28/07/07

D. H. Lawrence

Um excelente exemplo (em dois parágrafos) de má literatura, complacente, instrumental, esperando mais do leitor do que deleite estético:

Sentiu-se de novo invadida por uma onda assustadora da inutilidade cinzenta e fragmentada de todas as coisas. [Virginia Woolf transmitiu esta sensação de forma muito mais certeira centenas de vezes]. Aqueles seres [expressão de um paternalismo insuportável] constituiam a massa industrial [cliché socialista e duplamente paternalista], os outros que ela conhecia, as classes dirigentes, não havia nenhuma esperança... já não havia nenhuma esperança [o tradicional pessimismo pequeno-burguês em que os convertidos se especializam]. E mesmo assim queria um filho, um herdeiro para Wragby! [O ponto de exclamação, claro, o maldito ponto de exclamação].
E Mellors vinha daquilo também. Tinha-se emancipado, como ela, mas dentro dele não havia fraternidade [chavão], tinha morrido. Sim, o sentido de fraternidade tinha morrido dentro dele, só existia isolamento e desespero, em relação a todas as coisas [redundância, exagero estilístico, e por aí fora]. E isto era a Inglaterra, a imensa magnitude de Inglaterra. E ela sabia-o, porque a tinha atravessado desde o centro.

O problema é que as origens de Lawrence não facilitavam o completo entendimento da mentalidade da aristocracia que retrata, e por isso facilmente cai no lugar-comum da burguesa contaminada por ideias socialistas de emancipação feminina e revolta da classe trabalhadora. Virginia Woolf, em "Mrs Dalloway", aproxima-se muito mais deste idealismo derrotado das classes letradas, do seu eterno complexo de culpa mal fermentado. Isto é o conteúdo temático. A forma não é melhor; o exagero romântico aproxima a prosa da literatura de cordel, ou quando muito de uma Jane Austen sem sentido de decoro. As descrições das condições de vida dos mineiros, embora eivadas das melhores intenções, não se aproximam do sentido de emergência trágica de Charles Dickens, por exemplo. Apesar da pretensão realista, aos olhos de um leitor do século XXI a prosa de D. H. Lawrence não passa de um acumular de preocupações ultrapassadas, envoltas num estilo romântico que consegue tornar desfasado o realismo pretendido. A literatura que perdura vive do poder da fábula, do talento do escritor em tornar o particular universal. Pegar em sentimentos, desejos, ideias corriqueiras, de maneira a chegar ao maior número de leitores possível, e transcender a temporalidade de cada vida. Por exemplo, apenas num ensaio, "Um Quarto que Seja Para Si", Virginia Woolf fala explicitamente dos direitos das mulheres, das suas aspirações e desejos. Mas em todas as suas obras de ficção, a principal ideia que passa é essa. Mas ao tornar a demanda feminina um problema existencial, uma busca de liberdade universal, conseguiu fixar a sua obra no tempo - sem falar, claro, dos aspectos estilísticos, a "corrente de consciência", etc.
A literatura não precisa de revoluções para se impor à eternidade. Basta-se a ela própria; na verdade, apenas consegue mudar a sociedade se se conseguir estabelecer por si própria. "1984" é uma obra-prima porque não diz que regime retrata. Apesar das conhecidas ideias socialistas de George Orwell, ele conseguiu resistir à evidência e construiu uma fábula que chama a atenção para os perigos de qualquer ideologia totalitária, seja de direita ou de esquerda. Enquanto continuar a gerar leituras contrárias, será um livro eterno. A literatura auto-suficiente.

(A versão citada de "O Amante de Lady Chatterley" foi publicada na colecção Mil Folhas, do Público, e é uma tradução de Maria Teresa Pinto Pereira.)


