21/01/08

Gato escondido

Comecei a ler um livro de um escritor português muito conhecido e traduzido. Leio por obrigação, mas admiti que podia, lendo, mudar de ideias a respeito do escritor. Duvido que mude de opinião. O monólogo interior depois de James Joyce está ao alcance de qualquer estudante de literatura que saiba escrever, portanto inspira piedade ver um escritor que visivelmente ignora as suas limitações praticá-lo sem parar e por vezes em frases mal escritas - para acumular banalidades sem interesse. Misturar dois ou três fios de intriga, não respeitar as regras tradicionais de pontuação só seria interessante se o assunto em si, o assunto do livro, fosse interessante. Não é interessante, é uma estopada. Histórias de famílias burguesas nem contadas para as caricaturar têm já qualquer interesse, prova-o o escritor. A burguesia portuguesa nunca teve qualquer interesse. Quem escreve sobre ela assim também não.

Quem será? Resposta aqui.

[Sérgio Lavos]

20/01/08

Expiação

Não sei se é apenas impressão, mas todas as críticas ao filme Expiação escamoteiam o facto de este adaptar o melhor romance desta década, o melhor de um dos melhores escritores actuais, Ian McEwan. Desconfio mesmo que a maior parte dos críticos não leram o livro, e por isso insistem em afirmar banalidades sobre a qualidade romanesca da história (alguém sabe o que isso é?) ou tecer loas ao estilismo romântico de Joe Wright (isto é nome de cineasta?!).
Vamos lá ver bem as coisas como elas são: a partir de um romance cujo tema é a criação, o próprio acto de escrita (um acto de amor), seria impossível produzir um filme que estivesse à altura do material original. A transcrição da história não seria suficiente para reproduzir todas as nuances da linguagem de McEwan, os diversos planos narrativos, as citações a outros autores, a perspectiva metaficcional a que McEwan se propõe. Se um romance nunca é a história que conta, pode muitas vezes parecê-lo (por isso, Hitchcock soube aproveitar obras menores e transformá-las em obras-primas do cinema). Mas em McEwan a linguagem não é um espartilho para a história; é o impulso para as diversas peripécias, o sopro que insufla as personagens.
E o que significa isto, quando transposto o portal que separa o mundo da literatura (composto de imagens que nascem no momento em que as palavras são lidas) do mundo do cinema (em que as imagens são oferecidas ao espectador, cerceando a imaginação a que um leitor é forçado)? Bom cinema, no caso de Joe Wright. As imagens que vemos são novas, e não porque o realizador se tenha afastado do enredo original; antes ilustrou, mas fê-lo de uma forma que não renunciou a um pensamento original, a boas ideias para solucionar os problemas colocados, no fundo a uma ideia de cinema. Os exemplos estão lá, para quem os quiser ver: o brilhante plano-sequência em Dunquerque (há quem tenha referido Kubrick, eu, exagerando, lembrei-me de A Sede do Mal, de Welles); os flashbacks inseridos cirurgicamente, sem que se perceba de imediato, criando uma ilusão de continuidade temporal, dois tempos diferentes que se fundem num só; a solução encontrada para mostrar o fundamento da história: o engano criminoso de Briony. A cena filmada através da janela, pelos olhos de Briony, e depois no exterior, do ponto de vista de Cecilia e Robbie. As fraquezas? Os actores principais, o inócuo James McAvoy e a sobrevalorizada (como actriz e mulher) Keira Knightley.
Expiação
podia ser mesmo um épico romanesco tão marcante como O Paciente Inglês (não por acaso, Anthony Minghela aparece como actor neste filme, entrevistando na cena final uma Vanessa Redgrave a fazer de Briony envelhecida), se o cast tivesse sido diferente (penso em Rachel Weisz e Christian Bale, por exemplo). Descontando isto, e um ou outro pormenor desnecessário (a banda-sonora a intrometer-se nas imagens, as cabeças cortadas em alguns enquadramentos), acaba por ser um bom filme, que merece o esforço que possa fazer para gostar dele - foi assim que comecei a admirar O Paciente Inglês e O Fiel Jardineiro, não seria coisa nova.
Querer que os críticos leiam o romance de McEwan é esperar muito. Que diminuam o filme, colocando-o na extensa prateleira das adaptações literárias de época, não se entende. Não se pretendia originalidade. Apenas alguma fidelidade ao espírito da obra adaptada. E a melhor maneira de conseguir isso é filmar bem, com mão virtuosa. Joe Wright, se não o consegue totalmente, fica muito perto. Seria difícil melhor. (Barry Lindon é um caso à parte).

