Miccoli para Miccoli
Imagem do dia: Fabrizio Miccoli a desmarcar-se para receber um passe feito por ele próprio, e a chegar atrasado, saltando por cima do guarda-redes do Setúbal.
Imagem do dia: Fabrizio Miccoli a desmarcar-se para receber um passe feito por ele próprio, e a chegar atrasado, saltando por cima do guarda-redes do Setúbal.
Para abrir as hostilidades na frente sonora, os Art Brut, que na semana passada deram um concerto em Leiria. Pós-punk pensando-se a ele próprio, diversão com sentido, uma ironia nas letras que evoca, por exemplo, uns Lemmon Jelly, mas sem a harmonia pop destes. Ali ao lado, na barra dos links. Será que ouvi falar em Franz Ferdinand?
A unanimidade lusitana em torno do Barcelona de Ronaldinho começa a enjoar. Compreendo a súbita adesão dos três milhões de portugueses que não são do Benfica, ainda que esta se tenha limitado a um arco temporal de duas semanas; no entanto escapa-me a razão da persistência do fenómeno. Olhemos para o jogo de ontem, por exemplo. Uma ressalva, antes de mais: o modo de jogar italiano, espreitando o erro dos adversários, expectante e cínico, está longe de me tocar o coração. Ainda assim, prefiro a eficácia italiana ao jogo feio dos alemães, por exemplo. Compare-se os jogadores mais importantes de um e de outro país para que se perceba do que estou a falar: a Alemanha teve Beckenbauer, Rummenigge, Klinsman, Mathaus e Sammer, e agora parece que tem um dos mais sobrevalorizados jogadores europeus, Michael Ballack; a Itália conseguiu mostrar ao mundo jogadores como Paolo Rossi, Baggio, Mancini, del Piero e os dois melhores defesas dos últimos 20 anos - Baresi e Maldini. O rigor do cattennacio conseguiu sempre guardar um espaço para a criatividade dos génios. Lembre-se apenas que até o melhor jogador de sempre (aquele cujo nome preferimos omitir) passou por Itália.A hermenêutica do discurso político – quase sempre dúplice ou múltiplo e todas as vezes furtivo – pode tornar-se um espinho difícil de retirar da pele; e aplico a palavra no seu sentido mais literal: é que dói perceber determinadas coisas. Por exemplo, o discurso do 25 de Abril do nosso excelentíssimo presidente. Atente-se primeiro nas reacções, percorrendo de seguida o caminho contrário até à retórica debitada na Assembleia. Na esquerda, o BE desconfia, o PCP desconfia e recorda algo de que, com toda a certeza, Cavaco Silva não gostaria de lembrar, os Verdes papagueiam a voz do dono, o PS aplaude. Como disse, o PS aplaude?! Claro, "um discurso fundamental, apropriado à data comemorada, o discurso de união que se espera da figura mais importante da nação. Cavaco Silva conseguiu, com este discurso, defraudar completamente as expectativas, tanto da esquerda como da direita. Sócrates gagueja e vacila, afirmando positivamente o pendor social das medidas até agora avançadas pelo governo, desviando a atenção da tendência neo-liberal que até agora tem sido marca da legislatura. Não poderia reagir de outro modo; Cavaco foi eleito com o apoio do pleno da direita e subiu ao poder com responsabilidades acrescidas: contentar quem o elegeu, equilibrando a eventual deriva esquerdista do governo, e ao mesmo tempo concretizar o ambicioso programa intervencionista que muitos apoiantes esperavam dele. Quando ouvimos Marques Mendes concordar com o discurso de Cavaco, quase sentimos a garganta engolir em seco, o sapo atravessado de quem, um dia antes, criticara o governo por estar, de acordo com as últimas notícias da OCDE, a não cumprir o prometido em relação ao esvaziamento do défice e ao crescimento da economia. O que o líder do PSD não pode deixar de fazer é defender o emagrecimento do Estado como forma de combater o défice excessivo, e não porque lhe esteja nos genes, este liberalismo anti-natura; quem pensa a direita quer que assim seja, e julgo não estar errado ao achar que o querem contra o desejo da maior parte dos portugueses, votantes do PSD incluídos. Combater privilégios adquiridos pode ser uma faca de dois gumes; se a promessa se mantiver em abstracto, é positivo, mas quando o português começa a ver o Estado mexer nos direitos adquiridos, aqui d’el rei! Prudência nesta matéria é portanto sempre obrigatória. Marques Mendes, que é esperto, sabe disto.
