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18/12/23

2023 a desaparecer


Escrever num blogue em 2023 é como escrever em papiro cerca de 1450, quando o pergaminho era já há muito tempo o suporte mais usado para a escrita e a imprensa tinha acabado de ser inventada na Europa (os chineses há vários séculos que dominavam a tecnologia).
Mas em 2023 acontece o mesmo que tinha acontecido em 2005: sempre fui lido por poucos seres humanos, ninguém vai dar importância, sou a árvore no meio da floresta quando não está lá ninguém a vê-la. 
Até porque se há algo que resiste em 2023 é o papel, e o valor sagrado das palavras escritas e impressas em algo material, e isto não é papel. No outro dia perguntei aos meus alunos qual achavam que iria o ser o suporte que teria mais possibilidade de ter desaparecido daqui a mil anos. Como são ainda crianças, disseram-me que o que está on-line sobreviverá e o que existe em papel desaparecerá. Como se não tivessem chegado até nós manuscritos com milhares de anos e o que está on-line não dependesse de servidores que não saberemos se ainda irão existir daqui a mil anos.
De qualquer maneira, ninguém sabe, porque o tempo é esse comboio que vem na nossa direção e se desvia no último momento, e quando damos por ele já está para trás das costas. Ou então nem sequer existe, como defende o físico italiano Carlo Rovelli na sua poética obra A Ordem do Tempo.
E este último livro vai já para o topo da lista dos meus livros preferidos deste ano, está decidido. Pode-se falar de números e coisas certas recorrendo a metáforas, à poesia. A sua própria poesia, e a de Horácio, que foi usada como epígrafe de cada um dos capítulos.
Calhou bem Frederico Lourenço ter traduzido para português a obra completa do poeta latino, para a qual fui levado novamente pela mão de Rovelli, como há décadas tinha sido levado por Ricardo Reis e a sua Lídia. Também Frederico me trouxe durante o ano que termina poesia grega, escolhos trazidos pelo rio do esquecimento onde ficaram perdidas todas as palavras que o tempo e os homens destruíram - os fragmentos de poetas gregos que não desapareceram. A perplexidade de sabermos que tudo o que lemos agora é o que resta do que foi eliminado ao longo dos séculos é tão inútil como olhar para trás sem podermos restituir à linha do tempo os novelos de que nos livrámos, as escolhas que deitámos para o lixo.
Este ano escolhi, e assim foi, e não escolhi outras coisas que o acaso me trouxe. Por exemplo: ir a Salamanca em julho e ver numa livraria próxima da catedral o livro de Irene Vallejo, "El Infinito en un Junco", do qual já tinha visto algumas boas referências. E a leitura desse livro foi um prelúdio para a viagem a Nápoles muitos dias depois. Uma cidade assombrada pela morte e pela celebração da vida - entre o caos e a ameaça, a beleza. E depois, em Pompeia não senti o que Rossellini sonhou na sua Viagem a Itália, mas no meio da beleza, da tragédia e do erotismo pré-cristão reconheci nas pedras o passado do que somos. 
Horácio escreveu poemas sobre o amor, Safo também, e na vila dos papiros de Herculano havia orgias organizadas pelo cônsul Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino. Cesonino era político e um amante apaixonado da cultura grega. Tinha na sua vila milhares de papiros que foram descobertos no século XVIII, esses papiros contêm centenas de milhar de palavras que podem ou não compor obras esquecidas da Antiguidade. Não sabemos, porque os papiros (já por si um suporte frágil) foram carbonizados durante a erupção do Vesúvio em 79 d.C. Investigadores tentam, há mais de 200 anos, extrair dos frágeis livros as palavras que poderão ter sido escritas por Platão, Aristóteles, Hesíodo, Píndaro, Safo. Não sabemos, e os papiros de Herculano são como o gato de Schrödinger do mundo antigo: enquanto não sabemos o que lá está, poderá estar lá qualquer coisa, até o segundo livro da Poética de Aristóteles. Mas se tentarmos descuidadamente descobrir o que lá está, desvanece. 
Imaginemos então o que poderá estar escrito nesses papiros, mais material do que isto que escrevo, mais material do que tudo o que está agora disponível on-line, e ao mesmo tempo tão diáfano como todos os poemas que apenas existiram na sua forma dita, antes da invenção da palavra escrita.
Terei lido outros livros em 2023, mas este texto não é sobre isso.

29/01/14

O duelo


Rússia, pátria de Dostoievsky e de Gogol, a nação dos funcionários irascíveis e das paixões exacerbadas - pelo frio e pelo álcool. O carácter sanguíneo da alma russa - não posso falar com certeza sobre isso, mas acredito no que os escritores me vão dizendo - é um dos traços distintivos da literatura produzida, assim como da sua história. Raskolnikov, levado a um extremo de violência por necessidade, ou Ivan, o Terrível, o tirano retratado por Eiseinstein no filme homónimo, partilham características únicas. 

Depois de há uns meses ter sido notícia uma discussão sobre Kant que acabou com um disparo de pistola, hoje voltamos a ter mais uma prova da singularidade da alma russa. Dois homens envolveram-se num combate de ideias que acabou por ganhar uma fisicalidade inesperada, tendo tudo terminado na morte de um deles, à facada. Podemos lamentar o desfecho trágico da peleja, mas certamente temos de admirar que tudo tenha começado por causa da literatura. O eterno combate entre poesia e prosa teve o seu corolário lógico numa casa em Irbit, nos Urais, onde um convidado, antigo professor de literatura, não conteve a paixão na defesa da sua dama, a poesia, e assassinou o seu anfitrião, fervoroso defensor da prosa. Certamente que o álcool - se tudo tiver corrido de acordo com o esperado, terá sido vodka - e o frio extremo daquela região terão contribuído para tão funesto fim, mas a verdade é que a essência da discussão é tão original e irresolúvel que, de certo modo, acaba por ser natural o extremismo das duas posições. Vejamos: quem, na realidade, poderá preferir Tolstoi a Pushkin (que, recorde-se, morreu ao vigésimo nono duelo em que esteve envolvido, imitando Lenski, personagem da sua obra mais conhecida, Eugene Onegin), ou Tcheckov a Mandelstam? Será Dostoievski o escritor que melhor exprime as angústias da existência ou Tsvetaeva consegue ir mais longe na representação de todas as particularidades da condição humana? Será a poesia de Boris Pasternak superior à sua prosa? E Nabokov, o russo que escrevia em inglês, emigrante na América, representará melhor a literatura russa do século XX do que Anna Akhmatova, que lutou contra o regime estalinista sem nunca ter abandonado o país?

Na aparência, estes combates literários parecem fáceis de dirimir: a escolha entre poesia e prosa é absurda, pela sua natureza e pela sua forma. Contudo, não devemos menosprezar as contradições e o fogo da alma humana. No fim de contas, quem poderá afirmar com convicção, além de qualquer dúvida, que a literatura não é mais importante do que a vida?

