Justiça? Direitos humanos? Liberdade? Ou apenas poder? Ideologia cega, que defende o indefensável e desculpa o imperdoável? Combates vazios e sujos, tão sujos como a lixeira que os cães deixam ao lutar na rua.
[Sérgio Lavos]

Durante os próximos tempos, nos sons deste blogue, uma lenda e os seus descendentes. Lloyd Cole, que provavelmente compôs a música mais encantada dos anos 80 - que me desculpem os Smiths -, Lloyd Cole, dizia, funda a sua força no cinismo desencantado de uma juventude indie nas margens da piroseira vigente nessa década. Desde a limpidez da viola acústica até à orquestração elegante, tudo parece existir na proporção correcta, na medida exacta do aperto de estômago saudosista, mesmo para quem não viveu esses míticos anos. Os seus êmulos, uns Camera Obscura que ainda estou a descobrir, conseguiram uma resposta comovente à pergunta de Lloyd. Pop com estilo, escapista, cantada por uma voz que por momentos nos faz acreditar que Lloyd encontrou o que procurava em Tracyanne Campell, escocesa como a banda que acompanhava o músico inglês. (Há ainda aqui ecos dos também escoceses Belle and Sebastian, mais um grupo de saudosistas dos magníficos anos 80). Tudo gente recomendável.Nos meus textos anteriores sobre os blogues, o que parece ter feito mais impressão a quem já anda por aqui há muito mais tempo que eu foi a reafirmação dos blogues como uma novidade no espaço público, com todas as consequências que este facto acarreta. Tanto Carlos Leone, como outros que decidiram comentar os textos, publicamente mas sem vontade de se referirem directamente às entradas em causa – estão no seu direito, de resto; por isso, sem entrar em desnecessárias paranóias, utilizo a mesma técnica desses críticos -, concentram a suas ressalvas no facto de a maior parte dos bloggers que valem a pena não serem neófitos na sua intervenção no espaço público. Nada de novo para mim, garanto, mas o facto não enfraquece muito o que antes escrevi. Por exemplo: gostei de conhecer os e-zines ZonaNon e Non!, e de saber que aqueles que agora leio já há muito intervinham criticamente a partir de um meio virtual. A questão é saber até que ponto estes fanzines não replicavam (e replicam) os tiques e defeitos das publicações académicas convencionais. E também avaliarmos correctamente o impacto real que tiveram no espaço público. Se o fanzine costuma ser, por definição, uma publicação independente que junta um conjunto de pessoas com interesses comuns com um desejo de editar de uma maneira verdadeiramente livre e ausente de restrições (tais como as leis do mercado ou as pressões editoriais de um media convencional), tendo como potencial leitor um público restrito, a sua versão virtual tem – e tinha – uma esfera de influência ainda mais rarefeita, parece-me. Precisamente a principal crítica que é dirigida à blogosfera, de resto. Não será uma contradição? A verdade é que são cada vez mais os jornais que citam blogues ou que tem blogues que complementam a função tradicional dos jornais. Os jornais são obrigados a falar dos blogues, porque a blogosfera se tornou notícia. Apesar das reticências e da reduzida vontade de quem escreve nos jornais e opina na televisão. Um e-zine será, portanto, um equivalente do tradicional fanzine, com poucas inovações em relação a este. Sem diversas vantagens que a blogosfera apresenta: a possibilidade de interactividade imediata com o leitor; a inexistência de periodicidade nos artigos publicados, com o consequente acompanhamento da actualidade em cima da hora; a liberalização completa do espaço opinativo – os e-zines não deixavam de funcionar como um grupo fechado, um clube, em que cada artigo se encerrava depois do último ponto final. Um e-zine não passaria de uma réplica do fanzine, assim com as revistas virtuais são uma réplica das revistas publicadas em papel. O blogue é um meio completamente novo, como é o fenómeno My Space – é uma espécie de ilha em permanente contacto com o resto do arquipélago, ou, se quisermos, o rizoma de Gilles Deleuze concretizado quase na perfeição; a informação circula em rede, e não de cima para baixo, em pirâmide. Cada nódulo da rede aparenta ter a mesma importância que o seguinte. Será uma ilusão, sabemos, porque os sitemeters e o technorati fazem a lei do blogueiro, mas uma ilusão que imita na perfeição a democracia total. Atribuir demasiada importância a um fenómeno que permite a mediocridade, o caceteirismo e o pior que os outras plataformas antes permitiram? A multiplicação de notícias e opiniões de quem ainda não aderiu (ver, por exemplo, as entrevistas de Luís Carmelo no Miniscente) assim não o indiciam.
