31/07/06

O Verão

Quando saí da sala de cinema, pensei num sítio agradável para se estar com algum tempo, lendo o jornal ou um livro, fumando um cigarro, ignorando a urgência das horas. Não que o filme (A Lula e a Baleia) me tenha causado uma impressão duradoura. Rara é a vez em que saio para o dia um pouco diferente por dentro, mas não sei se o defeito é meu - excessivo rigor ou escolhas dúbias - ou se é apenas a normalidade a funcionar como sempre: em cada ano, talvez apenas cinco ou dez filmes se fixarão na memória, talvez menos. A mediania da obra - repetindo os clichés de um certo cinema americano recente, desde Wes Anderson até Todd Solondz - evita que se escreva muito mais sobre o assunto.
De qualquer modo, não era sobre isso que queria escrever. Queria antes falar da escassez de casas em Lisboa para se fazer uma coisa tão simples como beber um café e ler o jornal demoradamente, sem correr o risco de sermos apressados pelos novos clientes que chegam ou incomodados pelo volume de ruído ou a agressividade de uma sala cheia de fumadores. O meu fumo, prefiro que seja o mais solitário possível. O ideal seria eu poder fumar em salas para não-fumadores, quase vazias, duas ou três mesas ocupadas, um casal discutindo baixo, uma mulher solitária escondendo os olhos num livro que podia ser "A Espuma dos Dias" ou um volume dos contos escolhidos de Raymond Carver, as pernas cruzadas por baixo da mesa espreitando do joelho para baixo, saia suficientemente comprida para um espírito púdico, curta quanto baste para sugerir o desejo.
(Lia há uns tempos um historiador a falar dos passeios da Avenida de há cem anos atrás, por onde cirandavam homens tentando surpreender num palso em falso os tornozelos das mulheres que se tapavam - e se mostravam simultaneamente à sociedade. Cada tempo tem os fetiches que merece ter. E isto não pretende ser um aparte reaccionário.)
A abundância de espaços comerciais gigantescos é inversamente proporcional ao vigor da nossa economia terceiro-mundista e directamente relacionada com o atitude dos nossos empreendedores - provincianos megalómanos vivendo à custa de uma exploração intensiva das pequenas ideias que têm. Não tardará muito até que o país retribua esta pobreza de espírito. Enquanto isso, continuemos assistindo de balcão ao empobrecimento do estilo de vida dos portugueses - centros comerciais, créditos desnecessários, entorpecimento das ideias e do pensamento, iliteracia sem solução. Sobre o assunto, ler também o livro de José Machado Pais, Nos Rastos da Solidão.
Acabei por encontrar o tal lugar que procurava, a cafetaria Continental, quase vazia, dia de Julho sem estudantes - a minha FCSH ali a dois passos - os sofás gastos onde me posso recostar sem culpa, durante uma, duas horas, pegar no bloco de notas e escrever sobre o bloco de notas que acabei de retirar da mala. Deitei depois o texto fora, e não fumei um cigarro - estava na zona de não-fumadores. Meia-dúzia de pessoas olhando para o ecrã que passava vídeos musicais, dois ou três yuppies (ainda existem?) no intervalo para descanso, mais duas ou três raparigas e rapazes com aquele ar vago de estudante, semelhante ao que eu ostentava quando por ali também andava - pouca coisa muda, talvez as roupas, pouco mais.
À noite, vi um filme de Godard que nunca tinha visto, em casa - Pierrot Le Fou. Entre este e o filmezinho da tarde um abismo, um universo de distância. Engraçado, o facto de Jean-Paul Belmondo ser citado em A Lula e a Baleia. O Belmondo de O Acossado, passando o dedo pelos lábios à maneira de Bogart. Engraçado.

