23/09/06

O lixo dos outros

Hoje é o único dia da semana em que não compro o Público. Não era assim, mas passou a ser, quando o suplemento Mil Folhas começou a fazer companhia ao Y, numa jogada descarada de concorrência com o suplemento misto (literatura e música) 6ª, do DN. Agora, compro os dois jornais às sextas e tenho várias horas de leitura pela frente, mas a dispersão agrada-me porque concentra as actividades que tenho a cumprir em cada um dos dias. Ao Sábado, leio o DN, jornal que continuo a achar que está uns furos abaixo do Público, se nos cingirmos ao caderno principal, apenas porque a revista NS tem o interesse extra de ler as crónicas de Pedro Mexia (um ano são sete em vida de blogue, parabéns), as de António Sousa Homem que, diga-se de passagem, ainda não confirmei ser quem me dizem ser (não é importante, de resto; a qualidade da escrita, mesmo que ficcionada, basta-me), e, finalmente, os apontamentos futebolísticos de Joel Neto.
Interessa-me falar de Joel Neto porque ele é dos poucos, em Portugal, a escrever com estilo sobre bola. Parece que é também romancista, mas não conheço. Mas seria suficiente lê-lo, e ao seu humor deslocado, tentando fugir a cada frase aos clichés do jargão futebolístico. (Luís Freitas Lobo, revelado ao grande público durante o Mundial, é diferente: fala de futebol como ninguém, como um técnico com paixão e com uma cultura inatacável sobre o assunto; mas não tenta ser literário - não deve ser essa a sua intenção). Na semana passada, julgo, questionava Joel Neto, em curta nota, o silêncio dos jornais desportivos em relação ao processo do "Apito Dourado". Por que razão não eram manchete nos jornais especializados todas as revelações sobre escutas e afins que têm sido publicadas nos jornais generalistas. Não passa de uma pergunta, mas José Diogo Quintela desvenda no blogue Gato Fedorento um pouco mais da mancha. Arrepiante. A confissão do director do Record é das coisas mais baixas que tenho lido nos últimos tempos. É claro que temos a opção de simplesmente não ler jornais desportivos. Mas será que é normal um director admitir que não revela cachas jornalísticas (a que ele chama "lixo dos tribunais") por razões tão transparentemente vergonhosas como sejam a defesa da actividade que alimenta essa espécie de jornais que nada têm de jornalístico? Será que os jornalistas que se recusam a divulgar notícias negativas sobre os clubes e dirigentes por razões de protecção da mão que os alimenta podem manter a sua carteira profissional, continuarem a ser considerados jornalistas? A qualidade de escrita nestes jornais piorou de forma decisiva nos últimos anos. O patriotismo saloio é enjoativo, a clubite aguda repugnante. Quando Alexandre Pais admite que o sistema inclui os jonais desportivos, sabemos que dificilmente haverá mudanças no futebol que temos em Portugal. A corrupção é institucional, e o quinto poder demitiu-se das suas funções. Um carnaval de misérias.

[Sérgio Lavos]

Pacifismo

João Miguel Tavares, no DN, parece que descobriu o rastilho perdido. Diz ele que os analistas erraram na sua previsão de que a rua áraba iria explodir novamente, após as palavras de Bento XVI, em consequência da aliança indirecta que o Vaticano tem mantido com a causa islâmica. Compara a posição pacifista do Sumo Pontífice com a posição que a esquerda tem mantido ao longo dos anos. Talvez sem que se tenha apercebido, João Miguel Tavares desvendou os meandros do pensamento desta direita que range os dentes em defesa do choque das civilizações (é ele que refere isto). E escrevi bem, defesa do choque das civilizações; não estou a falar de uma hipotética e publicitada defesa dos nossos valores culturais. Porque os nossos valores culturais não passam pela agressividade aberta em relação a uma religião e à sua cultura, não passam por um militarismo acéfalo e de índole fascista, não passam pela constante generalização que se faz em relação aos países islâmicos. A direita que acirradamente defende um progressivo afastamento entre dois mundos, a hostilização aberta do outro, nunca poderia entender as palavras da maior parte dos líderes islâmicos, sejam religiosos ou políticos, apaziguando os protestos iniciais da "rua islâmica" (aceitamos esta abstracção idiota?). Não interessa saber que as manifestações que continuam a acontecer são politicamente manipuladas e representam apenas uma minoria da população nos países onde têm surgido. Uma boa opinião não precisa da realidade para ser verdadeira.
A defesa do diálogo entre culturas, apesar de desprezada por alguma direita, que se apressou a colocar todos estes "bons sentimentos" no saco do horroroso "politicamento correcto", continua a ser, imagine-se, uma atitude eticamente intocável. E, veja-se lá, é a única via que leva à harmonia e ao fim de qualquer conflito cultural ou religioso. Mas, como já percebi pelo acumular de provas nesse sentido, não é esse o objectivo final dos que defendem com unhas e dentes a tese do "choque de civilizações". A paz? Intervalo entre duas guerras.

