15/07/06

Nova lei do talião

A uma agressão verbal pode-se responder com uma agressão física. A um "filho da puta" pode-se responder com um directo nas trombas. A dois ou três soldados mortos e alguns mais raptados pode-se responder com dezenas de bombas e centenas de mortos e feridos. Nós, por que estamos do lado de cá - neste caso, "cá" significa o contrário de "lá", é bom de ver - socorremo-nos de comparações estapafúrdias comentando o que, definitivamente, não está ao nosso alcance perceber. Desproporção na reacção? Escalada de violência? Apenas quando está em causa um simples desporto. Se falamos de guerra e choque das civilizações, nenhuma resposta deve ser exagerada na defesa do que imaginamos ser a nossa civilização superior. Uma provocação - terá resposta à altura. Dez vezes mais intensa, cem vezes mais forte, Golias esmagando David. Ele há coisas que preferia não ler.

[SL]

13/07/06

Syd Barrett (1946-197...)

Quando um morto morre, há qualquer coisa que se quebra em nós. Syd Barrett, que eu já tinha arrumado há uns anos na gaveta dos desaparecidos - isto não é uma metáfora, note-se, pensava eu que ele já tinha morrido mesmo - morreu mesmo. De mundana diabetes, imagine-se. A queda foi maior do que ele esperava, e refreio o impulso de continuar com este reles jogo de palavras. Não posso ficar triste com a notícia. Não se chora alguém que já morreu há trinta anos. A tempo de deixar-nos um pouco do mundo por onde andou a viajar durante aqueles anos perdidos do psicadelismo britânico. Apenas tenho um álbum dos Pink Floyd - Piper at the Gates of Dawn. O que veio a seguir ao abandono de Barrett nunca me interessou. Ao fim de trinta segundos dos Pink Floyd pós-Barrett começo a bocejar. É verdade, lamento. O princípio do "I Wish You Were Here" consegue definir uma banda. Os acordes sonolentos de Dave Gilmour, a voz que antes de começar a cantar já está cansada, a arrastada melancolia de quem vive num tédio imenso e quer transmitir o facto a uma audiência o mais vasta possível. Não quero, lamento. Se preciso de ouvir uma sinfonia, ponho um CD de Mahler a tocar. O culpado disto tudo: não foi Roger Waters, não, nem Dave Gilmour. Foi Syd Barrett. Se o LSD tivesse batido menos forte, se algum comedimento houvesse na sua atitude, teria poupado o mundo - ou a mim, pelo menos - do martelo aborrecido dos Floyd pós-psicadelismo. Será suficiente para definir um génio? Admito que sim. A alucinação não é apenas um estilo de vida; é um atalho para a verdadeira essência da existência. E conseguir colocar em música e/ou palavras os estados alterados a que LSD conduz é qualidade de poucos: Burroughs e Hunter S. Thompson. E Syd Barrett. Uma amostra a tocar ali ao lado, durante os próximos tempos: "Arnold Layne".

[SL]

12/07/06

Dão-se alvíssaras

O mundo pode dividir-se entre aqueles que grafam o nome deste blogue como Auto-retrato e os que o fazem como Auto-Retrato. Aos primeiros agradeço os links e as dúvidas suscitadas. Aos segundos obsequio as ligações, assim como o respeito pela minha escolha, ainda que esta possa revelar-se errada. Dão-se alvíssaras a quem desfizer por completo as minhas perplexidades sobre a forma correcta de escrever. É que isto da identidade é assunto que deve ser claro e límpido. Desde já, agradecido.

