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28/07/25

Um ritmo

Quem conhece a vida sabe que o seu ritmo não tem um compasso certo. Flutuações e desvios, abrandamentos e acelerações, incertezas, infortúnios e alegria. Mas a pergunta que devemos fazer não é se conhecemos a linha que a define, mas se conhecemos na verdade a vida, o seu rosto, o seu coração intenso? Deveríamos ser mineiros, martelando, escavando até encontrarmos o minério negro que habita na mais profunda noite, mas preferimos ser ilusionistas à frente de um espelho, criando a conjura e o próximo engano. Precisamos de quem nos roube o reflexo, de quem nos ajude a descobrir o mistério, a enfrentar o medo. Mas dancemos antes, até gastarmos a sola dos sapatos! No fundo do covil construído, a espessa vontade de veemência. 

25/11/13

Nexo

Há, só pode haver, um encadeamento de acontecimentos, de notícias, que é inspirado por um qualquer sopro divino e misterioso. Mas sem qualquer metafísica: as coisas acontecem em sucessão porque a natureza se dispôs a isso. Teria de ser, ou um qualquer equilíbrio cósmico seria perturbado sem remissão. Claro que, olhando para trás, reconstruímos percursos, unindo pontos e estabelecendo simetrias que qualquer outro escolhido ao acaso acharia nada terem em comum. O nexo de causalidade é na realidade um nexo de casualidade, ou um desconexo de causalidade. Encontramos uma causa para cada efeito observado, um sentido para o caos que nos compõe a vida. O meticuloso, o obsessivo, o compulsivo, procura recentrar os passos e repetir gestos, mas a cada repetição fica mais distante do acontecimento original. Há uma ligeira diferença, um afastamento das coisas que nos são familiares de cada vez que as celebramos. Os rituais evocam uma realidade a que não poderemos voltar, e por isso a cada encenação do ritual este vai perdendo força, porque um ritual não passa de uma recordação de si próprio. Há uma equivalência superficial entre o divino que julgamos governar o mundo e a razão que atribui ao acaso uma qualidade ordenada. Não há na verdade séries de acontecimentos, mas um contínuo interminável, que não conseguimos estancar, um corte que não pára de jorrar. Por isso esperamos esse sopro divino que organize o caos, cicatrize a ferida. A passagem de um estado a outro, que nunca chega a acontecer.

21/11/13

Colheita

Após tantos dias de pousio, isto aqui continua seco, infértil, sem erva que desponte, ruim ou sã, maldita ou vicejante. Todas as aproximações ao ponto certo, as circunferências, os voos picados, ou a planar, perto e lento, ou rápido e nervoso, têm falhado. É uma questão de método. O campo vazio, pronto a receber as sementes que lhe queiram atirar, mas ninguém com a força, a coragem, para o preparar para o seu próximo ciclo. O sol espera, a chuva também, o vento que irá varrer o resto das colheitas do verão passado passeia-se em volta, aguarda e sopra como se o papel destinado não pudesse ir parar a outras mãos, mais sábias ou mais certas do que podem fazer. As nervuras da terra desenham objectos que apenas se vêem do céu, como as gravuras imemoriais que em tempos alguém achou serem marcas de astronautas do outro lado do rio. Mas de cima a baixo, tudo é plano, tudo é térreo, a profundidade não passa de uma ilusão a que os cegos se dedicam empenhadamente, com medo de morrer. Planaltos, colinas, montes, os picos da mais alta cordilheira, alisados por uma régua que dobra o espaço, e mais atrás os olhos curiosos de uma criança e a sua mão febril, voraz, apagando e riscando e desenhando por cima outro universo. Tantos dias de pousio, e nada parece nascer. E, no entanto, move-se. Mas não vemos, nem sentimos. Não sabemos.

