21/07/06

Revisionismo

Recomendo, no blogue verde-republicano de Alexandre Andrade, Um blogue sobre Kleist, as últimas entradas sobre o passatempo preferido de uma certa direita: o revisionismo histórico. Todas as revoluções ou guerras civis que se transformaram em ditaduras reaccionárias merecem a análise destes ideólogos de pacotilha. O perigo não reside nos inflamados revolucionários de extrema-direita - os pobres de espírito que ainda não perceberam que a democracia já soube criar os anticorpos suficientes para lhes dar o tratamento que merecem, o mesmo a que um parasita invasor tem direito; os moderados de extrema-direita são a verdadeira ameaça, os conservadores clamando ao vento um liberalismo oportunista e postiço. E mediático, para mal dos nossos pecados. Suponho que será isto o tal combate cultural de que Paulo Portas falava há uns tempos - depois do bronze artificial e imediatamente antes de se tornar comentador de futebol encartado.

[SL]

Desejo

África é o destino preferido das personagens de filme irremediavelmente românticas. Penso em Rimbaud e na sua desistência fulgurante, os longos anos passados como comerciante, tentando esquecer a sua vocação de artista maldito. Mas Rimbaud não é personagem de filme. Vou saltar também Rudolfo Valentino e os filmes do deserto, e Humphrey Bogart e Ingrid Bergman perdidos de amor em Casablanca. O rosto duro e luminoso de Peter O'Toole como Lawrence já me diz mais, serve de contributo para a minha geneologia pessoal do ocaso. Vou desembocar fatalmente em Um Chá no Deserto, em Debra Winger raptada por berberes e tomada pelo calor das areias, John Malkovich uma sombra projectando-se contra o céu de zinco que se abate sobre as infinitas dunas.
Eles viajam para se perderem de si próprios. O cliché imagético e literário recorda-nos o fatalismo de África. Se não contarmos com (alguns) filmes de Atom Egoyan ou Sharunas Bartas, ninguém foge do mundo procurando refúgio nas paisagens geladas do Ártico. Não há qualquer mistério no facto. O frio e o gelo tornam a solidão humana menos significativa. A paisagem nórdica é desoladora, mas no mau sentido, inspira apenas quem nela habita ao recolhimento e à mísera depressão sazonal, vazia e passageira. A existência vacila quando a temperatura sobe, terá a ver com a nossa condição de animais de sangue quente. Esqueçamos Kierkegaard. Esqueçamos Stig Dagerman - essa vergonhosa paixão de adolescência. Voltemos a Paul Bowles e a Al Berto, a Luís Miguel Nava e a Malcolm Lowry (o calor mexicano é o espelho do calor sahariano), a Camus, regressemos a David Lean, Ondaatje e Bertollucci. O paradoxo do deserto: como, em tal vastidão libertadora, pode o Homem sentir o apelo da morte? Camus é um exemplo desta irreparável falha. Se compreendemos em Kafka o sortilégio da representação do medo humano, porque sabemos como a Praga daquele tempo poderia ser inspiradora, mais admirável se torna a obra do escritor francês. Conseguir transpôr para o deserto norte-africano a angústia experimentada por Kafka - e, por extensão, pelo ser humano - não é apenas um feito, é inevitável. A incompreensão perante os actos de Mersault torna-se avassaladora. Se o labirinto kafkiano não tem solução pela própria mecânica da encenação, as obras de Camus encerram em si um sentido trágico que imita o teatro grego. Em Kafka, o destino não intervém na acção das personagens; tudo é aleatório e imprevisível. Camus, por outro lado, dá a entender que desde o início tudo está previsto, a queda é inevitável. O deserto conduz os homens à perdição - e sem pathos.
Por associação, recordo Caché, o filme de Haneke que, vou descobrindo, me deixou uma impressão profunda. A morte do amigo da infância, violenta vaga regressando do passado da personagem que Daniel Auteuil encarna, é marcante. Não por acaso, a personagem é argelina. A violência pode ser o resultado de milénios de convívio com as paisagens desérticas. A areia (tempo); o calor (corpo); e a extensão de luz até onde a vista abarca (eternidade). Faz sentido.