Voltando atrás, Marques Mendes engole em seco – sem que ninguém repare, note-se -, Sócrates retrocede e mente, afirmando a sua costela esquerdista para além de qualquer dúvida, Manuel Alegre aplaude e engole também um sapo, e Ribeiro e Castro finge que o discurso tem alguma coisa a ver com a democracia-cristã que, supostamente, é a ideologia base do partido que ele julga liderar, e também elogia. Belo. Soares mostra a carranca, e nem os patos do costume conseguem grasnar suficientemente alto para se fazerem ouvir na abertura dos telejornais. E na fonte, o que podemos sentir, o que significam realmente as palavras de Cavaco? Optemos pela hipótese menos plausível: Cavaco é sincero. Cavaco não mente. Cavaco tem mesmo o seu coração à esquerda, e acredita na retórica que lhe escrevem. Contra o seu passado como primeiro-ministro ou provando o seu passado como primeiro-ministro – a adversativa aqui tem razão de ser; os seus apoiantes dizem que Cavaco sempre foi de esquerda. Os detractores discordam. – Cavaco é o travão que pode pôr cobro a qualquer tendência liberal do governo PS. Vicente Jorge Silva, no DN, surpreende-se e afirma mesmo que este é o discurso mais à esquerda, mais certeiro, dos últimos quinze anos. E isso inclui Sampaio e Soares. Cavaco rejubilaria, se acaso lesse jornais.
As outras hipóteses, mais prováveis, são de excluir nesta questão? Cavaco mentiu, não sente aquilo que disse. E por que o faria? Que sentido faria a mentira num presidente que acabou de ser eleito e tem uma ou duas presidências pela frente para provar algum ponto que queira provar? Penso em algo diferente, devaneio um pouco e imagino Aníbal sentado no conforto do seu Palácio de Belém, rodeado de Maria e dos seus adoráveis netos, sorrindo naquele modo muito especial que ele tem de sorrir, provinciano e humilde, de homem que conseguiu subir a pulso na vida. Imagino-o a pensar nos seus pais, lá em Boliqueime, olhando com orgulho para o televisor, ouvindo o filho pródigo discursar, escutando o elogio quase unânime dos seus antigos adversários. Imagino-o a sentir o peito inchar de vaidade ao pensar nos pais achando que, apesar de ter subido alto, não se esqueceu do berço de madeira onde nasceu. Há muito de verdade neste súbito devaneio, mas também há alguma mentira. Mas quem saberá distinguir ao certo qual é qual, na ficção como na política?
Quando alguém me dizia, há uns dias atrás, que começa a deixar de fazer sentido comemorar o 25 de Abril de 1974, e que cada vez mais a memória se vai tornando um privilégio de alguns e o benefício de poucos - os anos passam, e a vida foi-se tornando cada vez mais rápida e inalcançável -, entrei na dança do desconsolo e da amargura. Eu, que não sou velho, e por isso não posso ainda sentir a vantagem de interpor alguma margem de distância entre o agora e o passado - modo rebuscado de descrever essa tão lusa coisinha, o saudosismo - entrei na dança. E a sessão de lamentos e arrependimentos durou alguns minutos, até se ter naturalmente esgotado o naipe de reclamações a debitar. O que é o 25 de Abril? Para além das óbvias chalaças, e nem sequer me refiro àquele sketch do Herman em que vemos Miguel Guilherme a mudar um calendário em que todos os dias são 25 de Abril, não passa de uma data que velozmente resvala para o esquecimento colectivo; essa zona de ninguém onde agora repousam o 5 de Outubro, ou o 1 de Novembro ou outras que já nem sequer são lembradas pelo calendário dos feriados. O que é o 25 de Abril? Uma possibilidade de ficar em casa, um feriado. Sem desencanto, por favor. É esta a ordem natural das coisas. Quem ainda celebra os "amanhãs que cantam", sejamos sinceros, são aqueles que ainda sonham com as oportunidades que outra data, o 25 de Novembro, roubou. Amanhã, no desfile da avenida, estarão de alma e coração os mesmos de sempre: o PC. Os outros vão lá para serem vistos. O BE, algum representante transviado do PS, os populares que recordam com saudade a festa (atenção, verdadeira e sem cinismos) que se fez há 32 anos. E os capitães, claro. Deste modo, os que celebram são aqueles que mais razões têm para achar que as promessas da revolução não se cumpriram. A democracia não é, porém, uma palavra que deixe muito espaço para relativismos, ao contrário do que muitos apregoam. Ou há, ou não há, e isso sente-se na pele, sente-se de coração. Para todos. Universal. Mesmo que seja uma ilusão, uma bela maneira de esquecermos que viver preso a uma série infindável de regras, deveres e obrigações e ainda assim acharmos que o voto conta, é o que mais se aproxima da ideia de felicidade. Enquanto não chegar outra revolução que tome o lugar que a última ainda ocupa nos espírito de um país que cada vez mais se esquece da alegria que hoje se evoca. Para o bem e para o mal, é este o resultado do esforço de tantos. Celebrêmo-los.
