase, escrevo uma mais sem dizer nada. Respiro sobre a língua, e ela encolhe-se.

[Sérgio Lavos]

23/01/08

Os outros

Curiosamente, apesar dos propalados baixos níveis de literacia do país, encontro mais gente arrogante que ignorante. Quando eu próprio era arrogante, achava toda a gente ignorante. Portanto, eu sei o que essa gente sente. E tenho pena. Do seu sofrimento. Emocional, social. Físico. Não sei se sabem, mas a arrogância provoca maleitas físicas, pequenas coisas preocupantes. E chatas. Aftas. Furúnculos. Hemorróidas. Talvez por isso, falar com gente assim causa-me pena. Leio-lhes o sofrimento na pele. O esgar subtil. A carantonha retesada. O nervo sináptico ligando o cu à boca, transportando os excessos cá para fora. A arrogância, desconfio, é uma doença. Com variados sintomas - os físicos, já expostos, e os psíquicos. Má educação é outro nome para este terrível flagelo que atravessa uma classe circunscrita da nossa sociedade; do sangue azul ao sangue vermelho reciclado, do nobre depauperado ao burguês enconado, do velho rico fascista ao novo rico malabarista. E, em casos avançados da doença, a loucura pode aparecer. Daquela galopante, senil, babada, raiada, balbuciada, mal-educada. Portanto, via sacra sofrida que esta gente pena. Da hemorróida à loucura, o passo é curto.
Os ignorantes divertem-me. E ensinam-me. Ensinam-me a humildade - eu confesso que me esforço para aprender. Vou aprendendo. Curando as aftas. Os furúnculos. (O resto nunca tive). Divertimento e sabedoria, uma tábua rasa pronta a receber todo o conhecimento do mundo - como não admirar a ignorância? Aprendemos mais do que ensinamos, e os arrogantes vão continuar a sofrer de achaques, a contorcer-se, a espumar de raiva, a empalidecer, a esticar o nariz até tocar no tecto, como focas, a modular a voz até se assemelhar a um trombone, uma longa nota, estridente e cava, que não tem maneira de acabar. Deixemos a purulência arrogante refastelar-se na sua própria bílis. Ganhar bolor. Apodrecer.
A ignorância é uma benção.

[Sérgio Lavos]

12/07/07

Cansei do Inverno

Durante muitos anos, não fui à praia.
Ir à praia. A ideia não é igual para todos. Há quem vá para estar horas a fio na areia, outros preferem o mar, outros a esplanada em frente e uma cerveja que nunca desaparece. Durante muitos anos, nenhuma destas versões me atraía. Reconheço algumas expressões de desprezo, aí no meio da multidão (reduzida, que estamos em tempo de férias) - tenho a sensação de que a maior parte dos que param para ler o que se escreve neste blogue não se reconhece no que vou dizer a seguir; ou reconhecem-se demasiado. De qualquer das maneiras, a reacção pode ser desagradável. Como sentir os grãos de areia a esvoaçar em dia ventoso. Ou acordar com a pele queimada de um lado, depois de uma sesta que julgávamos retemperadora. Ou levar com uma bola de miúdo. Ou ouvir as conversas do vizinho - aí, lamento, mas isso nem sempre é mau. Quem não gosta de escutar uma boa história de faca e alguidar, que se retire em silêncio deste tugúrio.
A questão é: há um tempo na vida em que gostar de praia menoriza; em que se torna foleiro gostar de praia. A ideia é esta: férias, férias grandes depois do período de aulas; sol, mar, o sabor do sal na pele: tudo miragens. Há um tempo na vida em que ter estilo é ficar enfiado em casa, papando livro atrás de livro (o sol lá fora), esquivando-se a qualquer contacto com outros humanos (calor, luz intensa lá fora), inferiores que se expõem aos raios violeta que nem lagartos dependurados de muros em ruínas. O Inverno pode ser um estado de espírito. Ninguém ouviu dizer que Kafka gostasse de praia - apesar do livro de Murakami. Nem Nietzsche. Nem sequer Rimbaud ou Baudelaire. A soturnidade é uma forma de vida - meio mais rápido de atingir o êxtase da sabedoria. Ler livros na praia? Uma contradição insanável. Nenhuma frase de Beckett resiste ao horizonte marítimo. Depois, existe o problema da educação, para quem gosta de se julgar um dandy perdido no tempo. O cavalheiro inglês não se apanha na praia, nem que use um daqueles fatos de banho do início do século passado. Alguém imagina Oscar Wilde de bermudas? (OK, eu talvez imagine, mas isso não é coisa para revelar aqui - estraga a pintura). E para metade da blogosfera, estas coisas realmente importam. Pensar em Evelyn Waugh torrando ao sol da Caparica não é um pesadelo bom. Apenas se concebe o intelectual brasileiro - e ele existe - passeando em Copacabana, a espreitar a bunda da classe baixa. Ou nem isso, há quem viva em São Paulo. E em São Paulo pode ser normal ser branquela - veja-se o caso dos Cansei de Ser Sexy. Mas distancio-me da questão.
Eu também fui assim. E há quem ainda seja, bastante entrado na idade. Há quem morra assim, sem sentir os prazeres de um banho de horas; sem usufruir da onda de melanina que a absorção dos raios solares provoca, aquela vaga sensação de euforia que se segue a um dia de praia; sem poder se dar ao luxo de olhar mais do que demoradamente para o topless da modelo em frente, entre um cochilo e outro. Esqueçam os contras, e sobretudo esqueçam o estilo - um homem em pleno verão não precisa de estilo nem de verdade; é-lhe suficiente o leve torpor de um dia luminoso, belo e esquecido de si mesmo.