[Sérgio Lavos]

Simone, a escandalosa

Na semana passado, um grupo de feministas protestou em frente à redacção da revista Nouvel Observateur por esta ter publicado uma foto desconhecida de Simone de Beauvoir nua, de costas, mirando-se no espelho. Não reclamo do facto de esta revista ter desfeito a imagem que eu tinha da feminista francesa: uma mulher séria, que seriamente lutou para que as mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens. Poderá uma feminista séria deixar-se fotografar em discreta pose sensual, vaidosa e bela? Aparentemente, não. As mulheres que protestaram assim o pensam. Mesmo que a fografia se tivesse mantido secreta durante 50 anos e tivesse sido publicada mais de vinte anos depois da morte de Beauvoir. As mulheres que protestaram pediam fotos do rabo de Jean-Paul Sartre (sempre gostei mais de Jean-Saul Partre), das espaldas de Lévinas, do torso de Albert Camus. Descontando o facto de não perceber por que razão uma mulher inteligente poderá querer olhar para Jean-Paul Sartre nu, aplaudo a iniciativa. A filosofia não pode ser apenas a constituição de um corpo de ideias coerente e sistemático; é preciso mais carne, outro corpo material, nesta disciplina em vias de esquecimento. As inconsistências do pensamento filosófico de Beauvoir são reduzidas ao seu valor mínimo se estiver em causa um sexismo evidente por parte dos editores da Nouvel Observateur. Beauvoir vestida é filósofa? Não sei, mas, pelos vistos, despida passa a ser.
A afirmação da ideia de mulher enquanto conceito cultural, a maior contribuição de Beauvoir para o feminismo (o que vale isto perante a luta das sufragistas, não é?), não pode ser compatível com a maior conquista do feminismo, desde o seu aparecimento: a liberdade sexual da mulher, em qualquer circunstância. Pelo menos, na boca de muitas da seguidoras do pensamento da filósofa. É este o meu maior problema com o feminismo: transformar mulheres sensatas, inteligentes, em puritanas ainda mais puritanas que as mulheres no tempo da rainha Vitória. Mulheres que nunca irão perceber como o pensamento de Camille Paglia é libertador (e libertário) e o de Judith Butler apenas perpetua estereótipos (as chamadas diferenças de género) e justifica a marginalidade de comportamentos sexuais anómalos, que visam imitar e repetir estes estereótipos, contra os quais Simone de Beauvoir lutou.
Longa vida a Simone de Beauvoir, vestida ou despida, na intimidade ou nos livros - e a simetria das duas enumerações é propositada; nada pode ser mais erótico do que uma mulher que pensa. O pensamento como motivo de escândalo. Um pecado.

[Sérgio Lavos]

15/01/08

Ainda a crítica (2)

