07/01/08

Mais um chupista

Ao jornalista do Público que ontem aqui chegou pesquisando no Technorati sobre Luiz Pacheco: mais coragem. A sério, meia blogosfera produziu o seu elogio fúnebre, com mais ou melhores palavras do que eu, bem podia ter avançado umas páginas mais no trabalho. Tinha alguma vontade de continuar a cavalgar a onda, mas vamos lá ver: já tudo foi dito. E se lhe lessem os livros? Podem responder: practicamente não se encontram. Verdade, verdade, toda a gente gostava de o ver a fazer figuras - vestido de Pai Natal, a exibir um belo manguito para a câmara - mas ninguém justificava a existência do que ele escrevia. Saíram há uns anos dois livros na Oficina do Livro que cairam, em pouco tempo, no esquecimento; a correspondência com António José Forte, idem; alguém ainda encontra, da Quarteto, um livro de que não recordo o nome, e que agora não me apetece pesquisar na Internet, por aí? Não. E está esgotado? Nunca, devem ter vendido uns 500, se tanto. Pensando bem, não precisam de lhe ler os livros. Agora, o dinheiro já não lhe faz falta. O guito para o pão, para matar a fome dos filhos e a sede do fígado, o pilim que cravou a tantos ao longo dos anos. Mas quem ficou a dever-lhe mais? Os senhores professores que agora emitem opiniões sobre a importância da sua obra. Emitem, repetem, o filme foi visto tantas vezes. Ninguém aprecia ser visto em más companhias; um homem não é sua obra - é a sua vida. Repito eu, que não o conhecia, e vamos aguardar o que virá, futuras edições respigando os restos, e nada lhe irá parar ao bolso. É assim a morte. Mais triste do que a vida (e se ela consegue ser triste!)

[Sérgio Lavos]

Boca do Inferno

Escrever sobre o livro de Ricardo Araújo Pereira é pouco sensato; primeiro, porque o juízo do público já o colocou num patamar acima de qualquer crítica; segundo, porque Miguel Esteves Cardoso já o leu (e quatro vezes!) e antecipou-se a este texto; terceiro, porque qualquer texto que eu escreva sobre as crónicas do humorista arrisca-se a fazer figura de parente pobre ao lado de... qualquer crónica que apareça no livro recenseado. No fundo, escrever sobre o livro de Ricardo Araújo Pereira é como dançar sobre artesanato (parafraseando um conhecido fenomenólogo e estudioso dos rituais de acasalamento galináceos de que agora não quero recordar o nome).

O que resta, então, fazer? Continuando na técnica de fragmentação de um texto em pontos (tão fácil, tão fácil), deixar o livro descansado, depois de todo o esforço físico que fizemos para chegar ao fim do livro (rir cansa todos os músculos do corpo, ó se cansa); ou pegar na obra e tentar mostrar por outras palavras, diferentes e necessariamente mais fraquinhas do que as de Araújo Pereira, por que razão Boca do Inferno não é apenas mais um livro de crónicas escrito por um humorista – no meio da enxurrada de tentativas pouco sérias de fazer humor que, nos últimos anos, tem inundado as livrarias.

Decidi-me a fazer nenhuma das duas acima. Nem fiquei quietinho a um canto, pensando em todas as boas piadas que eu gostaria de ter escrito em vez do sacaninha de cabelo rapado, nem me atirei à vaca fria, encetando um vão ensaio para uma hermenêutica do humor pereirano. Será que há por aí professores de literatura que queiram levar a cabo tal tarefa? Não é difícil, e sempre seria coisa produtiva, irritar mais a azia crónica de Vasco Pulido Valente - “não gosto, não li, o Eça de Queiroz é muitas vezes superior, assim como um fulano que eu conheci em Oxford e limpava retretes no intervalo dos livros que escrevia”.

Uma crónica tem de ter técnica (e recuso-me a tentar produzir uma metáfora futebolística). Uma crónica tem de ter estilo. Uma crónica tem de conseguir conciliar técnica e estilo – ou o estilo será uma conjugação feliz de todas as boas regras da técnica? Não li suficientemente sobre o assunto (sim sou um leigo); para dizer a verdade, não li nada. Nem me apetece pensar um pouco sobre o caso, debruçar-me, correndo o risco de cair do parapeito, sobre o tema (e aí vão três sinónimos em três frases seguidas). O que me interessa, simplesmente, firmemente, é que o texto consiga atingir o seu pressuposto inicial. E qual é o pressuposto inicial de um texto do Ricardo Araújo Pereira? Que o leitor acabe por fazer figura de parvo em transportes públicos. Eu explico, em vários passos: primeiro, o leitor senta-se exactamente ao lado da loura de pernas descobertas e busto que podia estar mais encoberto (se fôssemos o João César das Neves). Que hajam não sei quantos mais lugares vagos na carruagem, é um pormenor. Segundo, retira (ou tira, segundo algumas versões) da mala um livro que não é o último do Miguel Sousa Tavares. Se ainda não tinha percebido, eu explico-lhe: você, caro leitor, está sentado ao lado de uma mulher que poderia ser a futura mãe dos seus filhos a ler um livro escrito pelo Ricardo Araújo Pereira. E, passados poucos segundos, a primeira gargalhada. Não ligue ao olhar de reprovação da loura. Desconfie antes quando ela se levantar e dirigir-se ao lugar no lado oposto da carruagem. E aproveite para tirar partido da sua figura ao máximo: revire os olhos, convulsione (existirá, este verbo), soluce, deixe que as lágrimas assomem aos olhos (bela imagem, de uma poeticidade intensa). Está feliz? Não, caro leitor, está fazer figura de parvo.