01/11/13

Janus

O meu primeiro morto foi o meu avô. Muitos anos depois, mais velho, uma rapariga dizia-me, em tom irónico (como pôde?), que nos tornamos adultos quando a primeira morte nos apanha, e a partir daí nada será igual. Muitos anos depois, percebi que esta ideia, sendo um lugar-comum a evitar, é mais uma daquelas coisas que pertencem ao património humano, algo que herdamos e que se transmite culturalmente, ou talvez esteja inscrito nos genes - a sensação de perda.
Rapidamente passamos dessa fase de ilusão para a adolescência. Quem não passa por esse primeiro momento acaba por lá chegar. Dizem os cientistas que a consciência de um "eu" começa a desenvolver-se - ou a evidenciar-se - desde cedo, nos primeiros meses de vida. Mas desconfio de que esse "eu" apenas se torna pleno, verdadeiramente humano, quando aprendemos que um dia vai desaparecer, e com ele o mundo. A idade da razão é sobretudo a idade do medo. Vivemos todos os dias no mundo a caminho de um fim. E saber que ele poderá continuar, matéria persistente depois da partida, não atenua o medo nem diminui o sentimento de urgência. 
A psicanálise encontrou uma fórmula para descrever esta aceitação do que perdemos, do que vamos perder: a negação. No fundo do espírito, espreita a verdade, a que viramos a cara. Essa verdade é como Janus, o deus latino com dois rostos, um virado para o futuro, outro para o passado. Nós vivemos de rosto voltado para o passado - a memória - existindo no presente, e forçamo-nos a esquecer a máscara que olha para o futuro. Recusamos a verdade que Janus nos oferece, o futuro que está atrás, do outro lado. Somos cegos por vontade própria, um esforço que nos permite a sobrevivência - a psicanálise também diz que quando esta barreira se rompe, e desaparece a negação, caímos num abismo mais profundo do que a própria morte. Prefiro a palavra melancolia para descrever este estado, em detrimento da mais comum depressão. 
Durante alguns dias depois do funeral, fomos obrigados ao silêncio em casa. Não podíamos ligar a televisão, mostrar alegria, e as brincadeiras, apesar de autorizadas, tinham de ser discretas. Os rituais que envolvem o desaparecimento oscilam entre a verdadeira tristeza - a perda é real - e a encenação. Simulamos a tristeza para que o morto deixe em nós uma marca mais profunda. Quando a tristeza é demasiado real, e se entranha, torna-se patológica, e não conseguimos regressar ao mundo. O luto tem de ser feito, temos de tornar simbólico o que é real, para que a verdadeira realidade - a nossa vida, sozinhos, isolados de quem nos rodeia - nos volte a abraçar e voltemos a poder emergir no seu tecido. 
A questão a que todos voltamos: será melhor saber ou não saber? "No tempo em que festejavam o dia dos meus anos/Eu era feliz e ninguém estava morto". Fernando Pessoa tem uma resposta.

24/09/13

Meio tempo

De ano para ano, o verão cada vez mais entra pelo outono dentro. O calor prolonga-se, os dias quentes repetem-se, monótonos, e vai aumentando a vontade de chuva, de voltarmos a sentir a casa como refúgio das tempestades que vêm. O sentido das coisas depende da melancolia que o fim do verão faz nascer na alma. Sem essa ideia de fim, de passagem entre duas matérias, enredamo-nos na indecisão da natureza, e somos levados a crer que por uma vez os ciclos podem suspender-se e a necessária previsibilidade do tempo seja apenas uma ilusão. Neste meio termo, a luz nas praias torna-se mortiça, perde a nitidez e o brilho claro dos longos dias de verão. O calor é o mesmo, mas o corpo sente a diferença, a inclinação mais acentuada do sol sobre a pele. Quando por fim vier a primeira chuva, o alívio. Com ela, o mosto nos lagares crescendo, as laranjas nos pomares ganhando cor, os campos vazios esperando as sementeiras. Precisamos deste intervalo de tempo, entre o excesso e o desejo. A meio caminho de um ano. 

26/08/13

Regresso

A cada momento, a perseguição, a ameaça. Acossado pelo medo, sei que apenas o poderei atenuar ou esquecer transitoriamente. Não o poderei expurgar, retirar, porque não o consigo compreender. Sinto-o, reconheço-o quando se insinua, mas não sei por que razão me visita. Ou sei, mas preferiria não o saber. O medo que me modula é a contrapartida da razão. Penso, sei e julgo conhecer-me, e por isso perco-me. Esperar o esquecimento é a única previsão que me embala. Seja o sono, as tarefas quotidianas, substâncias mais ou menos lícitas, como o conforto da vida doméstica a que alguns, com razão ou sem ela, chamam amor. Existi melhor enquanto vivi no passado, por muitas recriminações e arrependimentos que ele me trouxesse. Agora que vivo no futuro, no intervalo da dor amenizo a espera desejando esse regresso. O presente, esse, vai passando.

