[SL]
09/06/06
Repetição
[SL]
07/06/06
The Divine Comedy
Neil Hannon é um dandy relutante, mas isso já sabemos. É também um pistoleiro solitário que gosta de pensar que anda acompanhado de uma banda. É o homem que baptizou o seu projecto musical a partir do poema de Dante sem nunca ter lido a obra. Falo, é claro, dos The Divine Comedy, que regressam passados dois anos com um álbum que rima com o primeiro e renegado trabalho da banda, Victory For The Comic Muse. Para celebrar o regresso, uma faixa do, quem sabe, melhor álbum deles - Casanova -, "Something For The Weekend". Risinhos de donzelas, verões ingleses anormalmente quentes, jardins onde sombras se resguardam do calor, jogos de sedução conduzidos por adolescentes desajeitados enquanto o tempo finge passar. Não liguem à letra, ouçam apenas a música para que não se perca a descrição que acabei de fazer. À distância de um click apenas, ali do lado direito.[SL]
06/06/06
As Loucuras de Brooklyn
Não me lembro da última vez que li um romance tão optimista, e não sei se isto denuncia algo de suspeito em mim ou se apenas significa que não são muitos os escritores que se dedicam aos prazeres mal-vistos da felicidade. Negro, sombras e devastação, exterior ou interior, morte e amor, amor e morte destruindo, a malvada mão do destino a intervir de forma cruel na vida das personagens, tudo características que jorram de qualquer escrito de autor que seja movido por uma mínimo de boas intenções e bom-gosto avulso. E depois, há também a inquietação e o desespero existencial, divertimento esconso cultivado desde a era industrial por uma nobre linhagem de autores que se inicia em Kleist e acaba em Ishiguro (não me peçam para explicar a consaguinidade), passando por Melville, Walser, Kafka e Beckett. Entre o grupo dos, digamos, sanguinolentos góticos, família que durante muitos anos acarinhei com fervor - recordo Poe, por exemplo, e a fantástica história da queda da casa de Usher, também Nerval ou, na poesia, Rimbaud ou Baudelaire, e a fraqueza de misturar na mesma sopa autores tão díspares tem um origem biográfica; toda a mentira pode ser perdoada se acomodar no seu seio alguma verdade esquecida -, e aqueles que passam pelo mundo rodeados de uma ampola mágica que permite ver apenas para fora, e faço a mim próprio o favor de incluir no rol Fernando Pessoa, na verdade aquele que me iniciou nos mistérios ingratos da ficção, dizia que entre estas duas trincheiras colocadas do mesmo lado da batalha existem mais semelhanças que diferenças. O que os distingue não é a essência, apenas o tom e a forma. Há outra frente, claro, a dos contadores de histórias. Os que conseguem insuflar nas palavras um sopro tão intenso que elas passam a existir por elas próprias, independentes do escritor e dos seus miseráveis sentimentos. Eça, Henry James, o fabuloso Borges, Julien Gracq, Yourcenar, Garcia Marquez e, mais recentemente, Philip Roth, Don deLillo, Ian McEwan e Paul Auster. Tudo isto para dizer que o último romance de Auster, hino improvável a um mundo que acabou no dia 11 de Setembro de 2001, não é um manifesto político nem um panfleto saudosista evocando uma mítica América, ingénua e resplandecente, um país que provavelmente nunca existiu e vive apenas no espírito dos americanos que acreditaram durante 50 anos que o caminho tomado era o correcto. É apenas uma longa história contada num serão de amigos, um conto fixando no tempo uma era. Pessoas e as suas narrativas íntimas e vulgares, eis o material que interessa a Auster. Nunca consigo deixar de me surpreender com o talento inato dos escritores americanos para a pequena História do quotidiano. Talvez o "american way of life" e o elogio da gente humilde que lhe está subentendido tenha alguma coisa que ver com esta qualidade genética. Em "As Loucuras de Brooklyn" somos felizes até ao momento em que as torres gémeas caem. Depois, um ponto final que abriga em si um monstruoso ponto de interrogação. E daqui para a frente, o quê?[SL]
Melodrama Proustiano
É um belo filme, O Tempo que Resta, o último de François Ozon. Mas não é, no entanto, um filme perfeito. Encontrei mesmo algumas cenas supérfluas (como o bar S.M.), sem continuidade (de volta ao hospital, Romain conta ao médico os sonhos que tem tido), o encontro abrupto com o casal estéril (cena redimida no encontro a três), mas encontrei também uma belíssima homenagem a Visconti e Morte em Veneza. É, de resto, um tema recorrente no imaginário de Ozon a praia, a beira-mar. De um lugar agradável (recorde-se Conto de Verão, de Rohmer, com um Melvil Poupaud contrastante) passamos, em Ozon, a cenário de perda e de solidão, neste filme como em Sob a Areia.