[SL]

Ténis e genes

No blogue Manchas, diálogo em tom casmurriano inspirado por essa bela figura que o próprio Machado de Assis não desdenharia como personagem, João Carlos Espada. A ler.

[SL]

20/07/06

Sol

Não vale a pena. Descansar, olhar a paisagem, ouvir as bombas lá fora e o rumor do mar à nossa frente. Quando ele existe apenas como um desejo escapista. As palavras excedem sempre o que descrevem. Deixemo-nos estar, o sol cegando (sangrando) a vista.

[SL]

19/07/06

Philip Roth

"Nem todos tiveram a sorte de nascer judeus, não é? Portanto vamos lá, um bocadinho de rachmones para com os menso afortunados, está bem? Porque eu estou farto e mais que farto dos goyische isto e dos goyische aquilo! Se é mau, foram os goyim, se é bom foram os judeus! Não vêem, meus queridos pais, que me geraram não sei bem como, que essa maneira de pensar é um tanto ou quanto bárbara? Que assim estão simplesmente a exprimir o vosso medo? A primeira distinção que aprendi convosco, tenho a certeza, não foi a distinção entre a noite e o dia, ou entre o calor e o frio, mas entre goyische e judeu! Mas agora descubro, meus queridos pais, parentes e amigos que aqui se reuniram para comemorar o evento do meu bar mitzvah, descubro, sim, meus palermas, meus palermas de espírito tacanho! - oh, como eu vos detesto pela tacanhez do vosso espírito judeu! e a si também, Rabi Sílaba, que pela última vez na vida acaba de me mandar ao café da esquina comprar outro maço de cigarros Pall Mall, com que você empesta os lugares por onde passa, não sei se já alguém lhe disse - descubro que a vida afinal não se resume ao conteúdo dessas duas categorias inúteis e repugnantes! E em vez de se lamentarem por aquele que virou as costas à saga do seu povo, porque é que não choram antes pelas vossas tristes pessoas, sempre a sorver essa uva azeda da religião! Judeu, judeu, judeu, judeu, judeu, judeu! Já não posso mais com a saga dos judeus martirizados! Por isso faz-me um favor, meu povo martirizado: vai à merda mais a tua herança de martírio! - é que eu por acaso também sou um ser humano!"

in O Complexo de Portnoy, de Philip Roth - judeu, para o contentamento de todos.


[SL]

18/07/06

Tomar partido (2)

