09/10/08

O Nobel

Parece que me enganei e afinal os senhores do Nobel sempre lêem autores franceses. Deve ser por razões de simpatia pelos "humanistas". Mas Le Clézio? Não é ele um iconoclasta? Ou a rotatividade entre línguas e nacionalidades é mais importante do que a chatice do subjectivo critério do gosto?
(E mais importante: por que razão hoje o Correio da Manhã chamou à capa Lobo Antunes, a (des)propósito do Nobel? Para que serve um escritor num tablóide? Para ser tristemente xingado?)

[Sérgio Lavos]

08/10/08

Criatura nº 2


O segundo número da revista Criatura já está à venda. É favor clicar no link para saber onde se pode encontrar.

[Sérgio Lavos]

A Faca Não Corta o Fogo


(...) e escrever poemas cheios de honestidades várias e pequenas digitações gramaticais,
com piscadelas de olho ao «real quotidiano»,
aqui o autor diz: desculpe, sr. dr., mas:
merda!, 1971 - e agora,
mais de trinta anos na cabeça e no mundo,
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,
ó stôr não me foda com essa de história literária,
o stôr passou-se da puta da mona,
a terra extravaza do real feito à imagem da merda,
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço o desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta,
fui-me embora pela floresta infravermelha fora,
não estou para essas merdas floresta vermelha fora

(Inédito do novo livro livro de Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita, edição Assírio & Alvim - e o que dizer do regresso por outro caminho?)

[Sérgio Lavos]

Hipertexto

A mansa admiração que o blogue de Saramago provocou na blogosfera parece que se diluiu rapidamente; não há troca de links, remissões para textos, polémica bravia - não é o blogue notícia, apenas a decisão do escritor. O que faz um homem que nada tem a provar - o mínimo cliché que se poderá ensaiar sobre Saramago é este - aderir a uma nova linguagem, tão distante daquilo que lhe conhecemos? E o que, na verdade, dele conhecemos? Os romances não é uma resposta possível. Os diários, os cadernos de Lanzarote, andarão mais perto de uma possibilidade.
Lembro-me de que na altura em que eles foram publicados, correu alguma tinta e turvou-se alguma água a propósito de nada; que os diários não passavam de um assomo de vaidade pública, e por isso, para a mentalidade portuguesa, dispensável; que a corriqueira vida do escritor - as viagens, os prémios, as consagrações - pouco interesse tinham; e, sobretudo, que por baixo da pátina dos dias do escritor, pouco confessionalismo havia: os diários eram uma fraude literária, no sentido em que eram apenas uma conta-corrente dos compromissos, e careciam de autenticidade. Por outras palavras, eram parcos em sangue e lágrimas, vinganças e traições. 
Mas claro, apenas os diários póstumos são verdadeiramente interessantes, nem que seja pela natureza dos mesmos: o autor morto é um saco de pancada, e todas as especulações e mirabolâncias serão possíveis; o autor, lamentamos, encontra-se ausente para todo o sempre.
Enquanto Pedro Mexia vai publicando o seu prévio diário póstumo (a ironia das suas intenções é desarmante), Saramago arrisca um registo diferente, inclusive dos seus diários antes publicados em livro. Textos longos, provavelmente recuperados da gaveta, meditações, memórias. Limpando estes textos do estilo habitual da ficção: textos limpos e corridos, saborosamente evocando (mais do que nunca) Padre António Vieira.
Escolhas; ou de como a literatura não existe apenas nos livros.

[Sérgio Lavos]

