30/04/06

Miccoli para Miccoli

Imagem do dia: Fabrizio Miccoli a desmarcar-se para receber um passe feito por ele próprio, e a chegar atrasado, saltando por cima do guarda-redes do Setúbal.
Miccoli, peço-te uma coisa: para o teu próprio bem, não fiques no Benfica. Há histórias, sussurros, boatos que falam de um cemitério índio jazendo por baixo da estátua do Eusébio, de uma maldição que invariavelmente transforma bons jogadores em jogadores medíocres, e jogadores médios em caceteiros ao serviço da equipa. Quem te vê conduzindo a bola, coladinha aos pés como se tivesse grude, cabeça bem levantada, e quem percebe o alcance de tal feito, tão simples na aparência, não te pode pedir tal sacrifício. Mereces melhor, e em Itália de certeza que encontrarás outro palco para brilhar. A sério. Enquanto jogares com três troncos nas costas e dois "artistas" nas alas, bem podes continuar a passar a bola para ti próprio, que ninguém te vai valer. Vai. Vai e voa, esquece a adoração e o tratamento dos adeptos. Não sejas um puto à procura de reconhecimento fácil, para que no futuro não sejas um jogador olhando para trás, pensando na carreira que te passou ao lado ou ficou esquecida num qualquer clube da periferia europeia. Ninguém te percebe, aqui. Ninguém te merece, aqui. Mas não temas; o esforço mínimo necessário para te manter por cá desconfio que não esteja ao alcance dos dirigentes que tratam da tua vida. Se, ainda assim, te perseguirem, recusa. E se duvidares, pergunta ao Deco. Ele, melhor do que ninguém, poderá falar da maldição da Luz. Escuta-o.

Art Brut

Para abrir as hostilidades na frente sonora, os Art Brut, que na semana passada deram um concerto em Leiria. Pós-punk pensando-se a ele próprio, diversão com sentido, uma ironia nas letras que evoca, por exemplo, uns Lemmon Jelly, mas sem a harmonia pop destes. Ali ao lado, na barra dos links. Será que ouvi falar em Franz Ferdinand?

29/04/06

O Atlântico e a direita

De tanto andar a blogar por aí, ainda me arrisco a acordar um dia transformado num insecto, ou então num convicto liberal de direita, a abundante praga que fundou esta coisa virtual e que dela se sustenta.
Como o risco é elevado, todos os dias mergulho num comboio suburbano para não perder de vista as minhas origens, e lembrar que nem todos os privilegiados têm motorista e iacht.
(Abro um parêntesis aqui para agradecer publicamente a Rui Tavares o facto de me ter obrigado a ler todas as semanas as crónicas de Helena Matos no Público. Antes, bastava passar os olhos por duas ou três frases para ficar com uma ideia geral daqueles doces devaneios de mulher às direitas. Agora, dado o ameno convívio com os textos de Rui Tavares, detenho-me mais demoradamente naquilo que a senhora tem a dizer, e que prazer! E que coincidências entre as duas colunas. Hoje, por exemplo: O Rui fala de privilégios, a Helena de carenciados. Um tratado, o evidente contraste. Os pobres e mal-agradecidos que Helena Matos, de forma tocante, cutuca na sua crónica, têm o seu espelho logo ao lado, onde passam a ser privilegiados. As palavras de Rui Tavares, premonitórias, confirmam os palpites de Helena Matos. Desta é que acertaste, José Manuel Fernandes.)
Mas a verdade é que acabei por comprar a revista Atlântico, à custa da publicidade que se espalhou pela blogosfera fora. Tenho uma certa vontade de me debruçar sobre alguns artigos da revista, e sobre o tom geral de uma publicação que mudou há pouco de director e que agora acolhe nas suas páginas meia-blogosfera reaça. Neste número, as excepções são Medeiros Ferreira e Bruno Cardoso Reis (excelente texto). Mas o tempo não abunda. Por isso, limito-me ao fait-divers e ao bitaite de circunstância.
Com alguma curiosidade, avancei logo de chofre para as páginas dedicadas à polémica da providência cautelar da Margarida Rebelo Pinto. Do lado esquerdo, Carla Quevedo faz uma comparação absurda entre o facto de Margarida se copiar de livro para livro e o facto de ter uma vida privada. Não compreendi. A sério. Será necessário explicar quais são os deveres do crítico, e de que modo João Pedro George os cumpre? Adiante, porque o texto ao lado tem muito mais sumo a espremer. Paulo Tunhas, que me dizem ser um professor universitário de reconhecido mérito intelectual - seja lá o que isso for - fala dos dois livros que levou para férias: "Sei Lá" e "Ensaio sobre a Cegueira". Desculpa a Margarida com o Saramago. É assim mesmo. Se não deixa de colocar a prosa da escritora light ao nível zero da literatura, por outro lado aproveita para achincalhar o escritor que fica sempre bem achincalhar, seja por ter recebido o prémio Nobel, seja por pertencer, simplesmente, ao PCP. Isto, apenas. E Tunhas, armado em George da direita, descobre a pólvora. Saramago copia-se! Saramago usa a mesma técnica de Margarida Rebelo Pinto! Fui ver, dado o favor que ele me fez ao deixar pespegadas no artigo as páginas onde tal cópia acontece. E logo num livro que até me parecera dos mais bem conseguidos de Saramago, um autor que, de resto, não me diz nada há muito tempo. Tiro ao lado, falhanço irremediável. A verdade é que existem mesmo dois trechos que se repetem, mas por uma razão de estilo. Bastava ler com atenção aquelas 5-10 páginas para se perceber o alcance do efeito estilístico. "Ensaio Sobre a Cegueira", páginas 284 e 295-296. Confere. Será abuso da minha parte acusá-lo de desonestidade intelectual? Ou de coisa pior? Nem a cuidada súmula da obra de Fernando Gil que encerra a revista salva Tunhas do tropeção. Há uma razão literária, sim. Indiscutível.
Fins-de-semana em casa sem muito para fazer dá nisto. Ócio sem ofício, e peço desculpa pelo trocadilho sem sentido.

