04/04/07

O Último Capítulo

Ao ler a passagem da entrevista que David Lynch deu ao Expresso que a Susana publicou mais abaixo, dá para perceber a razão de "O Último Capítulo" ser um filme completamente falhado, um desastre. Darren Aronofsky, que, julgo, decidiu compôr uma elegia em louvor de Rachel Weisz, a sua mulher, o que, diga-se, parte de uma intenção difícil de censurar por quem quer que seja, deslumbrou-se com as possibilidades de luz que o cinema oferece. Imagine-se, o velho lugar-comum das sombras dissipadas pelo projector, os sonhos do espectador reflectindo-se contra a tela branca (por quanto tempo, não se sabe, o digital está a chegar), uma obra sobre o vale da desmemória e o resgate, a derrota. As possibilidades, as possibilidades, mas era inevitável o empecilho do amor. Amor como obstáculo ao génio, amor como espinho cravado nas costas, impedindo o avanço do tempo. Os três planos de Aronofsky cruzam o tempo interno de um deslumbre - o que paira sobre o espaço concreto de um presente ameaçado pela doença e a morte. Mas nem as boas intenções nem a destreza ágil do realizador salvam o filme da lamechice new-age pintada pelo digital manhoso de um blockbuster abortado a meio da gestação.
O potencial de segundas leituras que o tema poderia originar - amargura, ranger de dentes, Dante penando num Inferno sem retorno - é aplacado pela luz piegas que Aronofsky projecta sobre a tela. Salve-nos o diabo de toda a beleza da coisa. Preferimos caminhar na sombra.

*A imagem que coloco lá em cima mostra bem que tipo de filme é este. Lamentável.

[Sérgio Lavos]

Parabéns

- Parece que 4 anos, nos dias que correm, é muito.
- Muito quê? Falamos de qualidade ou quantidade?
- Interessa para o caso?
- Não interessará?
- É uma questão de satisfazer a necessidade de um hábito.
- Ou os leitores...
- O que, no caso, vai dar quase ao mesmo.
- Ainda assim, vale a pena parabenizar a dinossaura?
- Espero que sim, e espero que, entretanto, o meteorito retarde a sua chegada.
- Mas isto não ia acabar com uma bomba?
- Ou com fogo-de-artifício, tanto faz, desde seja hoje.
- É, quatro anos são quatro anos.

[Sérgio Lavos]

02/04/07

Manual de conversação 2


Na continuação da procura de um sentido nos filmes de David Lynch, retiro um excerto da entrevista publicada no Expresso (realizada em Setembro de 2006) onde podemos compreender a inversão estética em causa: não se trata da valorização do feio como horrível, a estética do choque e do horror, mas da beleza aí presente, na desolação, no escuro, como nas paisagens abandonadas, fábricas, celeiros ou estações de comboios, espaços sem função prática, que não contam para nós no dia-a-dia, lugares deixados para trás, presos na sua condição objectiva sem uma temporalidade humana:

Uma parte de «INLAND EMPIRE» passa-se na Polónia. Porquê a Polónia? Por causa da estranheza da língua?

Não. Fui à Polónia, a Lodz, durante um festival de cinema e fiquei fascinado pelo aspecto da cidade, em pleno Inverno. É uma antiga cidade industrial, com muitas fábricas desactivadas - lindíssimas, pelo menos para mim. Uma luz espantosa, espessa, cinzenta e uma belíssima arquitectura. Apeteceu-me filmar ali.

Há quem ache que são espaços abandonados, feiíssimos... Dá-se conta que os seus valores estéticos são diferentes dos da maioria das pessoas?

Provavelmente, sim. Claro que gosto de flores e de árvores.

Embora não estejam muito presentes nos seus filmes.

Bem, há algumas árvores e flores, de passagem... Mas prefiro as coisas que me intrigam. O desconhecido é um mistério. Cada canto escuro alberga um mistério.

[Susana Viegas]

Natureza-morta

[Sérgio Lavos]

Literatura

Seria um foco incidindo sobre ruínas: matéria suficiente para arder como metáfora.

[Sérgio Lavos]

Sombras

Nem que as sombras se dissipem, nem que o pó se submeta à força da luz clara do dia; negar duas vezes a destruição não te restituirá os alicerces da casa. Apenas anuncia a terceira negação: o esquecimento.

[Sérgio Lavos]

Querer

Enquanto caminhava pela casa vazia, sentia o passado estilhaçar-se sob os pés; o sangue começava a tornar-se mais espesso que o visco da memória.

[Sérgio Lavos]

Crer

De entre as diversas formas usadas para ludribiar a decadência, ele escolhia a menos eficaz de todas: a memória.

[Sérgio Lavos]

Duplo negativo

Quase nunca existe nada de especial nos sítios onde nascemos. A não ser o facto de termos lá nascido.

[Sérgio Lavos]