30/10/13

A amante holandesa

Nunca me tinha acontecido sonhar com uma personagem de um livro. Muitas vezes andaram a rondar o meu espírito durante dias, semanas, anos, regressando de tempos a tempos a meio de um pensamento ou no intervalo de uma frase numa conversa. Alguns escritores dizem frequentemente, entre a verdade e a simples armadilha de marketing, que se apaixonam por personagens que criam, sofrendo quando terminam o livro. Não me lembro de leitores assombrados por figuras de ficção, por pessoas inventadas, vivendo uma existência de papel, frágil e ao mesmo tempo contendo em si possibilidades de eternidade. Talvez haja leitores desse tipo, e se assim for já terão sido criados por Jorge Luis Borges, o escritor dos leitores improváveis - ainda que nunca tenham sido passados às páginas de um livro.
Pela primeira vez aconteceu. Acordei do sonho com um sorriso nos lábios, o perfeito reverso da angústia que se sente ao despertar de um pesadelo. Sei que a ficção pode deixar marcas invisíveis, duradouras, mas não pensei que pudesse mergulhar de forma tão profunda na vida, atravessando o rio que separa o sono da vigília. Não que a literatura não me tivesse já avisado disso. Não é a viagem de Virgílio à procura de Beatriz uma jornada onírica? A morte não será um sonho no qual se perde quem nos ama? Deitar a cabeça na almofada, deixar que o sono transporte o espírito para paragens desconhecidas, cair no abismo discreto do sonho. E sonhar, ou perder a vida, perdermo-nos no esquecimento.
No meio de um sonho banal, ela apareceu. Alta, loura, corpo jovem e cheio, repleto de promessa. Nunca um convidado tinha entrado de forma tão intrusiva na mais reclusa intimidade a que temos direito. Certas teorias psicanalíticas dizem que todas as figuras que dançam connosco nos sonhos são projecções do Eu, outros Eus confrontando-nos, revelando o que na realidade somos. Não sei se acredite, e se precisasse de prova irrefutável para acabar com esta suspeita, poderia dizer que a encontrei, ao encontrar uma personagem de Rentes de Carvalho a meio de mim próprio. A amante holandesa, saída do livro homónimo, ela própria, na dupla encarnação imaginada pelo autor, amante inventada por Gato e amante real - mesmo que de aparência sonhada - do narrador. No meu sonho, ela era as duas, perdida entre a juventude eterna a que apenas a ficção pode dar vida, e aquela meia-idade a caminho da velhice em que as duas Clarisses existem. Quando acordei, os pormenores tinham-se desvanecido. Sentia ainda no corpo os vestígios de um desejo estranho, nascido de uma imaginação que se alimenta de outra. Mas ela tinha sido real, existira. De uma existência de papel para uma existência mais ténue ainda, a amante holandesa viveu em dois mundos. E quem poderá afirmar, para além de qualquer dúvida, que cada um destes dois mundos não é mais verdadeiro e concreto do que o mundo real para onde todos os dias acordamos? Vivemos do espírito, não do corpo que o carrega.

26/10/13

Joaquim Palhares

Partindo do princípio - de tudo, o princípio de tudo - que todos nós, sejamos conhecidos por milhões, ou pobres anónimos vivendo e morrendo na sarjeta, não passamos do resto que ninguém irá recordar, a seu tempo, não deixa de ser abracadabrante depararmo-nos com os tristes desconhecidos que um dia atravessaram o caminho de pessoas maiores do que eles, nomes que ainda agora conhecemos, admiramos, endeusamos. 
Ocorre-me isto de cada vez que penso nos milhares de críticos que ignoraram os livros de Kafka ou os filmes de Ozu - apesar de aquele e este no seu tempo terem sido reconhecidos por alguns. Do mesmo modo neste preciso momento passam por nós livros e filmes que ninguém nota, discretas obras que daqui a umas dezenas, centenas de anos, serão elevadas a olimpos a que agora não podem aceder. E mesmo duvidando de que esta verdade possa acontecer - não haverá agora um acesso quase universal a tudo quanto é publicado? -, acabarão por passar por nós, pelo tempo da nossa vida, alguns génios que apenas serão reconhecidos como tal quando já ninguém se lembrar deles. E de nós. 
Os desconhecidos que passaram pelo que era maior do que eles e ignoraram, esqueceram ou não viram. E os outros, os funcionários cansados que, mesmo reconhecendo qualquer coisa que os transcende, se limitaram a colocar o carimbo normativo, selo de uma educação formatada, de uma ordem superior, de uma mediocridade burocraticamente ordenada, política. 
É esse o caso de Joaquim Palhares, censor entre tantos outros, que leu um livro de Herberto Helder e, nele não encontrando ameaça de ordem política (apesar da "índole esquerdista"), reservou à obra a via da proibição, o silêncio da censura, por conter "passagens de grande obscenidade", apesar de não merecer qualquer reparo como "obra literária". Fascinante. Nem no recolhimento do papel menor que lhe foi confiado Joaquim Palhares deixou de dedicar à obra censurada o seu juízo crítico. É certo que a este juízo se sobrepôs um juízo ético acomodado ao regime da época, mas não deixa de ser digno de nota que no auto lavrado Joaquim Palhares não se tenha abstido de tecer considerações sobre a qualidade literária do objecto avaliado. 
Por onde andará agora este cansado funcionário? Poderá ter morrido, deixado descendência. Ter sido esquecido por todos os que o conheceram, e o seu nome, para além da efémera fama de aparecer num auto de censura a Herberto Helder, apenas existir gravado no mármore ou num registo perdido de nascimentos, casamentos, morte. Porém, existiu, existiu apenas, e existiu mais do que todos os funcionários e poetas e artistas que nem à fama de partilharem o mesmo espaço da História com Herberto Helder puderam aspirar. Andaram por cá, desapareceram. Um nome num papel é mais do que isto. Até que o fogo o queime, e o último homem esqueça.

23/10/13

Histórias

As raparigas de Ana Teresa Pereira são depois mulheres, no fim da história, ou no fim dos capítulos de que se compõe o conjunto de todas as histórias até agora escritas por ela. Têm vários nomes, mas são a mesma. E esta mulher - que não é um arquétipo, mas sim uma ideia - tem o rosto de Ana Teresa Pereira, um rosto de rapariga, magro e elegante, lábios pintados de vermelho vivo, cabelos pretos ondulados. A escritora escreve as personagens encarnando nelas, ou vive através das mulheres que inventa. Não importa se há um Tom para Ana, ou se ela descobriu aos vinte e cinco anos que era uma feiticeira, ou se o seu exílio numa ilha é consequência de um amor morto à partida ou da maldição de um homem alto e de olhos de um negro profundo. Conheço a Ana Teresa Pereira desde o tempo em que a fotografia que a identifica estava próxima do tempo em que foi tirada, há cerca de vinte anos. Vinte anos que se passaram como se fosse o parágrafo de um romance, uma elipse resolvida na passagem de uma frase para outra, um ponto final pelo meio. Suspensa naquela fotografia, a memória do que me atraiu nos contos de crime e de fadas, nas histórias de amor e perdição construídas sobre acasos e determinismos, entre o que estava escrito acontecer e o que na verdade aconteceu; acasos que se revelam já escritos ou sonhados, a sorte mostrando que nunca dorme, e decide o que veio e o que virá. As raparigas de Ana Teresa Pereira vivem agora nas histórias que estão por contar, em casas à beira-mar ou entranhadas em bosques sombrios, e serão mulheres quando acabarem de se perder nos caminhos para além dos jardins, e habitarão para sempre no limite da possibilidade e da promessa. Muitas páginas perdidas, um quadro de Burne-Jones e um bule de chá quente. Lá fora, a chuva.

