26/09/08

Boas notícias

Um trocadilho capaz de rebater a frase chave repetida por Tom Cruise em Magnolia, Tame the Kant, apenas podia ser airoso, inteligente e feminino; e as três condições são mutuamente inclusivas; claro.
A Alexandra regressou, com um texto sobre Primeiro Amor, de Turguénev, que estranhamente evoca Wall-E e a sua história de amor pueril e primitiva. As condições do amor são iguais, na grande literatura como no cinema de Hollywood? Se não fosse um filme de animação digital, seria uma obra-prima (como 2001 - Odisseia no Espaço)?
E esta semana, o melhor texto lido nos blogues não é sobre a crise financeira, Sarah Palin ou casamento de pessoas do mesmo sexo. Através do vidro duplo, espreita esta entrevista de Damian Hirst ao Guardian, na qual ele fala sobre Francis Bacon. Uma preciosidade.

[Sérgio Lavos]

Desvios


[Sérgio Lavos]

22/09/08

Deaf Sentence


Depois da aproximação ficcional à vida de Henry James em Autor, Autor, o regresso de David Lodge aos romances é um reconhecimento de temas e obsessões antigos. Não que Autor, Autor não fizesse sentido em Lodge, tendo em conta o seu percurso académico e a obra ensaística, sempre empenhados em descobrir os caminhos que se foram desbravando entre modernidade e pós-modernidade; Henry James acaba por ser um dos escritores que fabricaram a ponte entre dois tempos, com o seu apurado estilo de pendor classicista e a sua atenção a temas contemporâneos, muitas vezes polémicos, que por uma ou outra razão continuam a ser actuais.

Em Deaf Sentence, acompanhamos um período de vários meses na vida de Desmond Bates, professor de Linguística a gozar os prazeres da reforma, académico conservador sofrendo as contrariedades da velhice: o fantasma da impotência sexual, a decadência do corpo, a surdez. A velhice, em Lodge, apenas poderia ser retratada como uma farsa, nunca como tragédia. Desmond é surdo, e a situação apenas pode piorar. O seu pai, também surdo, vai tombando progressivamente na senilidade, por entre ataques de casmurrice e aflitivos episódios de amnésia. A sua mulher, por seu lado, tem um negócio que segue de vento em popa e uma vida social mais activa do que nunca. Os filhos vivem longe e levam vidas que ele não quer compreender na totalidade. E para cúmulo acaba por conhecer uma estudante americana de doutoramento que agressivamente se introduz na sua vida simples como um insidioso cancro. A velhice, para Desmond, não é uma sentença de morte, mas a surdez acaba por ser. (A dedicatória de Lodge aos tradutores justifica-se; não se imagina qual possa ser a tradução em português de Deaf Sentence, por isso boa sorte ao sofredor a quem calhou a tarefa.) O que se segue é um calvário de privações devidamente registado em forma de diário, com uma ou outra incursão pela ficção, em jeito de exercício de escrita criativa ensaiado pelo professor Bates – o narrador.

Na verdade, o livro não é (apenas) esta história. Como sempre em Lodge, o material narrativo é um pretexto para pensar a narratividade e a ficção enquanto construção artificial de uma realidade. O narrador do livro nunca é o autor (já sabemos há muito), apesar das coincidências biográficas entre os dois; e quando a narrativa salta para a terceira pessoa, o leitor começa a perceber o artifício em toda a sua plenitude. Mas o brilhantismo de Lodge é conseguir pensar a literatura, divertindo. Leitura fácil, calorosa, sustentada parágrafo sim, parágrafo não, pelo humor britânico que o leitor habitual identifica: aquela maneira de tornar o ridículo digno tanto de pena como de simpatia; as personagens criadas por Lodge, muitas vezes académicos pomposos e sexualmente inoperantes, homens em fatos cinzentos que sonham com a saia mais curta da mulher do colega da faculdade (como acontece em A Troca e O Mundo é Pequeno), transformam-se em heróis reticentes da idade moderna.