Bénard da Costa

A morte é o estado que mais se aproxima da iluminação absoluta. Que o diga Groucho, lá da sua tribuna privilegiada observando os que ainda não morreram com a autoridade que tal excelsa altura lhe confere. Pois é, há quem ainda não tenha percebido que isto dos cargos públicos não implica que a maçã acabe por cair de podre por ninguém se ter atrevido a colhê-la; do mesmo modo, quem decide o momento da colheita da maçã? A vox populi, o empregador ou a própria maçã? Caro Groucho, você sabe bem do que fala. A sabedoria distingue-se sempre do conhecimento pelo modo sereno com que é aceite, e os velhos que tem conhecido por aí certamente terão algo a dizer neste sentido. João Bénard da Costa eterniza-se no poleiro? Que seja! O seu imbatível argumento convenceu-me. Não percebo a comichão que alguns sentem ao perceber a vontade que o homem tem de continuar o seu trabalho. Desconfiaria da oportunidade de tal micose se acaso usufruisse do ponto de vista do morto, isto é, do seu ponto de vista, Groucho. Bénard da Costa, a quem devemos o crescimento de um projecto como poucos nesta terra de meias-tintas, oportunidades perdidas e subsídios gastos ao desbarato, merecia mais do que alguns argumentos mal esgalhados e acusações facilmente rebatíveis. Programação conservadora? As folhas da Cinemateca falam por si. Excessivo centralismo na gestão do cargo? Se a tutela se opõe à metodologia, que lhe dê directivas em sentido contrário. Será o único ponto a favor de quem defende a cessação do contrato de Bénard da Costa. Mas é um problema de resolução simples. Quem está num cargo público expõe-se à crítica, e a unanimidade é raramente possível. Mas insistir na questão da idade é pura má-fé. A competência nada tem a ver com idade. E ninguém melhor que um morto para explicar o que isso é.

28/04/06

Bananas

Confesso que esperava um texto mais certeiro de Vasco Pulido Valente depois do discurso de Cavaco no parlamento. Que VPV não se surpreenda com nada, já sabíamos, mas por favor, exigimos algum entusiasmo nesse tédio militante. A análise das motivações do presidente e a admissão implícita do passageiro triunfo de alguém que, manifestamente, não pertence ao restrito conjunto de simpatias do bilioso comentador parecem-me, sinceramente, redundantes. Não acrescentam nada ao que já foi escrito. Mas o tema já passou à História, de qualquer modo. Dois dias depois, concretizando o que estava implícito no discurso de Cavaco, o governo atira para cima da mesa o que seria inevitável: a reforma da Segurança Social. Note-se que apenas se tornou inevitável a partir do momento em que os comentadores liberais - e são muitos - trouxeram o tema para as colunas dos jornais. A democracia mediática tem esta maravilhosa, perfeita, forma de funcionamento: as prioridades são definidas por uma elite não eleita de opinion makers e grupos de pressão que substitui na função os deputados que passam os dias a fingir que trabalham, quando não aproveitam para rumar em direcção a paragens mais amenas, longe da chatice do trabalho político parlamentar. Mas isto já sou eu com a mania das conspirações. Ninguém se atreverá a falar contra a revolução que se prepara na área das prestações sociais. O sistema acomoda os seus críticos, acolhe-os de braços abertos. Quem protesta no parlamento está, à partida, condenado ao fracasso. É assim a democracia.