Como já escrevi antes, é difícil falar de um fenómeno que está a acontecer agora sem cometer diversos erros. As razões são várias, a começar pelo desconhecimento parcial do todo de que se fala – é uma impossibilidade, convenhamos, conhecer tudo que se fez antes ou se está fazer neste momento. Admitir as dificuldades pode conduzir a duas coisas: à doce ironia pós-moderna que desdenha de tudo, ao ponto da desvalorização daquilo que se produz. Nada importa, é certo. Ou melhor, o que importa é apenas a matéria. Desconfio que a blogosfera apenas será valorizada por muitos daqueles que agora a desdenham quando manter um blogue significar obter dividendos, quando precisarmos de pagar para ler os nossos blogues preferidos. O artigo de hoje, no Público, sobre a publicidade, directa e indirecta, na blogosfera, antecipa o futuro. Carlos Pinto Coelho diz, no Miniscente, que a auto-regulação é normal na blogosfera. Concordo. Mas antes essa auto-regulação do que a regulação de outros poderes, incluindo o mais difuso de todos, o dinheiro.
A segunda possibilidade implica o erro, obrigatoriamente. Errar é também expor o flanco, admitindo o ataque de todos os que se limitam a apontar o erro dos outros. Prefiro esta segunda hipótese. Não sou relativista.
[Sérgio Lavos]

Slavoj Zizek é sem dúvida um autor surpreendente. Além de escrever de uma forma bastante clara, de ter um óptimo gosto e conhecimento cinematográfico, concilia, como poucos, Filosofia e Cinema. Tem também um grande sentido de humor, conseguindo deixar qualquer estudante ou professor de Filosofia sem palavras. Em Lacrimae Rerum, Zizek recupera o final do último filme de Kubrick, Eyes wide shut (1999), e o diálogo entre Tom Cruise e Nicole Kidman, quando esta lhe diz que há uma coisa que têm de fazer o quanto antes. Zizek recupera esta “passagem ao acto” que é follar (na tradução castelhana é mais cómico…) aplicada a diversos filósofos, permanecendo fiel ao rigor de pensamento. Assim, lemos na nota final 59:
.Descartes:"follo, luego existo", es decir, solo en la intensidad de la actividad sexual experimento la plenitud de mi ser.
.Spinoza:en el Absoluto como Coito, deberíamos distinguir, en la línea de la distinción entre natura naturans y natura naturata, entre la penetración folladora activa y el objeto follado.
.Hume introduce aquí la duda empirista: cómo sabemos que el follar existe propriamente como relación?
.Respuesta Kantiana a esta crisis: "las condiciones de posibilidad de los objetos follados/folladores". (...)
.Nietzsche:la Voluntad es, en su versión más radical, una Voluntad de Follar, que culmina en el Eterno Retorno del "Yo quiero más".
.Heidegger:del mismo modo que la esencia de la tecnología no es nada "tecnológico", la esencia del follar no tiene nada que ver con el follar como actividad meramente óntica; habríamos de decir más bien que "la esencia del follar no es el follar de la Esencia misma".
.Por último, la intuición del carácter jodido de la Esencia misma nos lleva a la sentencia de Lacan: "No hay tal cosa como una relación sexual".
[Susana Viegas]
Bob Dylan, empenhado civicamente no confronto entre passado e presente, afirmou numa entrevista a propósito do novo álbum, "Modern Times", que não há gravações que se aproveitem nos últimos vinte anos. Duas questões: desconfio da tradução que vi em alguns jornais, ou pelo menos da interpretação abusiva. Se o original é "recordings", Dylan podia-se estar a referir à qualidade técnica dos discos e à produção dos mesmos, o que é completamente diferente do entendimento que quiseram dar à frase. De qualquer modo, as faixas que eu conheço deste álbum dão força à interpretação mais radical das palavras de Dylan. Sempre foi assim, de resto. Quem não viveu a época e aprendeu a gostar de Dylan num tempo em que o desencanto tomou conta de tudo compreende bem a amargura cínica de Dylan. Terá pouco a ver com a idade. Não será um exagero achar que músicas com "The Times They Are A-Changin'" conseguem juntar em doses iguais deslumbramento com o presente e saudades de um tempo que passa, apesar da revolução, dos costumes e musical, de que Dylan foi um dos maiores símbolos. O sentimento de errância e perdição que Dylan sempre cantou surgirá amenizado - consequência normal do envelhecimento -, e a aceitação serena do mundo e de si próprio, apesar do referido cinismo, distancia-se irremediavelmente da rebeldia controlada dos anos 60. O conservadorismo pode surgir nos lugares e nas pessoas mais incomuns. Quando Dylan electrificou a música folk, os cantores de protesto reagiram de forma enérgica contra a revolução; agora, Dylan reclama contra os "tempos modernos" fazendo um disco de outra era, saudosista ou clássico, dependendo do ponto-de-vista que decidimos escolher. Quem poderá não ser conservador aos sessenta anos?