Quem me conhece sabe que quando me dou ao trabalho de explicar por que razão gosto de alguma coisa, o efeito atingido é necessariamente o oposto do pretendido; se digo: leiam autores nórdicos e vejam cinema europeu, sei que estou a convencer o meu interlocutor a embrenhar-se nos labirintos de Jorge Luis Borges e a passar umas boas horas a ver westerns da era clássica de Hollywood; o que me deixa satisfeito, porque no fundo era isso que eu pretendia fazer ao início. Conheço-me bem demais (já me aturo há trinta... hum, vinte e dois anos), por isso reitero: não leiam Boca do Inferno. A sério, sabiam que o Miguel Sousa Tavares publicou um livro há pouco tempo?

(Sabiam que este texto não é inédito, já foi publicado noutro blogue?)

[Sérgio Lavos]

06/01/08

Luiz Pacheco (1925-2008)

Morreu Luiz Pacheco, que não era libertino, nem libertário, repetiu-o muitas vezes. Insistiam nisso, e ele sempre negou. O "toma" que ele aparece a fazer numa das fotografias mais conhecidas é dedicado ao país em que viveu. O anti-autor, o anti-resistente, o homem que poderia ter sido, mas não foi. No seu tempo, escrevia como poucos, meia-dúzia que também já desapareceu. Neste tempo, ninguém escreve como ele, no seu modo de adiar a literatura, escrever apenas pelo gesto, a estética da escrita. Sem pedir consagrações ou honrarias, prémios ou idolatrias. Deixou pouco, escreveu o que conseguiu escrever - porque escrevia apenas o que a sua liberdade permitia; nunca o que os outros esperavam dele; e os outros nunca esperaram muito dele. Se resistir, deverá isso à literatura. A vida não lhe podia exigir mais nada.

[Sérgio Lavos]

04/01/08

Mais uma ou duas coisas

Agradeço a inclusão (fala-se tanto disto, nos dias que correm) do Auto-retrato nas listas anuais ao Irmão Lúcia, ao Duelo ao Sol e ao Estado Civil (não detectei, felizmente, mais nenhum). E como parece que fiz mais um amigo, caro Tiago, podes tirar o cavalinho da chuva - isto é, ninguém pode evitar que continues a sonhar com a Susana Lavos; permito, inclusive, que leias os textos dela. Mas a tua imaginação bem pode parar aí. Usa as tuas mãozinhas - escreve para o blogue.

[Sérgio Lavos]

P.S.: Custava muito deixares um link permanente nos posts? Julgas que és o Pacheco Pereira, ou quê?

Coleccionismo para totós (2007 revisto)

Não há razão para pânico ou histerias. Não vale a pena correr a esconder para debaixo da mesa mais próxima, vender todas as acções em desespero ou deitar a toalha ao chão. As coisas mudam, mas nem sempre mudam para muito pior.

A situação aconselha prudência. Miguel Pais do Amaral vai compondo o ramalhete de editoras, qual apaixonada coleccionando declarações de pretendentes; os editores em pré-reforma engordam a conta bancária, embarcam na aposentação dourada para a qual trabalharam toda uma vida. (E quem os pode censurar, verdadeiramente?) Quem sobra nesta história de demandas quixotescas, negociações ferozes, batidas com a porta por parte de editores, lacrimejar de donzelas ofendidas, lamentações, choro e ranger de dentes?

