Serrei a macieira ao pé da janela.
Por um lado, tapava a vista,
a sala de estar ficava pálida no Verão,
por outro lado, os grossistas já
não queriam aquela qualidade de maçã.
Pensei no que diria
meu pai, ele gostava
daquela macieira.
Ainda assim, serrei-a.
Está muito luminoso, posso
ver para lá do fiorde
ou observar
mais vizinhos,
a casa está agora à vista
de todos, mostra
mais de si mesma.
Não quero admiti-lo, mas sinto falta da macieira.
As coisas não são o que eram. Dava um bom abrigo
e boa sombra, o sol espreitava através dos ramos
em direcção à mesa, e à noite eu costumava deitar-me
a ouvir as folhas ao vento. E as maçãs –
de sabor mais apimentado, na Primavera, não há.
Dói sempre que olho o cepo: quando
enfraquecer, irei desfazê-lo em lenha.
Um poema de Olav H. Hauge traduzido por Henrique Manuel Bento Fialho.
06/03/13
04/03/13
RG
Blogue sem lista de blogues que por vezes é este auto-retrato. Não consigo perceber se mereço tal estima. Vale-me que o retrato do Ricardo é dos poucos que me restam do início de tudo. E continua a valer a pena, agora com nova moldura.
Amor
Compreende o rio.
Aprende o seu ritmo,
segue ao longo da margem
sabendo que a cada passo o rio
segue contigo, e que na
foz se encontra a imagem
sobre a qual se desenha a fórmula,
a molécula, o olhar
que permitirá à luz opaca
do futuro se revelar num esplendor
primaveril, divino.
Segue o rio,
a água, o corpo maleável
que à vida se cose, se contorce,
e nele quando descobres
o rumor é como o clarão
de que se despede o dia.
Aceita o rio; e se nele não encontrares
o sangue ardendo, as entranhas,
entrega-te a mim, que eu sou em ti
o rio que te procura, voz na sombra, passado
reunindo o caminho bifurcado.
Aprende o seu ritmo,
segue ao longo da margem
sabendo que a cada passo o rio
segue contigo, e que na
foz se encontra a imagem
sobre a qual se desenha a fórmula,
a molécula, o olhar
que permitirá à luz opaca
do futuro se revelar num esplendor
primaveril, divino.
Segue o rio,
a água, o corpo maleável
que à vida se cose, se contorce,
e nele quando descobres
o rumor é como o clarão
de que se despede o dia.
Aceita o rio; e se nele não encontrares
o sangue ardendo, as entranhas,
entrega-te a mim, que eu sou em ti
o rio que te procura, voz na sombra, passado
reunindo o caminho bifurcado.
22/02/13
O progresso do amor
Quando fiz o balanço literário de 2012, referi um livro que não existe - ou, pelo menos, não conheço qualquer livro com este título: O Regresso do Amor. Talvez por isso possa dizer que o livro que não existe foi um equívoco. Porque entretanto avancei para lá do primeiro conto de outro livro com um título semelhante, O Progresso do Amor, de Alice Munro. Não é um acaso o facto de terem o mesmo nome as autoras dos dois livros - o engano no título do livro obrigou-me a dar a uma segunda oportunidade a Munro.
Falemos do segundo, escrito pela escritora canadiana*, traduzido por José Miguel Silva - tenho uma ou outra reclamação a apresentar, mas de pouca monta - e editado pela Relógio d'Água.
Entretanto insisti. Como quase sempre, o meu primeiro juízo foi, digamos, ligeiramente precipitado. Munro é uma contadora de histórias que vale muito, mas mesmo muito, a pena. Os seus contos são trabalhados até um ponto em que aparentam prescindir da sua máscara literária e transformar-se em vida. A classe média - rural na maior parte dos casos - canadiana, como imaginamos que ela deverá ser em qualquer pequena vila do mundo ocidental. Os momentos de pathos são breves, discretos, mas transformam as personagens - mulheres, quase sempre mulheres - de uma forma duradoura, dolorosa. Revelações que alteram o destino das personagens ou o modo como estas olham para o seu mundo. Chegamos ao fim de alguns contos e temos vontade de os reler apenas para entender em que momento a história contada nos cativou, desenrolar o novelo entretecido por Munro, a sua estratégia de conquista da narrativa e do amor do leitor, daquele tipo que nos faz pensar, muitas semanas depois, na expressão de surpresa de uma personagem ao descobrir o que tinha de fazer para reclamar o seu futuro. Tudo em palavras, língua; e depois imagem sem palavras.
*Na página da Wikipedia é-nos dito que a autora é uma perene contendora ao prémio Nobel e considerada um Tcheckov norte-americano. Gosto de hiperbóles porque elas nos permitem reduzir o objecto hiperbolizado à sua verdadeira dimensão, ao obrigar-nos a encontrar nele as razões de tal excesso. Em Munro encontro muito de Tcheckov, é verdade; o que é um enorme elogio, dado que poderei dizer, nesta fase da minha vida, que o escritor russo** é, provavelmente, o maior contista lido, morto ou vivo. Apesar de Salinger.
**Note-se a substituição do nome do autor por uma paráfrase. No outro dia lia uma entrevista a Richard Zenith, na qual ele mencionava a liberdade de Fernando Pessoas na escrita. Dizia ele que Pessoa, ao contrário do que acontece com o comum escritor português, não evitava as repetições de palavras em cada frase. Uma liberdade que tinha raiz na sua educação anglo-saxónica. Eu, por ter lido mais do que uma vez que deveria evitar-se as repetições de palavras até a um limite razoável, excepto quando a repetição é estilística, cedo a essa mania portuguesa. Estará Zenith certo? Tenho dúvidas, mas chegarei certamente a uma conclusão quando menos esperar.