Imaginamos que possuir todas as ferramentas teóricas para poder detectar cirurgicamente as estratégias de um romancista seja uma vantagem injusta; Lodge sabe muito bem que mecanismos um escritor usa para criar vida e torná-la interessante para o leitor. Contudo, imaginamos também que o passo entre teoria e prática seja tão difícil de dar como sobreviver como um surdo num mundo repleto de sons. Lodge consegue desenvencilhar-se melhor da tarefa do que o seu pobre protagonista. E é sempre um prazer reencontrar velhos amigos.

(A edição inglesa é da Harvill Secker; por enquanto, não há informação sobre uma edição portuguesa; espera-se que a deglutição da editora Asa pelo grupo Leya não acabe com velhos hábitos, e Lodge continue a ser fielmente traduzido por cá).

(Texto publicado antes no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

21/09/08

Chemical Brothers/Star Guitar



Confesso que demorou a conversão a música que fosse mais electrónica que os sintetizadores dos Nine Inch Nails ou dos Young Gods; mas falamos de há mais de uma década atrás, águas passadas e estagnadas que nunca moveram moinhos. A primeira banda (?) exclusivamente electrónica a que dei a atenção devida foram os Chemical Brothers, e um especialista dirá que comecei quase pelo fim e pelo mais evidente - não há problema. Ser pop não é necessariamente um defeito, e os irmãos químicos nunca deixaram de prezar essa veia na música que fizeram. E ser pop, no caso dos Chemical Brothers, significa entregar os vocais a uma série de gente conhecida, de Noel Galagher a Richard Ashcroft, passando por Wayne Coyne, dos Flaming Lips, tudo gente estimável. Mas mesmo as músicas exclusivamente instrumentais (ou quase), contaminadas pelo big beat ou pelo house por vezes quase europop, são tudo o que o povo quer: delírios épicos em crescendo, psicadelismo que, prolongado por um DJ numa pista de dança ou numa rave, se aproxima perigosamente do trance (Hey, boy, hey girl, por exemplo).
Quem também ajudou foram os realizadores que foram convidados ao longo da carreira do duo para criar os videos. Se Fatboy Slim precisou de um brilhante empurrão de Spike Jonze (em Praise You), os Chemichal Brothers convidaram o melhor de todos, Michel Gondry. Em Let Forever Be, uma brincadeira com espelhos e uma bailarina multiplicada antecipa Being John Malkovich num ritmo sincopado perfeito. Mas o preferido é Star Guitar, tour de force de montagem que representará um cúmulo na arte de casar imagens com música; além disso, com um tema que se adequa à canção, electrónica etérea e planante, de forma perfeita: as viagens de comboio.

[Sérgio Lavos]

19/09/08

Ando com um livro numa mala

Ando com um livro na mala há pelo menos duas semanas. Sem pegar nele. É um livro de contos, sobre os quais já escrevi para o blogue e no papel a que gosto de chamar diário (mas não tem chave nem fita cor-de-rosa), e estava a gostar bastante do que lia. Mas não tenho lido. A cada livro que começo, penso que poderá ser o último que leio. Não por razões de fatalismo ou por culpa de uma qualquer absurda premonição, mas porque acho que, a qualquer momento, deixarei de precisar de ler. Não será assim tão difícil; conheço muita gente que leu por obrigação durante anos, licenciou-se em literatura e parou de ler, com a ocasional Rebelo Pinto pelo meio para desfastiar. Se os outros conseguem, eu sonho com o dia em que também conseguirei, sem culpa nem segundos pensamentos.
Pensando bem, a minha natureza é essa: sempre comprei mais livros do que li, e se passasse os olhos pelas estantes com certeza confirmaria as minhas suspeitas: muitos livros permanecem intocados, outros tocados mas não desflorados (existem outras formas de coito); outros ainda bem avançados pelas páginas dentro, mas não totalmente saciados. É assim a minha vida.
Por isso, um dia iniciarei um blogue que será o anti-Ouriquense: um diário dos meus começos soluçados, dos romances titubeados, dos contos abandonados, dos poemas sacados a livros de centenas de páginas sem qualquer esperança de alguma vez serem lidas. Descreverei no blogue a exacta circunstância em que comprei o livro, quando o comecei, quantas páginas li, e o triste, miserável, abandono. 
Os bons, os grandes livros, continuam depois de os termos terminado. Quantas vezes não desejamos que o livro não acabe, prolongar a leitura como uma boa refeição partilhada com a pessoa certa? Abandonar um livro, no fundo, é distorcer esta ideia: se nunca verdadeiramente começarmos, não iremos sentir a falta do livro. Falhar a leitura? O livro não nos merece, ou não merecemos o livro. Um diário das leituras falhadas? E não chega este diário, o de uma vida?