Rui, ainda bem que reparaste na diferença entre o Público de hoje e o de ontem, podemos falar disso. É que eu, repara, não disse que o diário, em geral, pratique mau jornalismo - nem eu sei distinguir o bom do mau, para todos os efeitos; apenas notei que havia demasiados espinhos no tratamento noticioso dado ao tema ontem. Não poderás discordar neste ponto. E não preciso de afirmar que simplesmente não é verdade que haja um favoritismo da imprensa em relação ao lado islâmico nesta questão do Médio Oriente. Se pensarmos bem, nem um dos que denunciam os abusos da democracia israelita se declaram abertamente pró-terrorismo. Falo dos comentadores portugueses, é claro, a realidade que melhor conhecemos. O que há é gente que defende a causa palestiniana e os palestinianos, o seu direito a viver num Estado que não seja definido arbitrariamente pelo poder que os sufoca a dois passos de casa. É que, repara, se é verdade que desde a fundação do estado de Israel que os palestinianos lutam ou para expulsar o povo israelita - os radicais -, ou para terem direito ao território atribuido aos islâmicos após a Segunda Guerra Mundial, aquele que Israel nunca conseguiu respeitar - os moderados -, também é verdade que desde essa data que Israel vem negando as pretensões dos palestinianos. Parece-me portanto, uma questão clara de luta territorial, ainda por cima provocada pela irresponsabilidade do mundo ocidental ao criar um estado artificial em terras que já estavam ocupadas por outro povo há séculos. A má-consciência ocidental, a culpa judaico-cristã que tão fervorosamente cultivamos desde sempre, é a origem de tudo - sobre este assunto, basta ler Kafka ou Philip Roth. E nem vale a pena discutir quem tem direito à terra; seria bom se pudessem todos usufruir dela em conjunto, mas infelizmente neste tipo de questões quem escolhe a via mais violenta - ainda que seja a minoria - acaba por levar a melhor sobre os que escolhem o caminho da paz e da reconciliação.
Ainda bem que falas de Ghandi, que melhor exemplo há da tragédia da Natureza Humana? Lutou uma vida inteira pelo direito à auto-determinação de um povo, sem recorrer à violência nem a acções radicais. A moderação, sempre a moderação. Conseguiu, mas acabou morto às mãos de um fanático hindu que não desejava a paz com os seus compatriotas muçulmanos. Cinquenta anos depois, a Índia continua desunida pela religião, ainda e sempre porque a margem violenta de cada religião empurra o centro para o confronto e a guerra.
Haverá solução para a a questão do Médio Oriente? Não tenho pretensões a responder a esta questão. Pode durar séculos até que o conflito se extinga, ou pode levar apenas alguns anos até que tudo acalme. Para sempre ou temporariamente, até porque a História mostra à saciedade que a paz é apenas um acidente, um acaso na interminável sede de guerra que move o Homem. Não sei responder a perguntas sem resposta, mas posso dizer que preferia não ver tantos morrerem em consequência da irresponsabilidade de tão poucos - os líderes políticos e religiosos de cada lado. E parece-me que nem os bombistas suicidas, nem os mísseis do Hezzbolah, nem as bombas caindo sobre alvos civis dos israelitas contribuam para o fim do conflito. A paz à bomba é apenas um bom argumento de filme de guerra de Hollywood. A realidade é outra coisa completamente diferente.

P.S.: Reli um texto anterior teu. Sabias que apenas uma mínima parte dos israelitas nasceram ou são descendentes de judeus que viviam em 1945 no actual território de Israel? Que a maioria dos que para lá foram depois do Holocausto eram eslavos da Rússia que fugiam de Estaline ou sobreviventes dos campos de concentração que conseguiram escapar de Leste? Quem tem mais direito ao território, estes imigrantes ou quem já lá estava em 1948, muçulmanos e judeus incluídos? A minha resposta? Ambos, desde o momento em que foi decidido pela ONU, em acordo com os líderes palestinianos, que Israel tinha direito a existir. Qual é a tua resposta?

[SL]

