31/05/06

Desilusão Rau

Foi uma pequena desilusão a minha visita à exposição Rau no Museu Nacional de Arte Antiga. Muito se escreveu sobre esta exposição, pela sua qualidade inquestionável, mas, ao trazê-la a Lisboa, deveria ter havido mais sensibilidade para o público que gosta de visitar museus e que o faz com intuitos de fruição e de aprendizagem dos quadros expostos. Em primeiro lugar, é criticável o conceito de exposição em causa e que se resume a uma exposição literal das obras numa sequência cronológica. A ordem cronológica foi, de resto, o único método presente, uma vez que tudo o mais que se exige a uma exposição de circuito internacional faltou, nomeadamente, qualquer intuito informativo ou pedagógico. As únicas coordenadas presentes no espaço da exposição da visita eram a ordem cronológica e o agrupamento em salas temáticas identificadas (por escolas, como na sala impressionismo/fauvismo). Nem uma indicação relativa ao coleccionador, Gustav Rau, às circunstâncias das compras, aos motivos das escolhas ou até aos critérios estéticos inerentes. À partida, nada relaciona o gosto de Rau por arte sacra, retrato ou paisagismo bucólico. Quanto aos conteúdos expostos, é inegável a qualidade destes mestres da pintura (com Canaletto, Sisley, Signac ou Monet) se bem que, por exemplo, no quadro de El Greco se sinta a falta do verde que tanto impressiona os visitantes do Prado. Bom, na verdade, não nos podemos queixar pois ultimamente não fomos marginalizados no que diz respeito a exposições importantes mas, há que ter recursos para as trazer cá.

Grandes Mestres da Pintura Europeia: De Fra Angelico a Bonnard
Colecção Rau, de 18 de Maio a 17 de Setembro no MNAA.

[Susana Viegas]

Estilo

Admito a miserável queda para o lirismo barato. A irreprimível tendência para a palavrinha xaroposa, a metáfora redundante, o adjectivo desnecessário. Comovo-me com pouco, apesar de quase nunca se notar; dizem que sou seco. Dou por mim a apagar frases inteiras, parágrafos, textos, provação de escriba (cliché, bingo!) à míngua no deserto que faz, desgraçado, por merecer. Mais que o choradinho das palavras, o facilitismo da emoção fácil, o que prende, qual mosca, no melaço do sentimento, é a sensação absurda, mas oh tão errada, de achar que o putativo leitor me acompanha mais facilmente na via sacra da leitura. Lamento, tudo é estilo. O conteúdo é uma coisa que um semiótico qualquer inventou numa noite de atroz insónia, do mesmo modo que a verdade é um truque ficcional mais eficaz como estratégia de engate do leitor ideal, que no meu caso será uma mulher vaguíssima, de olhos ternos e atenção desmedida, ponta do indicador no lábio superior, perna cruzada, óculos caídos sobre o nariz, pele morena. Mas devaneio (e lembro Liv Tyler num filme banal realizado por Kevin Smith de que agora não me recordo o nome, com o canastrão do Ben Affleck e a inefável Jennifer Lopez. Se conhecem o filme, é desta imagem que falo; se não, paciência.), e evoco o mandamento supremo de quem escreve: o estilo. Pode mentir, inventar uma vida, um passado de que não se orgulha, seduzir o casto leitor com pleonasmos de cortar a respiração, arriscar oxímeros, experimentar mil e uma vozes diferentes, copiar outros, sem pudor, desde que mantenha um estilo. Pode o escritor nem saber ao certo o que pretende dizer, não é importante. Se a cadência das frases clicar um qualquer botão escondido no coração do inocente que está do lado do texto, está feito. Bom, bom, escrevia sobre o romantismo tardio que aborrece, apesar de preferir dar um exemplo concreto do que a seguir escrevi: o texto de Joaquim Manuel Magalhães no Expresso de sábado, sobre a poesia de Pedro Mexia. Uma ideia boa repetida em círculo perpétuo, uma reafirmação do lugar de Mexia no seio dos "reais" da poesia portuguesa, e pouco mais, no que diz respeito a conteúdo. Mas a forma, a forma. Ler um ensaio de JMM pode ser quase entusiasmante como ler um poema dele. E entedio o leitor, eu sei, mas podemos pôr as coisas de outro modo. O deleite estético é tão profundo como aquele que sinto ao ouvir de uma ponta à outra o "The Queen is Dead", e está tudo dito. E está explicado o meu vergonhoso romantismo. A frase que serve como epígrafe do blogue pode não ser apenas pose. A sério.

