08/09/06

Cães

Lavam-se as mãos com os pecados dos outros. Primeiro, a direita; cansada de uma luta titânica travada em favor dessa coisa vaguíssima a que se ousa chamar Civilização Ocidental, descobre uma fraqueza da esquerda que ainda não percebeu que está acabada e atira-se ao osso com um fervor desesperado. Primeiro, uma questão de classificação, semântica (e o artigo de Pacheco Pereira no Público explica bem o conceito): o que é um terrorista? Alguém que rapta civis, trafica droga e obriga crianças a alistarem-se no combate às... vejamos... "políticas anti-sociais, antidemocráticas e belicistas do imperialismo americano"? O que é um democrata? Alguém que rapta civis, estimula o tráfico de droga e fecha os olhos à prática de tortura nas prisões dos aliados? Onde estamos, a que campo pertencemos? Deixamos passar pelo nosso território aviões transportando seres humanos que, na prática, não existem, apátridas sem nome e sem acusação formada, a meio-caminho entre os centros de detenção secretos e o buraco-negro democrático que é Guantánamo, e ao mesmo tempo votamos no parlamento um protesto contra uma organização terrorista que actua a milhares de quilómetros de distância? E a esquerda? Apoia organizações criminosas desculpando-se com os pecados dos seus adversários políticos?
Justiça? Direitos humanos? Liberdade? Ou apenas poder? Ideologia cega, que defende o indefensável e desculpa o imperdoável? Combates vazios e sujos, tão sujos como a lixeira que os cães deixam ao lutar na rua.

[Sérgio Lavos]

03/09/06

Lloyd Cole/Camera Obscura


Durante os próximos tempos, nos sons deste blogue, uma lenda e os seus descendentes. Lloyd Cole, que provavelmente compôs a música mais encantada dos anos 80 - que me desculpem os Smiths -, Lloyd Cole, dizia, funda a sua força no cinismo desencantado de uma juventude indie nas margens da piroseira vigente nessa década. Desde a limpidez da viola acústica até à orquestração elegante, tudo parece existir na proporção correcta, na medida exacta do aperto de estômago saudosista, mesmo para quem não viveu esses míticos anos. Os seus êmulos, uns Camera Obscura que ainda estou a descobrir, conseguiram uma resposta comovente à pergunta de Lloyd. Pop com estilo, escapista, cantada por uma voz que por momentos nos faz acreditar que Lloyd encontrou o que procurava em Tracyanne Campell, escocesa como a banda que acompanhava o músico inglês. (Há ainda aqui ecos dos também escoceses Belle and Sebastian, mais um grupo de saudosistas dos magníficos anos 80). Tudo gente recomendável.

[Sérgio Lavos]

Branco Sujo

Três links, três, para um blogue apenas: Branco Sujo. O melhor que li na blogosfera a propósito do fim d'O Independente. 1, 2 e 3 (como a picadora moulinex). O segundo texto, principalmente, tem muito que se lhe diga. Eu, que sou de esquerda, apenas posso concordar com José Quintas: há muito mais pessoas conotadas com a direita a escrever bem. Eu sugiro uma razão para este estado de coisas: a escola do caderno 3 do Independente.

[Sérgio Lavos]

Adenda: "batedeira moulinex"?! em que é que eu estaria a pensar?! (Texto críptico que apenas interessa a quem detectou o crasso erro que aqui estava inicialmente.)

Coisas

Nesta entrada pós-férias de Rui Miguel Brás, discordo de quase tudo. Mas o primeiro texto, sobre a purga anti-tabagista, vale pelo resto. E o resto, apenas pela qualidade da escrita, cala a minha discordância. De uma raridade que vale a pena.

[Sérgio Lavos]

O mal dos blogues (3)

