16/09/06

Tartes

Não fosse o truque de ilusionismo que permite que os amantes achem que estão sempre perto um do outro, seja qual for a distância que os separa, e a vida seria apenas um circo sem mágicos. Para dizer a verdade, a vida, a maior parte das vezes, assemelha-se a um circo apenas com palhaços: quando as tartes parecem vir de todas as direcções, em todos os sentidos.

[Sérgio Lavos]

Opostos

Era uma questão de opostos; não os que se atraem, mas os que repelem: ele encarava a vida como se fosse um prolongamento dos 90 minutos; ela limitava-se a ignorar tudo o que tivesse a ver com desportos masculinos. Nunca se encontraram no estádio.

[Sérgio Lavos]

OK GO



[Susana Viegas]

A Dália Negra

"Nunca a conheci em vida. Ela existe para mim através dos outros, nos sentidos em que a morte dela os impeliu."

Esta é a primeira frase do romance de James Ellroy, "A Dália Negra" (a que eu retiraria o artigo ao traduzir o original "Black Dhalia", mas enfim...), acabado de sair em nova edição na Presença, depois de estar durante anos esgotada a primeira edição em português. Se uma frase, caro André, valesse por um livro, seria sempre a primeira. Define o tom e o sentido, obriga o escritor a seguir por um só caminho, num ritmo apenas; de contrário, o livro não presta - e afirmo isto como se falasse de alguém vivo. A repulsa que um mau livro pode provocar pode ser tão agoniante como aquela que o desprezo motiva. No caso do romance de James Ellroy, isto é, evidente, verdade. Porque a carga simbólica da primeira fase apenas reforça a ideia de que estamos perante um grande livro. Tudo aparência? Uma gigantesca encenação, e isso é um prazer enorme. Um livro que se rege pelos velhos códigos do policial "noir" (Mickey Spillane à cabeça), mas com um twist: não é apenas um policial. É um retrato que apenas podemos acreditar realista - e, desse modo, violento até à náusea - da cidade de Los Angeles depois da Segunda Guerra Mundial. A Los Angeles que aprendemos a ver em filmes como "Sunset Boulevard", em que o crime coabita de forma macabra com o glamour de Hollywood - o placard sobranceiro é presença fantasmática ao longo do livro. E marcante para o desfecho do mesmo. A Los Angeles que é, de passagem, evocada por David Lynch em "Mulholland Drive". A Betty Short que morre assassinada podia ser a inocente Betty do filme de Lynch; a Madeleine de Ellroy é um fantasma da Madeleine de Hitchcock - a mulher que vive duas vezes.
O filme, realizado por Brian de Palma, vem a caminho. Apesar da decepção em Veneza, será difícil não ser um bom filme - e ninguém melhor que o vampiro de Palma para captar todas as referências no livro de Ellroy - e que Lynch tão bem aproveitou. A decadência com estilo. Será isso?

[Sérgio Lavos]