[SL]

Uma coisa a menos para adorar

Já vi matar um homem
é terrível a desolação que um corpo deixa
sobre a terra
uma coisa a menos para adorar
quando tudo se apaga
as paisagens descobrem-se perdidas
irreconciliáveis

entendes por isso o meu pânico
nessas noites em que volto sem razão nenhuma
a correr pelo pontão de madeira
onde um homem foi morto

arranco como os atletas ao som de um disparo seco
mas sou apenas alguém que de noite
grita pela casa

há quem diga
a vida é um pau de fósforo
escasso demais
para o milagre do fogo

hoje estive tão triste
que ardi centenas de fósforos
pela tarde fora
enquanto pensava no homem que vi matar
e de quem não soube nunca nada
nem o nome

José Tolentino Mendonça, incluído em A Noite Abre Meus Olhos, editado pela Assírio & Alvim

[SL]

30/07/06

O amigo israelita

No dia em que descubro por onde anda Alexandra Lucas Coelho - entrevistando exilados libaneses em Portugal, do modo a que ela me habituou, dando a conhecer uma realidade que os defensores cegos de Israel preferem não saber que existe - um massacre mais, um mais, repito. Os sessenta e tal mortos, crianças incluídas, mais não são do que a continuação do absurdo. Se lermos nas entrelinhas as palavras dos libaneses, hoje na Pública, percebemos a dimensão da incompreensão e da ira que vai crescendo no mundo árabe - árabe, sublinhe-se, não exclusivamente islâmico. Se este é mais um movimento no dominó democrático preconizado pelos burocratas das salas climatizadas de Washington, os meus sentidos parabéns pelo lindo serviço. Por cá, os cães-de-fila cibernéticos continuam a babar a sua sanha para cima dos teclados, a milhares de quilómetros do calor do massacre. Não me surpreende a fidelidade da direita. Já a de alguma esquerda deixa-me estarrecido. O benefício da dúvida caiu hoje por terra. Arrasado pelos mísseis cegos do amigo israelita.

[SL]

28/07/06

Take it or leave it

Ouvindo pela milionésima vez o álbum "Is This It", dos Strokes, confirmo que grande parte do concerto de Sábado passado apoiou-se no poder das músicas de um dos melhores álbuns de estreia dos últimos anos - apenas aproximado por "Funeral", dos Arcade Fire. Ouvindo pela milionésima vez este álbum, percebo que devo ter assistido a um concerto que vai ficar gravado na minha história pessoal como muito poucos - mais dois ou três, no máximo. E isto não se deve ao facto de achar que, desde o primeiro trabalho, os Strokes são a banda desta geração que mais fez para contrariar o relógio da História da música pop, o esquecimento. Os primeiros, os que desde o início conseguiram produzir um som próprio, partindo de influências que foram capazes de conciliar até chegar a um híbrido original e excitante: o som Strokes. Podiam ter letras mais conseguidas, podiam, podiam não se aproximar tanto de modelos pouco recomendáveis - Queen e Guns'n'Roses -, podiam, mas a trituradora do revivalismo punk e pós-punk também aceita outras sonoridades mais, digamos, heterodoxas. Se não tivesse já escrito tantas palavras antes, escreveria apenas: grande, grande concerto. Rock, como quase todos os grandes concertos são.

P.S.: Valeu a pena sair de casa, hein, Pedro?

[SL]

O que eu verdadeiramente penso (e nunca disse)

Isto.

[SL]

26/07/06

O Regresso

O modo russo de filmar a estepe contradiz de forma violenta as minhas ideias feitas sobre solidão e deserto. Há o caos desolador de Andrei Tarkovsky, ou a beleza rigorosa de Alexander Sokurov, e há também o meteorito que foi O Regresso, de Andrei Zvyagintsev. O mesmo cuidado em cada plano, em cada enquadramento, que os mestres que o precederam, mas um saber-fazer que não enjeita influências mais profanas na composição do filme. Há muito de Hitchcock na tensão que se vai acumulando, do mesmo modo que os céus de chumbo que ameaçam desabar a qualquer momento se vão adensando. E acontecem, várias vezes, movimentos em falso que redundam em nada e que, deste modo, acrescentam ainda mais nervo ao fio narrativo. O minimalismo trata cada cena como um todo, mas sem abusar da preguiça contemplativa que se podia esperar de um filme com apenas três personagens durante a maior parte do tempo. Os problemas que o argumento coloca - por um lado o desejo de filmar com um olhar certeiro as paisagens intensas da estepe russa, por outro a história do pai que regressa e leva os dois filhos (composições notáveis de ambos os actores) a uma viagem que desde o início prevemos trágica - são geridos eficazmente. Convivem sem problemas o macguffin hitchcockiano (a caixa desenterrada na ilha) e a perfeita composição das cenas, evocando pintores e a iconologia cristã - logo ao início, Andrea Mantegna e a descida de Cristo, a Última Ceia, mais para a frente a religiosidade profana do classicismo - Dante e a sua Divina Comédia, o transporte pelo barqueiro das duas crianças atravessando o rio do esquecimento. O fim da infância chega de modo brutal e sem remédio. A ausência do pai, que não permitiu a resolução do problema edipiano de forma simbólica e portanto inocente, vai redundar numa interpretação literal do tema da tragédia clássica de Sófocles. Os indícios estão lá, desde o início, premonições em forma de imagem imitando a tradição cristã, tão cara a Zvyagintsev, como aliás tinha sido em tempos a Tarkovski.