[Sérgio Lavos]

27/07/07

Lady Chatterley

O melhor de "Lady Chatterley", de Pascale Ferran, é o modo como consegue superar em quase tudo o romance que adapta. Aquilo que em D. H. Lawrence é moralista quase que desaparece, com a excepção de uma outra referência às condições dos trabalhadores das minas, alusões mais ou menos subtis à diferença de classes entre Constance Chatterley e o guarda-caça, e a afirmação da vontade masculina, paradoxal no contexto dos intentos do romancista, que Parkin (Mellors na versão final do romance) insiste em reafirmar. Na melhor sequência do filme - o passeio nu pelos bosques - a intensa beleza das imagens faz-nos esquecer das questões que tanto interessavam a Lawrence, os "grandes temas". E aquilo com que ficamos é um homem e uma mulher que se amam, e que conseguem usufruir do seu amor numa liberdade absoluta, sem os laços sociais que reprimem a livre expressão do desejo. A expressão de um panteísmo amoroso a que apenas um duro regresso à realidade põe fim. No romance de Lawrence, estas são também as páginas mais conseguidas; apesar das sentenças moralizantes, de um pendor ideológico marcado, a cada parágrafo; apesar do cliché da burguesa entediada que trai o marido com o criado (e a partir de uma premissa semelhante, Evelyn Waugh fez maravilhas em "A Handful of Dust"); apesar da pobreza estilística dos momentos mais descritivos, das confrangedoras descrições dos actos sexuais em que os dois amantes se envolvem.
O silêncio é a grande vantagem do filme de Pascale Ferran. Ao ponto de achar que a voz-off pontual e os entretítulos são redundantes. Quando Ferran cala a voz tagarela de Lawrence, acerta. A direcção de actores é impecável, aproveitando ao máximo a expressividade e o contraste entre Marina Hands, bela, confiante e feminina, e Jean-Louis Coullou'ch, algures entre a dureza do "bom selvagem" de Rousseau e uma fragilidade de animal acossado pelo amor de uma mulher. As comparações com "Intimidade", de Patrice Chéreau, não são despropositadas. Eu, curiosamente, lembrei-me de "O Piano", uma versão alterada, ou pelo menos vagamente inspirada, do romance de D. H. Lawrence - a começar no facto de ambos os actores, Harvey Keitel e Coullou'ch, contrariarem invejavelmente o esteorótipo da beleza masculina. Será coincidência ser também uma mulher, Jane Campion, a realizar este filme?
Sobretudo, este é um belo filme sobre a natureza sexual primitiva do Homem. Sobre o modo como essa natureza actua sobre as paixões humanas. E sobre a dificuldade que é resistir à pressão das convenções sociais que espartilham este desejo essencial de liberdade. Não é pouco.

[Sérgio Lavos]

Battles




Realizado pelo fotógrafo Tim Saccenti, o vídeo para Atlas é uma excelente apresentação dos Battles (Mirrored) cuja organização do espaço interno faz, de algum modo, lembrar as jaulas que centram as figuras nos quadros de Francis Bacon. Tim Saccenti optou por filmar num estúdio de fundo preto, o que faz realçar o espaço caótico da acção permitindo, além do mais, um efeito especial natural: o vidro transparente torna-se espelho reflectindo a banda nas paredes espelhadas. Esta transitoriedade possibilita a montagem de diversas perspetivas do espaço, numa série de refracções acentuadas pelas imagens espelhadas.

[Susana Viegas]

26/07/07

The National

Matt Berninger, compositor e vocalista dos National, escreve como um tipo novo com alma de velho. Amigos e mulheres que passam, pormenores que ficam gravados na memória, arrependimentos, obsessões sentimentais, neuroses de adolescente e vagas fantasias sexuais. Tudo matéria já antes tratada pela música pop. Mas a novidade não está aí. Nem sequer na elegância das referências musicais - Joy Division menos minimalistas, Tindersticks com mais veia rock, Leonard Cohen com um maior sentido de ritmo. As letras de Berninger cruzam referências várias com uma ironia desarmante, contribuindo para uma certa aura de romântico cínico. As metáforas, entre o constrangedor e o surrealista, são o cimento que dá consistência aos episódios de amor desencantado. E depois, há a bateria de Brian Devendorf, que não se limita a estar lá, a acompanhar os outros músicos. Não há grande música sem excelentes músicos - e as letras e a voz eloquente de Berninger não seriam nada sem os ritmos de Devendorf. E o melhor do álbum é que leva o seu tempo a crescer dentro de nós. Como os melhores vinhos. Vintage 2007.