Mas, a cena que mais comove, tendo em conta que tudo emociona nestes últimos dias, acontece na visita de Romain (Melvil Poupaud) à avó (Jeanne Moreau). Apenas nela Romain encontra a compreensão para suportar os últimos dias. Como é dito: apenas ela está também perto da morte.
Na verdade, a Morte é a grande personagem deste filme. Perante a eminência do desaparecimento, ir ao Japão está fora de questão, há-de morrer sem lá ir porque, nessa espera deixa-se de ter futuro, deixa-se de ter tempo para concretizar sonhos ou conhecer sítios novos. Já não se quer conhecer mais nada senão o que se viveu, as experiências da infância, o melhor tempo de todos (Virginia Woolf: o único tempo onde, sem o sabermos, somos felizes). Sem futuro, resta-lhe o passado, é o passado todo o tempo que resta. Neste sentido, o filme é genial pois dá a ver o que diversos filósofos se esforçaram por ensinar. E é genial porque é perfeitamente proustiano, marcação de uma vida por todo o seu passado. No reflexo do espelho, o que se vê é todo o passado, presente sem futuro, como um passado virtual que coabita pacificamente com o presente actual.
[SV]
O fim do mundo
No outro dia, descobri o meu bonsai morto. Coberto por uma pestilência pulurenta e castanha, da base aos capilares mais finos. Procurei com minúcia a origem da doença, encontrando ao fim de alguns momentos, num dos ramos que ascendem do tronco, um minúsculo ponto negro coberto de uma pelagem cizenta quase até à transparência. Suspirei, mas não por desespero ou abdicação. Não julguem que tomei o desgraçado fim do vegetal como um sinal daquilo que se avizinha. Não ligo a estas coisas, e ninguém me poderá acusar de excessos metafísicos ou exageros transcendentais, cultivo a modéstia de opinião com o mesmo cuidado que usei durante os anos em que o bonsai se manteve vicejante. Assim aconteceu, portanto. Depois de retirar com cuidado a árvore do vaso, deitei-a sem arrependimentos no caixote de lixo e passei por água o recipiente para futuras utilizações. Lembro-me que depois me sentei pensando nas horas lentas que passei cuidando da minha companheira dos dias vazios, e esta foi a única cedência que fiz à melancolia.
Amanhã, que é hoje já, sairei de casa satisfeito e irei comprar o jornal, como é hábito, ao quiosque do sr. Fernando, e depois entrarei assobiando no café do sr. Martinho e pedirei um galão morno e claro, tão claro e quente como a manhã que transpira lá fora. Como já referi, não sei até que ponto o fim do mundo irá dificultar os planos que tinha para mais logo, pelo facto evidente de não estar determinado o segundo exacto em que acontecerá. O que está previsto é a ordem exacta dos acontecimentos: agora, julgamos ser, de seguida, deixamos de o poder julgar. Não vejo a necessidade de chorar o facto de esta simples sucessão de estados se poder estender a todos os habitantes deste mundo. Será talvez mais simples aceitar a situação, pelo menos para mim foi. Choro mais o mundo sem mim do que eu sem o mundo ou o mundo desaparecido de todo. O que é uma fatalidade inultrapassável é eu já não estar aqui e os outros continuarem. Mas não adianta gastarmos o pensamento em possibilidades improváveis, concentremo-nos nas realidades mais imediatas da existência. Beberei o café, pagarei ao sr. Martinho e irei a casa do sr. Alberto, alfaiate que conheço há longos anos e que consegue transformar qualquer banal pedaço de tecido numa obra-prima. Prometeu-me que o fato que poderia vestir por ocasião da festa em minha homenagem estaria pronto amanhã, por volta das onze horas. E sei que cumprirá, homem rigoroso e sério, apesar do humor que exibe de forma manietada.
Se por essa altura o mundo ainda persistir, encaminharei os meus passos por uma rua apertada perto do rio, onde se situa o restaurante onde combinei almoçar com o sr. Francisco, para tratarmos de pormenores relativos à anulação do meu testamento. Apesar das inquietações do meu advogado, decidi avançar com a decisão tomada; não sei que sentido fará um testamento depois do fim do mundo; parece-me, de resto, uma extraordinária contradição de termos. A quem deixar as minhas posses, se ninguém estará cá para usufruir delas? Deste modo, quando o jovem escriturário Francisco chegar com a necessária papelada, espero que traga com ele a clareza de espírito suficiente para se abster de quaisquer comentários ou inquirições redundantes. O que me parece muito provável; Francisco já mostrou, apesar da idade, possuir um espírito capaz de contrariar uma personalidade nervosa original que a juventude ainda não lhe permite disfarçar na totalidade. Os seus olhos fundos, marcados por uma sombra densa que condensa todas as limalhas de uma alma que adivinho brilhante, conseguem transmitir na perfeição a possibilidade de um futuro radioso. O que me entristece um pouco, sabendo como sei que o dia depois de amanhã será apenas um vislumbre, mais ténue que um sonho sonhado por um louco. Quase que desejo que o dia não acabe antes de me sentar com Francisco a um canto da apertada sala do restaurante, depois de apertarmos as mãos num constragimento breve, e ele retirar da pasta os documentos a discutir durante a refeição. Queria poder resistir a este sentimentalismo macio, mas não consigo. A verdade é que aprecio a eloquência do jovem, e uma última agradável conversa seria o culminar justo para uma existência marcada pelas palavras. Um capricho razoável e prazenteiro, antes que o dia acabe. Natural.