17/07/06

Tomar partido

Concedo que a neutralidade seja difícil. Aceito que a objectividade não passe de uma quimera, permito que a equidistância apenas possa ser um objectivo. Seja. O Público, o melhor jornal português - mesmo depois da última reformulação do DN - não deve nada a ninguém, o seu livro de estilo fala por ele. Muitas vezes acabei por dar razão aos críticos dos críticos de José Manuel Fernandes, e pela mais irónica das razões; todos sabemos o seu posicionamento ideológico, a verdadeira cruzada que tem vindo a travar em nome de uma ideia de progresso e de liberdade; comovemo-nos com ele quando ele se emocionou ao ver a estátua de Saddam derrubada pelos soldados americanos, aceitámos a sua indignação contra os hipócritas de esquerda que se manifestaram aos milhões contra a invasão do Iraque, sorrimos por dentro - de ternura - olhando para ele a pregar no deserto de ideias o bondoso neo-liberalismo que irá trazer o bem-estar económico e a felicidade ao mundo inteiro. Até caímos num enlevo de admiração, bastas vezes, perante o estoicismo com que ele defende os "erros" norte-americanos, desde Guantanamo ("é claro que a situação de Guantanamo não pode continuar, etc.") até Abu Ghraib ("um abuso de uma minoria de insubordinados que ocupam lugares inferiores na hierarquia militar, etc."), passando pelos "desvios" das bombas no seu tortuoso caminho em direcção aos alvos militares que se escondem no meio dos civis indefesos. O homem tem coragem, virtude louvável, não menos que a teimosia - há quem lhe chame coerência - na sua defesa da política norte-americana na construção de uma nova era. O último dos moicanos, apesar das armas de destruição maciça que se volatizaram, do dominó da democracia que se transformou em avalanche do terrorismo, da diferença de tratamento em relação ao Irão e à Coreia da Norte que, convenhamos, estão mesmo a pedir a bota imperial para entrarem nos eixos. A razão porque concordei muitas vezes com José Manuel Fernandes? Pela paródia involuntária, pelo espectáculo que é ver num dia ele a escrever uma crónica louvando as virtudes da guerra e no dia seguinte um dos seus sub-directores demolindo - sem nunca o nomear directamente - o texto escrito pelo chefe. Sou português, e por isso dá-me gozo a insubordinaçãozinha pontual.
A que propósito falo aqui de José Manuel Fernandes? Queria antes escrever sobre o verão, o tempo de férias, as viagens que tanto me motivam nesta altura. Para ser mais exacto, queria escrever sobre as férias do director do Público. Escolheu o sítio mais in do momento, o mais quente do ano. Desde há três dias que nos escreve de um lugar, algures em Israel. Lemos a crónica, escorreita e prazeirenta, e percebemos que estas férias veraneantes foram pagas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel. Ainda bem, o homem merece, por serviços prestados com honra e distinção. Se falamos de férias, que goze à grande os frutos do esforço titânico a que se vem submetendo nos últimos anos. Mas esperem. Leio com mais atenção e começo a desconfiar. Não é que as crónicas de viagem não estão onde deviam estar, naquele suplemento da silly season, no qual a socialite discorre sobre tudo e nada de papo para o ar? Não, para dizer a verdade, descobri agora, não começou sequer ainda a ser publicado o supramencionado suplemento, só lá para Agosto, parece-me. Folheio o jornal freneticamente e descubro que as notícias que emolduram as crónicas de viagem de José Manuel Fernandes falam de mortos, feridos, mísseis, bombardeamentos, sofrimento, sangue e lágrimas. Deve ser uma náusea passageira, o que me invade. Releio com mais atenção, desta vez tentando ignorar que a viagem foi paga pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, e continuo, de boca aberta. Regresso à primeira página: "Mísseis do Hezbollah matam civis na cidade mais tolerante de Israel" em letras grandes, destacado. Logo por baixo, em corpo mínimo: "Raides israelitas no Líbano provocam 45 mortos e mais de 100 feridos". A fotografia que acompanha a chamada, trabalhadores israelitas recolhendo restos mortais de vítimas do ataque do grupo libanês. Avanço para a segunda página. Título em letras garrafais (maiores que na capa): "Hezbollah lança o ataque «mais profundo» contra Israel." Busco, já desesperado, os pormenores. Por baixo, confirmo a suspeita: oito mortos israelitas, e repito, 45 civis libaneses também falecidos. Não se especifica se os mortos israelitas são militares ou civis. Pouco importante, de resto. Nesta altura, já nada interessam essas especificidades, tão longe se chegou na demanda.
Será necessário acrescentar mais à descrição feita, ou é suficiente? Pouso o jornal, e descanso com as palavras sábias do douto José Manuel Fernandes. Uma altura decisiva, escreve ele. Para todos nós, penso eu. Agora que finalmente já mandámos às malvas toda a decência e qualidades da democracia - que inclui, imagine-se, um jornalismo essencialmente neutro e objectivo, sem tomar partido, na prática um jornalismo que não seja propaganda pura - podemos finalmente dizer que já possuímos as mesmas armas que os fundamentalistas e terroristas há muito manejam (e deixem-me ser catastrófico e exagerado): a manipulação dos factos, a recusa da moderação, um belicismo feroz e agressor contra quem está do outro lado da barricada. José Manuel Fernandes pode ser acusado de muita coisa. Agora, de ser bom jornalista, ele já se conseguiu livrar. Boas férias.

