29/03/07

Crítica do Contemporâneo


Começa hoje na Fundação de Serralves "Crítica do Contemporâneo" um ciclo de conferências sobre o estado político actual trazendo ao Porto Giacomo Marramao (29 Março), Jacques Rancière (12 Abril), Peter Sloterdijk (3 Maio) e Giorgio Agamben (8 Maio) sempre às 21.30.

[Susana Viegas]

28/03/07

Salazar

Entre recordar e esquecer, aposta-se o valor da História. E recordar é sobretudo registar os acontecimentos e as suas consequências. De outro modo, recorrendo a construções mentais da memória, cria-se um mundo diferente daquele que aconteceu. Quem tem acesso a estes registos da História, às linhas criadas pela estatística, aos nódulos formados pelas datas importantes, às dobras no tecido da dimensão temporal provocadas pelas grandes catástrofes da Humanidade? Quem lê, quem aprende, quem apreende o real valor do conhecimento. Apenas os que distinguem informação de conhecimento se incluem neste grupo; a mediatização dos acontecimentos cria bolhas de importância que pouco ou nada têm a ver com o verdadeiro impacto na sociedade ou na História. Famosos, conquistas desportivas, grandes personalidades da nação. Para além do mais, a História dispensa os absolutismos de uma sociedade desinformada. Nunca deixa de ser um conjunto de pontos numa superfície, a que apenas conseguimos aceder em parte, como se pousássemos os nossos olhos numa folha de papel sobre uma mesa a partir de um plano situado ao mesmo nível que a mesa. A História esquece o inútil, o desnecessário. A sociedade mediática sobrevaloriza o absurdo, o passageiro, o que nunca verdadeiramente existe, no sentido em que não se chega a inscrever no inconsciente colectivo de um povo.
Algumas semanas depois da RTP ter comemorado com bolorenta pompa e circunstância o seu aniversário, serviu à massa indiferenciada de espectadores o mais indigesto prato que se pode servir: aquele que já passou há muito do prazo. Não houve apenas um conjunto de circunstâncias a rodear a votação do concurso televisivo; houve um movimento de silenciados do antigo regime, os que finalmente tiveram a oportunidade de expressar em público o que foi durante trinta anos reprimido. A memória que dura o tempo de uma vida não esquece o tempo idílico da infância; para além disso, recupera e reconstrói a realidade rasurando todas as manchas e defeitos que aquela vai ganhando. É por isso natural que muitos dos que admiram Salazar tendam a desvalorizar a sua tendência para a, digamos, opressão totalitária, em favor das suas supostas virtudes salvíficas: o homem que recuperou a economia; o homem que evitou que Portugal fosse à guerra; o homem santo, defensor da fé católica no país, contra a invasão ateia que se vivia no resto do mundo civilizado.
Salazar imaginou um país, no sentido em que criou uma série de imagens que se fixaram no inconsciente colectivo português, reorganizando a consciência de um tempo, tanto presente como futuro. Salazar criou aqueles que agora votaram nele. E, vamos lá ver bem as coisas, já ultrapassámos o complexo de Édipo; no fim de contas, apenas 70000 de nós votaram repetidamente nele.

[Sérgio Lavos]

27/03/07

O nosso utensílio de cozinha preferido*

Para não dizer muito mais sobre o assunto, deixo aqui um link para um texto da Fernanda Câncio. 70 mil votos fazem a diferença? 70000 almas penadas que ainda sonham com o mais triste ditador da história da Europa? À nossa escala, sem a grandiosidade amoral de outros países, passámos o que passámos e andamos há trinta anos a tentar esquecer a tristeza. Há quem prefira viver no passado. Mas até esses, meus amigos, vão acabar por cair de maduros.

*Expressão cunhada pelo Pedro Vieira.