17/09/13

Notas para uma crise (7)

O rapaz que agora toma conta do país afirmou em tempos - numa entrevista dada quando ainda era apenas um simples candidato a líder do maior partido da oposição - que cedo se dedicara ao ensaio, tendo lido Jean-Paul Sartre na adolescência, nomeadamente um livro intitulado "Fenomenologia do ser". Claro que vários ilustres membros da nossa intelligentsia lhe caíram em cima, fosse por despeito fosse porque simplesmente... esse livro não existe. Não existe no sentido material e concreto da coisa - Sartre nunca tinha escrito obra, ou ensaio ou nota de diário que levasse esse nome. Os jornalistas que depois pegaram na peça tentaram compôr a coisa à jovem esperança da política portuguesa, sugerindo que ele se poderia estar a referir a O Ser e o Nada e ao subtítulo deste: "ensaios de ontologia fenomenológica". Todavia, o episódio não se livrou de ficar ao mesmo nível dos concertos para violino de Chopin apreciados por um antigo presidente de um clube de futebol. Mas a verdade é que esse é o menor dos seus pecados - a ignorância pusilânime de um imbecil; tudo o que tem feito desde que se tornou primeiro-ministro é uma nódoa que nem o mais bem intencionado biógrafo conseguirá apagar. 
Os políticos medíocres e os escritores com aspirações ao respeito do meio caem muito nestas armadilhas montadas pelos jornalistas - esses sacanas sem lei. Há uma rapariga, Margarida Rebelo Pinto, que é especialmente dotada a citar autores e livros e frases. A mim, sinceramente, desconserta-me, porque nem tem de todo mau gosto. Ou então é esperta o suficiente para saber quais os nomes de que deve falar, quais os grandes escritores que fica bem dizer numa entrevista. Certo que Rebelo Pinto sofre a bom sofrer. A cada entrevista que dá, sentimos um rancor por escrever a tal literatura light. Colada com cuspo na testa, a marca nunca mais sairá. Não é que não seja justo - se a literatura light é o lúmpen da literatura, que outro selo de qualidade lhe deveria estar apenso? Duas coisas são certas: mesmo que um dia Rebelo Pinto escreva os "Cem Anos de Solidão" do seu contentamento, não será promovida a esse tal meio que a execra; e nunca Rebelo Pinto conseguirá escrever os "Cem Anos de Solidão" do seu contentamento. 
De cada vez que, por uma razão ou outra, leio essa história do político, lembro-me do Jean-Sol Partre, o filósofo que Boris Vian criou para A Espuma dos Dias. Vivíamos tempos de risco e de polémica. Vian não se importou de parodiar aquele que seria, já à altura, um dos mais importantes intelectuais e escritores franceses. Talvez não fosse ainda a instituição que depois se tornaria, mas seria digno do respeito de um recém-chegado como Boris Vian, sobretudo porque acabaria por publicar excertos do livro de Vian na revista que dirigia com Simone de Beauvoir, Temps Modernes.
Eram outros tempos. Estes, infelizmente, são de chumbo. Quando a apatia toma conta de tudo, até os intelectuais desaparecem. Tirando um ou outro fogacho de figuras isoladas, nada se passa. No outro dia, corria pelo Facebook um texto de Natália Correia, escrito em 1992, sobre o futuro do país. Quase tudo o que está escrito naquele texto se concretizou. E em profunda abulia vamos sofrendo este apagamento da cidadania. No mesmo dia em que li esse texto, um ministro da educação vinha para a televisão mentir sem qualquer pudor. Com a educação pública a ser destruída, por onde andam os intelectuais - escritores, músicos, artistas - que dela beneficiaram? Não escrevem manifestos, não promovem abaixo-assinados? Não reclamam, não dizem nada, calam-se? Temos políticos a governar contra os interesses do povo, e quase ninguém se levanta. Os intelectuais, silenciosos - com uma ou outra honrosa excepção. Enquanto alguém como o rapaz que em tempos leu um livro que nunca existiu - escrito por Sartre - vai brincando com o que não domina, desistimos. 

29/07/13

Livros por onde ir

Não compro nenhum livro novo há mais de três meses. Melhor, não compro nenhum livro. Novo ou velho. Mesmo. Admito que já cedi algumas vezes e passei por livrarias. Parei a ver os títulos, folheei livros, vi contracapas. Até me senti tentado a comprar, uma ou duas vezes. Mas resisti. Parte do prazer em não contactar profissionalmente com livros é passar ao lado das novidades absolutamente a não perder do momento. Continuar alheado do último hype, não me sentir tentado a pegar uma vez mais num qualquer livro que depois me arrependo de ler. Claro que, persistindo neste auto-controlo, estou a passar ao lado de muitas estimáveis "novidades". Azar. Tenho centenas de livros em casa que nunca li. Coisas que comecei e não acabei, páginas incólumes de volumes comprados em feiras ou por desfastio, os livros da outra metade da casa, o que ainda não conheço da minha amante. Havendo tanto por desbravar, milhares de páginas neste momento completamente gratuitas, que não vão pesar no meu orçamento mensal, para quê começar a ler traduções péssimas em português do novo acordo ou tentar o último grande autor português que esforçadamente não passa de um Borges de quinta categoria? 
Tenho os consagrados por ali, e vou-os lendo. Os portugueses e os outros. E tenho as releituras para fazer, ordenadas pela melancolia: Terapia, de David Lodge; um de Vergílio Ferreira. Paul Auster.
Paul Auster. Esta é uma tradução menos do que manhosa de Palácio da Lua. Autor de que gostei de forma mais ou menos apaixonada há mais tempo do que me queria lembrar, e de quem continuei a ler, ao longo dos anos, o que foi escrevendo, por simpatia. Simpatia não pelo que ele é, mas pelo que eu fui. Continuei a ler porque gostava de mim quando lia Auster com interesse. Um interesse nebuloso, de quem desconfia que o fio da narrativa seria como um anzol que puxava para margens lamacentas da literatura. A coisa do policial, da função fática e outras tretas que não interessam a ninguém. Auster começou a revelar o seu verdadeiro rosto quando decidiu dedicar-se ao cinema. Desastre quase absoluto. Houve aquele filme feito a meias com Wayne Wang, que não era mau de todo (Smoke/Blue in the Face), mas a partir daí foi sempre a cair, de um modo tão acelerado que nem justifica uma consulta do IMDB para confirmar os títulos dos filmes. A inépcia cinematográfica seria sinal de um génio deslocado, ou algo mais profundo? Não serei peremptório, darei o benefício da dúvida. Do meu tempo, depois desta última tentativa, duvido (mas desdigo-me tantas vezes, que é provável falhar esta promessa). Mais de duzentas páginas de histórias atrás de histórias, contos da desgraça, encaixados uns nos outros, escritos num tom sofrido e grandiloquente que irrita até o melhor samaritano, mais de duzentas páginas sem criar uma única personagem que tenha mais espessura do que a folha de papel em que o nome foi escrito. Acrescente-se: a técnica de Paul Auster resume-se a criar nomes para servirem enredos menos verosímeis do que a maior parte das telenovelas que passam nas televisões portuguesas. Um carrossel de surpresas ao virar da página, redundando num estrondoso nada.
Mas posso ser eu, que estou mal disposto por não poder - a promessa feita é mais ou menos para manter - comprar. Se calhar, o gesto de comprar livros novos encerra em si tanta futilidade como a compra de um vestido ou de um par de sapatos. A novidade é que conta, o ritual consumista, e por aí fora. 
Vou ler antes de dormir. Nada de novo. 