22/08/13

Uma fronteira

O som da morte, imagino, deverá ser semelhante ao ruído da aproximação de um comboio. Enquanto aguardo na estação aquele que me leva, penso na zona de impasse entre corpo e comboio, e sei que o primeiro perde sempre - tal evidência não se me escapa. Ainda assim brinco com a possibilidade do momento de ruptura poder suspender-se por vezes numa fronteira de indefinição. 

Liberdade

Deus fica de fora. De cada vez que mais uma tragédia é conhecida, repete-se: o mundo foi abandonado, o ser humano foi deixado ao seu livre arbítrio. É cómodo. Comodista. Confortável. O ser humano deixado ao seu livre arbítrio mata, fere, tortura, provoca sofrimento e o pior a que pode ser sujeito é um castigo terreno mais ou menos rápido e a promessa de que poderá haver um Inferno para castigar os seus pecados. Pouco, muito pouco. O livre arbítrio é o salvo conduto para a concretização dos piores instintos humanos - que nada têm que ver com a natureza animal do Homem. O contrário disto - não haver realmente determinação em tudo o que fazemos - é ainda pior; como se Deus, na sua divina crueldade, determinasse que seres matam, que seres ferem, que seres torturam. Abandonemos Deus, como ele nos abandonou em tempos. Nenhuma existência suporta um mundo que deixa os homens abandonados à sua sorte.

16/08/13

Um luxo

Todo o crime terá castigo. Se não for a justiça terrena a castigar, teremos sempre a culpa nesta vida e a perdição eterna na outra. O nosso sentido ético - uma qualquer linha divergente da inteligência com que fomos abençoados - obriga-nos a carregar às costas a lembrança e a suportar o arrependimento. Não sabemos viver para o momento nem esquecer o passado que persegue. A literatura ter encontrado neste tema um filão inesgotável não parece um feito de outro mundo. O problema da culpa e do arrependimento é o mesmo de todas as mais importantes perguntas da vida: não tem solução. Havemos de pecar e de carregar a culpa do pecado. A história da Bíblia serve de aviso e é um espelho do que somos. Quem se entrega ao crime e não sente a culpa prescindiu de ser humano. Um luxo inacessível à maioria.

21/06/13

Um ideal para a vida

A atomização do pensamento e a distância entre pessoas artificialmente iludida pela Internet levaram a que a ilusão da democracia se espalhasse, não só como ideia concreta, mas também como objectivo e ideal das sociedades nas quais a liberdade efectiva (mesmo que ilusória) não existe. As ideias espalham-se mais facilmente do que fogo em mato seco. Ninguém poderá afirmar que isto não será bom. Mas as ideias muitas vezes estão tão afastadas da acção, ou pior, do discurso performativo, que acabam por funcionar como obstáculos à sua concretização, barreira a uma verdadeira mudança nas mentalidades.
O capitalismo liberal é tão sufocante e dominador que mesmo os movimentos que pugnam por transformações radicais ou pelo o derrube dos valores liberais acabam por ser assimilados, entendidos e sufocados por um conceito de liberdade que, nunca deixando de legitimar os poderes difusos e a tríade essencial do capitalismo - capital, oportunidade, escolha -, acaba por se afastar dos valores e da natureza primitiva do liberalismo clássico. Os movimentos que procuram a libertação destes valores fundamentais do capitalismo usam os produtos que dele nascem e não se conseguem afastar dos valores das sociedades onde existem. Os movimentos alter-capitalisas são como outra a face do capitalismo, feitos da mesma matéria, percorrendo um caminho paralelo, partilhando a seta do progresso eterno, ideia charneira do liberalismo moderno.
O momento presente é sempre aquele em todas as virtudes e todos os defeitos se encontram e se concentram na sua máxima potência, porque o presente é a única possibilidade de existência a que temos direito. Vivemos no presente e nele concentramos o melhor e o pior dos mundos, todas as realizações e todas as possibilidades de mudança. Vivemos no presente e enquanto parte do mundo pensa e sonha com um mundo melhor, a outra parte luta para o conservar tal como está, com todas as qualidades e defeitos. Ninguém poderá afirmar com certeza que tem a razão do seu lado. Isso é certo. 