[Sérgio Lavos]

17/09/08

Aquele Querido Mês de Agosto (2)

Apercebo-me, através da Sara Pais, de que Aquele Querido Mês de Agosto já foi visto por dez mil pessoas. Dez mil, um resultado que parece distante das centenas de milhar que a Soraia Chaves atraiu aos cinemas, mas que confirma a impressão com que eu ficara ao ver o filme: um potencial êxito também de bilheteira. E que bom é dizer "um potencial êxito de bilheteira" associado a um filme português. Adoro o sabor do jornalístico lugar-comum a propósito de um objecto pouco menos que perfeito, reflexão séria, como poucas vezes se vê, sobre a arte de captar a realidade.
Ao regressar a casa, em conversa, delirei ao imaginar a gente que é retratada por Miguel Gomes a ir às salas de cinema (de resto, esta ideia é glosada no filme, na cena da projecção do filme de zombies na aldeia); e não me pareceu irrealista ou improvável. O povo embarca nas dietas televisivas em que embarca porque, lamento o cliché, não tem escolha. Ainda que tenha, ainda que haja dezenas de canais disponíveis na TV Cabo, na realidade não tem escolha. Liga-se qualquer canal nacional e a enfardadeira vai vomitando a papa do costume: novelas pela noite fora, até às tantas, ou concursos que, fingindo serem cultos, promovem a ignorância dos concorrentes. Há escolha? Não, não há, porque uma sociedade mediática que se preze não deixa que a escolha seja verdadeira. É mais fácil e barato produzir lixo do que boa televisão, e a publicidade, essa bela invenção de um perverso demónio, encarrega-se do resto; ver novelas é sobretudo discutir o enredo com alguém no dia seguinte, é ler as dezenas de revistas que elevam ao estrelato a vacuidade e ter conversa para trocar sobre esse vácuo, e o circuito mediático que rodeia a televisão que temos limita-se a desfrutar das facilidades que lhe são concedidas.
Não seria difícil imaginar o filme de Miguel Gomes no prime-time da TVI, em vez da enxurrada de novelas; não sei até que ponto isto é uma coisa positiva, mas aposto que o realizador não se sentiria incomodado pela companhia. Será assim tão difícil dar ao povo o que ele não sabe que quer? Em vez de persistir em oferecer o que as elites julgam que ele pede? Manter no escuro o que nunca de lá deveria ter saído - a luta de classes não é apenas um velho conceito marxista; é o nosso dia-a-dia.

[Sérgio Lavos]

Percalços

O capitalismo constipou-se. Curiosamente, os pingos dos espirros podem demorar a atingir-nos. Parece-me bem. Os idealistas liberais dizem "calma", que é apenas o mercado a regular-se (como o fazem as gasolineiras que não baixam os preços do combustível quando baixa o preço do petróleo ou os construtores, em tempo de crise imobiliária, que continuam a construir e a manter os preços das casas - o poeta falava do problema da habitação há muito, não é de agora); os idealistas marxistas têm a oportunidade de lançar um ou outro fogacho envergonhado, sábio, de quem prevê um futuro em que tudo se recomporá; os realistas viram-se para o outro lado da cama e adormecem. No fundo, quem pegou a constipação foram os pobres, malandros, que andaram anos e anos a viver acima das possibilidades, levando desse modo o caos aos mercados.
Seria necessário explicar em linguagem de criança o funcionamento da máquina capitalista - o esforço de imaginação, a simplicidade da engrenagem que contém em si o seu próprio fim: a falência de gigantes financeiros, de empresas, é sempre previsível. Que depois do Crash de 1929 milhões de pessoas tenham passado fome por todo o mundo, nem chega a ser um grão que emperre o movimento. Pormenores da história, crises económicas que redundam em regimes enlouquecidos, países de rastos que se transformam em ameaça à paz no mundo. 
Sobretudo, é necessário manter o optimismo; que ainda não é desta. Que o desemprego, a inflação e a provável (atenção, provável) miséria são, já se sabe, prova de que os mercados se auto-regulam. O declive acentua-se, mas a ilusão de equilíbrio ainda não foi estilhaçada. A cura é inevitável. Rejubilemos.