Lia no outro dia uma crónica de Pedro Mexia - não preciso de elogiar o livro onde a li, "Primeira Pessoa" - onde ele falava da descoberta de Bob Dylan, e da vontade que sentiu de comprar uma guitarra e tornar-se singer-songwriter, inspirado pela figura de voz roufenha que o iludira. Iludira, porque o convencera de que, para se ser músico, o esforço é mínimo, e, para se ser génio, basta um pouco de sorte e o timing certo. Não sei se Mexia começou a gostar de Dylan antes ou depois de Kurt Cobain, um ídolo para outros tempos, condenado a deixar de o ser com a chegada da idade adulta. Falo por mim, de resto. Também julguei, a determinada altura, que bastava saber tocar três ou quatro acordes para se fazer música, e tinha os Ramones ou os Sex Pistols para o provar. Não será caso para lamentar o engano. E, de qualquer modo, continuo a achar que a simplicidade pode ser o melhor caminho para a genialidade pop. Ou a aparência de simplicidade. Tudo isto para falar dos Kings of Convenience, que vão à Aula Magna no próximo sábado. Duas guitarras, letras de um lirismo ingénuo, duas vozes dissonantes, perfeição para dias de sol numa sala escura. (Também) com Dylan presente. E muito mais interessantes que um Devendra Banhart, por exemplo. Lá estarei.
Quase que nem vale a pena repetir aquele lugar-comum que diz que, de cada vez que revisitamos um filme de que gostámos (ou um livro, ou um disco) encontramos qualquer coisa que nos tinha escapado antes. No caso de "O Padrinho", escapou quase tudo. Vi, portanto, pela primeira vez, como se toda a iconografia pop associada ao filme nunca me tivesse passado pelos olhos; a cabeça do cavalo, os atiradores na portagem, o casamento revelando em cada detalhe o microcosmos onde se movem os gangsters. E Marlon Brando, reinando sobre tudo, sobre todos. A sequência da morte de Don Vito Corleone, a dança da câmara tentando acompanhar cada gesto, cada movimento, cada esgar do rosto do actor, o notado esforço de Copolla, do olho da câmara em busca de um corpo que transcende a personagem que compõe, é um daqueles portentos que nos podem fazer acreditar no poder redentor da arte, e lamento uma vez mais o cliché. Brando improvisa; improvável aposta de probabilidades reduzidas, que apenas um jogador de nível superlativo pode acompanhar. Copolla dança com Brando. Al Pacino - grande actor - parece que também anda por lá. O pau-de-cabeleira excedentário.
Deve haver uma alternativa no caso da sucessão de João Bénard da Costa como presidente do Museu do Cinema. Entre os defensores do legado indesmentível que consideram o cargo vitalício (uma licença especial) como se de uma fundação privada se tratasse, e os comentadores menos certeiros da atitude conservadora de Bénard da Costa, devemos avaliar a função do Museu do Cinema em Portugal. Para lá dos dogmas criados à volta do cinema, com determinados realizadores acima de qualquer crítica criando amizades e ódios eternos, encontramos na Cinemateca uma escola viva de história do cinema e não um expositor caquéctico de filmes a preto e branco. Como não louvar a iniciativa (se bem que casual) de acompanhar ao piano clássicos como La Passion de Jeanne D’Arc, por exemplo?