Meus amigos, quem vai sofrer, quem já começou a sofrer, são as centenas de pessoas que foram e irão para as ruas durante os meses que se avizinham. A concentração empresarial e o monopólio têm o sabor de um whisky velho para quem vai enriquecendo e o gosto amargo do fel para quem desespera perante a possibilidade de desemprego. Não há razão para pânico ou histerias? Quem por lá tiver de passar, passará, alguém acha que pensa de modo diferente quem trata da vida de pessoas como se fossem “peanuts”? O caridoso coração de Pais do Amaral estremece ao ouvir os rumores de que um negócio gigantesco, no espaço de um ano ou dois, se prepara, entre ele e a Bertelsman. De bom-grado o empresário se dispôs a fazer o jogo sujo de angariar, cortar a eito (património, capital, pessoas) e depois compôr tudo muito bem composto para oferecer, em belo bouquet feito de prémio Nobel e do mais importante escritor de língua portuguesa (palavras do próprio), ao noivo alemão que colecciona editoras pelo mundo fora.

Falando claro: nenhum leitor exigente perderá com a concentração editorial. Haverá sempre espaço no mercado para projectos que visam editar primeiro por gosto. As notícias sobre a estagnação do mercado da edição são manifestamente exageradas; nos últimos anos são muitos as editores que realmente trouxeram algo de novo ao mercado (A Cavalo de Ferro, a Livros de Areia, A Ovni, todas as minúsculas editoras que continuam a albergar a poesia, como a Averno), e houve também a renovação de algumas editoras que já eram manifestamente importantes no mercado português, como a Assírio & Alvim, a Cotovia, a Fenda. É verdade que nos últimos tempos a vida dos pequenos editores não tem sido fácil: a entrada das grandes superfícies, incluindo a FNAC, no mercado, e a expansão dos grupos livreiros levou a que o poder de negociação destes últimos junto dos editores aumentasse exponencialmente, o que se traduziu em margens de comercialização bastas vezes incomportáveis para os editores. Mas também é verdade que a única razão para os livreiros terem conseguido forçar os descontos pretendidos foi a falta de um entendimento entre editores, foi a inexistência de uma associação de editores forte e unida, disposta a defender o dumping praticado pelas grandes superfícies. A lei do preço fixo seria uma óptima medida, se não vivêssemos em Portugal. Mas como a regra por cá é contornar chico-espertamente a lei, tornou-se norma vermos nos hipermercados livros com menos de 18 meses de edição com descontos astronómicos, e ninguém acusa ninguém. A ASAE serve mesmo para quê?

Num meio editorial onde as editoras de referência num passado recente (Asa, D. Quixote, Caminho, Gradiva) convivem lado a lado com os abortos editoriais que se foram instalando no mercado durante a última década, é de esperar o pior. Não é que, por exemplo, a D. Quixote, se salvaguarde do descalabro dos últimos anos, desde a saída de João Rodrigues (agora, na Sextante, outro exemplo de um excelente projecto editorial). Quando colocam à frente das empresas gente formada em Escolas Superiores Comerciais com um currículo assinalável na direcção das cadeias Lidl, sabe-se muito o que se pretende: baixar a fasquia, baixar, até se acabar editando potenciais best-sellers pelos quais se pagam milhares à cabeça e que acabam por redundar em flops, e, deste modo, deixar de publicar produtos de qualidade e sucesso garantido, como é o caso, por exemplo, dos outros quatro livros de Carlos Ruiz Záfon que precederam o sucesso de A Sombra do Vento (inexplicável). Resultado: o desastre e a consequente venda a alguém que se orgulha de ler, agora e sempre, um livro apenas: o de cheques.

Esperamos o pior, mas alguém há-de ocupar o lugar de referência das editoras que se afundam. Se Lobo Antunes sair da D. Quixote, alguém o há-de publicar. Como a Luísa Costa Gomes. Ou José Saramago, da Caminho. Ou Gonçalo Tavares.

Seria tão bom se todos fizessem como Rui Zink, que ao primeiro sinal de deriva da D. Quixote (Carolina e C.ª) abandonou o barco, indo parar à Teorema (que, curiosamente, também foi vendida a um grupo de investidores de contornos, no mínimo, nebulosos). Pessimismo? Apenas para quem achar que editar é como somar números numa calculadora. Os bons continuarão por cá.


(Texto publicado inicialmente no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

Ainda a crítica

Caro Francisco:

apesar de não parecer - parece, de resto, uma crítica muito séria - penso que João Bonifácio se refere a Manuel Gusmão, neste excerto, em termos, no mínimo, sarcásticos. O ponto dele é simples: se o Manuel Gusmão pode, e é elogiado por isso, também ele pode produzir "uma verborreia inenarrável de referencialidade abusiva exclusivamente centrada em maus poetas e escrita apenas e só para gáudio onanístico de um pequeno salão de medíocres." Ou não? Ou o que Manuel Gusmão escreve é mesmo decisivo para o entendimento e consequente compra do livro recenseado? Lá beleza tem, sem dúvida - e ele, sem ironia, é um grande poeta. Mas adequar-se-à ao meio - um suplemento de jornal - em questão? É que, vamos lá ver, o outro exemplo citado, o Pedro Mexia, é o oposto, em estilo, em influências, do Manuel Gusmão - escreve claro, sem rodriguinhos de subjectividade e sempre a tentar escapar a qualquer referencialidade nebulosa; capaz de, imagine-se, falar da história que um romance conta ou, pior ainda, referir dados biográficos quando fala do autor do livro. Em que pé é que estamos? Poderá um crítico musical escrever como um poeta sem cair no ridículo?