Nos meus textos anteriores sobre os blogues, o que parece ter feito mais impressão a quem já anda por aqui há muito mais tempo que eu foi a reafirmação dos blogues como uma novidade no espaço público, com todas as consequências que este facto acarreta. Tanto Carlos Leone, como outros que decidiram comentar os textos, publicamente mas sem vontade de se referirem directamente às entradas em causa – estão no seu direito, de resto; por isso, sem entrar em desnecessárias paranóias, utilizo a mesma técnica desses críticos -, concentram a suas ressalvas no facto de a maior parte dos bloggers que valem a pena não serem neófitos na sua intervenção no espaço público. Nada de novo para mim, garanto, mas o facto não enfraquece muito o que antes escrevi. Por exemplo: gostei de conhecer os e-zines ZonaNon e Non!, e de saber que aqueles que agora leio já há muito intervinham criticamente a partir de um meio virtual. A questão é saber até que ponto estes fanzines não replicavam (e replicam) os tiques e defeitos das publicações académicas convencionais. E também avaliarmos correctamente o impacto real que tiveram no espaço público. Se o fanzine costuma ser, por definição, uma publicação independente que junta um conjunto de pessoas com interesses comuns com um desejo de editar de uma maneira verdadeiramente livre e ausente de restrições (tais como as leis do mercado ou as pressões editoriais de um media convencional), tendo como potencial leitor um público restrito, a sua versão virtual tem – e tinha – uma esfera de influência ainda mais rarefeita, parece-me. Precisamente a principal crítica que é dirigida à blogosfera, de resto. Não será uma contradição? A verdade é que são cada vez mais os jornais que citam blogues ou que tem blogues que complementam a função tradicional dos jornais. Os jornais são obrigados a falar dos blogues, porque a blogosfera se tornou notícia. Apesar das reticências e da reduzida vontade de quem escreve nos jornais e opina na televisão. Um e-zine será, portanto, um equivalente do tradicional fanzine, com poucas inovações em relação a este. Sem diversas vantagens que a blogosfera apresenta: a possibilidade de interactividade imediata com o leitor; a inexistência de periodicidade nos artigos publicados, com o consequente acompanhamento da actualidade em cima da hora; a liberalização completa do espaço opinativo – os e-zines não deixavam de funcionar como um grupo fechado, um clube, em que cada artigo se encerrava depois do último ponto final. Um e-zine não passaria de uma réplica do fanzine, assim com as revistas virtuais são uma réplica das revistas publicadas em papel. O blogue é um meio completamente novo, como é o fenómeno My Space – é uma espécie de ilha em permanente contacto com o resto do arquipélago, ou, se quisermos, o rizoma de Gilles Deleuze concretizado quase na perfeição; a informação circula em rede, e não de cima para baixo, em pirâmide. Cada nódulo da rede aparenta ter a mesma importância que o seguinte. Será uma ilusão, sabemos, porque os sitemeters e o technorati fazem a lei do blogueiro, mas uma ilusão que imita na perfeição a democracia total. Atribuir demasiada importância a um fenómeno que permite a mediocridade, o caceteirismo e o pior que os outras plataformas antes permitiram? A multiplicação de notícias e opiniões de quem ainda não aderiu (ver, por exemplo, as entrevistas de Luís Carmelo no Miniscente) assim não o indiciam.

Como já escrevi antes, é difícil falar de um fenómeno que está a acontecer agora sem cometer diversos erros. As razões são várias, a começar pelo desconhecimento parcial do todo de que se fala – é uma impossibilidade, convenhamos, conhecer tudo que se fez antes ou se está fazer neste momento. Admitir as dificuldades pode conduzir a duas coisas: à doce ironia pós-moderna que desdenha de tudo, ao ponto da desvalorização daquilo que se produz. Nada importa, é certo. Ou melhor, o que importa é apenas a matéria. Desconfio que a blogosfera apenas será valorizada por muitos daqueles que agora a desdenham quando manter um blogue significar obter dividendos, quando precisarmos de pagar para ler os nossos blogues preferidos. O artigo de hoje, no Público, sobre a publicidade, directa e indirecta, na blogosfera, antecipa o futuro. Carlos Pinto Coelho diz, no Miniscente, que a auto-regulação é normal na blogosfera. Concordo. Mas antes essa auto-regulação do que a regulação de outros poderes, incluindo o mais difuso de todos, o dinheiro.

A segunda possibilidade implica o erro, obrigatoriamente. Errar é também expor o flanco, admitindo o ataque de todos os que se limitam a apontar o erro dos outros. Prefiro esta segunda hipótese. Não sou relativista.