06/10/08

Cinquenta por cento de certeza

(É bem provável que ontem tenha ouvido a melhor canção de sempre dos Oasis, mas ainda não confirmei - é do último álbum, "Dig Out Your Soul" e apenas vi o vídeo, talvez de seguida pesquise por aí, e a coloque a tocar ali do lado direito).
Mas a verdade é que sempre pertenci à facção Blur. Nos últimos anos, cheguei à conclusão que a melhor banda da vaga britpop dos anos 90 (para mim, há apenas esta) são os Pulp. 
(A preguiça dos manos Galagher, a sua tendência irritante para copiar os acordes mais conhecidos dos Beatles (e não os melhores), junto com a sua insuportável arrogância, leva-me a dizer, sem rodeios que, por exemplo, a Sheryl Crow - sim, é essa - que estou a ouvir agora naquela "... trá-lá-lá-lá... if it makes you happy... trá-lá-lá..." é uma canção muito mais interessante do que "Sally Can Wait", que tocou antes).
Peguei num CD ao acaso que dizia Brit Awards 97, e cinquenta por cento do que lá está não presta; mas será melhor do que uma colectânea que fosse lançada agora? Estas coisas são importantes - uma dieta de jornais musicais ingleses deformou-me o espírito e ainda agora não consigo respeitar da mesma maneira uma banda pop americana e uma banda pop inglesa (mas a Britpop foi-se, como se nunca tivesse existido).
E agora toca "Mile End" (incluído na banda-sonora de Trainspotting), dos Pulp. Um mimo, uma brincadeira, um doce para gente grande, com sintetizadores que sobraram dos anos 80, uma guitarra vagamente country e um fiozinho de melodia beatliana, mas da boa, daqueles acordes que os Oasis nunca ouviram como deve de ser. E a inultrapassável misoginia tótó de Jarvis Cocker. 
Boys will be boys.

[Sérgio Lavos]

05/10/08

Björk/All is Full of Love



É impossível analisar a música de Björk (quando escrevo analisar, penso, evidente, em ouvir e sentir) sem ter em mente uma série de imagens que traduzem de forma fiel o espírito da música. A frieza maquinal como via de uma intensidade material, o erotismo panteísta, a confluência entre urbe e campo, entre o sentir da vida moderna e a nostalgia da natureza perdida. Tem sido assim, desde "Human Behaviour" (realizado por Michel Gondry) até à estranha e problemática colaboração da artista com o puritano Lars von Trier, em Dancer in the Dark (retomando o título de uma música de David Bowie). 

As imagens, criadas por outros - sobretudo o mencionado Gondry e Spike Jonze - contribuiram, em grande medida, para a criação de um universo "bjorkiano". Atingir este patamar - a criação de um termo que defina um estado de espírito - é um feito de que muito poucos cineastas, vivos ou mortos, se poderão orgulhar; e Björk, sendo "apenas" criadora de música, consegui-o. Encontrar realizadores que conseguem traduzir em imagens um universo pessoalíssimo é, por isso, a maior qualidade de Björk. Pode haver quem se irrite profundamente com os tiques de diva, as tolices de criança por crescer, os ambientes infantilóides e fofinhos dos videos (os gatinhos de "Triumph of a Heart, dirigido por Jonze, devem ser um cúmulo qualquer neste campo), mas a verdade é que é inegável a coerência e, sobretudo, a presença de um elemento teórico em toda a criação imagética que envolve a produção musical da cantora islandesa.

Mas o melhor video de Björk acaba por ser aquele que recentemente foi eleito pelos espectadores da MTV 2 como o melhor de sempre, e pouco se poderá dizer para contrariar esta escolha. O terceiro mago dos clips musicais, Chris Cunnigham, assina esta maravilha do cinema contemporâneo, cunhando uma marca comparável, em certa medida e sem exagerar, a Matrix, dos irmãos Wachowski. "All is Full of Love" é a história de amor dos nossos tempos: fria e reflexiva, comovente e, acima de tudo, impossível: duas formas femininas, máquinas na linha de montagem, que simulam os gestos humanos do amor - apenas assim ele pode ser definido, pela imitação do movimento. O campo teórico preenche-se de possibilidades, mas nem por isso a música deixa de ser essencial na definição da teoria. A electrónica de Björk, contaminada por simulacros de instrumentos tradicionais, reclama uma emotividade alienígena que chega a ser calorosa - a contradição que espelha os caminhos que iremos escolher no futuro.

[Sérgio Lavos]

04/10/08

O que é um leitor?

A pergunta que não consegui fazer à estranha que hoje me deixou desconsertado quando me reconheceu, não me conhecendo:

- E também tem blogue?

(Respostas para o mail na barra ao lado).

[Sérgio Lavos]

03/10/08

O umbigo dos outros


Depois de um dos membros da Academia Sueca que atribui o Nobel da Literatura, Horace Engdahl, ter vindo a público referir-se à suposta menoridade da literatura norte-americana (ou, mais concretamente, estado-unidense), não se vislumbram hipóteses de prémio para Don DeLillo – repare-se, falo em DeLillo e não em Philip Roth, embora Thomas Pynchon também pudesse ser nomeado como próximo não-nobel americano.

