07/07/12
06/07/12
O deus dos pormenores
Às vezes apetece dizer: dias estranhos, estes. A histeria mediática à volta de uma partícula elementar, o Bosão de Higgs, mostra que este mundo - o nosso, ocidental e tudo - tem saudades do deus morto há quase cento e cinquenta anos. Durante alguns dias, o que é ciência, conhecimento puro, transformou-se numa espécia de papa esotérica com emanações místicas e arroubos teológicos. Sabendo que a God's particle era para se chamar a goddam particle e apenas por conveniência moralista de um editor de uma revista científica surgiu a maldita expressão, percebemos como andamos perdidos. Todos. Menos os cientistas que, fechados nos seus laboratórios procurando a comprovação das suas hipóteses, sabem que o furor do leigo perante a ciência tem a mesma raiz que o extâse místico do seguidor de uma qualquer seita. Prostrados ao altar do desconhecido, procuramos deus na matéria de que somos feitos. Felizmente, este furor é passageiro. E o que realmente interessa, o esforço do cientista, persiste independente do mundo. Até o próximo Bosão reaparecer de forma intermitente nos instrumentos de medição da Natureza, o descanso. Cinco dias, já passaram?
05/07/12
Medo
Somos inseparáveis da nossa ferocidade. Nada do que façamos nos permitirá exorcizar a natureza animal que nos estrutura. Odiamos porque lutamos, e lutamos porque somos. E não deveremos esquecer: na Natureza, os fracos morrem cedo e não deixam descendência. Se os fracos agora vivem até tarde, foi porque a razão e o engenho humano ultrapassaram os limites da Natureza, e a doença deixou de matar cedo quem nasce exposto à fraqueza. A ciência destruiu a ordem natural das coisas. Será por isso que nunca estivemos tão perdidos, afastados de um divino que nunca deixou de ser o outro rosto do medo. O outro rosto do mundo.
02/07/12
Uma fórmula, apenas
És tu só. Tudo o mais se diferencia, mas também começa em ti, no fim de ti. Parte da matéria do mundo de que és feito não te pertence, essa parte rasa onde caminhas quando lês um poema. Essa parte rasa, e tão aérea que é como se fosse o avesso da terra onde pousas os pés. A cada passo, o mundo que se vira acaba em ti, as partículas que se cruzam a uma velocidade infinita e te definem enquanto composto da matéria, luz que és tu, só. Uma porção de instante e de intervalo, uma fórmula. Apenas isso.
19/06/12
17/06/12
Escolha
No caderno de notas, um número e uma morada. A citação errada. E temos de voltar àquela casa. Não há outra escolha. Não há escolha.
12/06/12
O outro
É mais difícil ao ser humano esclarecer mal entendidos do que provocar a discussão. É a sua natureza: discutir, argumentar, discordar. A identidade humana funda-se na diferença: existimos porque não somos o outro, não somos como o outro.
08/06/12
Insónia
Um insone é um fantasma de passagem pelas horas até adormecer; ou um adormecido sonhando com o fantasma da insónia passada. Tempo fora dos eixos.
07/06/12
01/06/12
O advérbio de modo
Um dos mais extraordinários feitos de Herberto Helder é a capacidade de manusear advérbios de modo delicadamente. Assim, maravilhosamente. O que em qualquer outro autor é uma densa barreira obrigando o leitor a saltar ou a uma volta mais demorada na leitura - palavras longas, longuíssimas, colocando-se a meio da frase, cortando o ritmo, mutilando o andamento da prosa ou do verso - em Herberto é uma catapulta. A sucessão de advérbios de modo empurra-nos para a dimensão oculta do poema, martelando no ouvido a força dos substantivos que precedem o complemento, reforçando o poder do verbo, hiperbolizando-o.
Mas talvez exagere, e o problema simplesmente seja ainda não ter conseguido perceber a poesia do poeta. Talvez. Tão simples.
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