[SL]

Muros e sombras

Razões haverá para que a igreja Católica se continue a preocupar com a sexualidade do seu rebanho, mas não me interessam quais. Por outro lado, talvez me interessem, principalmente as de ordem psicanalítica ou mental. Mas com certeza haverá milhares de páginas escritas em torno do assunto, milhares de artigos, milhões de opiniões. O que me interessa realmente é tentar conhecer a raiz do martírio auto-imposto de Kierkegaard após a recusa do casamento com a prometida de longa data. O que me interessa é a culpa de Kafka e a sublime expiação falhada que foi tentando ao longo de uma vida de permanente sobressalto metafísico. A religião, em ambos, será um pormenor. Será assim: existem categorias, enquadremos o que conhecemos nelas. Kafka e Kierkegaard e Graham Greene e Chesterton deixaram uma obra que é, sobretudo o resultado dos conflitos interiores relacionados com a religião com que cresceram. É claro que a solução de Chesterton foi a mais fácil: abraçou calorosamente o catolicismo e tornou-se um moralista. Salvava-se o cinismo refinado da sua doutrina; a ironia consegue sempre arrefecer os ódios alimentados. Greene aproveitou bem a matéria-prima das suas dúvidas para criar dois ou três grandes livros. Já Kafka e Kierkegaard eram outra história. O que motiva a perplexidade e o permanente questionamento de ambos não são os dogmas da religião em que foram educados, mas sim os fundamentos da própria fé e o modo como a vida humana pode ser afectada por eles. As personagens de Kafka estão presas a um mecanismo infalível de onde não se conseguem libertar, a uma máquina de culpa que reprime duramente qualquer desejo que possa despontar. Máquina contra o humano, ou, se quisermos, consciente contra inconsciente. O desassossego é interior, a tensão é interna, como acontece também em Kierkegaard. O espinho que não consegue arrancar, a dúvida que o atormenta. Mas que continua a não desfazer nunca. A Natureza humana.
O que tem isto a ver com Bento XVI e as pequenas obsessões fetichistas da igreja Católica? Igreja rasa, rasteira, muito pobre, a que esquece a transcendência da Fé e se preocupa com as mundanas partes baixas dos seus crentes.

[SL]

11/07/06

Rui, concordo com o que dizes. De facto, “ser leitor não é fácil” o que não significa conhecer todos os pormenores que fizeram uma vida. Basta conhecer alguns. Para mim, Kafka, ou Nietzsche, ou Kierkegaard são disso exemplo. Tiveram vidas marcadamente literárias com banais profissões ou com uma vida sentimental triste (todos eles tiveram noivados conturbados, interrompidos, impossíveis…) e, por diversos motivos pessoais, foram conduzidos a uma expressão artística maior do que a própria vida. O noivado ou o celibato, por exemplo, são fundamentais nesta relação entre vida, religião, intimidade e literatura: Kierkegaard e o espinho na carne, Kafka e a culpa, Nietzsche e o celibato ou a loucura formam pares vivenciais que se revelam na escrita. E porque escrevem bem, mostram bem a vida que tiveram. Por isto, concordo que “na actividade de leitor, a biografia não só ajuda, é um desafio, e é infinitamente gratificante encontrar os pontos em comum.” Temos uma compreensão completa de Kierkegaard quando sabemos que o autor de O banquete, O diário de um sedutor e Ou...Ou... viveu realmente dividido entre o casamento e o celibato, detalhes que lhe dão credibilidade e justeza de reflexão.

[SV]

Um ponto

Ainda assim, continua a ser verdade que nada do que poderá ser escrito se aproxima sequer da sensação que a experiência provoca. A literatura cria outra realidade. Mas não consegue captar a perfeição das imagens criadas. Extrapolando, o trabalho do crítico é, portanto, inútil.

[SL]

