06/09/11

All I want

A derrota

A psicanálise está derrotada à partida quando sabemos que o maior medo de que podemos padecer é o único que não é infundado, o único cuja origem nunca conseguiremos evitar.

04/09/11

Jacqueline Bisset

Cathy: What will happen to us, in time?
Bullitt: Time starts now.

A eterna melancolia

Hoje chegou à fala a ideia de que nos lembramos de determinados momentos na nossa vida por causa de uma canção. Canções associam-se, nunca aleatoriamente, a acontecimentos. Esta evidência tem sido bastas vezes aproveitada pela ficção - na literatura como no cinema. Há filmes bons que se tornam muito bons quando o realizador (ou alguém por ele) tem a capacidade de pensar uma imagem e encontrar a música que a possa transcender. Na canção que a torna sublime. Ou na partitura que deixa a sua marca na memória. Sofia Copolla tem esse (não haverá outro modo de colocar a questão) dom. Desde o primeiro filme: a música atmosférica dos Air sublinhando o sonho de Virgens Suicidas; o romantismo indie da música original de Kevin Shields + a canção dos Air + o genérico final ao som de Jesus and Mary Chain de Lost in Translation; o rebuçado de pop melancólica dos New Order em Maria Antonieta. Não vi o seu último filme. Mas pode dizer-se, sem exagero, que Copolla é a cineasta da minha geração; o tédio da juventude, burguês e confortável, a eterna adolescência da geração Y. E a banda-sonora apropriada. Parece não poder terminar, o sonho da juventude.

Just like honey



Nunca uma canção terá sido tão bem usada num filme.

02/09/11

Momento Casanova

A última reformulação do suplemento Ípsilon parecia anunciar mudanças importantes. Num panorama de acelerada decadência dos suplementos culturais na imprensa escrita, foi importante a aposta do Público em artigos de fundo semanais, sobretudo porque os nomes convidados - Augusto M. Seabra e António Pinto Ribeiro - eram garantia absoluta de, como se costuma dizer, qualidade. Tem sido provado, ao longo dos últimos meses, que a decisão foi acertada - arrisco a subjectividade da observação sabendo que os números são o que dita a continuidade deste tipo de projecto. Com a circulação de jornais em acentuado declínio, provavelmente este acerto nada terá trazido de novo no aspecto comercial; e sabemos que, a longo prazo, tudo o que lamentamos será pouco, perante o que virá. Mas enquanto temos gente de quem gostamos a escrever para nós em jornais - e a troco de um valor, condição que ainda há pouco, por mais absurdo que nos pareça, foi posta em causa pelo novo dono do jornal I - desfrutemos do facto. 
Acrescente-se a estes nomes a "contratação" da época, Rogério Casanova. Numa espécie de troca com o Actual, do Expresso - Pedro Mexia partiu para essas paragens - Casanova chegou, viu e, claro, venceu. O crítico mais prodigiosamente canibalesco e intertextual das redondezas é também o que mais se aproxima do modelo da crítica anglo-saxónica. Dêem-lhe espaço e ele brilhará - como o fazem os números 10. Acontece hoje - o texto de 4 páginas (um merecido luxo) sobre David Foster Wallace beija ao de leve o génio de um ensaio do próprio David Foster Wallace. Sei bem que a influência das leituras pode ser uma maldição - já nem vou pela coisa da angústia; Harold Bloom é, digamos, sobrevalorizado - mas, no que interessa, Casanova acerta. A flexibilidade do seu pensamento é a prova das muitas horas perdidas a malhar - hermeneuticamente falando - em Foster Wallace. E em James Wood, não descuremos essa aprendizagem. Depois do "momento Federer" e do "momento Foster Wallace", arrisco dizer que deveremos começar a pensar no "momento Casanova", numa banca perto de si. Se foi para isto que a sua Pastoral Portuguesa embarcou num prolongado pousio, abençoada reforma agrária.

(O retrato foi tirado pelo conhecido artista hiper-realista Pedro Vieira.)