18/06/13

Mestres antigos

O amor que temos aos desconhecidos de quem aprendemos a gostar - os poetas, os cineastas, os músicos, os artistas, os professores das coisas vãs e fúteis que são a matéria da vida - tem uma natureza diferente do amor pela família próxima ou pela mulher que nos escolheu amar de volta. Mas nem por isso é um amor inferior ou menos importante. O que somos, o que nos constitui, tem tanto a ver com pessoas como com os objectos artísticos que nos deslumbram. Sentimos tanto a distância dos nossos mestres como das pessoas com quem vivemos os anos da nossa vida. Mais claro: amamos quem nos ama de volta mas também quem, criando, nos ensina a amar o mundo. E quando os mestres se vão, a dor é funda.

27/05/13

Herberto

Dói-me tanto a possibilidade de um dia não celebrar novo livro de Herberto Helder. De um dia não poder encontrar novos poemas, e saber que novos poemas não poderão ser encontrados. Nunca mais. Também terei a certeza de que sonharei com os poemas que ele perdeu numa viagem suburbana, o livro que nunca escreveu, nunca chegou a ser. Tenho saudades agora, saudades do que não vou poder ler quando Herberto deixar de escrever. Não consigo conformar-me com o que tenho. A desolação é mais certa do que o presente. Herberto não continuará a escrever.

24/05/13

Perder o tempo

Ir avançando por aí, pelo tempo fora, é perder aos poucos o que nos motiva quando somos mais novos. O que nos transporta é ilusório, úteis invenções às quais entregamos a vida. Sabemos que as vamos largando por aí, por vezes elas acodem-nos à memória e por ali ficamos, mergulhados nas possibilidades que se foram esgotando. A cada momento em que paramos e pensamos nela, na mesma medida desejamos essa ilusão ingénua e ficamos felizes no que somos, no que sobe à superfície do abismo da perda. A serenidade será nada querer, nada ambicionar? Ainda irei a tempo de saber.

25/04/13

O plano

Se toda a vida te fosse oferecida sabendo tu de cor o que iria acontecer, aceitarias? Aceitarias saber que o que viverias está escrito, que ao nascimento se seguirá a infância, e a esta a juventude, e depois o lento declínio para a morte? Sabendo que cada alegria é calada pelo apaziguamento, que precede o tédio de nada relevante acontecer, a que se segue a angústia da alegria não voltar, depois o medo, e depois a alegria mais atenuada, sabendo que o ciclo irá repetir-se, e que nada do que prende à terra ou do que se eleva do chão dura mais do que um instante? E que o longo deserto que nos separa do próximo momento nos seca a boca e exaure o coração? E que, no deserto por onde caminhamos sem saber quando dele iremos sair, mais do que a areia onde vamos enterrando os pés, corremos o risco de apanhar áreas movediças, e quando dermos por elas poderá ser demasiado tarde para nos salvarmos? Enterrados, presos, na areia que nos engole, a longa lengalenga dos dias da qual escapamos, ao longe na fundura das colinas aguarda o que não conhecemos, o que não podemos conhecer. O lento declínio para a morte. Caminhamos de regresso a um início familiar, restabelecemos o percurso a partir dos sinais que fomos deixando para trás e enredados vamos recolhendo panos, perfumes e memórias para que nos atavios da despedida encontremos o derradeiro calor a que temos direito. Se a vida te fosse oferecida sabendo que tudo irá acontecer de modo contido e planeado, cada desmesura prevista e cada desvio consentido, aceitarias viver? Sabendo tu que não sabes nada de nada desse rosto branco que te canta e desses brandos braços que te salvam. A medo e a fogo te derrotam. Não aceites o plano.