*Uma foto de Marilyn Monroe lendo é o derradeiro cliché. Esta é de Elliott Erwitt. There. 

17/07/13

Um verão

Concordando com os que dizem que não há leituras de verão, isto é, que as leituras de praia não se diferenciam das leituras que o frio traz, a verdade é que ao longo da minha vida noto padrões que se acomodam melhor ao calor ou à linha do horizonte entre mar e céu do que ao sofá e ao barulho da chuva lá fora.
De há uns tempos para cá, por circunstâncias pessoais concretas, tenho retomado os livros de Vergílio Ferreira, relendo uns e lendo pela primeira vez outros. Tornaram-se assim as suas frases uma companhia que combina com o calor, como se a vertigem existencial que encontramos nelas apenas pudesse ser atenuada pela limpidez da luz e pela certeza de que a noite chegará mais tarde. Claro que pensar isto não passa de um artifício que procura explicações para o acaso. Mas não esvaziemos de importância o jogo do azar e da sorte nas decisões que tomamos.
Levado por estes livros, fui empurrado para o Mito de Sísifo, que começara a ler e nunca terminara, depois de ter lido os romances de Camus de forma intermitente. Tão longe estou do verão em que peguei num tijolo de quase mil páginas, um policial passado em ambiente académico, numa cidade de Boston que apenas conheço da ficção. A autora é Donna Tart, e o livro chama-se A História Secreta, e julgo já ter escrito sobre ele em tempos.
Mas não me interessa agora o livro em si. Em vez disso, recordo os dias passados em Porto Covo e as horas de sol na praia, o meu filho à sombra de uma falésia, dormindo sestas prolongadas enquanto eu mergulhava nos abismos negros e invernosos de um grupo de amigos, estudantes de grego e de cultura clássica iniciando-se nos mistérios do amor e da morte. A distância entre aquele sol e aquele mar, e os bosques, os corredores escuros e a pedra antiga do romance era percorrida de um ápice, a cada virar de página. Dormindo a meu lado, o meu filho, tão perdido quanto eu - o conforto da certeza era o embalo perfeito para os nossos sonhos.
A praia de há oito anos agora foi cortada a meio. É uma meia-praia, o areal aos poucos foi sendo engolido pelas águas, e a falésia que nos abrigou agora tem um sinal avisando os veraneantes do perigo de derrocada. Logo a seguir à linha da maré, o mar cavou um fosso que torna os banhos perigosos. Não é mesma praia, apesar de ser o mesmo bar e a mesma linha do horizonte, o mesmo sol. São outros, os livros. E os sonhos.

20/06/13

Notas para uma crise (5)

"O país trabalha em ordem, vós os dizeis e os políticos vossos servos muares. O país trabalha em paz, vós mo dizeis desde a cabeça do poder até à última prostituta e limpa-retretes. Também as formigas trabalham porque a natureza as fez estúpidas para isso. Também a besta anda à nora e com os olhos vendados para não ver que anda e ter acaso uma hipótese negativa na sua capacidade de besta. Também o burro puxa à carroça e leva pancada se faz greve de zelo, porque não calcula que é ele o sujeito desse puxar. Assim não é possível chegar a uma formiga e dizer-lhe pára um pouco e pergunta-te que diabo ando eu aqui a fazer?"

Vergilio Ferreira entra em território desconhecido quando os seus narradores - ou alguma personagem - começam a falar de política, explicita ou alegoricamente. É uma marca que se repete em vários dos seus romances - e se em Portugal existissem editores à maneira anglo-saxónica, essas longas diatribes, entre o moralismo e a indignação bacoca, seriam cortadas sem apelo nem agravo. Isto sou eu quem diz. Eu, que em Saramago também não gosto dos narradores intrusivos e que têm opinião sobre questões de política, os narradores sentenciosos e demasiado próximos da própria personagem saramaguiana. Sei que pensando isto nego parte da arte da ficção tal como Saramago a entendia; várias vezes ele afirmou que o narrador se confundia com o autor, ou pior, que o narrador (nas suas narrativas na terceira pessoa) nunca deixa de ser o autor. Mas o que mais me fascina em Saramago é o domínio do tempo e do ritmo das histórias contadas e a destreza linguística. E os defeitos que lhe encontro não esvaziam este fascínio.
Mas voltando a Vergílio. Será este talvez o terceiro verão em que regresso a ele. Agora, Em Nome da Terra, do qual retirei a passagem acima. A política entra na minha vida sem pedir licença, e mesmo quando  me afasto ela me persegue, nem que seja através da voz da personagem de um romance. Tudo é política, ainda hoje eu dizia - os aspectos mais banais do nosso quotidiano dependem de decisões tomadas por outros, decisões que não conseguimos controlar. Não sei se somos formigas ou bestas, "com os olhos vendados para não ver", mas sei que facilmente caímos nessa dócil escravatura que nos obriga a percorrer o carreiro das formigas de Zeca Afonso. Vivemos um tempo em que se é cada vez mais difícil seguir em sentido contrário. Quando a herança de Zeca (e de Saramago, e até de Vergílio Ferreira) é assim traída, o que nos resta? 