15/09/06

Mário Soares

Com a velocidade habitual nestas coisas, falou-se e deixou-se de falar por essa blogosfera fora do programa Prós e Contras dedicado ao "11 de Setembro". Os blogues de direita fizeram a festa, servindo-se de Mário Soares para bombo da festa como se não houvesse amanhã. Os blogues de esquerda pouco reclamaram - com a excepção d'O Franco Atirador, mantido por alguém que afirma ser de esquerda às vezes. Na verdade, não surpreende o silêncio. Na verdade, a prestação de Mário Soares foi lamentável. Por todas as razões e mais alguma, mas principalmente porque defendeu da pior maneira possível uma posição muito mais confortável, em termos éticos, do que aquela que Pacheco Pereira defendia.
Afinal, o que conta? A imagem que Soares passa agora, atabalhoado, perdido, incapaz de articular mais de duas ideias seguidas, esforçando-se a qualquer custo por manter-se à tona em território hostil, ou a ideia que fazemos de Soares como pai da nação? Ou, de outro modo, que tempo conta, que história havemos de contar? Quem se atreve a defendê-lo fala apenas do passado. Da herança que ele deixou ao país. Portanto, colocam-se os defensores de Soares do lado dos seus adversários: Soares não é deste tempo. Já não era quando decidiu concorrer a Presidente pela terceira vez, e o debate de Segunda-Feira passada terá sido a prova final do facto.
Outra história que circula, o debate que se levantou a propósito do absurdo Criacionismo - que, bem-vistas as coisas, tem tudo que ver com Mário Soares. Mais cedo ou mais tarde, os ventos do retrocesso que sopram da cada vez mais conservadora América tinham que chegar à Europa e à religião católica. Li, escrito por João Miranda no blogue Blasfémias, o texto que faz a justa passagem da Física para a Metafísica que a controvérsia pressupõe. Escreve João Miranda a determinada altura: "Como é que Paulo Gama Mota prova que o tempo existe?" E pergunto eu: como é que João Miranda prova que ele próprio existe? Ou melhor, por não podermos provar a existência de Deus (tempo), isso significa que ele não existe? E foram tantos os que estiveram perto de provar, de Espinosa a Kierkegaard, mas sempre recorrendo a modelos lógicos imbatíveis, tão habilmente construídos como facilmente desmontáveis pela lógica que os produziu.
Que tempo conta, então, o presente que vivemos ou o passado em que acreditamos? Apenas o que vivemos agora parece credível mas, hélas, existe a memória. A honra que Mário Soares merece, por ter feito possível o nosso presente, é manchada pelo presente a que temos direito. A melancolia da decadência já foi tantas vezes recriada pela Arte que se tornou um cliché pós-moderno. Apenas Mário Soares não percebeu isto. E não se retirou do mundo que já não precisa dele.

[Sérgio Lavos]

12/09/06

Pet Sounds

Indiferente ao 11 de Setembro, leio as páginas do Y dedicadas a Pet Sounds. Deu gosto ler o que João Bonifácio escreveu sobre os 40 anos deste disco, o melhor disco de sempre, segundo ele. Não posso deixar de concordar; se bem que, por outro lado, me lembre dos Beatles... ("assim-assim"?) enfim, trata-se do gosto do crítico. No entanto, o que deu gosto foi a emoção e alegria não contidas nem disfarçadas com que Bonifácio descreveu algumas canções, chegando mesmo a utilizar adjectivos nunca antes utilizados no Y ou em crítica de música. Muito bem descrito, muito bem escrito. Muito inspirado. Podemos ler expressões como "dos melhores momentos da humanidade até hoje", "polifonia in excelsis", "apenas quase-perfeita", "vitral melódico" enquanto ouvia as canções. Aliás, hoje quando ia no comboio, lembrei-me e ri-me sozinha.

[Susana Viegas]