D.J. Irmão Lúcia, ouve este álbum mais do que uma vez seguida. Depois falamos.


[Sérgio Lavos]

Movimento

Não há sangue e mortos na sala de cinema quando saio. A realidade continua a passar fora do ecrã, imune à violência. A vontade que tenho, ao entrar, é de apenas ver um filme. Um filme não salva a vida (nem redime o cinema). O tempo que separa cada filme é necessário para valorizar o que se vê. A espera é fundamental. Há quem consiga que o tempo entre cada filme se estenda; há quem não passe um dia sem as duas horas em que a outra realidade actua. O filme incendeia o escuro da sala e regista algum tempo de vida de pessoas que nunca mais iremos ver. Vida que toca a vida do lado de cá. Imagens fixando o movimento na memória. Memória em movimento.

24/07/07

Stuntman Mike


Pam: Are you sure it's safe?

Stuntman Mike: It's better than safe. It's death proof. [as he drives] Hey, Pam, remember when I said this car was death proof? Well, that wasn't a lie. This car is 100% death proof. Only to get the benefit of it, honey, you really need to be sitting in my seat.

É impossível resistir às falinhas mansas de Stuntman Mike (Kurt Russell), o duplo enlouquecido que tanto seduz miúdas com idade para serem suas filhas como é implacável a exterminá-las. E o sádico ainda consegue chorar com medo...
O filme em si não vem acrescentar muito à filmografia de Tarantino: mantém-se o pastiche, a auto-citação, o malabarismo de géneros cinematográficos e a homenagem a uma história pessoal do cinema. Os diálogos serão inferiores (mas era essa precisamente a ideia!) em relação a outros filmes dele mas a banda sonora e a montagem (poderosa nas sequências do choque e da perseguição de carros) continuam irrepreensíveis. Não compreendo por isso os discursos mais cépticos, um pouco azedos até, que afirmam a decadência da sociedade e o fim do cinema.

[Susana Viegas]

22/07/07

Death Proof

O cartaz é do grande Frank Miller e o filme é do enorme Quentin Tarantino. Ainda voltarei aqui para explicar por que razão é que este é mesmo um filme como já não se faz, e desse modo confirmar que Tarantino é o melhor realizador surgido desde os anos 90 (David Lynch é dos 80). E reflectir (ah!) um pouco sobre os textos dos dois críticos, dois, do Expresso que não gostaram do filme porque o acharam vazio e tal, citando, en passant, a flor na lapela Baudrillard; nada como ensinar o que é a vacuidade usando da prática - insuflar de tal modo a recensão de texto alheio, deixar um rasto de autor francês visível a quilómetros de distância e queixar-se, sem o mínimo gesto de auto-ironia, do excesso de citações do realizador que se critica. Brilhante. Regressarei.

[Sérgio Lavos]

20/07/07

Literatura e fantasma (2)