[Sérgio Lavos]

24/03/07

Os amigos

Não sei se repararam, mas o amável exercício da amizade a que Vasco Pulido Valente (VPV) se sujeitou no Público é uma aguçada espada de dois gumes apontada na direcção de Paulo Portas. O Luís M. Jorge acha que VPV diz bem de PP. Mas se lermos de fio a pavio o artigozinho, não encontraremos um único elogio ao homem, ao político, ao estadista, ao putativo salvador do naufrágio em que a direita embarcou há algum tempo - e isto, inclui, claro, o mais desfasado partido do espectro político, o CDS, ou PP, ou CDS-PP, ou o que lhe queiram chamar.
A verdade é que o malabarismo estilístico de VPV pode ter um de dois resultados, e parece-me que neste caso conseguiu exactamente o oposto do que admite fazer atingindo aquilo que pretendia realmente atingir. Eu explico: nada há na crónica que indique que VPV coloque Paulo Portas num patamar mais elevado do que a bitola com que aquele costuma despachar a classe política em geral. Já conhecemos o rol de lamentos: a degradação da classe, a incompetência, o populismo e a falta de preparação para os cargos, sobretudo a ausência de uma aura de nobreza que, diz-se, em tempos era associada aos políticos. Não é preciso ler Platão para acreditar em utopias. Mas, na realidade, quantos homens verdadeiramente grandes eram políticos, nos últimos cem anos. 5? Mais do que isso? Há, no entanto, um mito a perpetuar, uma necessidade extrema de acreditar que a liderança de um povo é uma tarefa destinada aos melhores Homens disponíveis. Nunca foi assim - e a discussão acerca das habilitações académicas de José Sócrates é mais uma prova disto. O nosso homem da grande área netse jogo é VPV. E caramba, se dá gosto olhar para as movimentações linguísticas que ele ensaia, o estilo gingão de velho número dez ameaçando e fintando, finalmente disparando sem hipótese para o adversário.
Mas o estilo não é tudo, e revela quase sempre as fraquezas de quem se perde em rodriguinhos desnecessários. É preciso estar atento; o que VPV faz na crónica, é olhar para a esquerda e centrar para a direita, distraindo o adversário. Dizendo mal dos inimigos de Portas, repisando a tradicional litânia junto ao muro das lamentações a que estamos habituados - há uma senhora, neste caso, que é indirectamente visada. Nem por um momento se nega que Portas e os seus partidários tenham sido inocentes na vergonhosa situação que se viveu no passado fim-de-semana. Em nenhuma altura se questiona a capacidade camaleónica de Portas e o seu valor intrínseco: será bom ou mau ele ter andado aos ziguezagues todos estes anos, em busca do palanque certo para se colocar em bicos de pés, atropelando quem foi encontrando pelo caminho? Enquadrar-se-à a condução perigosa de Portas nos parâmetros de excelência que VPV defenderá (presumo eu) para a classe política? - apesar de nunca sobre eles ter escrito, dado a sua tendência para revelar apenas o negativo dos retratos tirados.
Será Paulo Portas o modelo de político a seguir, ou aquele "óptimo ministro da Defesa" é um sapo vivo que chega, por momentos, a soar a ironia camiliana? Que espécie de impulso leva VPV a considerar, sem se rir por dentro, ser perfeitamente "legítimo" ameaçar e insultar e querer tomar pela força um partido político? Onde pode residir a credibilidade de VPV, que parece ser historiador, quando troca a verve e a saudável acidez que reserva para quase todos, justa ou injustamente, por uma mal-disposta e amena indignação esgrimida em nome de uma, mais do que provável, amizade a um escroque? Terá perdão? E terá Portas percebido o que VPV acha mesmo dele?

[Sérgio Lavos]

23/03/07

Bill Shakespeare


Um pouco de Hugh Laurie (com Rowan Atkinson) muito longe de House.

[Sérgio Lavos]

Ben Callaway

Version, 2005-06, Vídeo PAL, cor, som, 4'23''

Benjamin Callaway (natural de Bristol, 1978) tem na Culturgest a primeira exposição individual onde apresenta o trabalho vídeo de found-footage que, nas palavras de Augusto M.Seabra, "se considerarmos o campo da música pop, constatar-se-á que o remix é uma prática insistente no hip-hop e genericamente nas músicas de dança, mas também que a agregação de imagens pré-existentes é bastante corrente nos vídeos musicais. Se mudarmos de campo de observação, para o cinema ou para as artes visuais que implicam imagens em movimento, o conceito é o de found footage – de facto muito anterior. Numa genealogia directa, poder-se-á dizer que a prática sistemática de found footage remonta aos trabalhos de Bruce Conner, em concreto a A Movie (1958), obra cujo título, qual sans titre, é emblemática do anonimato autoral das imagens colhidas e remontadas.(...) Version – remix, ou talvez o modo último de apropriação, um palimpsesto, ou, como a definiu Craig Owens, uma alegoria: “a alegoria torna-se o modelo de todos os comentários, de todas as críticas, na medida em que estes têm a ver com a re-escrita de um texto original nos termos do seu significado figurativo. A imagem alegórica é uma imagem de que nos apropriámos; quem escreve alegorias não inventa imagens, confisca-as, reivindica o direito daquilo que tem um significado cultural e coloca-se como seu intérprete”. (retirado do site da Culturgest)

Para ver só até este domingo, dia 25 de Março na Culturgest de Lisboa.