14/06/13

Notas para uma crise (3)

Como não acautelei a compra do livro de Herberto Helder, fiquei sem ele. Parece que a edição de 5000 exemplares foi comprada por especuladores e leitores de circunstância - mas isso não é o mais importante.
Dos poemas que tenho lido, nota-se essa transição de uma poética da transcendência para um regresso a uma imanência que se faz contra um mundo que mudou bastante nos últimos anos. Não será o "regresso ao real" de que falava Joaquim Manuel Magalhães - apesar de essa premissa se ler nas entrelinhas do depoimento de Manuel de Freitas e do texto António Guerreiro no Ipsilon de hoje - mas uma aproximação a um "tempo final" que não só se manifesta pelas circunstâncias da biografia do poeta, mas também através da fala de uma época consumida por ecos de um fim.
Esse fim não é o "fim da História" profetizado há mais de duas décadas, mas será antes o fim do Ocidente, tal como o conhecemos. Vivemos "tempos interessantes" desde pelo menos a crise de 2008 - e que se pressentiam depois do 11 de Setembro -, quando a finalidade última da política e dos políticos deixou de ser o "serviço do povo" para passar a ser uma qualquer vassalagem a poderes mais ou menos invisíveis ou a uma ideia que se afirma além da política (mas não é, porque tudo é política) e se alimenta de números, previsões e modelos económicos
É claro que a urgência passa ao lado da maior parte dos países da Europa. Esta restrição abrupta de parte da nossa vontade não se fará sentir nos países "não-intervencionadas". A destruição sistemática de um modo de vida fundado na solidariedade entre povos e entre classes - que nunca chegaram a ser verdadeiramente desmanteladas - é como uma onda selectiva que apenas varre os povos do Sul - que sejam a Grécia, berço da civilização ocidental, e Portugal, porto de partida da globalização mundial, é significativo. Lá fora, fora de nós e do sufoco que nos oprime, o mundo continua a rodar, sem percalços e forças de maior. 
A forma como está a ser construída a União Europeia trouxe-nos a um ponto em que a legitimação democrática é comprometida a cada momento. O voto, expressão última da vontade do povo, deixou de criar a ilusão de controlo de que as democracias representativas se servem para resguardar a sua existência. A descrença na política e nos políticos, sintoma maior da doença da democracia que fere a União Europeia, não tem sido convenientemente tratada por quem detém o poder. E este desdém pelo "sentimento do povo" não é inócuo ou sinal de uma displicência; numa União Europeia em que a maior parte dos cargos de decisão são ocupados por pessoas não-eleitas, é apenas natural que não exista uma verdadeira preocupação com este fosso cada vez mais aprofundado entre as decisões políticas e as pessoas que são afectadas por elas. É perfeitamente indiferente a um burocrata de Bruxelas que uma decisão sua envolva milhões de pessoas. E neste ponto o burocrata não está assim tão distante dos "burocratas" do Holocausto, retratados por Hannah Arendt na sua reportagem ao julgamento de Eichmann em Jerusálem. O burocrata do Holocausto limitava-se a cumprir ordens e a fazer o que lhe pedia. Um burocrata de Bruxelas segue a cartilha económica dominante e cumpre o decidido à partida. O burocrata da troika tem "um programa" para implementar e aterra em Lisboa para averiguar se esse programa é seguido à risca. O burocrata do Governo olha para os números e comove-se com a beleza intrínseca do "ajustamento", da mesma forma que o burocrata do Holocausto se comoveria com a beleza de uma tarefa bem cumprida. Não existe compromisso com as consequências da beleza, mas sim uma espécie de frieza sociopata possibilitada pela distância entre eleitos e eleitores - e por isso o burocrata do Governo se orgulha de "não ter sido eleito coisíssima nenhuma". 
O mal estar de um tempo. O fim da democracia tal como a conhecemos. O progressivo abandono das pessoas e das suas vidas por parte de quem decide o destino delas. E essa espécie de sufoco diário de quem vive sujeito a poderes que não controla e a decisões que podem mudar o curso de uma existência. A ilusão de que o voto poderia mudar este curso definido, ou a ilusão de que o progresso não teria fim, terminou.  Que exista um poeta que, no fulgor dos seus oitenta anos, tenha decido tratar - no sentido de cuidar, também - estes problemas, criando uma identificação entre o sujeito poético e o sujeito civil, abandonando o manto do demiurgo (como Manuel de Freitas o qualifica) e assumindo a precariedade de um corpo e de um fim, simultaneamente afirmando a potência de quem sente e vive no mundo, e com ele pensa  e combate, é o milagre possível. Nada vai mudar, certo. Mas sim, fica a poesia.

15/05/13

O labirinto

"Ouvi Borges dizer que se recordava que uma tarde o pai lhe tinha dito algo muito triste sobre a memória, tinha-lhe dito: «Pensei que conseguiria recordar a minha infância quando cheguei a primeira vez a Buenos Aires, mas agora sei que não consigo, porque creio que se recordo algo, por exemplo, se hoje recordo algo desta manhã, obtenho uma imagem do que vi esta manhã. Mas se esta noite recordo algo desta manhã, o que então recordo não é primeira imagem, mas sim a primeira imagem da memória. Assim, cada vez que recordo algo, não o estou a recordar realmente, mas estou sim a recordar a última vez que o recordei, estou a recordar uma última recordação. Por isso, na realidade não tenho em absoluto recordações nem imagens sobre a minha infância, sobre a minha juventude.»
Depois de evocar estas palavras do pai, Borges calou-se durante uns segundos que me pareceram eternos, e logo a seguir acrescentou: «Tento não pensar em coisas passadas porque, se o faço, sei que o estou a fazer sobre recordações, não sobre as primeiras imagens. E isso põe-me triste. Entristece-me pensar que talvez não tenhamos verdadeiras recordações da nossa juventude.»