Curioso é que, actualmente, a maior parte dos escritores fantasma se entretenha a desaparecer nos E.U.A. Esta verdade não indica uma mudança nos hábitos do escritores americanos, nem, sequer a perda de um hábito dos europeus. Não há assim tantos escritores que se tenham dedicado ao silêncio ou ao desparecimento, para espanto de quem os admira. A obsessão de Enrique Vila-Matas, por exemplo, tem muito de inveja mal-disfarçada. Ao auto-retratar-se em "O Mal de Montano", pouco subtilmente, o escritor catalão mostra mais do que admiração por Robert Walser: ele não nega, de resto, que desejava ter a coragem do escritor suiço. Mas será a loucura um acto de coragem?
Mas, a América. Tenho para mim que a razão de, actualmente, os ilustres representantes dessa raça de criadores malditos serem quase todos americanos, se deve a dois factores: o actual predomínio cultural desse país no mundo (basta comparar com o tempo de esplendor intelectual que a França vivia a quando da desistência de Rimbaud); e, mais agudamente, a influência do cinema no imaginário de toda uma geração de criadores. Aliás, o cinema também tem a sua dose de excêntricos reclusos: de Kubrick a Malick, a Francis Ford Copolla (que, reparem não faz um filme para aí há dez anos, e não me apetece googlar esta informação), abundam os exemplos. De outro modo, o cinema tem-se interessado por estas personagens exaustivamente. O escritor que se cala, que escreve um romance e não dá mais notícias ao mundo. Ora, este tipo de interesse apenas pode levar à continuação deste estado de coisas. Enquanto alguém se questionar sobre o paradeiro do escritor silencioso, este continuará na sua, alimentando especulações e sobretudo construindo um mito, contribuindo para o empolamento da sua obra.
Imaginemos um cenário: Thomas Pynchon aparecendo em todo lado a cada livro novo, entrevistas, recensões, idas a programas televisivos, enjoo infernal (pensemos, por exemplo, em António Lobo Antunes multiplicado por mil, o universo americano), Pynchon omnipresente, Harry Potter para as massas intelectuais deste mundo. Quantos de nós não desistiriam de o ler (e não é difícil, tendo em conta o tamanho crescente das suas últimas parições)? Porque o preconceito é um belo sentimento: não lemos porque todos lêem.
Enquanto o cinema americano se interessar por este clube, eles vivem. Para bem da perpetuação dos nossos mitos.

[Sérgio Lavos]

Literatura e fantasma

O mito do escritor recluso não interessa apenas a outros escritores ou a leitores com pretensões de escrita. Compreende-se, de resto, que os primeiros se fascinem com o mecanismo que o acto criativo envolve - sendo o acto de escrita e de publicação na essência uma acto de exposição, o que leva alguns escritores a não se mostrarem, a recusarem algumas etapas do processo de publicação, a entrevista, a sessão de autógrafos, o "aparecer" de maneira a vender o livro? Parece evidente, contudo, que o acto de não aparecer também possa ser uma manobra de marketing - para além de uma extraordinária ego-trip. A criação de uma persona não é um aspecto a menosprezar no escritor. Há alguma criatividade no desaparecimento de J. D. Salinger, e há bastante mistificação no jogo do esconde-esconde de Thomas Pynchon. Mas a coragem também desempenha o seu papel, até porque muitas vezes o escritor sofre de uma insuportável lucidez, que lhe permite vislumbrar a medida da sua importância, não só no conjunto de todos os escritores como, principalmente, no mundo. Um escritor pode ser uma de duas coisas: ou um pavão mediático que quase sempre vale menos do que aquilo que as suas penas apregoam, ou um verdadeiro criador, que pode ou não sujeitar-se ao exercício de existir para além dos livros que escreve. Cormac McCarthy, há bem pouco tempo, emergiu da condição de figura maldita e foi entrevistado por Oprah Winfrey, o que de modo nenhuma desvaloriza o conjunto da sua obra ou em particular o livro que publicitava. Quanto muito, destruiu um pouco o mito: e o mito muitas vezes vale mais do que a obra em si. Paul Auster é outro exemplo recente deste ensaio com o vazio, apesar de ninguém o ter levado a sério: disse numa entrevista que nada mais tinha a dizer ao mundo. Até ao próximo livro (ou filme), acreditamos.
O problema é: a quanto de encenação é que se deve a admiração que um leitor pode ter por um escritor? Desaparecer é sempre aparecer num lugar diferente: quando imaginamos a vida de Salinger depois da sua decisão, estamos a criar uma história nova. Prescindimos de notícias do mundo dos mortos - a nossa história será talvez mais interessante do que qualquer mudança na realidade. Fala-se de mitos por muito menos do que isto.

[Sérgio Lavos]