Ora, eu achei piada às vistas curtas do senhor sueco, não por que não tenha razão – não tem – mas porque li, logo de seguida, uma ou outra indignação de admiradores de Roth e/ou pró-americanos empedernidos que disparam ao primeiro farejado odor de anti-americanismo. As vistas curtas do sr. Engdahl são prova de uma ou duas coisas, portanto: de que existe ideologia por trás das intenções do júri, se não sempre, muitas vezes; e, principalmente, que os membros se dão ao trabalho de realmente ler milhares de páginas produzidas por autores que não escrevem em inglês (duvido que leiam autores franceses, duvido até que eles não acreditem que a França terminou enquanto país quando Marguerite Yourcenar – que não recebeu o Nobel – morreu). Vamos lá ser sérios: partindo do princípio de que o Nobel é, de facto, o prémio mais importante que um escritor pode receber (e de que recebê-lo é essencial, para a obra ou para o autor), quantos de nós poderão dizer que este ou aquele escritor merece o prémio, em detrimento de outro? Porque a vida de um leitor, caros amigos, é uma vida falhada, em perda; por cada novo escritor que conhecemos (ainda que sejam largas dezenas por ano), há cem de que nunca iremos ouvir falar, seja pela inexistência de traduções em qualquer língua que entendamos, seja porque sim, porque escolhemos. São coisas óbvias, eu sei, mas a humildade impede-me de não as dizer de quando em vez. Queremos falar de gosto? Não me interessa, declaro que a subjectividade não me assusta. Mas antes que embarque na barcaça romba da retórica estéril, deixem-me que pegue num excerto (é sempre bom pegar num excerto) do tipo que escreve sobre literatura mais ideologicamente motivado que eu conheço (com o Alexandre Soares Silva muito perto, mordendo os calcanhares): João Pereira Coutinho, pela mão do Pedro Vieira: “e, segundo, porque o Nobel premeia escritores humanistas, ou seja, optimistas, que oferecem à academia sueca uma visão inspiradora, e muitas vezes sentimental, da natureza humana.” Não sei de que escritores fala ele, mas espero que não seja de Saramago, Dario Fo, Harold Pinter ou Joseph Brodski, caso contrário começo a duvidar do, até agora, impecável gosto do cronista, o que seria uma chatice, já que politicamente nunca me servirá uma chícara de chá que seja. Tudo para justificar o horror de não escolher o Roth, por ser americano. Mas Coutinho terá lido tudo o que os membros da Academia leram, todos os escritores humanistas e politicamente empenhados que concorrem entre eles para o premiozinho de uma vida? É esse o meu ponto.

A verdade é que a literatura dos E.U.A. é, quase sempre, “provinciana” e “fechada sobre si própria”. O problema é que o umbigo dos E.U.A. é de supremo interesse universal, e o olhar do mundo inteiro está definitivamente focado nele (ninguém sabia?); julgo que a isto se chama (com todo o despeito que merece) globalização cultural, mas posso estar errado. Toda a grande literatura americana é, antes de mais, um elogio do modo americano de viver; o grande romance americano, de Melville a Pynchon, de Thomas Wolfe a Philip Roth, tem características comuns que reflectem o espírito de uma nação e de um povo: os valores do individualismo, da demanda épica, da transcendência das origens, do combate a qualquer adversidade, a qualquer custo. E, lamento, João Pereira Coutinho, o principal impulso que conduz todos estes heróis americanos (Ahab, Eugene Gant, Sal Paradise, Nathan Zuckerman) é o humanismo. 

Nem Coutinho nem Engdahl. Os valores americanos são universais, as obsessões culturais que aparecem exaustivamente fetichizadas na literatura americana (o gosto pelos desportos autóctones – basebol, futebol americano, basquetebol -, a adoração de ícones do cinema, a paixão pela paisagem de fronteira e o Homem que por lá vagueia, etc.) são objecto de despudorado fascínio em qualquer lugar do planeta. Algum problema? Não.

E para quando Don DeLillo, o mais atípico (e, hélas, europeu) dos grandes escritores dos E.U.A.?

[Sérgio Lavos]

Arrastão

Uma Santa Aliança de blogues a que faltava um auto-retrato. Espera-se, daqui para frente, um ritmo (ainda mais) estrondoso de actualizações neste blogue - vou apostar, nitidamente, em fazer-me ao penalti.

[Sérgio Lavos]

Slowdive/Catch the breeze



[Sérgio Lavos]