Esta passagem de Paris Nunca se Acaba, de Vila-Matas, já tinha ficado a bailar no meu espírito da primeira vez que li o livro, há uns anos. A analogia da memória como uma cebola à qual se vão retirando as várias camadas, até restar nada, fabulosa na sua simplicidade, é também terrivelmente verdadeira. As nossas recordações são codificadas em imagens, e não podemos confiar nelas. Podemos lembrar sons, palavras, até cheiros ou sabores, mas estas sensações não-visuais são sempre inseridas numa cena. O passado projecta-se no nosso presente, imagens numa tela, mas nunca poderemos seriamente confiar nas imagens que vemos - o filme da nossa vida pode ser tão inventado como qualquer fita a que assistimos. 
Pensar que o passado, por mais forte que seja a impressão que deixa no nosso presente, pode não ter existido, poderia levar-nos, se quiséssemos, à loucura. Confiamos nas imagens que não são mais do que recordações de uma recordação. Não sabemos, nunca saberemos, o que perdemos e o que ganhámos, o que acrescentámos ao que vivemos. Claro que a técnica - fotografia, filmes - permite-nos fixar a realidade, fintando os truques da memória. Mas até essas imagens mentem, ou pelo menos escondem a parte do passado que existe para lá do enquadramento.
Por outro lado, não só não podemos confiar nas recordações como nunca poderemos saber o que sentimos no momento em que recordamos. Achamos que sabemos o que sentimos, mas poderemos na realidade saber o que pensávamos de um acontecimento ocorrido aos doze anos, estando a ver aqui do presente, o olhar moldado por aquilo que somos agora? Há algumas formas de loucura que aprisionam o ser no passado - talvez esses loucos consigam saber exactamente o que sentiam, o que pensavam, num qualquer momento traumatizante da sua vida que para sempre será repetido, em loop perpétuo. O castigo por recordarem de verdade é a perda do presente - viver exactamente no passado, como aconteceu, não permite que vivamos para o que somos, agora, e para o que viremos a ser. A história da mulher de Lot, contada no Génesis, que olha para trás, para Sodoma destruída, desobedecendo a Deus, e se transforma numa estátua de sal, revela a essência dessa maldição de forma perfeita.
E depois, há os sonhos. Muitas recordações que eu tenho, sonhei-as. Isto é: eram recordações de coisas reais com que sonhei, e a partir da primeira vez que as sonhei, passei a lembrar apenas o sonho. Portanto, não é apenas pensar em coisas passadas que são imagens das recordações, mas pensar em sonhos que são imagens das recordações achando que esses sonhos são as verdadeiras recordações. 
O labirinto mental de Kubrick (em Shining) é provavelmente a imagem mais clara do mundo de incertezas e enganos em que estamos enredados. Talvez por isso, a psicanálise aponte para a ideia de que um homem são seja alguém que vive o mais afastado possível do seu passado. Quem vive no presente, consegue fugir às imagens que distraem e enganam, à ilusão.

08/05/13

Coisas simples

"Mas naqueles tempos de juventude em Paris eu achava que a alegria era um disparate e uma vulgaridade e, com notável impostura, fingia ler Lautréamont e não parava de incomodar os amigos insinuando a todo o momento que o mundo era triste e que não tardaria a suicidar-me, pois só pensava em estar morto. Até que um dia encontrei Severo Sarduy no La Closerie des Lilas e perguntou-me o que pensava fazer no sábado à noite. «Matar-me», respondi-lhe. «Então fica para sexta», disse Sarduy. (Anos depois ouvi Woody Allen dizer o mesmo e fiquei de boca aberta, Sarduy tinha-se-lhe antecipado.)
A partir daquele dia, incomodei menos os amigos com essa ideia da morte por mão própria, mas durante muito tempo mantive - até Agosto deste ano não estava completamente pulverizada - a minha crença na elegância intrínseca do desespero. Até que descobri como era pouco elegante passear triste, morto e desesperado pelas ruas do nosso bairro de Paris. Compreendi-o este Agosto. E a partir de então a elegância encontro-a na alegria. «Empreendi várias vezes o estudo da metafísica, mas fui interrompido pela felicidade», dizia Macedonio Fernández. Agora penso que não é elegante mas de verdadeiros cataplasmas estar no mundo sem sentir a alegria de viver. Fernando Savater diz que a frase castiça encarar as coisas com filosofia não significa encarar as coisas com resignação, nem tão-pouco com gravidade, mas sim encará-las alegremente. Claro. Bem vistas as coisas, dispomos de toda a eternidade para estarmos desesperados." 

Enrique Vila Matas, Paris Nunca se Acaba, tradução de Jorge Fallorca, editado pela Teorema.

16/04/13

Canto nómada

Não há como fugir: de cada vez que leio Bruce Chatwin lembro-me da sua técnica de escrita, relatada na biografia escrita por Nicholas Shakespeare (um tijolo com centenas de páginas pelo qual passei devoradoramente há alguns temporadas): pegar em vários livros de autores clássicos, abrir páginas ao calhas e copiar frases. Não sei se este método era apenas usado nos romances - que não li - ou também nos livros de viagem. Nestes, há aquela impressão de realidade que imprime em nós a sensação de que qualquer frase que viesse de outro livro não faria ali sentido. Aquelas frases, aquelas palavras, aquele caos que vai saltando de citações directas para os diálogos esquivos trocados com as personagens - as pessoas que ele vai conhecendo deixaram de existir na realidade quando ele as tornou figuras dos seus livros -, e daí para relatos poéticos, de uma poesia sem rodriguinhos, seca e certeira, irónica quanto baste. Tudo aquilo misturado não pode ter como origem a reles cópia. Talvez metáforas, imagens, figuras de estilo. Não sei. Mas não a essência da sua literatura, verdadeira como apenas a escrita de um poseur consegue ser.
Reli então Canto Nómada e descobri muito que me tinha passado ao lado na primeira leitura, ensaiada vai para mais de quinze anos. Estava lá antes, claro, tudo o que agora me pareceu novo. Mas também é evidente que eu há quinze anos não era o mesmo. À superfície: talvez julgue saber hoje muito mais do que antes, sobretudo de algumas das matérias científicas a que Chatwin recorre para defender a sua tese - da paleontologia, biologia, evolução do Homem; e em profundidade, isto é, em apneia: ainda sou suficientemente ingénuo para gostar de muito, quase tudo, mas os truques são tão visíveis como uma lua cheia num céu limpo - para quem não está a olhar para o outro lado, claro. 
A viagem pela Austrália, tentando perceber o que é o canto dos aborígenes, o canto da terra, o canto que é um mapa que conduz os povos através do seu continente, é uma jornada em perda de si próprio, mais do que descoberta. Chatwin vai perdendo a pele que usa em sociedade. Mas nunca consegue totalmente. Quem o guia é um ocidental; e os aborígenes parecem estar sempre além da compreensão. Como Chatwin, julgamos entender a sua cultura, mas a cada frase escapa-se. Não há final feliz, revelação, epifania. Apenas um reconhecimento - implícito - de que nenhum viajante poderá conhecer verdadeiramente as gentes que vai encontrando. Mas o fascínio é este: pensar que na diferença dos outros podemos encontrar o que perdemos.