Declaro que eu deixei de gostar de polémicas. Já escrevi sobre isso, não me vou repetir. Não gosto de polémicas porque é difícil convencer quem já está convencido. A discussão não é o melhor meio para a razão; não quando o interlocutor ou não quer ouvir os argumentos do outro ou quer ouvir o que o outro não disse. Não quero entrar em polémicas, porque qualquer bom argumento tem de ser afirmado de uma forma séria. E eu não sou sério. Tenho tendência para achar sempre o lado lúdico de um argumento furioso. Racionalizo a irracionalidade do oponente. E psicanalizo a resposta. Eu sei, quando me dizem algo, o que está por trás do que dizem. E também posso afirmar que nada do que eu digo é racional - tudo existe em função de variantes nada objectivas - o meu crescimento, a formação da minha personalidade. É que a constituição de um gosto não é um processo inocente. Toda a minha vida passa pelos olhos quando escrevo: prefiro a maneira anglo-saxónica de fazer crítica literária ao priapismo crítico português, todo ele forma, herdeiro bastardo de um barroco nunca ultrapassado. O problema é meu, passei os anos de formação a ler autores ingleses e norte-americanos, a tentar esquecer os francesismos que, durante séculos, se foram incrustando na literatura portuguesa. Os maus francesismos, claro, porque os bons ninguém imita (continuam a preferir os delírios poéticos de uma Duras à nova língua inventada por Céline ou Julien Gracq, mas enfim). Não serve de desculpa a má-formação que me foi dada. Mas explica a elegância de achar que nada pode justificar a insistência num ponto que nunca será de acordo, e que, para cúmulo, se funda num equívoco.
Gosto de ver o José Mário Silva a concordar com um amigo. E gosto de ver que estamos os três de acordo: acho Manuel Gusmão um dos melhores poetas aparecidos na última década, admiro os seus ensaios e leio sempre os seus textos para o Ipsilon. A questão não era essa; era saber até que ponto o grupo a que Francisco Frazão gostaria de pertencer não poderia ser alargado a mais gente. O tom ensaístico que Gusmão exibe nas suas recensões é de uma lucidez impressionante (mas, confesso, pouco cativante em termos de estilo, ao contrário, por exemplo, de Joaquim Manuel Magalhães ou António Guerreiro). Mas importa que o leitor menos exigente perceba o que o crítico quer dizer. Utilizar termos que vêm da teoria literária em textos publicados num jornal não me parece ser a melhor forma de cativar leitores para a leitura de textos muitas vezes menos densos que o texto que deles fala. Eu percebo que Manuel Gusmão escreva assim; é esse o seu treino, é essa a sua formação. Mas será o espaço apertado (cada vez mais) de uma recensão de jornal o local certo para fazer análise literária? Dúvidas, confesso, dúvidas, e Francisco Frazão não as elucida ao comparar Pedro Mexia a Manuel Gusmão. Percebe-se à distância que a formação e a intenção de Pedro Mexia, enquanto crítico literário, é oposta à de Manuel Gusmão. Menos exigente? De modo algum, apenas mais claro, menos interessado em utilizar o jargão académico aprendido nos cursos de literatura.
Mas admito que tudo isto seja subjectivo. Como também sei que nenhum potencial futuro leitor se perde na floresta barroca que enfeita a crítica produzida por Manuel Gusmão. Que interesse poderá ter escrever apenas para o salão de medíocres? Eu respondo: todo, cada um é livre de escrever para quem quiser. Mas, por favor, evitem justificar o elitismo com a ignorância dos que não pertencem ao grupo.

[Sérgio Lavos]

14/01/08

Autofagia

Neste blogue, perdido na corrente dos arquivos, há um texto onde refiro (detalhadamente) um livro que, em boa verdade, não existe. Dou as referências bibliográficas, editor, ano de edição, as páginas referentes às citações escolhidas; falo do percurso do autor, evidencio o empenho do tradutor (e o seu interesse) em traduzir o livro, confesso-me fascinado com o pequeno volume. Espalhadas pelo blogue, mais referências a livros que nunca foram publicados. A história que o Luís conta (inventa) não pode ser verdadeira. Pode-se perfeitamente escrever sobre livros que se formaram apenas na nossa imaginação - a Biblioteca de Papel de Mário Santos (há uns meses terminada, no Público) induziu-me em erro (talvez por distracção) durante algumas semanas. Borges escreveu um livro sobre seres imaginários, Calvino construiu cidades invisíveis. Poderia escrever poemas inspirados por quadros inexistentes, que ninguém se daria ao trabalho de averiguar as remissões. O leitor que comenta, no blogue que o Luís refere, a tal invenção do blogger, só pode ser uma pessoa muito mal-intencionada. Se o blogger migrou para o Sapo e se tornou de referência, tanto melhor. Toda a escrita pode incorrer na mentira. Se assim não fosse, ninguém leria ninguém. Alguém contesta?