O azul que se apodera das imagens cria uma película entre a Natureza e o espectador, provocando um desconforto crescente que tem o seu auge quando a previsível tragédia finalmente acontece, não exactamente como esperávamos. Ritual de passagem simbólico e solitário, distante dos segredos do mundo dos adultos a que Ivan, o filho mais novo, não consegue aceder. Fôlego impressionante, fundamental.

[SL]

24/07/06

Uma opinião

No pingue-pongue da guerrilha verbal que se cultiva entre blogues, existe um excesso de duas coisas: sectarismo e ignorância. Da segunda nem vale a pena falar, porque é a de pior espécie: a de quem julga perceber mais de um assunto que nem os que o vivem há cinquenta anos conseguem entender na plenitude. Os blogues servem principalmente para o escriba achar que a opinião dele conta. É um impulso egoísta compreensível, e de resto muito próximo das jactâncias que a maior parte dos comentadores de televisão e de jornal produz em abundância diária. Saber em que pecado incorro não diminui a culpa, mas acaba por ser a culpa a motivar-me para a vida - é a minha (orgulhosa) herança judaica.

Discorramos então sobre o sectarismo, essa doença primária da democracia. Da esquerda à direita, é fácil cair na tentação do pensamento totalitarista que as ideologias promovem. Porque ainda não aprendemos a pensar, a utilizar de forma correcta os métodos que tornam a razão o único caminho possível para a sabedoria. Julgar cada situação primeiro isoladamente, compreendendo todas as nuances e rugosidades que a tornam distinta do resto, para depois entender como essa situação interage com as outras. Começar olhando de perto o objecto analisado e irmos afastando o olhar até que os outros objectos surjam como complemento e continuação do objecto inicialmente estudado. O todo não é uno, é composto de singularidades que, juntas, formam uma singularidade totalizante que, se quisermos enveredar pelo pretensiosismo, se pode chamar existência. Adiante. Regresso ao indivíduo, então.

Por exemplo, a questão do choque das civilizações (ainda não se tinha percebido que era disso que falava?). Pouco quero entender do assunto, porque sou apenas um blogger. Avalio porém o que me é mostrado diariamente pelos media, confiando na verdade que me contam. Não podia levar muito longe o meu cepticismo, de resto, porque qualquer relação ou troca com o exterior depende da mediação de algo em que tenho de acreditar. Acredito, então, na verdade que me mostram. Tomo uma decisão: elimino parte do passado. Interessa-me apenas o que sucedeu desde o acontecimento mais marcante da História mais recente: o ataque ao World Trade Center. A violência à escala global e, mais importante, uma violência que se alimenta da fome de notícias do público, uma violência que precisa da imagem para passar a sua mensagem. O choque do 11/09 não foram os quase três mil mortos soterrados sob os escombros; a onda propagou-se com uma velocidade estonteante porque todos puderam assistir no conforto dos seus lares ao colapso de um símbolo maior do poderio americano, falo duplo erecto em direcção a um Deus ausente. Por empatia, todo o Ocidente sentiu a castração. O Outro, de forma avassaladora, assinalava a sua presença e resgatava-nos do Éden alimentado pelo mais duradouro combustível da nossa sociedade: o consumo. Depois, aprendemos - ou vamos aprendendo - a conviver com o regresso do medo, aquilo que julgarámos enterrado nas cavernas que abandonámos há muitos milhares de anos atrás. Medo, não da morte surpreendente, vinda de um qualquer terrorista escondendo-se no nosso ninho, mas do fim do conforto de saber que iremos transmitir aos nossos descendentes um mundo melhor do que aquele onde crescemos.