25/03/13

Um homem de partes

Quando David Lodge se propõe a escrever uma biografia, já sabemos ao que vem. Há dois exemplos para comprovar a ideia: o romance à volta do "fracasso" de Henry James, Autor, Autor e o agora publicado em português Um Homem de Partes, de H. G. Wells. Não o esconde, de resto; as suas biografias têm tanto de ficção como da vida. O seu trabalho passa sobretudo por tapar os buracos que os documentos e os testemunhos encontrados depois da morte do biografado deixam para para a posteridade. 
O método de Um Homem de Partes é esse. O resultado é um romance tão bem escrito que nos esquecemos de que aquelas personagens tiverem existência real, viveram mesmo. H. G. Wells, o socialista fabiano e escritor de ficção científica; as mulheres, as legítimas e as amantes; e os seus pares, outros escritores e intelectuais, com quem alimentou polémicas e rivalidades ao longo de uma vida longa e desigual, bem sucedida segundo os padrões de qualquer época. 
Mas, acima de tudo, as mulheres. As "partes" de Wells são as que o constituem, as diversas peças de que ele é composto, mas são também as outras "partes", baixas, as que foram a outra medida da sua importância. Defensor do "amor livre", antes de esse conceito ser assumido como filosofia de vida mais ou menos da moda, Wells viveu dezenas de anos com a sua primeira mulher enquanto ia mantendo casos, mais ou menos passageiros, com as mulheres com quem ia se cruzando. Lodge retrata com mais pormenor as relações mais duradouras e as mais significativas, a começar pela relação com Rebecca West, feminista respeitada e escritora que a certa altura - já depois da morte do escritor inglês - foi considerada a mais importante autora viva. 
O Wells que conhecemos neste livro é um clássico lodgiano: um intelectual tão consagrado como frustrado pelas pequenas lutas na Sociedade Fabiana a que pertencia e pela sensação de que a sua escrita não era considerada suficientemente "literária". Um escritor que acaba por procurar longe do leito conjugal a satisfação sexual, transformando o que é matéria da sua vida em matéria literária, não evitando o escândalo com a publicação de algumas das suas obras mais autobiográficas. As anedotas de índole sexual sucedem-se, assim com as conquistas. H. G. Wells, pela mão de Lodge, é uma espécie de Morris Zap (o protagonista de A Troca e de O Mundo é Pequeno) mais famoso e, convenhamos, menos acabrunhado com a sua vida sexual. As escapadelas de Wells encerram pouca ou nenhuma culpa - em sua defesa tinha a absoluta concordância entre teoria e prática. Excepto no que dizia respeito às suas mulheres: o amor livre funcionava apenas para um dos lados; o seu. 
Tudo somado, as quinhentas páginas do romance passam a correr. Os diálogos podem ser inventados, as peripécias peripatéticas de Wells e das amantes também, mas não duvidemos do rigor académico de David Lodge. A técnica de Lodge é um espelho da usada por Wells nos seus romances autobiográficos: onde aquele mostra a vida criando o que não pode nunca ser conhecido, este escondia a sua vida mostrando o que deveria ser segredo recorrendo ao mecanismo da ficção. O académico David Lodge está a tornar-se especialista neste diálogo diferido entre escritores. Um prazer.

22/02/13

O progresso do amor

Quando fiz o balanço literário de 2012, referi um livro que não existe - ou, pelo menos, não conheço qualquer livro com este título: O Regresso do Amor. Talvez por isso possa dizer que o livro que não existe foi um equívoco. Porque entretanto avancei para lá do primeiro conto de outro livro com um título semelhante, O Progresso do Amor, de Alice Munro. Não é um acaso o facto de terem o mesmo nome as autoras dos dois livros - o engano no título do livro obrigou-me a dar a uma segunda oportunidade a Munro.
Falemos do segundo, escrito pela escritora canadiana*, traduzido por José Miguel Silva - tenho uma ou outra reclamação a apresentar, mas de pouca monta - e editado pela Relógio d'Água.
Entretanto insisti. Como quase sempre, o meu primeiro juízo foi, digamos, ligeiramente precipitado. Munro é uma contadora de histórias que vale muito, mas mesmo muito, a pena. Os seus contos são trabalhados até um ponto em que aparentam prescindir da sua máscara literária e transformar-se em vida. A classe média - rural na maior parte dos casos - canadiana, como imaginamos que ela deverá ser em qualquer pequena vila do mundo ocidental. Os momentos de pathos são breves, discretos, mas transformam as personagens - mulheres, quase sempre mulheres - de uma forma duradoura, dolorosa. Revelações que alteram o destino das personagens ou o modo como estas olham para o seu mundo. Chegamos ao fim de alguns contos e temos vontade de os reler apenas para entender em que momento a história contada nos cativou, desenrolar o novelo entretecido por Munro, a sua estratégia de conquista da narrativa e do amor do leitor, daquele tipo que nos faz pensar, muitas semanas depois, na expressão de surpresa de uma personagem ao descobrir o que tinha de fazer para reclamar o seu futuro. Tudo em palavras, língua; e depois imagem sem palavras.

*Na página da Wikipedia é-nos dito que a autora é uma perene contendora ao prémio Nobel e considerada um Tcheckov norte-americano. Gosto de hiperbóles porque elas nos permitem reduzir o objecto hiperbolizado à sua verdadeira dimensão, ao obrigar-nos a encontrar nele as razões de tal excesso. Em Munro encontro muito de Tcheckov, é verdade; o que é um enorme elogio, dado que poderei dizer, nesta fase da minha vida, que o escritor russo** é, provavelmente, o maior contista lido, morto ou vivo. Apesar de Salinger.

**Note-se a substituição do nome do autor por uma paráfrase. No outro dia lia uma entrevista a Richard Zenith, na qual ele mencionava a liberdade de Fernando Pessoas na escrita. Dizia ele que Pessoa, ao contrário do que acontece com o comum escritor português, não evitava as repetições de palavras em cada frase. Uma liberdade que tinha raiz na sua educação anglo-saxónica. Eu, por ter lido mais do que uma vez que deveria evitar-se as repetições de palavras até a um limite razoável, excepto quando a repetição é estilística, cedo a essa mania portuguesa. Estará Zenith certo? Tenho dúvidas, mas chegarei certamente a uma conclusão quando menos esperar. 

02/02/13

Cães pretos

Há razões para ter voltado a ler Cães Pretos, de McEwan, mas talvez elas agora não interessem. Certo é que a releitura foi rápida e, como sempre com McEwan, um prazer. Há nele aquele domínio dos mecanismos da ficção que leva-nos a percorrer as vidas das personagens sentindo-as tão próximas como o familiar que gostaríamos de conhecer intimamente. Não é que não se evidenciem as técnicas e os truques, as marcas de estilo - o tema da confiança no narrador, quando a narrativa é feita na primeira pessoa, recorrente em McEwan, é também aflorado numa das passagens mais brilhantes do romance (quando o narrador conta as duas versões da história do enamoramento de June e Bernard, pelos olhos de um e de outro) - mas os experimentalismos nunca se afastam dos caminhos do romance clássico; estamos longe, muito longe, das derivas pós-modernistas.
James Wood escreveu sobre o trauma e o acaso nos romances de McEwan, e Cães Pretos será um dos melhores exemplos desse interesse. A epifania que roubou June ao comunismo e a Bernard surge de um magnífico acaso: um passeio pelo Languedoc, Bernard fica para trás e June depara-se com dois mastins negros dos quais escapa num movimento a que só poderá ser atribuído o qualificativo de milagroso. Entre o furioso mundo materialista do comunista Bernard e uma vida de busca espiritual, a distância curta de uma ameaça surgida do nada. O que será mais forte, mais digno de salvação? O amor certo e definitivo, ou a própria alma? Ninguém poderá amar sem se negar a si próprio. June e Bernard são fieis a identidades e construções do eu que se opõem, e essa diferença nunca será ultrapassada. Um amor a que não se submetam o espírito e a alma nunca poderá verdadeiramente florescer.