16/02/13
09/02/13
Um sonho
Mais do que a linha marginal
para onde apontas, lado a lado as balas e a pena
com que delimitas o território para
onde podes fugir, a meio da noite apenas
te poderá servir a treva e a sua fulguração
mais brilhante do que o abismo,
recordas outras noites,
quando ainda podias ver na distância
o contorno nítido de um rosto que te poderia salvar,
mais do que a rocha esboroada por onde
escoa o verso a sua vida,
e firmas o pé sabendo que sobre o vazio
poderás sentir a verdade, o espinho
infectando a carne até ao osso,
o equilíbrio vacilando sobre o mar, ao rés
da água, mãos nas arestas,
esse é o mapa onde poderás desenhar o
possível destino a que entregas a decisão,
a vontade, e o sentido.
Nenhuma forma se divisa na neblina.
para onde apontas, lado a lado as balas e a pena
com que delimitas o território para
onde podes fugir, a meio da noite apenas
te poderá servir a treva e a sua fulguração
mais brilhante do que o abismo,
recordas outras noites,
quando ainda podias ver na distância
o contorno nítido de um rosto que te poderia salvar,
mais do que a rocha esboroada por onde
escoa o verso a sua vida,
e firmas o pé sabendo que sobre o vazio
poderás sentir a verdade, o espinho
infectando a carne até ao osso,
o equilíbrio vacilando sobre o mar, ao rés
da água, mãos nas arestas,
esse é o mapa onde poderás desenhar o
possível destino a que entregas a decisão,
a vontade, e o sentido.
Nenhuma forma se divisa na neblina.
08/02/13
04/02/13
Django Libertado
A questão, em Django Libertado, não é a escravatura. Nem a raça, a negritude da América. Nesse aspecto, Spike Lee, uma vez mais, atira completamente ao lado (como aliás já tinha sucedido com Clint Eastwood quando estreou Flags of Our Fathers/Letters From Iwo Jima). Ninguém de bom senso esperaria que Tarantino fizesse um filme empenhado politicamente, um ostensivo manifesto - como é grande parte da obra de Spike Lee, de resto. Se Tarantino tivesse decidido fazer isso, das duas uma: ou falharia redondamente ou deixaria de ser Tarantino.
Claro, há aquele pequeno pormenor: Tarantino é branco - tem ascendência índia e italiana, mas é branco. O seu olhar, se está vertido em alguma personagem, não é em Django, mas sim em King Schultz. O ariano versado em várias línguas, culto, refinado e um glorioso sacana à procura de poster boys (pun intended) no faroeste americano. A política está no gesto de libertação ensaiado por Schultz. É ele quem oferece a liberdade a Django, é ele que o estimula a embarcar na matança para libertar a sua mulher, é ele o herói que mata Calvin Candy, num gesto de aparente raiva, no fundo um atentado verdadeiramente político que elimina quem encarna o espírito do racista esclavagista, do opressor.
Portanto, regressamos à crítica de Spike Lee: fazer um filme sobre a escravatura em tom de western-spaghetti? O horror, o sacrilégio? Não, porque há mais política do que as imagens aparentam, e não onde se esperaria que ela assomasse. Django é libertado, torna-se fora-da-lei, mas ficaremos sempre na dúvida se chega a sentir a raiva - profundamente política - que o Dr. Schultz não consegue conter. À superfície, o mesmo brilhantismo de sempre: a canibalização de géneros, a auto-citação, a estilização da violência, os diálogos intocáveis - se bem que, neste caso, menos trabalhados. Na profundidade, um ensaio iconoclasta e politicamente incorrecto sobre as lutas dos afro-americanos. E uma extraordinária qualidade, a desconstrução de dois mitos do cinema americano: O Nascimento de Uma Nação em versão Mel Brooks numa sequência genial que esvazia por momentos a gravidade da história que está a ser contada. E a evocação de E Tudo o Vento Levou: em vez de Rhet e Scarlett, Django e a sua Broomhilda. Genial Tarantino, talvez o seu melhor filme.
03/02/13
02/02/13
Cães pretos
Há razões para ter voltado a ler Cães Pretos, de McEwan, mas talvez elas agora não interessem. Certo é que a releitura foi rápida e, como sempre com McEwan, um prazer. Há nele aquele domínio dos mecanismos da ficção que leva-nos a percorrer as vidas das personagens sentindo-as tão próximas como o familiar que gostaríamos de conhecer intimamente. Não é que não se evidenciem as técnicas e os truques, as marcas de estilo - o tema da confiança no narrador, quando a narrativa é feita na primeira pessoa, recorrente em McEwan, é também aflorado numa das passagens mais brilhantes do romance (quando o narrador conta as duas versões da história do enamoramento de June e Bernard, pelos olhos de um e de outro) - mas os experimentalismos nunca se afastam dos caminhos do romance clássico; estamos longe, muito longe, das derivas pós-modernistas.
James Wood escreveu sobre o trauma e o acaso nos romances de McEwan, e Cães Pretos será um dos melhores exemplos desse interesse. A epifania que roubou June ao comunismo e a Bernard surge de um magnífico acaso: um passeio pelo Languedoc, Bernard fica para trás e June depara-se com dois mastins negros dos quais escapa num movimento a que só poderá ser atribuído o qualificativo de milagroso. Entre o furioso mundo materialista do comunista Bernard e uma vida de busca espiritual, a distância curta de uma ameaça surgida do nada. O que será mais forte, mais digno de salvação? O amor certo e definitivo, ou a própria alma? Ninguém poderá amar sem se negar a si próprio. June e Bernard são fieis a identidades e construções do eu que se opõem, e essa diferença nunca será ultrapassada. Um amor a que não se submetam o espírito e a alma nunca poderá verdadeiramente florescer.
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