Não me canso de ver as fotografias do Venice Daily Photo - descoberto há uns tempos através do Luís M. Jorge. Veneza é sem dúvida a única cidade das que visitei que não se repete a cada imagem. Olhar para as fotos ajuda-me a recordar e ao mesmo tempo a imaginar o que será Veneza no momento em que o fotógrafo dispara. Já lá estive, e continua a parecer uma cidade que não existe, uma cidade invisível como as de Italo Calvino. E se alguma coisa a viagem reforçou, foi a sensação de irrealidade que dela irradia. Antes, era um postal turístico, um lugar cuja aura de cliché o tornava pouco apetitoso. Durante, depois, o fascínio. Não estarei muito longe da paixão - e por isso cada vez menos a reconheço, e é menos real, um sonho. Os pés que pisaram as ruas da cidade não acreditam nela. E por isso, amam-na.
26/05/12
23/05/12
Ilusão
O passado vai-nos iludindo enquanto não o confrontamos com o presente. Existe numa redoma, num sonho. Quando despertamos, revela-se, revela-nos; e o presente torna-se o lugar possível. Mais feliz, concreto e belo do que qualquer ilusão.
20/05/12
19/05/12
New York Herald Tribune
A sequência, breve,
deixa marca.
Como se uma imagem pudesse sobrepor-se
ao objecto que imita ou a memória do
acontecimento substituísse
a realidade – o atrevimento da filosofia.
Ela passa ao lado
e ele pára imitando o coração.
Mas recomeça, e nesse salto ultrapassa
o limite imposto pelo tempo,
e ninguém nota;
mas não importa.
O lapso entre o espanto
e a obrigação, um momento de espera em que ele
não sabe se vai ou volta, e o sol
dança com a indecisão, e o sol avança;
e passou.
A marca deixada, cicatriz entremeando
tudo e nada, desaparece, não é já
sombra fantasma.
Não se encontrarão no café com o quadro de Lempicka na parede.
Não perceberão um no outro o sentido das coisas quietas;
fins-de-tarde; passeios demorados; acordar todos os dias.
Não entenderão o desconserto do mundo e não saberão que nem o amor
o poderá emendar.
Não vão tarde, nem cedo, existem em dois tempos.
Apenas o cinema
- ou um desatinado poema –
Os pode resgatar.
deixa marca.
Como se uma imagem pudesse sobrepor-se
ao objecto que imita ou a memória do
acontecimento substituísse
a realidade – o atrevimento da filosofia.
Ela passa ao lado
e ele pára imitando o coração.
Mas recomeça, e nesse salto ultrapassa
o limite imposto pelo tempo,
e ninguém nota;
mas não importa.
O lapso entre o espanto
e a obrigação, um momento de espera em que ele
não sabe se vai ou volta, e o sol
dança com a indecisão, e o sol avança;
e passou.
A marca deixada, cicatriz entremeando
tudo e nada, desaparece, não é já
sombra fantasma.
Não se encontrarão no café com o quadro de Lempicka na parede.
Não perceberão um no outro o sentido das coisas quietas;
fins-de-tarde; passeios demorados; acordar todos os dias.
Não entenderão o desconserto do mundo e não saberão que nem o amor
o poderá emendar.
Não vão tarde, nem cedo, existem em dois tempos.
Apenas o cinema
- ou um desatinado poema –
Os pode resgatar.
15/05/12
Andorinhas
Menos andorinhas, este ano. No beiral do meu prédio, mesmo por cima da janela do meu quarto, elas todos os anos regressam aos ninhos. Estamos em Maio, e ainda não chegaram. Faz calor, o sol voltou, mas talvez se tenham perdido nos temporais do último mês. Não vieram as andorinhas, e cerejas há poucas; e caras.
A Primavera foi adiada: demasiadas mortes, mortes demasiado tristes, o mundo a pesar sobre os ombros, uma melancolia alastrando sobre a pele. Os instantes de alegria breve escasseiam. Abril cruel, Maio a caminho de se perder enredado em si mesmo. O que nos poderá redimir?
13/05/12
Uma questão de distância
O que se me apresenta como vulgar, repetição, comum diário, se olhado de longe, plano afastado, torna-se bizarro, diferente, extraordinário. Basta dar um passo atrás, e a imagem foca-se. A única ressalva: que atrás de mim não se abra o precipício.
12/05/12
05/05/12
Olé
Não cheguei a terminar Dublinesca. Deve ter sido o primeiro livro de Enrique Vila-Matas a levar esse tratamento. Não me recordo de quais as exactas circunstâncias em que tal aconteceu, apesar de ter sido há menos de um ano. Mas ao ler a entrevista do escritor feita por Carlos Vaz Marques (na Ler deste mês) fiquei com vontade de comprar o tal Ar de Dylan. Aquela coisa de ser tão bom entrevistado como escritor pode parecer um cliché hiperbólico, mas quem retira tanto prazer de uma entrevista quanto das linhas escritas pelo entrevistado tenderá a concordar. E Vila-Matas nas entrevistas é tão esquivo e metaliterário como nos livros. É como se nos últimos anos ele se tivesse vindo a metamorfosear num dos seus Montano ou Bartlebys - e ele admite-o na entrevista, presta-se ao jogo. Não admira que tenha ido buscar Dylan - o tal homem que não tem rosto real, apenas uma máscara. Mas sem pretensões, como de resto Vila-Matas também admite. As coisas são como são, e numa entrevista não esperamos encontrar verdades. Mesmo que haja algumas confissões pelo meio - nesta, a admissão de que há personagens nos seus livros que gostam de citar supostas frases de escritores que são do próprio autor catalão. Como a agora famosa tirada de Marguerite Duras que aparece em Paris Nunca se Acaba: "escrever é tentar escrever o que escreveríamos se escrevêssemos". Um certo fetichismo literário, e a vingança da personalidade submetida a um questionário preparado por um estranho, um interrogatório. Ser uma estrela (como Dylan) é também ganhar calo nestas coisas, e passados tantos anos a escrever sobre escritores que o recusam ser (tudo o que vem com este trabalho, aparecer, falar, vender o produto), Vila-Matas, munido de um sentido de humor auto-depreciativo, irónico, que tanto existe na voz dos seus narradores como na voz do narrador que responde a entrevistas, chegou a um cúmulo que inclui roteiros turísticos pelas ruas e lugares que aparecem nas suas obras de ficção (?).
Talvez antes de Dylan regresse a Dublinesca, para compreender a brincadeira do "grande salto inglês"; que inclui uma confraria de joyceanos passeando-se por Dublin no Bloomsday, fazendo-se passar por anarquistas espanhóis. Tudo não passa de um jogo. Que refrescante, se pensarmos no modelo de entrevista habitual das "grandes figuras" da literatura...
04/05/12
Flannery
Chego sempre tarde a estas coisas, sobretudo por teimosia e alguma pose, mas posso afirmar com segurança: a Flannery O'Connor é uma maravilha do outro mundo.
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