[Sérgio Lavos]

A geração que saltou

Há, na geração a que eu, talvez de modo absurdamente relutante, pertenço, um gosto por coisas que nada têm a ver com os anos de crescimento, os decepcionantes anos 90. Essa geração – que, repito, é uma completa abstracção, resultado de várias asserções que podem, ou não, estar correctas, da minha parte em relação ao grupo de pessoas que entra agora – ou anda lá perto – na casa dos 30. Essa geração, dizia, prefere refugiar-se numa década que não é a sua. Os anos 80. A música é uma das principais marcas desta fuga para um passado que nunca existiu. O revivalismo – única componente verdadeiramente original da música produzida nos últimos 10 anos – alimenta-se das bandas que cresceram e morreram nessa década maldita e nos anos imediatamente anteriores. Tempo mítico (tão bem retratado por Brett Easton Ellis no seu romance “O Psicopata Americano”), que conseguia criar no espírito burguês alimentado pelo crescimento económico acelerado uma ilusão de rebeldia sem substância, desencantada e folclórica, que passava pela construção de uma imagem distante da essência que imitava. Isto é verdade para quase todas as correntes da década de 80: desde a última estirpe de punks até aos neo-românticos, passando pelos urbano-depressivos que degeneraram em clubbers alienados pelas novas drogas sintéticas – penso em Manchester e nas vagas de bandas e seus respectivos criadores, claro. Nada era verdadeiramente genuíno – talvez apenas a melancolia e o arrojo formal das roupas e das composições musicais.

Os anos 90 trouxeram a depressão depois da euforia. Nasceram com o grunge, corrente de saudosistas do punk em conluio com o baladismo de singer-songwriters como Neil Young, que levavam demasiado a sério o seu papel de estrelas rock provisórias – Kurt Cobain nem se apercebeu da ironia de tudo. A música de dança electrónica culminava numa supernova que estilhaçou a cultura de clube que surgira dez anos antes – o apogeu das raves ganhou contornos de decadência com o novo poder dos fundamentalistas dos tempos modernos: a diversão passou a ser vista não como sinal de rebeldia, mas sim de declínio dos valores ocidentais. (Como se o Império Romano não tivesse sobrevivido à custa dos hábitos desregrados da elite dirigente). Nesses anos, os grupos purificaram-se: havia quem gostasse só de metal, os que gostavam apenas de grunge, os ravers, os hip-hoppers (em Portugal poucos), os góticos e essa grande mancha indistinta que orgulhosamente se chamava a si própria de “alternativa”. Não interessava a metade que faltava na designação. Alternativa a quê? Era o estilo, acima de tudo.

Mas chegamos a esta década, e as diferenças esbatem-se. A electrónica contamina o rock, a pop mais estimulante vende milhões – Gorillaz, Outkast e Gnarls Barkley, por exemplo. Nada é original, não há nenhum novo género musical – como houve o trip-hop e o drum’n’bass antes – ou se há não passa de um logro, vende-se gato por lebre, vestindo-se com roupas novas sons que existem há muito (grime, o que é isso?) Vivemos mergulhados no cruzamento de referências e influências. Tudo é pós-qualquer coisa e deixa de o ser ao segundo ou, vá lá, terceiro álbum. Se as canções não existem, se os músicos não conseguem construir um som próprio a partir da arca de referências onde vão buscar inspiração, nada feito; na música pop, tudo tende para o desaparecimento. E isto não é necessariamente mau.

Esquecemos os anos 90. Movemo-nos ao som de bandas que bebem nas décadas anteriores, com especial insistência na década que há uns anos atrás todos amaldiçoavam. Saudades de um passado que não existiu.


Adenda: Esta entrada, ao contrário do que eu pretendia, não menciona nem os Loto, portugueses que acabaram de lançar o seu segundo álbum, no qual participa Peter Hook – sabem quem ele é – nem das possíveis razões da fuga para a frente da geração a que pertenço. Definitivamente, será que ainda posso continuar a achar que sou eu que controlo as palavras que escrevo? (Escrito depois de ter visto um decepcionante Alberto Pimenta - de quem admiro muita coisa há muito tempo – a ser entrevistado por Paula Moura Pinheiro no Câmara Clara, na :2. A mão como instrumento da palavra... o sexo como instrumento do amor... preciso de dizer mais?).