[Sérgio Lavos]

02/09/06

Eyes wide shut

Slavoj Zizek é sem dúvida um autor surpreendente. Além de escrever de uma forma bastante clara, de ter um óptimo gosto e conhecimento cinematográfico, concilia, como poucos, Filosofia e Cinema. Tem também um grande sentido de humor, conseguindo deixar qualquer estudante ou professor de Filosofia sem palavras. Em Lacrimae Rerum, Zizek recupera o final do último filme de Kubrick, Eyes wide shut (1999), e o diálogo entre Tom Cruise e Nicole Kidman, quando esta lhe diz que há uma coisa que têm de fazer o quanto antes. Zizek recupera esta “passagem ao acto” que é follar (na tradução castelhana é mais cómico…) aplicada a diversos filósofos, permanecendo fiel ao rigor de pensamento. Assim, lemos na nota final 59:

.Descartes:"follo, luego existo", es decir, solo en la intensidad de la actividad sexual experimento la plenitud de mi ser.

.Spinoza:en el Absoluto como Coito, deberíamos distinguir, en la línea de la distinción entre natura naturans y natura naturata, entre la penetración folladora activa y el objeto follado.

.Hume introduce aquí la duda empirista: cómo sabemos que el follar existe propriamente como relación?

.Respuesta Kantiana a esta crisis: "las condiciones de posibilidad de los objetos follados/folladores". (...)

.Nietzsche:la Voluntad es, en su versión más radical, una Voluntad de Follar, que culmina en el Eterno Retorno del "Yo quiero más".

.Heidegger:del mismo modo que la esencia de la tecnología no es nada "tecnológico", la esencia del follar no tiene nada que ver con el follar como actividad meramente óntica; habríamos de decir más bien que "la esencia del follar no es el follar de la Esencia misma".

.Por último, la intuición del carácter jodido de la Esencia misma nos lleva a la sentencia de Lacan: "No hay tal cosa como una relación sexual".

[Susana Viegas]

Um episódio secundário do festival de Veneza, contado no DN por Eurico de Barros. Will Jimeno, o verdadeiro, não a personagem, ficou agastado com os risos que o público dedicou a uma das cenas do filme World Trade Center. A visão de Cristo numa situação limite. Jimeno sentiu-se ofendido porque, diz ele, viu mesmo Cristo. E diz que qualquer um rezaria naquele momento. Mesmo os ateus. Não interessa muito questionar o grau de realidade que um filme deve transmitir, mesmo se baseado em acontecimentos reais. Oliver Stone deve ter tomado as suas decisões, e ao mostrar a visão de Jimeno sabia que tipo de reacção poderia obter. Empatia da maior parte dos crentes e do público em geral, incompreensão de parte da crítica. Pensaria eu, se tivesse no seu lugar. Deve ser sempre difícil gerir cenas emocionais em filmes. Ou se opta pelo melodrama puro, e aí é obrigatória uma sensibilidade que apenas está ao alcance de alguns - o durão Clint Eastwood, por exemplo, é um dos melhores exemplos. Ou então fica-se pelas meias-tintas e perde-se o filme. Neste caso, a cena inclui uma dificuldade extra: mostrar a encarnação da fé de uma personagem. Que eu me lembre, apenas dois realizadores me conseguiram convencer da existência de Deus por momentos: Carl Dreyer, em "A Palavra", e Lars von Trier, em "Ondas de Paixão". A pós-modernidade, que não precisa de crenças nem conversões religiosas, escarnece da religiosidade humana, que vê como ultrapassada e necessariamente anti-moderna. Que Dreyer e von Trier (por sinal, ambos dinamarqueses, de criação evangélica, apesar da conversão do segundo ao Catolicismo) tenham conseguido filmar de forma séria (isto é, não risível) a Fé, parece-me quase um milagre. Coisa rara e antiquada.

[Sérgio Lavos]

01/09/06

Independente

Se fosse necessário dissipar possíveis dúvidas sobre a importância d'O Independente na geração que agora tem entre 30 e 45 anos, bastaria passar hoje, e nos últimos dias, pela blogosfera portuguesa e ler a quantidade de obituários produzidos pelos antigos leitores do semanário. Quanto a mim, o melhor que posso dizer do jornal dirigido por Miguel Esteves Cardoso (apenas me interessou enquanto ele foi director) foi que aprendi a contestar a política e os políticos com a sua leitura. Pouco antes de descobrir que era de esquerda. Mal sabia eu que o sentimento era contraditório, e que havia ambições políticas pessoais impulsionando o projecto. Atraiu-me o estilo da maior parte dos colaboradores daquela primeira época, e isso, no fundo, é suficiente. A política é perfeitamente acessória.