18/04/13

Um reconhecimento

É uma ideia recorrente: se um dia pudesse encontrar-me com quem fui aos dezassete anos, reconhecer-me-ia? O mesmo rosto, menos envelhecido, sem óculos ainda. Seria mais alegre, mais aberto à vida. Não teria a amargura que por vezes não consigo disfarçar. Não sei se as sombras já rondavam, se apenas começaram a aproximar-se depois. As dúvidas e as preocupações eram outras. Mas não as recordo. Não sei quem era aos dezassete anos. Se agora me reencontrasse, não teria muito interesse em estabelecer uma conversa que ultrapassasse as banalidades que se trocam com estranhos. Há quem diga que se ganha, com o correr dos anos; mas não sei. Talvez duvide. O que se perde não é substituído pelo que se conquista ou se adquire. Não se trata de decadência, nem de medo. Mas de um reconhecimento, vagamente melancólico. O pior é que não tenho a certeza de quem era nessa idade. Sei que aconteceu, mas não consigo aceder ao que fui, como se o que fui tivesse guardado num ficheiro protegido do disco rígido. Não vale a pena repassar a ideia. Mas ela dança no meu espírito, como um demónio inquieto. Terei de viver com isso.

26/03/13

Palavras

A linguagem, enquanto veículo imperfeito das ideias, é o nosso bem mais perigoso. Serve-nos no mais imediato, ajuda-nos a construir o nosso mundo, a tecer a teia de relações, mas pode ser fonte de embaraço ou de incompreensão, quando mal usada. A palavra certa no momento errado ou a palavra errada no momento em que a linguagem não pode falhar podem mudar o curso dos acontecimentos, por vezes de forma irremediável. As palavras são importantes. Mais do que as próprias ideias, de que se limitam a ser a sua expressão no mundo. 

24/03/13

Tédio

O tédio é uma forma de esvaziar a vida da sua importância. Como se cada minuto passado a pensar no que se há-de fazer não fosse um minuto desperdiçado, um minuto que deveria ser ocupado com uma das inúmeras actividades que fomos inventando para preencher o tempo que nos foi oferecido. Por outro lado, o tédio pode ser também uma bela ocupação do tempo. Procrastinar, pensar no que fazer a seguir, meditar nas coisas em que o nosso tempo não será ocupado. Tornar o tempo numa cadeia autofágica, engolindo-se na sua própria inutilidade. Ou, quem sabe, perder esses minutos a escrever sobre isso. A vida, afinal, não é importante. Tédio puro. 

23/03/13

Andorinhas

As primeiras andorinhas andam por aí, mas certamente devem estranhar o frio e a chuva. No beiral por cima das janelas do quarto e da sala, elas fazem ninho. Os gatos não sabem que elas vão voltar, mas quando as crias deste ano começarem a atirar-se no vazio, experimentando as asas, desafiando a vida, vão fazer a mesma figura de sempre, trincar pássaros imaginários, retorcendo os bigodes com um prazer nunca concretizado. Eles, os gatos, não sabem que o ciclo se repete. Eu sei. Que ganho com isso?

22/03/13

Círculo

Somos vigilantes com os nossos hábitos, mas complacentes quando os quebramos. Precisamos tanto de sair à rua e sentir o sol no rosto como de ficar em casa a pensar no dia que perdemos. Não gostamos de estar quietos, no mesmo lugar - nem um livro nos prende além desse tempo de inércia, de paragem. Variações sobre o mesmo tema: nunca saímos do círculo que pisamos, regressamos sempre ao lugar e ao tempo que conhecemos.

21/03/13

Controlo

Se fôssemos imortais, existiriam deuses, a crença? A antropologia e outras ciências do Homem falam do misticismo como uma tentativa de explicação para aquilo que o ser humano não controla. Quando éramos mortais e a Natureza uma ameaça, apenas os deuses traziam algum consolo ao que fugia das nossas mãos, aquilo que nos embosca, que espera por nós no futuro. Fomos nos entregando à ilusão da imortalidade, através da invenção e do engano - a dupla face do progresso humano - e Deus foi desaparecendo da vida. Mas ainda resiste. Os teólogos racionalizam a crença, tornam transcendente o que é, por essência, imanente. Mas se não fosse esse medo primordial, vindo do fundo da consciência humana - um medo concreto, real, bastante simples nas suas premissas - a morte que nos encara de frente mesmo quando não a vemos, sentiríamos essa necessidade de acreditar naquilo que a razão nega, Deus e a sua eterna forma esquiva?