Sete Palmos de Terra

Adeus a todos.
Aqui há umas semanas, inadvertidamente, fui desembocar num sítio onde pude vislumbrar uma nesga do futuro - o final da série Sete Palmos de Terra. Vi alguns stills, li as sinopses de cada episódio até ao fim, soube tudo antes do tempo. Claro que não foi o mesmo que assistir às imagens em movimento; ler um guião não tem o mesmo encanto que olhar para a vida em imagens movendo-se. A derradeira sequência da série mostra-nos Claire a caminho do futuro, impossibilitada de fixar o passado numa fotografia de grupo. Há mais a dizer do que a previsível interpretação no diálogo trocado com Nate. A imagem capturada (o termo que eu quero aqui é mesmo este) pela máquina não pode abranger um passado que é constituído por memória e desejo de futuro. Um conjunto de corpos e rostos apenas faz sentido se for somado à totalidade dos segundos passados desde o nascimento, e isto a câmera não pode capturar. A de Claire e a de Allan Ball, que espreita por cima do ombro de Claire, apesar do ponto de vista ser frontal, focado no rosto de Claire e em Nate, duplo de Ball e a principal personagem da série - o realizador como fantasma pairando sobre o mundo criado. O truque da dupla imanência. Depois, Claire parte em direcção ao tempo que virá. Uma música evoca o tempo que acabou de passar e convoca o futuro que está apenas a um esforço imaginativo de distância. Tudo acontece em poucos minutos - três ou quatro, e o poder da música pop pode ser condensado nesta fórmula encontrada por Allan Ball. Os ponteiros do relógio imaginário avançam vertiginosos e indiferentes aos percalços da vida material paralela ao tempo que marcam. Todos morrem no fim. Claire recorda o tempo que acabou de passar e lembra-se de si própria inventando um futuro possível. Numa imagem, passado, presente e futuro coexistem, fundindo-se. Essa imagem é a imagem da memória; não que alguma vez os três tempos - como no conto de Charles Dickens - se tenham confundido; apenas a memória os pode tornar simultâneos. E, neste caso, apenas o cinema - porque falamos de moving pictures - se consegue aproximar da imagem mental, tem o poder de tornar mais claro o que antes era apenas sugestão e intuição pura.
Se a arte ajuda a repensar uma série de coisas na vida? Pergunta desnecessária; a arte pertence à vida, a resposta está incluída na oferta a que temos direito.
Até à próxima.

[SL]

10/07/06

Arrufo de swingers

- Estás chateada?
- Estou, um bocado...
- Não sei como é que não percebes o meu ponto de vista.
- E tu percebes o meu?
- Percebo, mas nós combinámos uma coisa, sabes bem.
- Mas eu disse-te que era com a (...) que queria estar, não me ouviste?
- Mas eu não gosto dela, tem um cheiro muito forte.
- Não tem nada, é bom, o cheiro dela.
- Não é nada, ela nem se arranja. Não se pinta, não faz o buço. Não gostei.
- Eu é que me devia queixar, ela abraçou-te...
- E?
- Sabes bem que eu não gosto disso, devia dar atenção a mim...
- Ah, não venhas com isso, ela depois foi ter contigo.
- Mas eu sou a tua namorada, não é? Ela não me respeitou.
- Oh...
- A sério, não abanes a cabeça, essas coisas são para mim!
- Não me venhas cá com tretas.
- Não são tretas, eu acho que ela se está a fazer a ti.
- A fazer a mim? O quê?! Não percebo...
- A fazer a ti, percebes? E acho que ela gosta de ti e está usar-me para se aproximar de ti.
- Não é nada!
- É! Fingiu-se interessada em mim só para estar contigo. Sabes que eu não gosto disso, és o meu namorado. Sabes que mais, estou farta!
- Farta? Farta de quê?
- Desta vida, de andar por aí... destas coisas.
- Que coisas?
- Quero estar só contigo.
- Sabes que eu não penso assim. A nossa relação precisava de um passo em frente. Como estávamos dava em nada.
- Não é isso. Não gosto que tenhas dado esse passo.
- Eu dei?! Foste tu que andaste atrás da (...)
- Bem, sei disso, mas agora...
- Ah, nem penses nisso que está a pensar. E pára de fazer beicinho. Não gosto de te ver assim.
(...)
- Olha, é a nossa estação, vamos sair.

[SL]

08/07/06

A memória (essa puta)