Domingo passado. Leio com interesse ameno no início, espanto a meio, alguma exasperação no final, a entrevista de Maria João Seixas a J. Pinto da Costa na revista Pública. O que me cativou de imediato a atenção foi uma fotografia, espantosa, de Augusto Baptista, um preto-e-branco de um velho caminhando na moldura de um corpo de árvores que se entrelaçavam formando um arco irreal de luz e sombra. Quase que me permito adivinhar o local exacto, a alameda dos Liquidambares, em Serralves - permito-me achar que sim. A entrevista fala de morte. E de envelhecimento. A actividade de Pinto da Costa, director do Instituto de Medicina Legal, assim a conduziu. A ideia não será exactamente original; quem, de entre nós, poderá conhecer de modo mais exaustivo e directo o assunto? Sabemos, e o médico-legista confirma-o, como são necessárias certas ferramentas para enfrentar esse horizonte que limita a existência. Quem a isso é obrigado, por defeito profissional, defende-se usando o desprendimento de toda a metafísica; um corpo é apenas um receptáculo, um instrumento de análise, uma coisa que imita palidamente algo que já não é. A sabedoria que se adquire com este rigor frio de legista é, quase sempre, um estado de graça inalcançável para o comum dos mortais. A determinada altura da entrevista, Pinto da Costa não percebe mesmo o sentido de uma questão de Maria João Seixas, quando esta lhe pergunta sobre o que vem após o fim. Ela fala de metafísica, da alma, e ele responde falando de física, da mecânica do ritual indeciso entre o enterramento e a cremação, do corpo. Os cientistas conseguem disfarçar de forma admirável o medo. Que eu não duvido que eles também sentem, apesar de, por momentos, ter acreditado no modo como a questão foi colocada por Pinto da Costa: morremos a cada momento, cada dia é um dia mais em que somos obrigados a agradecer a continuação da vida. Assim, a morte é obrigada a recolher-se, desaparecer. Bela ideia, e como todas as belas ideias, uma utopia. Escondemos a morte, temos vergonha dos velhos e do envelhecimento. Ponto em que insiste o entrevistado. Quando olhamos para o modo como, por exemplo, está a ser tratado o afastamento de João Bénard da Costa da obra que ele alimentou e ajudou a crescer durante vinte anos, apenas podemos concordar tristemente com a conclusão de Pinto da Costa. A idade de reforma é uma forma que as sociedades modernas encontraram de matar a velhice e os valores que lhe estavam associados: a experiência, a sabedoria, o culminar plácido de uma vida. Fazemos aos nossos velhos o que, um dia, será feito a nós, pelo menos enquanto não se encontrar uma forma mais higiénica de varrermos para debaixo do tapete a pior das imperfeições, a velhice. No fundo, queremos não lembrar a imparável marcha do tempo. Tornámo-nos reféns de uma aterradora cobardia. Vivemos.
Bela primeira página do Público, a Pietá segundo Delacroix, de Van Gogh. Sexta-Feira Santa. Famílias perdidas num meio-termo entre uma religiosidade em perda e um materialismo cada vez mais absoluto e desregrado. O sentido que um ateu em construção pode encontrar nestes feriados apenas pode decorrer da estética que a eles está associada. E a memória é também uma questão de estética, neste caso. Recordar o horror mínimo que as reuniões familiares me provocavam não é uma verdadeira opção; é um trauma. Mas a estética da memória pode evocar prazeres que, à partida, estão vedados a quem se limita a passar pelo presente sem ter a corda do passado presa ao pescoço. Olhar um quadro, ouvir uma composição musical, ler um livro. Recorrer à obrigatória memória e passar o objecto sentido pelo seu feroz crivo. Escutar a Paixão segundo São Mateus tendo presente a primeira vez que a ouvi ao vivo; ver o quadro de Van Gogh estampado na primeira página de um jornal e achar que, apesar do pouco interesse que no presente o pintor holandês me desperta, foi um feliz acaso ele ter aberto o caminho que me levou ao conhecimento dos grandes que o antecederam. O Delacroix citado. Rembrandt. Rafael. Caravaggio. Miguel Angelo. A reconversão da religião em matéria estética surge no percurso de um ateu do mesmo modo que o regresso da pintura ao seu pedestal de objecto de devoção acontece na vida de um crente esteta. Adoramos os quadros na exacta medida em que acabamos por odiar a religião e os fanatismos que lhe estão associados. Bem, talvez esta apropriação da primeira pessoa do plural seja abusiva. Falo por mim, evidente. Conheço quem se tenha desinteressado da pintura renascentista precisamente em consequência da aproximação desta ao desprezado sagrado. Esses esquecem que a arte sempre foi um meio de confrontar a ordem estabelecida, mesmo quando na aparência segue os modelos e as regras definidas pelo poder vigente. As poses eróticas das virgens pintadas no Renascimento, os adolescentes pré-púberes de Caravaggio, os rostos de devoção que se confundiam com o facies do espasmo amoroso, será possível maior subversão do que a dos artistas que trabalhavam para a Igreja e patronos católicos?