Os E.U.A. responderam em nome desta ideia ameaçada. Atacaram o Afeganistão. Do ponto de vista ético, nada a opor. Era naquele país que escondiam os terroristas; e, no mesmo passo, aproveitava-se para tirar do poder um dos regimes mais retrógados do mundo. Mas não se podia ficar por ali. A América, com parte da Europa a reboque - primeiras divisões - decide atacar o Iraque. Razões, muitas, nem vale a pena enumerá-las, as verdadeiras e as especulações que se criaram. Gosto de pensar que a principal razão para a intervenção foi um complexo de Édipo muito mal resolvido por parte de Bush Jr. O filho tinha de acabar o serviço que o pai deixara a meio dez anos antes. Ponto. De erro em erro - quem acha ainda que o Iraque está melhor agora que estava antes da queda do ditador Saddam? - fomos alegremente descendo pela corrente abaixo até desaguarmos neste afluente principal da guerra global prometida pelos ideólogos neoconservadores. Claro que falo da invasão do Líbano. Permitida pela mítica América, não por acaso porto de abrigo para a diáspora judaica ao longo dos séculos. Este acontecimento, não sei se será mais ou menos importante que a intervenção no Iraque, por exemplo. Sei que tão cedo não iremos ter um presidente americano tão influenciado por correntes de opinião, tão dependente de outros, como este. E que, portanto, a insanidade da actual política externa americana não irá durar muito. Mas por enquanto, temos Israel destruindo completamente um país vizinho em busca de uma agulha no palheiro.

Certo e errado? Nem pensar. Os nossos e os dos outros. Os defensores da política externa americana - com a notável excepção de Fukuyama - irão sempre apoiar qualquer decisão desta administração. Não há sequer uma tentativa de pensar cada acontecimento individualmente, toda e qualquer argumentação encetada visa unicamente a justificação de decisões tomadas pelo governo norte-americano. A retórica que se tem usado nos últimos três anos dava um tratado. Todos ainda têm presente o absurdo do período pré-invasão do Iraque, as sucessivas "provas irrefutáveis" que foram apresentadas para provar a existência de armas de destruição maciça na quinta de Saddam. Ora, voltamos a passar pelo mesmo. O que se tem dito e escrito para justificar a quantidade de leis internacionais que Israel ignorou nas últimas duas semanas, apesar de estar condenado às páginas esquecidas da História - que elimina tudo o que é acessório, pensa sempre em grande - é de um absurdo retumbante.

O que restará? As ruínas de um país. Outra nação para reconstruir. Onde já vimos isto? Apenas lamento que muitos dos que estão contra este estado de coisas caiam facilmente naquilo de que são acusados: anti-americanismo primário, anti-semitismo secundário, burrice tout court. Se atiramos ao outro campo político a bola do sectarismo, estejamos preparados para que a acusação faça boomerang.

No diálogo de surdos que se (des)estabelece entre os dois sectarismos, perde-se, quase sempre, uma de duas coisas: o bom senso e a razão. Tudo se torna opinião sem importância, dislate disparatado ou puro non-sense argumentativo. Eu, orgulhosamente, junto-me à matilha. Longe, e sem querer cair num sentimentalismo pacóvio, continuam a morrer pessoas que não sabem muito bem que deus as castiga: se Alá, se Jeová, se o rasteiro deus da mesquinhez assassina, dilecto filho da vontade de poder humana. Quem, do lado de cá, para além da retórica de taberna, verdadeiramente se interessa?

[SL]

22/07/06

The Strokes

A caminho do concerto de logo à noite, fica a banda-sonora deste blogue durante os próximos dias. Um encontro de gerações, entre os The Strokes, Eddie Vedder e Josh Homme, numa cover de uma música do grande Marvin Gaye. Uma cover como deve de ser: transformando o som original numa coisa diferente, sem colagens óbvias nem adulterações sem sentido - penso nos assassinos por encomenda Nouvelle Vague, mas enfim, o problema deve ser meu.
A banda mais interessante da geração neo-pós-punk, ou qualquer coisa de intermédio, como se queira chamar. O que os torna os melhores da sua geração são duas coisas: a sua precedência sobre os outros, quase todos meros imitadores do som strokeano, e a excelência de todos os elementos da banda. No rock mais pesado, é quase sempre a superlatividade de cada instrumento que faz a diferença, mais do que as letras ou o carisma do frontman.
A guitarra de Josh Homme é também fundamental na escolha desta canção. Os Queens of The Stone Age têm sido, nos últimos tempos, a banda mais ouvida cá em casa. Rock vintage, a meio caminho entre ZZ Top e Alice in Chains, estimulante para os ouvidos e para a anca.
Mas isso é outra história. Para já, fiquemo-nos pelo aquecimento para logo à noite. Basta clicar.