[Susana Viegas]

20/03/07

O Bom Alemão

Não acho que "O Bom Alemão" seja um anacronismo. Para além de o filme ser um exercício de estilo de um cinéfilo, é principalmente um filme pós-moderno, com todas as marcas de uma época em que a recriação e a citação são valorizadas a um expoente máximo. Há outros exemplos no cinema, o mais conhecido é o "Psico" de Gus van Sant. Neste caso, a homenagem a Hitchcock serve-se fria, feita de uma ironia e subversão que, de resto, já não estavam de todo ausentes do original filmado a preto-e-branco. O camp é sempre um objectivo para van Sant - e colorindo a película, o filme chega lá.
"O Bom Alemão", por outro lado, é uma obra que se leva mais a sério. A subversão, para Sodebergh, deve limitar a irrisão que lhe está associada. Quando vemos a cena da partida no final, mimetizando "Casablanca", acreditamos mais na amargura cínica de "O Bom Alemão" do que no romantismo inverosímil do filme de Michael Curtiz. Do mesmo modo, a evocação da Berlim em ruínas não tem a motivação de cariz ideológico de "Alemanha, Ano Zero", de Rossellini. Já pensámos a guerra. Agora tornamo-la cenário de um tempo perdido. O filme de Rossellini meditava sobre a devastação, Soderbergh cita apenas os cenários, vazios de conteúdo histórico mas significativos do ponto de vista estético. O pastiche é assim uma forma de recriar a memória - primeiro, cinéfila, e depois a da realidade em si. Haverá outro modo de tornar a arte útil?

[Sérgio Lavos]

17/03/07

Manual de conversação


Agora que contamos os dias para a estreia de INLAND EMPIRE de David Lynch (para 5 de Abril), um tempo de reflexão da obra com um Manual de Conversação Lynch-Razão, como se isso fosse possível. O próprio recusa-se a explicar ou a interpretar os filmes que faz, não aprova nenhuma análise psicológica da sua obra, seja análise simbólica, lacaniana ou freudiana. Afirma que com a psicanálise perde-se toda a arte, o mistério, o abstracto, quando o que ele quer é manter o mistério, trabalhar um ponto desconhecido da nossa mente que outros filmes não fazem trabalhar. Portanto, as análises lacanianas de Zizek estão fora de moda, ultrapassadas pelo esquema edipiano, falocêntrico que, no fundo, resume o inexplicável a três intervenientes: sexo, pénis e frustração; e foi com este esquema que Zizek muitas páginas escreveu sobre Lost Highway e a ejaculação precoce de Fred Madison ou o coito interrompido de Pete Dayton ... É um ponto de vista mas, para Lynch, é um ponto de vista que não vê o essencial; o essencial é o ilógico, os recantos escuros, os close-up excessivos, imagens mentais que não levam a respostas nenhumas por mais voltas que se dêem ao argumento. Por isso, bem mais rica é a esquizoanálise anti-edipiana de Gilles Deleuze e Félix Guattari - o cinema de David Lynch é uma arte de sensação e não de explicações. Francis Bacon (sobre o qual Deleuze escreveu Logique de la sensation) é o pintor que mais influenciou Lynch, ao ponto de este querer levar o movimento dos seus primeiros quadros a um extremo tal em que já era cinema e não pintura. A esquizoanálise leva-nos a então a um Manual de Conversação Lynch-Deleuze.
Sem psicanálise, ficamos com Song to the siren de Tim Buckley ( Starsailor, 1970), música que surge em Lost Highway na versão dos This Mortal Coil e que desde Blue Velvet David Lynch pretendia usar mas que, por falta de dinheiro, não o pode fazer na altura. Com esta música cria o tom da transformação de Fred em Pete e da recusa de Pete por Alice - You' ll never have me - e Fred Madison volta ao som do canto onírico da sereia. A pedido dos This Mortal Coil, a música não foi inserida na banda sonora do filme, onde encontramos David Bowie, Marilyn Manson, Rammstein, The Smashing Pumpkins e Nine Inch Nails.