A pergunta que se impõe

Ao discursar no parlamento, estaria Cavaco a par dos planos do governo para a área da Segurança Social?

Amizades imperfeitas (fora de série)*

Sandro emociona-se com a perfeição de Marlon Brando n'OPadrinho. Ruca nunca gostou particularmente do estilo de Marlon Brandão, apesar da sua eficácia na grande área.

*Para se conhecer a série original, visite-se o blogue Agridoce.

27/04/06

Azar

A unanimidade lusitana em torno do Barcelona de Ronaldinho começa a enjoar. Compreendo a súbita adesão dos três milhões de portugueses que não são do Benfica, ainda que esta se tenha limitado a um arco temporal de duas semanas; no entanto escapa-me a razão da persistência do fenómeno. Olhemos para o jogo de ontem, por exemplo. Uma ressalva, antes de mais: o modo de jogar italiano, espreitando o erro dos adversários, expectante e cínico, está longe de me tocar o coração. Ainda assim, prefiro a eficácia italiana ao jogo feio dos alemães, por exemplo. Compare-se os jogadores mais importantes de um e de outro país para que se perceba do que estou a falar: a Alemanha teve Beckenbauer, Rummenigge, Klinsman, Mathaus e Sammer, e agora parece que tem um dos mais sobrevalorizados jogadores europeus, Michael Ballack; a Itália conseguiu mostrar ao mundo jogadores como Paolo Rossi, Baggio, Mancini, del Piero e os dois melhores defesas dos últimos 20 anos - Baresi e Maldini. O rigor do cattennacio conseguiu sempre guardar um espaço para a criatividade dos génios. Lembre-se apenas que até o melhor jogador de sempre (aquele cujo nome preferimos omitir) passou por Itália.
Mas, adiante. Tendo presente esta desconfiança em relação ao futebol transalpino, quero falar do que se passou ontem, e de como foi injusta a avaliação que a generalidade dos jornalistas fez do jogo. O Milão, surpresa, atacou mais, teve mais posse de bola, circulou bem o esférico, conseguiu, a determinada altura, dar a impressão de que iria dar a volta à eliminatória, e até marcou um golo por Schevchenko - jogador subvalorizado na medida inversamente proporcional à sobrevalorização de Ballack. Costacurta, sobra (como Maldini) da equipa perfeita de Arrigo Sachi, conseguiu secar Eto'o; Ronaldinho, se descontarmos um ou outro momento de assombração na segunda parte (aquele controlo de bola de costas para a baliza e o passe a gazuar a defesa milanesa são apenas um pormenor) pouco se viu (vamos fingir que assim foi). Apenas Iniesta - que ainda não descobriu que pertence a uma linhagem de foras-de-série que passa, inevitavelmente, por Guardiola - e Deco conseguiram sobressair. Como já se tinha visto na eliminatória contra o Benfica, o Barcelona é uma equipa que joga à italiana, funda a sua táctica no pressuposto causal de que o opositor acabará eventualmente por perder a bola. As jogadas mais perigosas surgiram depois de erros do meio-campo do Milão. Aparenta jogar ao ataque, coloca muitos jogadores perto da área adversária, mas defende à maneira de um Liverpool ou de um Chelsea. Porque tem Deco, o médio criativo que mais defende no futebol mundial, e tem avançados que estão sempre disponíveis para o trabalho sujo. Ontem, quando Cafú entrou, Rijkaard não teve vergonha de encostar Eto'o ao lado esquerdo, marcando em cima o brasileiro trintão. Assim se consegue ganhar jogos, principalmente se na frente se tem alguém como Ronaldinho.
Expliquem-me lá, o golo não foi limpo? E será o Barcelona a melhor equipa da Europa, ou é apenas um excelente golpe de marketing? Depois do falhanço da época passada, há quem esfregue as mãos de contente com a presença da equipa catalã na final. O Arsenal terá sido um percalço, um acidente nas contas de quem manda. Ainda assim, infinitamente melhor que um Monaco, um Porto, ou até, digamos, um Benfica. A alegria da claque barcelonista portuguesa não é, porém, ponto assente. Aquele meio-campo, que apoia o melhor ponta-de-lança do futebol actual (Henry), não é propriamente a intermédia sarrafeira do Benfica, por isso não sei se será desta que Ronaldinho conquista o seu título. Que os deuses estejam do seu lado. E, já agora, também o árbitro.

(A imagem é do melhor jogador do encontro, Costacurta.)

Onan

O deus esquecido do blogger.

26/04/06

Respeito

Ninguém contesta? Ninguém ousa defender o admirado VPV? Alguém se atreve a discordar da límpida (e cirúrgica) prosa de Maria Velho da Costa? Ninguém ousa polemizar? Eu, por mim, nada tenho a acrescentar. Tudo certo.