[Sérgio Lavos]

14/09/08

América


Passamos mais tempo a ver imagens da América do que do nosso país. Suponho que será a isto que chamam globalização cultural, por isso mais vale aceitar as consequências.
O burburinho que se tem vindo a cristalizar em torno das eleições americanas é desta vez mais audível. Tropeçamos diariamente nos especialistas em política e cultura norte-americanas; parece que toda a gente tirou uma licenciatura em Relações Internacionais com tese escrita sobre a América. Não há, na essência, nada de errado nisto. As coisas acontecem, estão aí a acontecer, esvoaçam à nossa volta, e se tivermos uma rede perto, é de aproveitar, capturemo-las. É para isso que os jornais pagam e os blogues não. 
Mas a milhares de quilómetros de distância, saberemos nós mais que os americanos que irão votar? O que é uma opinião, quanto vale? Que interessa o fulgor de Obama, ou a armadilha de Palin? Tudo bem, falamos do nosso futuro, quando discutimos as eleições americanas. O que impressiona não é esta vontade de ter uma opinião sobre tudo (admito que neste momento estou a fazer exactamente o mesmo); é a certeza com que se estranha o apelo da candidata a vice-presidente americana ou o esforço que se faz para tentar compreender por que razão Obama continua a ser incompreendido para, lamento, a maioria da população americana.
A América profunda que se apaixona por uma dona-de-casa que adora armas ("chicks with guns") e ama a vida não se compadece com os receios de uns quantos europeus; vota com o coração, que é o mesmo que dizer que vota em valores que ultrapassam a razão. A América que eu conheço não será diferente daquela que a maioria opinadora conhece: a América mediada pela televisão e pelo cinema, uma América idealizada ou estereotipada, mas que, apesar de tudo, escolhendo as imagens certas, se aproxima das representações que dela fazem.
Seria sensato rever, por exemplo, Twin Peaks, que neste momento repete no canal FX, e aprender com o olhar cirúrgico de David Lynch a conhecer a América que votará McCain por causa de Sarah Palin. Imagino eu, claro, que nunca lá estive. Mas é tão fácil cair na ilusão de saber algo se tivermos as imagens certas.

[Sérgio Lavos

12/09/08

Tudo

Ele dizia-me (era eu, mas poderia ser outro qualquer):
- Eu tinha tudo. Ganhava bem, numa boa empresa, dois camiões, dois armazéns, patrão francês, tudo, tinha tudo. Agora, nada, que vou fazer, não sei que vou fazer. 
E os comboios passavam.
- Não tomo banho há duas semanas. Falo sete línguas. Sete. Não sei o que vou fazer. A peça partiu-se.
O telemóvel ainda oferecia uma hipótese de remendo. Eu ouvia-o:
- A merda da peça. Partiu-se. Um Mercedes, só se vende na Mercedes, e a peça vem da Alemanha. Tenho uma pistola.
Há histórias de loucos que começam assim. O telemóvel tocava.
- Tenho uma pistola, e roupa suja, não tomo banho há duas semanas. Conhece algum russo ou ucraniano?
Um comboio mais, o telemóvel parou, rosto jovem, nenhum traço aparente de loucura, mas que sei eu?
- Tinha tudo na vida, e a merda da peça... antiga. Partiu. O camião levado pela polícia, protegido, ninguém rouba.
Tudo calmo, as pessoas passam e olham para nós desfrutando a dose diária de bizarria. Ou então sou eu que vejo tudo mal.
- Tinha tudo, amigo, tinha tudo, e a merda da peça partiu-se.
O comboio pára, desejo-lhe boa sorte, ele vai pedir trabalho à fábrica ou tentar encontrar um russo ou ucraniano que de lá saia. O silêncio do telemóvel; onde estará agora?

[Sérgio Lavos