"Song to the Siren"

On the floating, shapeless oceans
I did all my best to smile
til your singing eyes and fingers
drew me loving into your eyes.

And you sang "Sail to me, sail to me;
Let me enfold you."

Here I am, here I am waiting to hold you.
Did I dream you dreamed about me?
Were you here when I was full sail?

Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks.
For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow."
Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow.
I'm as puzzled as a newborn child.
I'm as riddled as the tide.
Should I stand amid the breakers?
Or shall I lie with death my bride?

Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you."
"Here I am. Here I am, waiting to hold you."

[Susana Viegas]

16/03/07

Moral

Ainda a propósito de "Diário de um Escândalo", lembrei-me de uns textos escritos por Pedro Mexia no seu anterior blogue Fora do Mundo, em que ele fazia a apologia do gosto por ninfetas. É um risco defender tais coisas num tempo de severa perseguição a quem se atreva sequer a imaginar que uma rapariga de quinze anos possa ter alguns atractivos de ordem sexual. As confusões entre pedofilia, pederastia, crime e inclinação sexual, assim como a mistura entre moral privada e pública e verdadeiro crime, fazem com que, por exemplo, há alguns anos atrás uma professora norte-americana tenha sido condenada a alguns anos de prisão por ter mantido uma relação com um aluno, com quem aliás veio depois a casar. O que, sem dúvida, na altura me fez sorrir quase na mesma medida com que me indignei com o caso. A questão é: onde acaba a diferença sexual e começa o crime? A linha tem de ser traçada. As sociedades ocidentais definem uma idade, 16 ou 18 anos, mas a verdade é que as únicas razões que sustentam este limite são de natureza cultural. O que deveria ser tomado em linha de conta, o consentimento dos dois (ou mais) parceiros, é apenas uma desnecessária abstracção, tanto para a moral colectiva como para os legisladores. No filme de que falo, a professora nunca se sente arrependida do que fez, apenas se sente constrangida pela inevitável perseguição que os media lhe movem, pelas pressões da sociedade a que pertence. Quando, a determinada altura, a mãe do adolescente irrompe pela casa de Sheba dentro, agredindo-a e insultando-a, o que está verdadeiramente em causa não é a natureza do acto da professora - consentido pelo adolescente (as condicionantes da sexualidade masculina não permitem que seja de outro modo); é a condenação do contexto libertário da atitude de Sheba. É a imposição de um modelo moral ao resto do grupo, assim como uma reacção de natureza psicanalítica; a mãe reage de forma violenta porque sente que o filho lhe escapa, sente que o complexo de Édipo é naquele momento apenas uma memória distante; sente que perdeu o filho para outra mulher.
Mas, sejamos verdadeiros, qual é o homem heterossexual que não sonha, durante a adolescência, com uma situação como a que é retratada no filme? Quantas professoras não terão habitado os nossos sonhos, quantas mulheres mais velhas não terão estimulado a imaginação de modo decisivo para a construção de uma personalidade? Quem nunca tiver pecado, que atire a primeira pedra; ou então que aprove legislação que criminalize os nossos mais belos sonhos.

[Sérgio Lavos]

!!!

A tocar na barra lateral, os !!! (toda a gente sabe como se pronuncia), com uma faixa do último álbum, "Myth Takes".
A questão é: como fazer música de dança quase sem recorrer a sons electrónicos? Ouvindo os !!!, aproximamo-nos de uma possível resposta. Bateria, baixo, guitarra e alguns sons de sintetizadores analógicos, um ritmo imbatível para acompanhar com a anca. Esqueça-se o refrão martelado até entrar no ouvido ou a construção tradicional de uma música pop - verso, refrão, verso, refrão. Junte-se esta vontade de ignorar os princípios básicos da pop a um gosto pela música funk dos anos 70 e a uma atitude provocatória nas letras - liberal, sempre, mas sem a chatice do verdadeiro empenhamento político - e temos um dos três melhores álbuns do ano, até agora. Para ouvir ao vivo em Abril, no Coliseu.

(a melhor recensão que eu li aqui.)

[Sérgio Lavos]