27/01/13

O próximo Outono

O diário de João Miguel Fernandes Jorge foi escrito com um objectivo temporal concreto: de Outono a Outono, pouco mais de doze meses passados a preparar uma exposição de Pedro Calapez. Exercício diarístico singular: a determinada altura, o autor confessa que tem pouco jeito - ou apetência - para o confessionalismo do género. As iniciais escondem as pessoas que vão passando pelo diário, os lugares mencionados são apenas os que existem fora da vida do autor - há uma porta fechada sobre a intimidade e há um silêncio sobre psicologismos e intenções. A vida interna de JMFG é cifrada e reflectida no que lhe vai acontecendo. A história do monge e do ruivo - uma tentativa ficcional respirando fora do papel - vai-se diluindo ao longo do tempo, mas enquanto existe aproxima o autor de uma verdade pessoal. A ficção é o que de mais próximo sentimos do real a que o autor vai escapando. Isso e as entradas de diário ensaísticas, sobre a exposição de Calapez ou sobre quadros e museus que vão sendo visitados. Há uma aproximação ao cinema através de Vermeer: o filme Rapariga Com Brinco de Pérola é um pretexto para falar do pintor holandês. Também se encontra poemas, sempre sinalizando um ponto no percurso - mental mas sobretudo geográfico. Um ano na vida de um poeta e crítico de arte, um ano preparando o tempo que vai passar. Ao fim desse tempo, projecto acabado, e conhecemos menos o autor do que antes de lermos o seu diário? Talvez não interesse: o que é publicado é literatura, a vida não cabe em letra de forma.

28/12/12

Mais livros 2012

De entre os livros cuja leitura chegou a bom porto, poucos, como tem acontecido desde sempre, foram publicados este ano. Em inglês ou português. O ziguezague das minhas leituras tem pouco a ver com as novidades, os hypes e os tops. Não é vaidade, nem pretensão. Nem sequer uma vontade, deliberado. É a constatação de um facto. Leio e passo de livro para livro conduzido por acontecimentos menores, citações breves, leituras de relance, ligações entre temas ou autores. Vou tentando, tacteando o terreno das leituras, sem ainda saber até que ponto erro mais ou acerto; ou sem sequer saber se existe essa coisa do erro e do acerto. Leio, ponto. Dez livros do ano que passou, portanto. Sem qualquer ordem preferencial. Título em inglês quando lido nessa língua.

- Sweet Tooth, Ian McEwan. 
- A Geração Perdida, James Wood.
- Fun Home - Uma Tragicomédia Familiar, Alison Bechdel.
- Entrevistas da Paris Review, organizado por Carlos Vaz Marques.
- Fanny Owen, Agustina Bessa-Luís.
- A Ilha de Caribou, David Vann.
- Complete Short Stories, Flannery O'Connor.
- Blankets, Craig Thompson.
- Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, Mário de Carvalho.
- A Consciência e o Romance, David Lodge.

Apenas três romances, reparo. Duas novelas gráficas. Cada vez leio menos ficção, mas ainda assim se terá havido leitura marcante terá sido a dos contos de Flannery O'Connor. A lista dos livros lidos incluirá certamente mais cinco ou seis que poderiam estar nesta seleção (substitui dois títulos ainda na fase de escrita do post). Não há nenhum de poesia, apesar de ter lidos poemas de uns quantos autores. Mas a leitura de poesia é ainda mais caótica, não tenho o hábito de ler as obras do princípio ao fim. Tenho em mãos dois livros que certamente poderiam figurar nesta lista, mas presumo que apenas os terminarei lá para 2013. É assim.

Adenda: tinha um livro lido em 2011 na lista e esqueci-me completamente do romance de Agustina. Substituição feita.

27/12/12

Livros_vida_etc

Olho para as três pilhas de livros na mesinha de cabeceira e vejo o meu ano resumido. Resumido, não, somado e completo. No que diz respeito a leituras, mas também no que diz respeito ao resto, essa coisa íntima de que não podemos falar, a existência.

(O itálico não é uma citação de outro autor, não literal, mas repete uma ideia feita. Nós seremos o que nos é exterior ou seremos o que os outros descobrem que nós somos. Por isso dizem que o amor é uma revelação. Tem de ser uma revelação, uma entrega de nós ao outro, o Eu revelado, e toda essa treta místico-psicológica.)

Mas as três pilhas. Os que li até ao fim, os que deixei a meio, os que nem cheguei verdadeiramente a começar. Se tiver muita paciência e pouca preguiça, vou falar de alguns dos livros até ao fim do ano.

A pilha do meio, livros abandonados:

Pensar, depressa e devagar, Daniel Kahneman. Estava a gostar do livro, ficou na página 130/131, mas meteram-se outros livros (ou outras vidas?) pelo meio. Tem coisas de que não gosto - dispensaria a descrição pormenorizada das experiências, etc. Mas talvez o retome (apesar de tê-lo deixado há mais de seis meses).

Cidades Invisíveis, Italo Calvino. Uma releitura que não chegou a arrancar, sobretudo porque a razão pela qual eu tomei a decisão de o reler deixou de fazer sentido. Tanto, que já nem me lembro da razão. Mas havia. 

Duluoz, o Vaidoso, Jack Kerouac. Tanga pretensiosa. Como só Kerouac sabia escrever. Ainda está para nascer o dia em que sentirei um assombro igual ao que senti quando li Pela Estrada Fora.

Vida e Destino, Vassili Grossman. Para que serve um tijolo sobre a Segunda Guerra Mundial escrito por um soviético?

Experience, Martin Amis. Terei começado a ler este no final do ano passado, mas nunca cheguei ao fim. Amis continua a ser um escritor que me é esquivo, apesar de todas as boas referências (e do indiscutível "prazer da linguagem" que me provoca).

O Regresso do Amor, Alice Munro. Os contos de Munro e de Lydia Davis têm sido abundantemente elogiados em todo quanto é tugúrio mais ou menos respeitável. Até agora, não percebi porquê. Talvez por ter sido este o ano em que li finalmente as histórias de Flannery O'Connor. A fasquia elevou-se a níveis estratoféricos. 

As Vinhas da Ira, John Steinbeck. A tradução (da colecção Mil Folhas, que o Público lançou aqui há uns anos) não é boa. Terei de ler em inglês, até porque as primeiras vinte páginas não desiludem, por entre tanta gralha e erro.

Haverá mais? Terei de ver. A continuar. Isto e o resto.

04/12/12

Com certeza

"Então fizeram-se aqui pelos menos dois livrinhos com os quais se salvaram duas vidas. Não é isto mais importante do que a qualidade literária?" 
Vítor Silva Tavares, o não-editor entrevistado este mês para a Ler. A imagem foi retirada do Facebook do Rui Bebiano.