(Não sabia que o "entusiasmo" se pode fingir?)

[Sérgio Lavos]

03/01/08

A melhor época das listas



Poderia concordar ou discordar com tantas listas, não trago nada de novo. Como Jim Jarmusch disse, todo o cinéfilo gosta de listas e estamos na época delas. Poderia falar dos melhores filmes de 2007, de Half Nelson ou Inland Empire, das músicas que mais ouvi, dos Beirut ou dos LCD, do melhor vídeo, dos Battles, das melhores séries para um serão em família, House ou Dexter, mas prefiro voltar a eles, aos Radiohead. Para além do mais, têm novo vídeo ainda do ano velho. Nude.
Até poderia falar da maior surpresa, do que nunca me passaria pela cabeça vir a acontecer, ouvir as palavras de David Lynch sobre criação artística e meditação transcendental.

[Susana Viegas]

02/01/08

O sentido da vida

Dos 5, só vi um. Um, apenas. Apenas um. Os melhores 5. Um, apenas. Vou meditar enquanto dou umas baforadas.

[Sérgio Lavos]

Anúncio ao público

Atenção! Atenção! O Alexandre Andrade respondeu ao desafio dos 5 filmes da vida. Vou ali e já venho, fumar um Habano no café da esquina (que se lixem os geninhas!).

[Sérgio Lavos]

Eu, pecador, me confesso

Nos últimos tempos, tenho-me comovido por tudo e por nada. A sério. Comovo-me com filmes, com gestos públicos de afecto (essa palavra tão cara a pedopsiquiatras), com a caridade dos outros pelos outros, comovo-me. E comovo-me porquê? Porque tenho sentido bastante carinho por parte de 70 por cento da população portuguesa, e isso não é, de maneira nenhuma, desprezável. Imaginem, 70 por cento! (O uso do ponto de exclamação deve ser bem ponderado, empregue apenas em ocasiões excepcionais, como esta). Setenta por cento de portugueses que se preocupam, que pensam em mim, quem sabe se todos os dias, olham para mim com olhinhos de piedade quando me vêem na rua, quando me sento nos cafés, abandonado, adormecem a pensar em mim e no meu futuro, meu Deus, na minha saúde. Como não comover-me? Conheço gente que por muito menos chora a toda a hora. Eu nem por isso, sempre fui poupado no gasto de tal líquido (não noutros, não noutros). Não choro. Mas comovo-me. Como não me comover com tão grande acto de benevolência, de caridade, de altruísmo cristão, raríssimo nos nossos dias? A grandiosidade dos que me comovem é tanta, o amor que sentem por mim é tão grande que conseguiram convencer o Estado a pensar em mim, a cuidar de mim, a olhar por mim, velar pelo meu futuro, e o dos meus descendentes, ameaço agora mesmo chorar, eu choro mesmo. Eu que nunca me comovo, agora entro num café e olho para aquele sinal vermelho e quase choro; desfaleço, tremo, sacudo-me como se chovesse cá dentro. Quando me sento, derrotado por tamanha bondade, compungido por tal consideração, quase que não consigo pedir a bica do costume, o croissant, a meia de leite. Sinto as lágrimas a vir, mas contenho-me. Tanta filantropia merece o respeito de alguém que não devia ter tanto; por isso, comovo-me mas não choro; vacilo mas aguento-me, como um forcado perante o touro. Não choro. Mas comovo-me. Aquele sinalzinho, "Proibido Fumar", deixa-me quase de rastos. As pessoas gostam de mim! Portugal gosta de mim! O Mundo gosta de mim! E eu tento não chorar com tal gesto de bondade. Obriguem-me, isso, obriguem-me a não fumar, protejam-me das tentações do Demo, protejam-me, por favor, de todo o mal; eu, pecador, me confesso! Por favor, preguem os avisos contra o tabaco à porta de casa, espalhem tabuletas por toda a cidade, instiguem a criação de uma Inquisição anti-tabaco! Obrigado por tanto amor, tanto, tanto! Em troca, apenas posso dar uma certeza: não vos incomodarei mais com o fumo; e se o fizer, podem deixar de falar comigo, dizer mal de mim nas costas, virarem a cara quando me virem entrar com o ar macilento do pecado. Talvez não mereça o vosso amor, a preocupação, o afecto. Mas mereço ser banido se algum dia cair em tentação. Punam-me!

[Sérgio Lavos]