30/05/06

Palavra

João Gonçalves, nesta entrada, questiona-se, dando voz às palavras de Bento XIV, sobre a Fé depois do Holocausto - será possível crer lembrando o horror do extermínio? Não sei se tinha presente a formulação mil vezes repetida de Adorno sobre a poesia e a Shoah - todos a conhecem -, se o paralelismo foi propositado. Nada, depois "daquilo". Mas o que me seduz não é a utilização instrumental da frase de Adorno; é o modo como facilmente se pode substituir a palavra "Deus" por "poesia". Num plano de infinita incerteza, o uso da metáfora pode apaziguar os demónios do abandono a que estamos votados. Ocupar, como se fosse uma extensão de terra, o vazio, acendendo no seu lugar a palavra.

Fé e Razão

A maior parte dos ateus que conheço continua a tratar o Papa por Ratzinger, negando-lhe o nome que escolheu na sua missão de incubência divina. Uma atitude de óbvio despeito, de desvalorização da importância do seu actual papel em relação ao anterior, infinitamente mais exposto à crítica, de responsável pela ortodoxia da Igreja. Diferenciam-no também de João Paulo II, mas não posso afirmar com exactidão se o fenómeno aconteceu nos primeiros tempos depois da transformação de Karol Wojtyla em João Paulo II; acredito que não tenha sido assim. A sua nomeação foi uma surpresa, não era um cardeal mediático como o alemão, e a Igreja precisava de esquecer o curto pontificado de João Paulo I, nos dias de hoje ainda envolto numa nuvem conspirativa de origem difusa. Com Ratzinger, persiste no entanto o desprezo de uns e, mais sintomático, a desconfiança de outros, nomeadamente dos crentes mais progressistas. A verdade é que Bento XVI é um Papa diferente. Oriundo de um meio académico, respeitado teólogo que partiu de uma posição liberal em relação ao Concílio Vaticano II até desembocar em teses mais conservadores na defesa da fé católica, acaba por não agradar nem ao mundo laico, que esperava reformas profundas - por que razão, não sei, a César o que é de César, a Deus... já se sabe - nem à grande massa católica, que ainda não compreendeu muito bem a complexidade do pensamento do Sumo Pontífice. De que modo será recebido por exemplo o discurso de Bento XVI em Auschwitz-Birkenau, até hoje a mais produnda retractação do pecado alemão e ao mesmo tempo católico por parte do mais alto representante do Vaticano? Lamento, mas o povo nem se apercebeu da revolução implícita nas palavras de Bento XVI, e não espero que as beatas do costume (em Portugal, João César das Neves e afins) teçam loas à lucidez demonstrada. Assumir a dúvida, no fundo foi o que Bento XIV fez. O guardião máximo do dogma católico questionou a presença de Deus no mundo, ou melhor, a sua ausência durante o Holocausto. Assombrou-se perante o silêncio. Uma mínima revolução ou um pequeno lapso discursivo? Esta segunda hipótese não me parece possível, conhecendo o rigor do pensamento de Ratzinger, a sua geometria precisa no traçar do caminho para a Igreja. Ele sabe que não pode ceder às heresias que pretendem mudar a orgânica funcional da instituição. Se isso acontecesse, ruiria por completo o já frágil edifício que tem vindo a ser erguido desde a Contra-Reforma. Mas pode-se permitir uma subtileza conceptual que permita que sejam dados pequenos passos no sentido de uma religião que seja mais humana e, simultaneamente, mais racional, se é que isso é possível, esvaziando a importância do legado populista de João Paulo II, campeão das massas. Se quisermos, a Igreja de Bento XVI é mais elitista, rege-se por um catecismo fundamentado e pensado, mas sem abdicar de nenhum dos pilares que sustentam a instituição. A única via possível, mesmo admitindo uma falha na solidez irracional que a Fé representa. Tentando a (inconciliável) união entre Fé e Razão, quinhentos anos depois da Reforma. E isto não é tarefa fácil.

29/05/06

Muralha

A imagem da Grande Muralha da China descrita por Franz Kafka, fragmentada e inconclusa, mandada erigir por um Imperador que ninguém conhece, arquétipo de onde emana um poder difuso e ao mesmo tempo assertivo, pode ou não pode ter alguma relação com o texto que escrevi antes deste. Como pista, escrevo apenas (mas servirá este acto como prova de realidade?) que a associação me ocorreu já depois de ter ter clicado no publish. E tenho presente que a Grande Muralha da China nunca foi terminada. Mas ainda se vê do espaço. (Alguém viu?)