[SL]
04/06/06
Saramago e Pulido Valente
Deste modo, Pulido Valente divulgou em público o convite que lhe foi endereçado aproveitando para aplicar o habitual correctivo. Ora, Vasco Pulido Valente tem estilo; e tem, sobretudo, sentido de humor. Se lhe vigiarmos com atenção aquele permanente estado de vigor colérico, notaremos uma certa distância e ironia que lhe permite estar a salvo de qualquer beliscadura. O sacana, porque escreve muitíssimo bem, pode dar-se ao luxo de ignorar olimpicamente as respostas à suas provocações, arrasar figuras públicas, trazer à contenda argumentos falsos ou falaciosos sem correr o risco do contraditório. Há outros que também sofrem dessa qualidade, mas ninguém o faz com tanto estilo como Pulido Valente. Saramago é outra história. O homem, quem o pode negar, tornou-se amargo com a idade. Não que alguma vez tivesse sido a imagem da bonomia; aquele ar austero de agente funerário não engana ninguém, é bom de ver. Mas o passar dos anos azedou o leite onde ainda poderia fermentar alguma esperança de desprendimento. Nada feito, ele é comunista e ninguém o poderá convencer de que este mundo poderá ter alguma espécie de salvação. Caminhamos para o caos da cegueira branca. Poder-se-ia dizer que Pulido Valente se assemelha nos maus fígados, mas se eu ousasse tal coisa lá se ia a argumentação por água abaixo. Para o que der e vier, Pulido Valente não está zangado com o mundo, simplesmente está profundamente amuado com o brinquedo que lhe deram para brincar, este belo país à beira-mar plantado. Onde Saramago é deselegante, ignorante e horrorosamente burro, ao ponto de conseguir que José Manuel Fernandes, esse casto paladino do neo-liberalismo, pudesse ter dito que o escritor é elitista, Pulido Valente é cáustico, verrinoso e profundamente certeiro nas críticas. Ele não disse que a leitura é uma actividade elitista; afirmou que a maior parte da sua geração não lê porque não se dá ao trabalho. Ele não sugeriu que motivar para a leitura é um esforço vão; mas apontou as falhas no Plano, as incongruências, sem precisar de mostar alternativas. O estilo basta-lhe. E isto faz toda a diferença.
Eu sei que será demasiado exigir a um esquerdista que tenha sentido de humor, mas, no mínimo, o que se pede é alguma lucidez. E vergonha. Vergonha de quem cresceu num ambiente rural e apenas conseguiu acabar o antigo liceu, e mesmo assim se veio a tornar um, apesar de tudo, bom escritor. Repito, bom escritor. Nunca de génio, e quem sabe se o seria se por um acaso na meninice um qualquer Plano Nacional de Leitura tivesse sido implementado em seu favor. Mas isto é já sonhar alto.
[SL]
Mudanças
Caro Luís, após ampla - mentira, não foi nem um minuto - meditação sobre o assunto em mãos, intercalada por alguma leitura blogosférica avulsa em busca da "palavra perfeita", neste caso se por palavra entendermos o estilo e tamanho certos, acedemos à sugestão (não ligue ao "nós" majestático) e aumentámos o tamanho do texto, não esperando com esta mudança diminuir em nada o estilo (ou a falta dele) e, por outro lado, manter a absoluta falta de rumo neste blogue. Mais acrescentamos, e agora estendemos a mão à restante audiência (?), que a partir deste momento, exactamente agora, passaremos a contar neste blogue com os préstimos a tempo inteiro de Susana Viegas, quando, como e onde lhe aprouver, sonhando desde já com os tempos idos em que caminhávamos sós em direcção a sítio nenhum. Se por uma desgraçada má-sorte tivéssemos dado em políticos, estaríamos neste momento a negar de forma cobarde a cedência a pressões exteriores na tomada de decisões. Não é o caso. E ainda bem.[SL]
02/06/06
Tristeza e desencanto
Estar
I think about life
and I think about death
and neither one particulary appeals to me
The Smiths