[Sérgio Lavos]

21/09/06

K.

Está tudo muito bonito, sim senhor, mas a verdade é que basta pegar num livro qualquer de Kafka para que todas as ideias - belas, erradas e tão cómodas - que temos sobre Deus e os anjos e a metafísica (não confundir com patafísica) venham por aí baixo, a toda a brida, num imparável carreiro de auto-destruição. Entre-se n'O Castelo, por exemplo. Não se pode, dir-se-á. Certo, não podemos. K. nunca chega a entrar. K. anda por ali, enterrado em neve a maior parte do tempo, servindo de bola de pingue-pongue entre cidadãos ciosos do seu lugar na hierarquia da aldeia. Entramos no livro, e já K. lá está, com um objectivo muito preciso: entrar no Castelo. Note-se, ele nunca deixa de ter uma ideia fixa, uma meta viável, um destino perfeitamente definido. E luta, esbraceja, pergunta, desdenha do rigor obstruso, investe temeroso contra a implacável máquina repressiva da burocracia existencial. Entra e sai de casa, caminha, aguarda os senhores do Castelo, escreve cartas, envia mensagens, ouve reprimendas, irrita-se com a passividade de toda a gente. Mas não entra. Caramba, não entra!
Kafka escrevia sabendo que nunca poderia parar de escrever. Escrevia e escrevia sem fim à vista, sem a palavra "fim" à vista, a obra de Kafka é um conjunto de fragmentos inacabados que se repetem na sua natureza. E a forma que as histórias fragmentadas tomam imitam o carácter dos próprios escritos. As personagens sabem que nunca irão conseguir transcender a infinita impotência que exibem. Se isto não nos diz nada acerca de Deus, não sei o que possa dizer.

[Sérgio Lavos]

20/09/06

Evolucionismo

Não sei ao certo qual o interesse que uma questão tão importante como o debate evolucionismo/criacionismo desperta em não-especialistas. Se não desperta, devia fazê-lo, ainda que a maior parte dos textos, quando aprofundam os temas no jargão dos cientistas, se tornem difíceis de acompanhar para o leitor leigo. Há, no entanto, blogues que estão a fazer um esforço de combate que tem de ser louvado, contra o obscurantismo que pretende colocar em pé de igualdade a teoria científica e a treta esotérica. Entre estes destaca-se Vasco Barreto e o seu Cabinet, assim como Ludwig Krippahl no blogue Que Treta!.
A questão é esta: a Ciência anda há 150 anos a aprimorar uma teoria que, quando surgiu, mudou completamente a visão que o Homem tinha do mundo e de si próprio. A teoria não era o resultado de um esforço da Razão, mas sim a soma de anos de investigação e de aplicação do método empírico por parte de Darwin, era a única conclusão possível perante a preponderância de indícios - registos fósseis, observação de campo, etc. - que tinham aparecido. Quatrocentos anos depois da revolução operada por Copérnico, o Homem era uma vez mais recentrado e fixava-se definitivamente no mundo. Ficámos mais sozinhos, mais distantes de Deus, mais seguros do nosso lugar no arco do tempo. Apesar das falhas e das lacunas por preencher, apesar das imperfeições da teoria, do debate entre evolucionistas, do caminho percorrido desde Erasmus Darwin até Stephen Jay Gould e Richard Dawkins. Não há qualquer conflito entre Ciência e Religião. E apenas se pode compreender o esforço de alguns ao enquadrar um Deus nas teorias científicas existentes. Carl Sagan, um crente, descobriu Deus no mais provável dos lugares: onde acaba o Homem, no momento imediatamente anterior ao Big Bang. Deixêmo-lo ficar por lá.

[Sérgio Lavos]

Autoridades de controlo

"O senhor é muito severo", disse o regedor, "mas multiplique por mil a sua severidade e ela continuará a não ser nada em comparação com a severidade da administração quanto a si própria. Só um estrangeiro poderia fazer uma pergunta dessas. Quer saber se existem autoridades de controlo? Não existe mais nada a não ser autoridades de controlo. É claro que não tem por função detectar erros numa acepção vulgar, até porque nunca ocorrem erros, e se uma por outra vez ocorrem erros, como o seu caso, quem pode afirmar categoricamente que se trata de um erro?"

A opinião de Kafka sobre o futebol português, como aparece no seu romance O Castelo.