28/05/06

Máquina e memória

Aprendemos a confiar na passagem do tempo e na consequente fixação da memória; sabíamos que o presente apenas se poderia repetir como imagem da memória, e mesmo quando inventámos instrumentos que ajudavam à preservação do passado (livros, desenhos, máquinas) havia sempre um limite que impedia a repetição do acontecimento: o limite que transformava o momento do passado em outra coisa qualquer. Olhar para uma fotografia não era ritualizar o passado; era apenas produzir no presente um acontecimento que substituía o verdadeiro, que passava a existir no lugar da inalcançável realidade. Desconfio que o processo de crescimento pressupõe esta perda irreparável. Ao tornarmos o passado simultâneo ao presente que passa, associamos os dois tempos de forma definitiva, tornamos o passado um rito natural ao ser no presente. Mas o paradigma está a mudar. A infância pode ser empacotada e vendida nas grandes superfícies. Recuamos no tempo recorrendo ao mais básico dos artifìcios: a simulação da realidade, que substitui a ritualização do passado que até aqui acontecia. Séries, jogos, música. A acessibilidade destes objectos sacralizados pela poderosa máquina consumista consegue criar em nós a ilusão da momentânea felicidade. Esta felicidade, pelo cansaço, pela repetição, entranha-se e dilui-se, e a cada novidade rejubilamos menos, extinguimos em nós o desejo e substituímo-lo por uma vontade apenas funcional e vazia de sentido. O rigor do pessimismo das velhas gerações esquece-se porém do óbvio: a mudança não significa degradação, nunca significou, cada geração deve usufruir da felicidade que merece. Se a nossa é breve e extática, rápida e facilmente esquecida, é porque nos munimos das ferramentas que substituem a função da memória. Não lembramos, é verdade. Criámos máquinas que o fazem por nós.

25/05/06

O modelo

César, aspirante a escritor, apanhou naquele dia uma enchente na secção dos modelos. Detectou ao longe a multidão, enquanto passava pela promoção do dia, mesmo em frente à banca dos legumes. Desanimou um pouco, contudo não o suficiente para dar meia-volta e volver, apêndice espinal metido entre as pernas. "Coragem", pensou, neste caso entre aspas, "se não for hoje nunca mais começas aquilo", e seria verdade, tinha a agenda atafulhada durante pelo menos um mês, era uma oportunidade única. Controlou os nervos aspirando o ar em volta, enchendo o peito de forma resoluta. Sem dar por isso, quase deitou ao chão uma grávida que procurava preservativos nas prateleiras erradas, e porque não viu a expressão de fúria que nasceu na cara da mulher, acabou também por lhe escapar o ar horrorizado de um homem de meia-idade (são sempre homens de meia-idade) ao perceber que tipo de artigo a mulher procurava. Chegou por fim à secção dos modelos, encontrando uma densa barreira de corpos e cabeças rodeando o desejado produto. Se pudessem espreitar o enfado que lhe enfeitou o rosto veriam as pequenas rugas ao canto dos olhos, habituais nele, principalmente quando alguma contrariedade surgia. Nem sempre conseguia utilizar de forma sábia o dom da invisibilidade que um professor em tempos lhe tinha augurado num tom jocoso, mas acontece que naquela altura conseguiu activar o interruptor secreto, que para o caso se situava nas costas, mesmo por cima do rim direito, a dez centímetros da coluna, o que tinha obrigado a um esforço agravado do seu braço esquerdo. Invisível portanto aos olhos de todos, ele foi tentando furar por entre o maralhal empurrando e beliscando, puxando e soprando e bufando, agachado ou saltando, pisando pés e dando ombradas, sem contemplações ou angústias. Ao fundo, lá estava o prémio. Ele sabia ao que vinha, e assim que olhou para o modelo reconheceu nas suas linhas o ideal que há tanto perseguia. Era aquele, não podia ser outro. O rigor das feições, o corpo bem proporcionado, a elegância das roupas, o toque de classe do cachimbo pendente dos lábios, o carácter afirmativo dos óculos de massa pretos, o apontamento final da boina encimando o cocuruto careca da cabeça, tudo se encaixava de modo, senão justo, pelo menos imperfeitamente certo. Isso, assim mesmo. Todas as imperfeições do modelo se enquadravam nos planos de meses. Levaria o artigo para casa, sem olhar sequer para o preço. Dirigiu-se à prateleira, retirou-o com cuidado e colocou-o debaixo do braço. Nem notou o peso excessivo, as gotas de suor que lhe perlavam a pele quando chegou à caixa. "Cartão ou numerário?", perguntou a proletária moça, mascando pastilha. "Ah, American Express, por favor." Vinte segundos depois, o modelo era seu. Podia chegar a casa, correr as cortinas, deixar o dia entrar, sentar-se ao computador e desatar a escrever como se não houvesse amanhã, o seu modelo bem paradinho ao lado da cadeira reclinável, de ar sério e bem-posto, pronto para qualquer sugestão, oferta de estilo, consulta de vócabulos; era aquele e não outro que iria servir de guia metódico na tarefa espinhosa que tinha em mãos. Podia ser agora, verdadeiramente, um escritor.