[SL]

Descubra as diferenças*

Evito sempre escrever uma linha que seja sobre Israel. Em primeiro lugar, é um assunto armadilhado por fanatismos vários e quase me convenço, por isso, que a pacificação da zona é impossível. Em segundo lugar, porque é muito difícil eu não ser, instintivamente, pró-Israel. Admiro Israel e a sua fatídica História, muitos dos escritores que aprecio são (ou foram) judeus, e o mundo em que, apesar de tudo, mais me revejo tem uma origem judaico-cristã (a velha conversa sobre a importância do hífen). Depois, desde 1948 que Israel está em guerra com a vizinhança. A vizinhança não se recomenda e nunca se recomendou. Não esqueço que Israel é uma democracia cercada por ditaduras paranóicas - excluindo, porém, o Líbano, onde os terroristas do Hezbollah se escondem. E antes da Europa ou dos Estados Unidos conheceram o que é o terrorismo moderno, já Israel tinha sofrido na pele o fenómeno. Não é brincadeira.

Sucede que há outras razões. Sempre que o assunto é Israel, acabamos por ter de relembrar algumas evidências. Em guerra em curso de Israel no Sul do Líbano pode ser uma resposta à desordem dos tempos e, muito em especial, ao caos em que se transformou o Médio Oriente - agravado para além de qualquer conserto depois da intervenção americana no Iraque. Mas não é em absoluto uma guerra nova. Na essência, Israel perpetua uma guerra contra os países árabes porque os países árabes - com as excepções do Egipto e, é claro, o Líbano -, continuam a recusar que Israel exista.

Em 2000, Israel saiu do Sul Do Líbano que, depois disso, passou a ser controlado pelo Hezbollah; em 2005 deixou Gaza. O Sul do Líbano e a Faixa de Gaza têm sido usados pelos movimentos terroristas para sucessivos ataques de rockets contra Israel. O Hezbollah tem ligações ao Hamas. O Hamas tem ligações à Síria. E tanto o Hamas como o Hezbollah gozam da sádica (?) protecção do Irão, agora em fase nuclear.

Com um governo - eleito democraticamente - inepto do Hamas na Palestina, um Hezbollah descontrolado no Líbano, a cumplicidade da Síria e o lunático presidente do Irão, não se pode esperar dos isralitas brandura e benevolência. Não se pode esperar que sacrifiquem a sua segurança, que se abstenham, não se pode esperar outra coisa que não seja a invasão do seu vizinho Líbano, com a consequente perda de vidas civis e a destruição de infraestruturas básicas, em busca de terroristas do Hezbollah que, entretanto, poderão ter escapado já para a vizinha Síria. É uma guerra de um contra muitos. Como sempre foi.

*Texto que é, em cerca de 95%, uma cópia deste outro, escrito por Pedro Lomba no DN. Alterei uma ou outra coisa, incluindo algumas falhas de sintaxe. A diferença, como sempre, decide-se nos pormenores.

[SL]

21/07/06

Perguntas sem resposta

Qual o passe de mágica que consegue transformar a vítima em prevaricador (ver nota 4)?
A partir de que assimetria na contagem dos mortos se pode considerar que, vá lá, existe um ligeiro exagero na reacção de uma democracia a uma provocação de uma organização terrorista?
Quantas leis internacionais é que precisarão de ser transgredidas até que a organização que as produz e supervisiona decida, vejamos, criticar um pouco o transgressor?
A partir de que ponto é que se pode falar de termos tão claros como "catástrofe humanitária", "massacre de populações civis" ou, enfim, "genocídio"? Mil, dez mil, um milhão? De mortos, de feridos, de refugiados?
Quando é que finalmente estará saldada a dívida de cinquenta anos que mantém o Ocidente cativo de um Estado - Israel - que, por acaso, imita as acções de outro - Iraque - na mesma região, há quinze anos atrás, e que por tal atrevimento mereceu o devido castigo, desde a primeira guerra em 1991 até ao momento presente, caótico e sem futuro?
Desde quando é que a auto-proclamada superior cultura ocidental permite que se distinga entre "nós" e os "outros" de forma tão clara e assassina?
Até quando o medo?

[SL]