[Sérgio Lavos]

18/09/06

O Expresso do Sol nascente

Nas últimas semanas, vários indicadores económicos apontam uma saída para a crise. Aos habituais, do FMI ao Banco de Portugal, passando pela OCDE, poderíamos acrescentar a maravilha da luta entre o novo Sol e antigo Expresso remodelado. Na semana passada, 150 mil portugueses não se importaram de pagar 2,80 euros por um jornal significativamente mais fraco do que aquele que era antes oferecido - mas, é claro, havia o extra não desprezável de termos Scarlett Johansson a deambular por Tóquio e Quioto à nossa mercê. Esta semana, mais 150 000 compraram a nova criação do arquitecto Saraiva e duzentos mil esgotaram a edição do Expresso - com mais um excelente filme, de resto. O Sol custa dois euros. O Expresso, como já referido, 2 e 80. A maior parte dos portugueses que compraram um, também adquiriram o outro. O que antes demorava pelo menos meia semana a ler agora irá ocupar uma semana inteira, para prejuízo do convívio familiar e da produtividade laboral. Ou não? Na verdade, não. Se antes o Expresso já se evidenciava pelo excesso informativo, pela redundância, agora conseguiu o milagre da redução de conteúdos com a mesma aparência de excesso. Sobre o Sol, não me posso pronunciar, dado que nem chegou a entrar no meu local habitual de compra (e não achei demasiado importante deslocar-me em busca de tal astro tablóidico), mas o que tenho lido não me parece animador - muita futilidade, pouco sumo, com um suplemento cultural sem a qualidade que a revista Actual ostenta - e ainda bem para o Expresso que por ali ficaram nomes como António Guerreiro e Joaquim Manuel Magalhães. O projecto de raiva de José António Saraiva tem pernas para andar; por cansaço e pelo progressivo facilitismo do público no seu gosto e na sua procura de informação.
O Verão foi árduo - as operadoras turísticas queixaram-se da quebra geral nas viagens para o estrangeiro. Mas o Outono traz com ele um novo contentamento. Quase cinco euros depois, algumas horas perdidas a ver filmes gratuitos e dias a fio preenchidos na leitura dos dois jornais, podemos sentir a insustentável leveza dos portugueses no ar. Estamos no bom caminho.

[Sérgio Lavos]

Radical

Resta dizer, depois do esclarecimento de Bento XVI, ontem na Alemanha, e do consequente apaziguamento geral dos líderes do mundo muçulmano, o perigoso Hamas incluído, que aqueles que se levantaram gritando "Cartoons! Cartoons!", venham agora ou retirar o que disseram ou assumirem que estão no mesmo extremo das trincheiras em que se encontram os islâmicos que ainda exigem um pedido de desculpa ao Papa. Neste caso, do "ayahtollah" Khatami, xiita iraniano. Em campos opostos, mas unidos no fervor com que defendem a opinião dos líderes religiosos da suas respectivas facções. Belas companhias!

(Ou será o Papa um mole pacifista?)

[Sérgio Lavos]

Reciprocidade

Tudo se encaixa de forma perfeita: Bento XVI deu o flanco aos que diziam que Ratzinger não era a melhor escolha para o lugar, por razões que tinham principalmente que ver com a pouca propensão para o diálogo inter-religioso. Os muçulmanos estão a dar razão ao dislate de Bento XVI, respondendo com violência verbal e física a um discurso que incluía uma frase proferida no século XIV por um imperador bizantino que procurava defender a integridade do território das investidas dos otomanos que então começavam a expandir-se pela Europa fora. A alusão nada inocente que Bento XVI faz à violência intrínseca da religião muçulmana é um erro, mas isso já Bento XVI percebeu - e entretanto corrigiu o tiro. Escusam de aplaudir em surdina, caros apóstolos do apocalipse civilizacional profetizado por Huntington; não é desta que o Papa se ergue como arauto do reduto final da "civilização ocidental". A espada que já foi lei, durante séculos, também na religião católica, não autoriza que se emitam deste modo juízos de valor sobre a moral alheia. E, de resto, o problema nunca residiu na religião em si, nas palavras dos livros sagrados, mas sim nos homens que as interpretam. E Bento XVI, como académico que também foi, devia saber isto melhor que ninguém.

[Sérgio Lavos]

16/09/06

Defeso

É de bom tom tratar as metáforas com carinho; mesmo que elas ameacem diariamente uma greve colectiva. Nunca se sabe em que dia é que as sinédoques e as comparações irão ser contratadas por outro escritor com maiores méritos. A poesia pode ser uma coisa ingrata.

[Sérgio Lavos]