José Luandino Vieira

A eternidade tem um pedaço de terra reservado aos escritores que recusam as comendas dos seus contemporâneos. Em 1996, Herberto Hélder, intransigente na sua reclusão, não aceitou que lhe fosse atribuído o Prémio Pessoa, sem adiantar razões nem desculpas, e todos lhe compreenderam o gesto. Luandino Vieira seguiu-lhe o exemplo, e o de Sartre a Barnard Shaw, e persistiu no isolamento de dez anos no seu convento particular em Vila Nova de Cerveira. Quem o conhece aceita, o sistema entende. Do mesmo modo, quando se fala de prémios Nobel mais depressa se lembra os que nunca ganharam do que meia academia de notáveis nobelizados que caíram no esquecimento do mundo. Nada que surpreenda, e o escrutínio do tempo consegue ser radical nos seus processos. Cada escrito de Kafka, cada conto de Borges, é mais admirado e estudado que toda a obra de Erik Axel Karlfeldt (1931) ou Johannes Jensen (1944), por exemplo. Dou por mim a olhar para a lista dos esquecidos pelo cânone e a pensar nas razões que possam ter levado ao actual estado de coisas. Como é impossível encontrar traduções destes autores, nunca poderei confirmar as suspeitas. Será o valor intrínseco da obra a fixar o escritor na memória colectiva ou dependeremos na totalidade dos critérios de um panteão de académicos que perpetuam os mesmo autores de sempre, produzindo infindáveis teses à volta do mesmo tema? Aprendemos a confiar no gosto alheio, não temos alternativa. O critério parte sempre de uma subjectividade extrema, a que decorre da credibilidade daqueles que lemos e escutamos. Que fazer senão aceitar esta irreversibilidade? Confio nos prémios, no meu gosto ou no gosto dos outros? O critério Bartleby costuma ser bom juiz das minhas escolhas. Este critério obriga a que admire o escritor que se exclui do sistema, se torna objecto de um jogo de negação e recusa. Ao afimar a sua individualidade pela negativa, o escritor-Bartleby (recorrendo à preciosa ajuda de Enrique Vila-Matas) torna-se objecto passivo do meio onde antes pertencia, coloca-se fora do acontecimento, não esperando compreensão ou reconhecimento. Simplificando, presta-se à marginalidade, sabendo no íntimo que apenas o que não pertence à comum mundanidade pode julgar de modo exacto a obra produzida. O escritor que recusa protege a obra dos efeitos secundários da realidade: a vaidade, o orgulho, a mesquinhez dos anões da História. Afirmar que a recusa é também uma atitude mundana não me parece contraditório. É a mais admirável concessão que se pode fazer ao Outro.

23/05/06

A retórica da invisibilidade

Uma das coisas que mais me azucrina em alguma literatura contemporânea é o excessivo name-dropping. O defeito será meu, decerto. Parece que existe uma pós-modernidade que se consola com um sistemático bombardear de referências estéticas, sejam elas de origem erudita ou mais popular. Haruki Murakami, escritor com evidentes méritos, abusa do efeito. Mas isto é literatura pop. As personagens dos seus romances ouvem Miles Davis, Coltrane, Radiohead. Lêem Fitzgerald, Camus, Ibsen. E andam perdidos numa espécie de universo pós-existencialista, onde nem o niilismo é remédio para o sofrimento do mundo. O.K., percebi a mensagem. Mas chega de atirar à cara a cada página a perfeita uncoolness da minha existência. Enrique Vila-Matas é outro exemplo deste nocivo hábito. Falamos de outra divisão, é certo, e nião deixo de achar que o escritor catalão é um dos grandes modernos. Mas as suas últimas obras, "Paris Nunca se Acaba" e "O Mal de Montano", são um fartar vilanagem de citação, evocação e bajulação de tudo quanto é escritor que tenha intervindo na sua formação literária. Descontado o carácter autobiográfico de ambos escritos, assim como a deliciosa ironia aplicada com estilo ao name-dropping, devia ter havido um travão no entusiasmo de Vila-Matas. Contra mim escrevo se admito que a retórica da intertextualidade me aquece o coração. Sinto-me acompanhado de uma multidão de autores lendo apenas um livro, e permito-me sonhar com uma erudição que, na verdade, não possuo. Dou por mim, não raras vezes, sorrindo ao encontrar num autor outros autores de quem eu gosto. Mais reconfortante é, contudo, que um romance me toque sem que grite a plenos pulmões ideias e conceitos. Que fale de modo discreto, baixinho, e consiga provocar o clique do entendimento absoluto e súbito, fenómeno raro de impossível explicação. Tenho em mente alguns autores, Don de Lillo é um deles, Sebald outro. Entre o exército dos silenciosos e o dos terríveis narcisistas da palavra, prefiro sem dúvida o primeiro. Lamento ser o oposto de quem queria ser.