[Sérgio Lavos]

07/07/07

Aniversário

Por lapso ou vontade involuntária, na entrada mais abaixo, "Uma verdade", não referi o tema que tratava. Ao reler o texto, nem eu próprio sei se pretendia mesmo escrever sobre o que tinha inicialmente em mente: o meu aniversário. É verdade que nasci há 32 anos, aqui há uns dias, mas a importância do acontecimento é tão reduzida que nem para assunto de post serviu. A única razão para assinalar a data é ter esquecido o poema de Fernando Pessoa ("No tempo em que festejavam os meus anos/Eu era feliz e ninguém estava morto"). Esqueci-o e escrevi o rascunho com aniversário em fundo. Uma cedência ao lugar-comum da melancolia, admito, mas as razões que lhe estão associadas perdoam a falha.
Ninguém comemora aniversários. Uns bebem até esquecer que a data vai passando. Outros esquecem antes de beber e vivem como no poema de Mário de Sá-Carneiro ("Quando eu morrer batam em latas"). Mas sinceramente, ninguém pode, de maneira séria, celebrar a passagem do tempo. O nascimento, claro. Dou de barato esse pormenor relacionado. Não somos responsáveis pela nossa vinda ao mundo - porquê então lembrar anualmente o facto? Sem falar da perfeita aleatoriedade dos marcos temporais. Vivíamos melhor sem calendário? Viveríamos mais descansados, sem a pressão de cada aniversário. O assunto acaba por ser um pouco repugnante - lembra sempre os que escondem os anos que passaram, aqueles que queremos manter a uma distância sanitária.
Não gritar, não soprar velas, não partir o bolo. Dispenso tudo isso; mas, por favor, continuem-me a presentear com a vida material a que também tenho direito - objectos a que eu possa prender o meu afecto, tendo a certeza que nenhuma retribuição lhes é devida; o único tipo possível de amor desinteressado. Continuarei a esquecer aniversários (quem me conhece sabe que é assim). O meu próprio aniversário, espero um dia esquecê-lo. Não existe maior felicidade do que viver fora do tempo.

[Sérgio Lavos]

25/06/07

Verdade e consequência

Quem entra no auto-retrato em busca de hipocrisia que toma conta do mundo arrisca-se a sair pela porta dos fundos. Não há qualquer vontade de afastar o visitante brasileiro que aqui caiu. Espere, não vá embora. Fique um pouco. Falo de hipocrisia num ou noutro texto, é verdade. Entretanto curei a maldição - ficar de olhos raiados atrai sempre a espécie errada de deus. Não me interessam os hipócritas; na realidade, até que vagamente me atraem. Qualquer mentiroso compulsivo - e um hipócrita não passa disso mesmo - merece mais do que a minha atenção; a minha devoção. É difícil passear no labirinto da mentira; o minotauro espreita a cada esquina, a maldita verdade que estraga qualquer boa história. Neste ponto, afirmo: interessam-me os hipócritas até ao ponto em que não são apanhados a mentir. Quando são descobertos, deixa de ter interesse (e neste aspecto o erotismo assemelha-se à mentira). Um hipócrita é alguém que vive em constante humilhação, sorrindo para a pessoa que odeia, murmurando entredentes ressentimento e amargura, passeando em público a impotência de não chegar a ser um mitómano. O delírio em que este último vive é um problema de negação para o hipócrita - este julga ser racional, e portanto um ser em pleno auge social. Por vezes chegam longe - ou, como último recurso, tornam-se políticos. Mas carregam atrás de si pesadas grilhetas: sentir que nenhuma humilhação se compara à incapacidade de confessarem a verdade a si próprios. Imaginem: um hipócrita não aguentando o teatro em frente ao espelho; a encenação. No momento em que tudo é permitido, a mentira.
O escritor, esse, contraria a cada palavra a sua vocação de mitómano: quando quer mentir, diz a verdade mais límpida. O que vai tomar conta do mundo? Não espere nenhuma verdade neste texto, leitor. Muito menos hipocrisia.

[Sérgio Lavos]