[Sérgio Lavos]

11/01/08

M.I.A.


M.I.A. não é o nome de uma agência de espionagem. Não é alta cultura (literatura, música clássica, Pina Baush e afins) nem baixa. Digamos que entre alta e baixa cultura, temos M.I.A. Não é pop xunga, mas tem batidas que fazem lembrar os maiores êxitos da música turca; não é europop, mas por vezes ameaça com uns violinos que se aproximam da melhor música festivaleira; e também não é uma banda-sonora de Bollywood, apesar do tom da pele e dos arranjos de gosto duvidoso que enfeitam as batidas grime de influência urbana londrina. M.I.A. aprimorou-se numa coisa: a escolha da roupagem, do guarda-roupa. Quem conhece o vídeo de Galang, do primeiro álbum, sabe do que falo (também notável pelo reportório completo de maneiras esquisitas de dançar que a cantora exibe). A linguagem caleidoscópica dos fatos de treino comunica com o telespectador de maneiras nunca antes vistas. Imagine-se a mistura de cores dos saris indianos (ou do Sri lanka, de onde ela é originária) com o corte da moda de rua inglesa. E agora transporte-se isto para a música que M.I.A. produz. Não encontro melhor analogia.
Paper Planes é o mais recente single do último álbum, Kala, um dos melhores do ano passado, e para além do sample sacado aos Clash, tem a curiosidade de mostrar dois respeitáveis músicos de uma menos que respeitável banda a serem servidos por M.I.A. Quem são? - respostas na caixa de comentários. Para além disso, o vídeo tem outra curiosidade menos agradável: o som de tiros que se ouve no refrão foi cortado na versão que passa nas televisões americanas. Land of the free? Sri Lanka.

[Sérgio Lavos]

Política francesa

10/01/08

Tântalo

Caro Tiago,

a bajulação ainda te leva a algum lado. Atormentado? Eu. Eu próprio. Sabes, é que, neste momento, escrevo. Estou a escrever. Estou escrevendo. Estou a teclar palavras. Tentar que estas palavras transmitam ideias, sensações, emoções. Vou escrevendo. E, lamentavelmente, corro o risco de usar as mesmas palavras que Camilo Castelo Branco usou, de que Eça abusou, as mesmas palavras do Pessoa, do Herberto. Nem por isso escrevo o mesmo que o Camilo, que o Eça, que o Pessoa, que o Herberto. Escrevo o mesmo mas nunca conseguirei escrever o mesmo. Do que eles. Não escreverei o que eles escreveram. Mas estou condenado a lê-los. A relê-los. A percorrer os olhos pelas palavras que eles deixaram, e descobrir, a cada leitura, a evidência de que eles se expressavam na mesma língua do que eu. O meu suplício é superior ao de Tântalo - ele pelo menos conseguia ver aquilo que não poderia alcançar. Eu nem isso - não entendo o mecanismo do génio, a sua origem. Todos os que escreveram antes de mim me perseguem. Leio assombrado por uma maldição de contornos masoquistas. Quero lá saber de tudo o que não li nem lerei! Chega-me o que leio diariamente.
Atormentado, eu?

[Sérgio Lavos]