Há seis anos atrás, também em Junho ou Julho - do dia certo não me quero recordar - a selecção portuguesa foi eliminada pela França nas meias-finais do Campeonato da Europa. Todos conhecem a história; o golaço de Nuno Gomes, a pressão da França, o golo de Thierry Henry e o penalti desnecessário de Abel Xavier. Eu encontrava-me no sítio certo para este tipo de actividades: numa tasca, mesas de fórmica cobertas de uma camada fina de sebo, um cheiro a fritos e a cerveja pairando no ar, empregados de avental sujo e palito nos dentes olhando para o televisor de pequenas dimensões ao fundo da sala. Desde o início da manhã que a tensão dos grandes jogos vinha crescendo, um nervoso miudinho que se tem por hábito comparar ao estado de espírito dos jogadores quando entram em campo; é sempre pior para quem está de fora. No relvado, tudo se diluí na intensidade do esforço. A camada acumulada de nervos adensou-se durante o jogo e culiminou de forma irracional quando o improvável futebolista Avô Cantigas tocou na bola com a mão. Quando dei por mim - e nunca esta expressão fez tanto sentido - estava aos saltos no meio da sala, gritando em direcção a um ecrã que mostrava acontecimentos a milhares de quilómetros de distância. Depois, lembro-me de achar que, se pudesse entrar em campo, saltaria em direcção ao fiscal-de-linha que assinalou a falta e deixaria à solta os demónios que tão discretamente tinham crescido dentro de mim, homúnculos alimentados pelos últimos vestígios deixados pelo cérebro reptilíneo que fomos esquecendo ao longo de milhões de anos de evolução. Esbracejava, sei-o bem, em direcção a sombras reflectidas no ecrã que simulava uma realidade simbólica, um exorcismo virtual dos demónios que me perseguiam. Racionalizei depois este instinto básico. Tão débil era a racionalização como o sentimento em si. Depois, tudo passou e, maravilha das maravilhas, achei que o árbitro-assistente acertara.
Seis anos depois, o jogo contra a mesma equipa, um abismo separando os dois acontecimentos. Calmamente assisti ao anunciado descalabro. Ou nem isso. Nem descalabro foi. Apenas uma derrota no futebol. Enquanto olhava para o televisor, cada jogada se tornava apenas uma soma de movimentos, desmarcações, linhas que surgiam e desapareciam acompanhando o percurso da bola de pé para pé, o total dos noventa e quatro minutos um diagrama polvilhado de pontos e vestígios de trajectórias, uma radiografia imaginária - que incluía presente e passado em simultâneo - de uma batalha ritualizada. Toque de génio? Quero pensar que a criatividade que não permite adivinhar o próximo movimento da bola ou do jogador seja apenas uma diferença num jogo de repetição e expectativa. A estatística reproduz os resultados possíveis mas não prevê o sucedido no final. Mas se nos afastarmos e visualizarmos o quadro geral, apercebemo-nos de que tudo estava escrito à partida. O que mudou, então? A minha percepção desta fatalidade. Há seis anos atrás, acreditava na possibilidade do caos. A aleatoriedade não era apenas um pressentimento. Era uma certeza trazida pelo génio de jogadores como Zidane ou Figo, ou Henry. Por outras palavras, achava que havia uma razão para me entusiasmar com a incerteza dos resultados. Um crença cega na imprevisibilidade das jogadas, sem que uma geometria traçada a régua e esquadro pudesse influenciar o desenrolar das partidas.
O que me leva à pergunta que se coloca, inevitavelmente: quem mudou, eu ou o jogo, a minha memória dele? A retórica nem chega a ser irónica, mas permito-me descansar sobre uma certeza: desde o nascimento até à morte, existe apenas um acumular de expectativas frustradas. Um descanso, porque sei com que contar daqui para a frente. Quem diz que o futebol é apenas um jogo não conhece o rosto da vida; mas os gregos sabiam muito o que faziam quando criaram o teatro e a sua face dupla. Nada mudou ao longo destes milénios de aprendizagem. Em seis anos, tudo se transformou.

[SL]

Flaubertiana

Não é uma distância, há muito perdemos a ilusão de podermos transpô-la. Não é um lugar, assim que tentamos fixar a sua extensão espacial, foge-nos, dilui-se. Não é um sentimento, não existe suficiente comoção na sua passagem pela consciência. Nem sequer é uma consciência de algo, talvez uma percepção breve de um objecto de passagem, estático e dinâmico, impossível de fixar na matéria em que julgamos acreditar. Recuso a definição em consequência de um puro defeito no entendimento do fenómeno. Mas desconfio da sua importância definidora. Vergo-me ao seu poder vital, intenso. A memória, essa puta que tantas vezes me trai.

[SL]