[Sérgio Lavos]

Aos pares

Gosto do blogue Dias Felizes por - de certeza erroneamente - sentir que quase sou convidado a entrar numa intimidade familiar. Apesar dos vestígios autobiográficos serem minuciosamente dissimulados pelos textos, que quase sempre passam por uma catalogação do gosto dos autores - com a excepção dos contos e aforismos non-sense de Rui Manuel Amaral. Revelar as preferências e os deslumbramentos estéticos é, de resto, estratégia comum a muitos blogues. A constituição de um gosto serve para duas coisas: a definição de uma personalidade, necessariamente distante da realidade; e é um modo enviesado de abrir a porta de casa, procurando outros que sintam o entusiasmo que o autor do blogue sente.
Da mesma forma, gosto de saltar entre dois blogues cujos autores eu imagino partilharem (segredo de Polichinelo) mais que o espaço virtual da blogosfera e comparar pontos-de-vista sobre o mesmo tema, as diferenças e as semelhanças, as mútuas influências. É talvez a minha costela de peeping-tom, ou a falta que me faz assistir a reality-shows na TV, que me leva a ceder a esta fraqueza.
Será que falo da minha experiência neste blogue? Isso, cabe a quem lê adivinhar. Está tudo aqui, nas entrelinhas.

[Sérgio Lavos]

Bob Dylan

Bob Dylan, empenhado civicamente no confronto entre passado e presente, afirmou numa entrevista a propósito do novo álbum, "Modern Times", que não há gravações que se aproveitem nos últimos vinte anos. Duas questões: desconfio da tradução que vi em alguns jornais, ou pelo menos da interpretação abusiva. Se o original é "recordings", Dylan podia-se estar a referir à qualidade técnica dos discos e à produção dos mesmos, o que é completamente diferente do entendimento que quiseram dar à frase. De qualquer modo, as faixas que eu conheço deste álbum dão força à interpretação mais radical das palavras de Dylan. Sempre foi assim, de resto. Quem não viveu a época e aprendeu a gostar de Dylan num tempo em que o desencanto tomou conta de tudo compreende bem a amargura cínica de Dylan. Terá pouco a ver com a idade. Não será um exagero achar que músicas com "The Times They Are A-Changin'" conseguem juntar em doses iguais deslumbramento com o presente e saudades de um tempo que passa, apesar da revolução, dos costumes e musical, de que Dylan foi um dos maiores símbolos. O sentimento de errância e perdição que Dylan sempre cantou surgirá amenizado - consequência normal do envelhecimento -, e a aceitação serena do mundo e de si próprio, apesar do referido cinismo, distancia-se irremediavelmente da rebeldia controlada dos anos 60. O conservadorismo pode surgir nos lugares e nas pessoas mais incomuns. Quando Dylan electrificou a música folk, os cantores de protesto reagiram de forma enérgica contra a revolução; agora, Dylan reclama contra os "tempos modernos" fazendo um disco de outra era, saudosista ou clássico, dependendo do ponto-de-vista que decidimos escolher. Quem poderá não ser conservador aos sessenta anos?
Não irei deixar a tocar nenhuma faixa do novo álbum, apesar de elas estarem perfeitamente acessíveis na Internet. Partilho de modo apaixonado a reflexão de David Fonseca, hoje no suplemento 6ª, do DN, sobre a modernidade que se esquece do tempo obrigatório de respiração que cada obra-de-arte deve ter. A acessibilidade e a facilidade que a Internet permite não são necessariamente um bem, não são obrigatoriamente progresso. Quantos dos que lêem este texto se dão ainda ao trabalho de dirigir-se a uma loja de discos, ouvir com atenção o que está em escuta, procurar novidades, admirar as capas dos cd's, comprar dois ou três álbuns e avaliar devidamente o som produzido, as faixas na ordem em que são apresentadas, uma duas, três vezes, até que cada pormenor comece a fazer sentido, cada instrumento se evidencie por si próprio, de maneira a que no final se possa apreciar o álbum como um todo, e não música a música, num Ipod ou nos programas de partilha de ficheiros; quantos ainda se dão ao trabalho de ouvir música da forma tradicional, aquela de que Dylan se reclama herdeiro desiludido? "The Times They are A-Changin'", rima irónica com o título do novo álbum - aquele era o tempo que mudava, este é tempo que mudou. Desencanto, disse?

[Sérgio Lavos]