P.S.: Onde foi escondida a ostracizada Alexandra Lucas Coelho, quase sempre enviada para o Médio Oriente e recém premiada pelas suas reportagens no Público? Ou será que ela própria se escondeu com vergonha?

[SL]

16/07/06

Nascido Para Matar

Michael Moore, que inventou um género - o documentário sensacionalista com consciência social - filmou, em Fahrenheit 9/11, os soldados americanos no deserto iraquiano com uma precisão de elefante, a necessária, de resto, de modo a captar o espírito de uma aventura muito bélica e nada gloriosa. A determinada altura, alguns soldados dizem para a câmara que, ao passear-se nos seus confortáveis tanques em missão de ataque, ouvem música agressiva como motivação para a carnificina. A música pode ter também essa tarefa: anestesiar o espírito, aplacar a consciência racional do Homem. Um soldado é uma mistura de duas coisas: a máquina programada para matar e um animal dando escape aos seus intintos primitivos e egoístas (no sentido da sobrevivência dos genes preconizada por Richard Dawkins).
O filme de Kubrick, Nascido para Matar, mostra como o processo se desenrola. Na primeira parte, a recruta, existe um esvaziamento progressivo do pensamento e da individualidade, até que aconteçam duas coisas: a mecanização total da atitude e do corpo, e a selecção natural dos mais aptos para o combate. Os recrutas aprendem a viver em benefício de uma entidade abstracta, os Fuzileiros, que serve outra mais distante mas sempre presente: a Pátria. A segunda, na obra de Kubrick, está apenas subentendida. Durante o tempo de aprendizagem, os homens, que antes da chegarem ao quartel são apenas indivíduos entregues a um desejo difuso e sem objectivos, aprendem dolorosamente a pertencer a um grupo, a uma irmandade em que cada membro tem de se dispôr a sacrificar a sua vontade em prol do seu companheiro, primeiro, e da missão que lhes é imposta, em última medida, pelo Estado, depois. Neste estágio da sua aprendizagem, os recrutas aprendem a esquecer o caos que o desejo individual produz. Deste caos, nasce a ordem, uma perfeita geometria da obediência a um poder que emana de um lugar distante dos soldados. A câmara manobrada por Kubrick, na primeira parte, filma com um rigor maníaco esta regularização do indivíduo. Tudo é limpo, tudo é regulado, tudo se torna mecanizado. A parada, a apresentação das armas, a limpeza das botas, a arrumação das camaratas. O recruta Pyle (excelente Vincent D'Onofrio) é o único que resiste à aprendizagem do colectivismo. Um dos pecados capitais, a gula, é o símbolo desta resistência. Quando finalmente Pyle cede percebemos que é tarde demais. E que a submissão é demasiado verdadeira. Ele entrega-se de alma ao mecanismo repressor, e nesse passo coloca-se além de qualquer razão. É que a entrega não pode ser total. O cínico Joker (Mathew Modine) explica como se faz. Fingindo a obediência, consegue ainda salvar a réstea necessária de sanidade que lhe permite sobreviver à experiência da recruta e depois à guerra.
Este cinismo de Joker é depois transportado para a segunda parte do filme, onde a ordem programada se transforma em caos absoluto. Nada pode preparar os soldados para o que sucede numa situação de guerra, espelho distorcido da simulação recriada em casa. A destreza dos soldados nada significa quando o inimigo joga na imprevisibilidade e na improvisação de situações. Kubrick coloca-se atrás dos soldados em patrulha e consegue filmar a perfeita aleatoriedade de uma situação de combate. As regras a que os soldados se submeteram durante a recruta deixam de fazer sentido e eles têm de se socorrer novamente dos seus instintos primitivos. Depois de programados, esses instintos podem ser redirecionados e usados da maneira correcta, concorrendo para o bem comum: dos companheiros, do oficial superior, em última análise da Pátria.
Haverá diferenças entre o soldado que cumpre ordens e o bombista suicida que se sacrifica?