Jesse James


O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford é um título tão longo quanto o filme mas com aquela qualidade de imagem, não me importaria de ver as quatro horas (?) inicialmente previstas. O facto de ter sido reduzido, ou a inicial má planificação da narrativa, prejudica o filme; em algumas cenas sente-se que falta continuidade ou, pelo menos, uma indicação mais concreta que mostre as razões do clima de desconfiança e traições que predomina entre as personagens.
As referências cinematográficas são muitas, criando um pastiche de diversos géneros: o enquadramento central da porta para o exterior de Ford; o sossego de um campo de feno de Malick; as paisagens brancas cobertas de neve dos Cohen [substituindo os desertos típicos]; a nível narrativo, é um pouco ingénuo, caindo mesmo na armadilha habitual da adaptação de livros: o narrador vai contando a história, repetindo o que já é evidente só pelas imagens. Mas, cumpre na perfeição o que é necessário para criar um ambiente onírico ao modo de Malick: todos os pormenores foram captados, a passagem das nuvens, as partículas de luz, a mínima poeira, etc.
Casey Affleck consegue fazer com que a personagem de Robert Ford, um verdadeiro totó de voz esganiçada e insegura, não ultrapasse os limites do aceitável. Incrivelmente, Sam Sheppard desaparece passados 20 minutos (tem apenas um pequeno papel no início, quando o grupo prepara o último assalto).
Mas este Jesse James tem uma temporalidade, ou um modo suave de duração (do olhar que tem tempo para observar), o modo com que Andrew Dominik vai contando a história de Jesse e de Robert, digno de nos levar ao cinema. A cena inicial é de longe a minha favorita [não só porque os comboios fazem parte de um imaginário pessoal ( não só nos westerns)], graças ao contraste entre a escuridão e a luz; quando o comboio chega, primeiramente anunciado nos carris, vai iluminando o bosque e enche de fumo a floresta onde aguardam os assaltantes. O mérito vai todo para a imagem de Roger Deakins e para Jesse James que, segundo Ron Hansen (o autor do livro), continua a dar lucro.

[Susana Viegas]

07/01/08

Um pouco de aritmética

Não sei se repararam (isto é retórica, ignorem) mas não fiz um balanço dos livros lidos no ano que passou. Bem sei que não interessa a ninguém (não de certeza a quem vem aqui parar à procura de "fotografia sacanagem onanismo"), mas gostaria de explicar o seguinte: tudo o que li o ano passado provavelmente não foi publicado o ano passado (correndo o risco de me ter esquecido de quase tudo o que li; e não aponto). O primeiro livro de 2007 é Doutor Pasavento, e estou a acabar de ler agora (não agora, enquanto escrevo, claro, à minha frente tenho dois livros do Luiz Pacheco, o terceiro que me lembro de comprar não o encontro, e ando à pesca de uma citação que, pelo andar da carruagem, não vou publicar). Mas comecei a ler muita coisa que não terminei, decidi-me especializar nisso, dada a minha experiência de vida. Li no outro dia que bastavam as primeiras linhas para se perceber se vale a pena avançar na leitura de um livro. Não precisava de ter lido tal banalidade, a minha experiência teria sido suficiente (mas fica sempre bem escrevermos que lemos qualquer coisa para corroborar o que dizemos). Portanto, muita coisa má me passou pelas mãos; ou então não percebo nada disto; ou então o trabalho que faço cansa e por isso nem Joyce nem Bergman entram nas contas do meu rosário. Curiosamente, fui lendo, bastante fluido, um ensaio de que vi excelentes referências, e avancei, avancei, até chegar a meio e perceber que o livro não acrescenta nada ao que eu já sabia. Não que eu soubesse muito antes, mas o livro chove não molha, e a desilusão tardia quase que vai levando a melhor à minha decisão de terminar a coisa (mais tarde direi de que livro falo; ou escrevo sobre ele; veremos). Deste modo, designo como livro do ano, de entre os publicados em 2007, Boca do Inferno, do Ricardo Araújo Pereira. É o livro do ano porque foi o único livro do ano passado - e nem me venham falar em Sebald, ou Kafka, ou (espreito por cima do ombro para ver as pilhas dos lidos), Doris Lessing. Não, agora a sério: é mesmo o melhor livro novo que eu li no ano passado. Mesmo tendo lido outros (na pilha vejo Jorge de Sena, Dexter, ambos de 2007, e outros que não são; o primeiro gostei, o segundo é fraco, quando comparado com a série).
Reformulo: li mais livros publicados em 2007 do que tinha escrito ao início; do que tinha pensado ao início. O que significa uma de duas coisas: a minha memória é má; a minha memória é selectiva, destacando os melhores do ano automaticamente. O primeiro livro de 2007 (Vila-Matas) é portanto o quarto ou o quinto; pouca sorte.
A anarquia é esteticamente perfeita, quando falamos de livros. Em 2008, quantos livros de 2008 não lerei? E quantos do ano que passou? Fica para o próximo balanço.

[Sérgio Lavos]