11/09/06

Um dia na vida

Rui Tavares, um dos historiadores entrevistados hoje no Público a propósito da data que ninguém gostaria de recordar, escreveu no seu "Pequeno Livro sobre o Grande Terramoto" sobre as ondas de choque que o acontecimento teve na História, alinhando um paralelismo entre o presente e o passado; o terramoto foi notícia por toda a Europa, como o continua a ser o atentado ao WTC. Uma imagem da realidade, fragmentada e repetida até à náusea, até que reste apenas uma vaga reminiscência do original. Há semelhanças, claro, mas as diferenças ultrapassam-nas em número. Como acentuam os historiadores que são entrevistados na peça, começamos a perceber que o impacto terá sido menos forte do que aquilo que parecia inicialmente. Do terramoto de Lisboa guardamos a memória incompleta dos relatos da época, do 11 de Setembro temos e iremos ter durante muito tempo tudo, a verdade e o seu contrário, versões sérias, versões oficiais e versões fantasiosas. Esperemos pela cristalização do acontecimento. Mas será que tão cedo se irá fixar, sem espaço de manobra, na História?
Como Slavoj Zizek escreve no seu livro "Bem-Vindo ao Deserto do Real", de resto conceptualizando uma ideia que foi comum a muita gente logo na altura em que as imagens entraram de modo violento no nosso Real (para utilizar o termo do filósofo esloveno), a máquina de Hollywood (assim como muitos escritores de ficção científica ou de ficção de antecipação) já esboçara os contornos da tragédia, prevendo e ajudando à tarefa dos terroristas. O 11 de Setembro, portanto, antes de acontecer já pertencia ao imaginário do Ocidente, globalizado por uma cultura americana predadora da velha cultura europeia. Seria inevitável, se nos quisermos sentar na poltrona do nosso cinismo ou da demagogia ideológica. A realidade imita a arte, ou a arte irrompe pela realidade dentro, abre um rasgão que ainda não parou de sangrar? Do ponto de vista dos terroristas, a segunda hipótese, alucinação pura, é o mais brilhante possível. Na matriz de qualquer terrorismo está a possibilidade de mediatização; a essência do acto terrorista não é a matança indiscriminada, nem sequer a disseminação do terror na sociedade (a primeira é uma inevitável consequência e a segunda o fim básico); o que submete o acto de terror à prova final, à sua inscrição na realidade, é a existência de jornalistas; e de câmaras. Será esta a razão decisiva para a mudança de natureza do terrorismo - a religião é (quase) sempre um pretexto. O espectáculo da morte torna os terroristas actores num teatro que os transcende - a possibilidade da vida eterna nada tem a ver com religião, mas sim com eternidade, que é uma coisa bem diferente. Se quisermos, nunca os cinco minutos de fama de que falava Andy Warhol foram tão espantosamente gozados.
Apanhados na vertigem da ficção, saberemos de facto medir a importância do acontecimento? A tese de Fukuyama, catastrofista e provocante, não estará de facto perto da verdade? Num mundo dominado por dois eixos que se cruzam a cada segundo - a mediatização, puro acontecimento de superfície, e a velocidade de informação, que não chega sequer a tocar essa superfície - saberemos integrar o presente que não para de passar na História, cristalizando os acontecimentos, a única via de atingirmos o conhecimento? Ou estaremos condenados a esquecer, a conviver com simulacros da coisa verdadeira?

[Sérgio Lavos]

10/09/06

In The Mood For Love

Não tinham uma música - tinham um filme. Antes da derrota tão pacientemente adiada, viram-no em conjunto, altas horas da noite numa sala quase vazia. Era uma reposição. E era como se fosse uma repetição de um filme dos anos cinquenta, velhos êxitos cantados por Nat King Cole e planos desenhados no vazio das ruas. Filmava-se a distância entre dois corpos e as alusões mínimas que existiam entre eles: as mãos, sobre a mesa; os olhos, fixos no que estava fora do campo de vista; os gestos, rituais discretos e significativos, a ordem quotidiana insinuando-se aos poucos na extraordinária história de amor que os dois negavam. A comida, de boca a boca, trocada entre as paredes de um quarto. Nos corredores, nas ruas, o jogo lento da sedução dançado no compasso ultrapassado de um tempo enredado em melancolia.
Não tinham uma música, tinham um filme. Quando o actor, antes do the end definitivo, se deixava embalar pelo fracasso e trancava dentro de uma árvore morta o único segredo que devia ser contado ao mundo, começou a chover lá fora. E enquanto abordavam a rua, cediam ao encanto da beleza pura. Tal derrota acendia outra derrota: a entrega a um amor, a uma floresta de mil clareiras perdidas.

[Sérgio Lavos]

08/09/06

Em espera

Há entradas em espera, um comentário ou outro a fazer a este texto de Rui Bebiano, perplexidades cultivadas com satisfação e empenho - que seria de nós, se não as tivéssemos? Sem qualquer relação com a frase anterior, será que uma declaração de amor num blogue é o equivalente virtual aos grafitos que fazíamos na escola, sabem, os corações trespassados por flechas?

[Sérgio Lavos]

O espaço dele

Seria natural encontrá-lo no ciberespaço. Este é o espaço dele. E porque não? O que há de estranho no facto de Zizek ter como amigo outro Zizek? "Either I can build a new identity for myself or in a more paranoiac way, I am somehow already controlled, manipulated by the digital space".

Obrigado, Rita


[Susana Viegas]