23/02/12

A Bovary sou eu

Quem andou anos a afirmar que chegáramos ao fim da história, e a pensar que o atoleimado conforto da burguesia seria eterno, deve sentir-se nesta época de convulsões e de certezas deitadas por terra como Charles Bovary: traído, enjeitado mas estupidamente orgulhoso de quem o enganou.

Zeca

Ser revolucionário não era um pormenor. Era a sua natureza, a essência do seu génio, da sua voz, da sua poesia.

Banalidades de base

Pensei em tempos alimentar um blogue suburbano. A cintura industrial de Lisboa já tem o seu romance - "Última Paragem, Massamá", do Pedro Vieira - e o seu estrangeirado, um luxo chamado Rogério Casanova. A Ana de Amsterdam é a cronista que a linha da Azambuja merece. Concluindo, a tarefa estava entregue, e bem, a várias mãos. Antes que me torne um emigrado a pedido do Governo, finjo frequentar a "vida cultural" de Lisboa, mas passo mais tempo a caminho de casa ou no paredão de Alhandra a Vila Franca do que na Cinemateca. Portanto, escrevo do interior da Grande Lisboa, e gosto assim assim da Madeleine Stowe, apesar de não me lembrar de um único filme no qual ela se tenha destacado - os Moicanos não é um bom exemplo e o Michael Mann é sobrevalorizado, sobretudo pelo Luís Miguel Oliveira. Não sei quais os critérios do Eremita da Planície, mas tenho quase a certeza de não os cumprir.

Sobre o José Gil: uma fenomenal máquina de parir banalidades? Olhe que não, olhe que não. Só quando fala do que não é a sua vida, a filosofia, e se põe a discorrer sobre a "essência da portugalidade". Esse tema é território demarcado de Eduardo Lourenço.

22/02/12

Uma teoria do mal

Lata. Se preciso de pensar numa qualidade obrigatória no escritor, é a esta que recorro. Lata para escrever depois de tudo o que foi escrito antes*. Lata para tornar necessário o que à partida será inútil. Lata para começar sabendo-se que a probabilidade de se criar uma nova Ilíada será sensivelmente a mesma que um macaco terá de recriar Hamlet palavra por palavra. 
Miguel Real, de quem não terei lido nada até agora - nem os romances históricos, género que é por si só abominável e a antítese da ideia de ficção, pese embora "A Obra ao Negro" e "A Costa de Sirtes", e por aí fora - decidiu escrever, enquanto cheirava o suor das negras regressando a casa no comboio para o Cacém - é todo um programa, mas imaginar o cheiro do suor proletário estimula a minha veia erótico-revolucionária de forma quase incontrolada - um texto sobre o mal. Depois de Auschwitz e de Eichmann e de Hannah Arendt**, partindo da actualidade. Um risco. Mas o colete à prova de bala escolhido - a humildade de se achar um escritor mediano, como afirma no prólogo - poderá salvar Miguel Real. Ainda assim, muita lata.

*Sim, claro, o Adorno e o tal chiché blogosférico: escrever depois de Auschiwtz. Não o repito, ainda que assim caia no exercício retórico despropositado.

**Julgo que apenas uma filósofaª judia amada por um nazi e despeitada por razões que terão sido de raça poderia escrever com propriedade - e, já agora, sem lata - sobre a banalidade do mal.

ªO corrector do blogger não reconhece a palavra "filósofa". A misoginia aparece nos lugares mais improváveis.

Este é o meu tipo de projecto

Um livro de filosofia política escrito ao longo de um ano lectivo de viagens suburbanas na Linha de Sintra. Livro que me interessa apenas pela empreitada que o motivou.

21/02/12

Pensamento mutilado

Reflexão interessante de José Gil - o seu texto vai muito além da argumentação mais comum contra o novo AO. O Acordo não "mutila o pensamento", simplesmente o transforma. A questão é, e será sempre: a língua terá de ser regida por um Acordo, seja o de agora, seja o de 1911, seja o do latim escrito das classes altas de Roma Antiga. E pensamos de acordo com o acordo que usamos. Mas será um melhor do que o outro? Heidegger achava que o pensamento nunca teria atingido patamares tão elevados como na Grécia Antiga, precisamente por causa da língua que os filósofos e os poetas da época falavam. Maior complexidade gramatical permite uma maior amplitude do pensamento. Difícil discordar. Mas com o AO não são as regras gramaticais que mudam, mas sim a grafia. Será preciso mais do que uma profissão de fé para se provar que a língua ficará mais pobre com a mudança. E precisamente porque os grandes escritores infrigem e ultrapassam as regras da língua que usam, "quando o espaço virtual de liberdade interna da língua se solta e ousa, para além do uso rotineiro e correcto da gramática", é que o AO não "mutila o pensamento". Um criador precisa de regras para as poder quebrar, torcer, manipular. Para descobrir uma nova linguagem, um outro pensamento. Um Acordo é como se fosse um obstáculo que se evita, apenas para se descobrir um caminho escondido. Seja este ou outro, em qualquer tempo.


(Também no Arrastão.)

Banhof Potsdamer Platz

Berlim, 2008.

Chuva na Haupstrasse

Enrodilhados neste disforme
edredão de penas, sofre-se o conceito
germânico de leito, ouvindo chegar
um Junho humedecido, no Balkon envidraçado
do quarto do hotel Schöneberg. Desistimos
da visita à sepultura de Marlene, num
pequeno cemitério aqui próximo, que dizem
bastante arborizado e apetecivelmente
deserto. E ficámos a olhar
a mulher turca de cabeça velada, com
a filhita pela mão, vestida em tons
berrantes. No passeio em frente,
os grandes contentores da Rotes Kreuz,
para donativos de roupas usadas,
atestam a organizada caridade
do povo alemão. Até a chuva
parece aderir organizadamente a todas
as formas estáticas ou animadas, com
o seu antigo manto.

                                                     Berlim, 96
Inês Lourenço

20/02/12