[SL]

15/07/06

Alguns destaques

- Primeiro, agradeço ao André o esclarecimento. E a sugestão. Vou manter a grafia original escudando-me na influência anglo-saxónica. A reflexão sobre a biografia e a obra irá continuar, garanto. Haja tempo.

- Novos blogues que entram, alguns saem. Solvstag, Quatro Caminhos, O Amigo do Povo, Um Chá no Deserto, The Sound Of The Streets, Esse Cavalheiro passam a estar disponíveis na barra das ligações. Outras actualizações a seu tempo.

[SL]

Homens e ratos

Será Zinedine Zidane um jogador de futebol ou um homem? Será Zinedine Zidane um homem ou um muçulmano? Será Zinedine Zidane apenas um homem ou alguém que, por ter sido um dos melhores na sua área, merece um regime de excepção no julgamento da sua conduta?
A justiça do futebol avalia o caso e prepara uma sentença que já não o poderá atingir - porque ele já não pertence a esse mundo. Mas, pelo andar do caso, provavelmente também Materazzi irá ser condenado. Por que razão? Por ter insultado Zidane. Facto que acontece dezenas de vezes durante os jogos, note-se. Coisa habitual, lugar-comum. Mas, extraordinária coincidência, assiste-se a uma inversão na ordem natural da lei humana. Há quem considere mais grave o insulto de Matterazi do que a cabeçada de Zidane. Sendo que o primeiro ninguém ouviu, a não ser o ofendido e o ofensor, e o segundo foi visível para toda a gente.
Retórica subtraída ao raciocínio, resta apenas outro factor na equação: o facto de Zidane ser muçulmano. É que a ofensa de Materazzi foi primeiro denunciada por organizações anti-racistas, e a onda de perdão a Zidane iniciou-se aí. Os franceses desculparam o gesto irreflectido, e Zidane foi à televisão lamentar o sucedido apenas porque crianças assistiram a tudo. Será que sou apenas eu a achar a justificação de Zidane hipócrita? O que ele lamenta não é a agressão, mas sim o facto de esta ter sido mediatizada. Em privado, nem seria necessário o acto de contrição - que não o chega a ser. Será este o exemplo que os ídolos devem dar a quem os segue? Será normal esta atitude de achar que o pecado é menos grave se for praticado às escondidas?
Materazzi é tudo menos um jogador correcto em campo - tantas as vezes que ele já foi castigado por conduta anti-desportiva. E acredito que ele tenha sido especialmente insultuoso com Zidane. De resto, não gosto da arrogância italiana nem dos modos ínvios que eles têm de agir no futebol - isto é uma generalização, eu sei, mas agora fala a minha costela de adepto. Preferia que a França tivesse ganho, e que Zidane, que muito contribuiu para o engradecimento de um desporto que caminha a passos largos para uma vulgarização mecanicista - e economicista - sem emoção nem beleza, acabasse a carreira em glória; aqueles pés que pareciam falar baixinho com a bola, aquela mente que inventava espaços e criava passes impossíveis, mereciam um final noutro estilo. Não aconteceu desse modo; mas, assim como um gesto irreflectido não apaga uma carreira, também essa carreira não deve servir de atenuante no castigo da violência. E a religião é apenas uma daquelas coisas que me provocam urticária, um nó no estômago. Deus merecia mais do que estes novos cruzados; mas merecia também que ningém falasse abusivamente por Ele. Mas - já sei - a Religião nada tem de Divino - é um assunto de Homens. Lamentável.

[SL]