17/06/06

Fim-de-semana (2)

O regresso do rei.

Fim-de-semana

Fim-de-semana, famílias deprimidas na expectativa para o jogo de logo à tarde, famílias frustradas nos seus intentos de gozar uma semana com dois feriados e dois dias de férias pelo meio, praia e sol, pensavam, moscas amolecidas pelo tempo tristonho, cambaleando de encontro às fitas coloridas que resguardam as entradas das caravanas e das casas de fim-de-semana. O torpor matinal a entrar pelo dia dentro, um café para acordar que não faz efeito, churrasco no intervalo da chuva, cerveja para alegrar o jogo da selecção, simulacro de alegria nacional. A Argentina ganhou 6-0, e sabemos que os podemos encontrar mais para diante, discute-se numa retórica pastosa as minudências do sistema táctico de Scolari, a mulher grita lá de dentro, camisola número 7 cravejada de manchas de gordura da carne esturricando sobre as brasas, a mulher grita, a salada em minúsculas, pouco importante, os miúdos saltam e andam de bicicleta, vão e vêm, param no tempo sabendo que o tempo só os apanha se tiverem à perna o desencanto dos mais velhos, por eles não regressavam a casa, mas a lei circular da vida obriga ao vai-e-vem, regresso a casa, à noite, pai e mãe gritando. Fim-de-semana, famílias disfarçando a tristeza - por isso o fado, exorcismo que amenamente se deixou de celebrar - a certeza dos dias, a passagem dos dias atravessando em movimento cortante os acontecimentos do quotidiano, álcool é esquecimento, concretização de um desígnio de vida. A carne crepita sobre o lume, aproximam-se as duas horas de abandono e desistência, expectativa de abismo ou salvação, a nossa fé depositada na caixa das esmolas para nossa senhora de Caravaggio. Fim-de-semana entalado no coração de um estio sem sol e sem calor. À espera. De quê, quem sabe?

[SL]

16/06/06

Ideologia

A ideologia não é uma ameaça. Não devemos recear quem acredita, ainda que aquilo em que acredite seja perigoso. O que verdadeiramente ameaça a ordem humana é a vontade de poder associada à loucura, sabendo que a definição desta última está cativa de um irremediável relativismo. O que irrompe do tecido da normalidade, e contra esta. Por isso, tenho dificuldade em acreditar que não são os homens, mas sim as ideias que matam. Contudo, aceito que apenas estas podem libertar. A única verdadeira liberdade é a liberdade de pensar. Repito. Contra o asco físico que me provoca a ignorância do anti-democrata.

[SL]

A camiseta das brasileiras

Não gosto de João Ubaldo Ribeiro, desde que li há uns anos uma estopada pornográfica que vendeu em Portugal alguns milhares, em consequência de uma proibição de venda num supermercado por parte de um responsável burro. Gostei de ler a crónica dele (sem link) depois do encontro entre o Brasil e a Croácia, onde desfazia o jogo da selecção canarinha, criticando de modo incisivo Ronaldo e Adriano. Não há como os brasileiros para escrever sobre futebol, está há muito provado - excepcione-se talvez Valdano e Javier Marias. Mas não é este ponto assente que me interessa. Claro que é a selecção portuguesa que tenho na mira. Criticada por meio país desejoso do regresso ao abismo acima do qual pairamos durante algumas semanas, por ter feito melhor que há dois e quatro anos, ter vencido sem brilho. Scolari irritou-se, mas já ninguém liga, Costinha e Figo mostraram que os jogadores estão unidos, apesar das críticas e dos disparos que vêm de fora. (Aquela reportagem na, salvo erro, Visão, com Vítor Baía enrolado na bandeira, alguns dias antes do primeiro jogo, é incrível de tão rasca. Se ainda se precisasse de razões que apoiassem o afastamento da selecção, elas ficaram desfeitas com aquele strip patriótico-pimba.)
A Suécia empatou mas já quase passou, claro, a Inglaterra joga mal mas está nos oitavos, a França parece voltar à mediania de sempre, depois de uma geração (e um jogador, Zidane) excepcional ter irritado le Pen vencendo dois campeonatos internacionais seguidos, a Alemanha joga como sempre, feio, feio, e a Argentina vence com uma péssima segunda parte. Tudo certo, campeonato pouco espectacular? Eu não acho. Já vimos golos muito bons - Lahm, o segundo da Argentina, a passe de Riquelme, até o golo de Figo, e equipas a jogar bem: a Itália e a Holanda, a Espanha, e algumas que perderam, como a Costa do Marfim e a Croácia. E volto ao jogo do Brasil. A selecção foi criticada? Engano, não foi. Foram-no, isso sim, os jogadores que actuaram abaixo do normal: Ronaldo e Adriano. E foi também Parreira por não ter retirado mais cedo da equipa os dois atletas. Apenas isso. Fé na vitória? Toda, bastava passar no Domingo na zona da Expo para perceber isso. Os brasileiros vivem o jogo com alegria; não dependem da vitória para recuperar a economia do país, porque convivem há muito com a pobreza, a corrupção e a sem-vergonhice dos políticos, a criminalidade e as novelas. Os campeonatos que a selecção tem conquistado são pretextos para um mês de esquecimento. Cabeça vazia, cerveja na mão, festejando com a mesma alegria que Ronaldinho mostra só de poder jogar à bola. Em Portugal, não. Futebol é um assunto sério. Os colunistas (os "intelectuais") reclamam por tudo e por nada, exige-se o céu a uma equipa que está a um nível apenas de rés-do-chão, pretende-se que a nossa selecção com duas ou três pseudo-estrelas e um profissional (Figo) muito acima da média - repito, profissional - seja favorita a ultrapassar equipas de semi-deuses como Ronaldinho, Kaká, Thierry Henry, Zidane, Totti, Riquelme ou Messi. Exige-se que os nossos mimados pretendentes, Ronaldo à cabeça, acalmem e se tornem de um momento para o outro jogadores tão bons com Robben ou Fernando Torres ou Rooney. E eles, claro, respondem com nervosismo e carinhas de angústia para a câmara mais próxima.
E o pior é que as nossas adeptas não usam a camiseta da selecção colada ao coração, como o fazem as brasileiras. A tristeza que foi ver a mais bela (?) bandeira do mundo, iniciativa idiota, terceiro-mundista, ou pior, de tendência americana (género concurso de enfardamento para entrar no Guiness). Vejo poucas mulheres a apoiar a selecção, e neste confrangedor panorama é natural que sejam poucas as caras que derretem o adepto mais renitente do futebol. O problema é que não há nada que atraia os intelectuais para o futebol em Portugal. Nem decência ao nível dos dirigentes, nem certeza nas exibições, nem beleza em matéria de torcida. Enquanto continuarmos a ser maioritariamente adeptos da sande de courato e da mini isto não arranca. E o país continua a vogar na alta vaga da depressão.
Prognósticos: vamos chegar à final e ganhar 1-0, depois de eliminarmos o Brasil na meia-final com dois golos de Cristiano Ronaldo.

[SL]

13/06/06

Alecrim e manjerona

O problema não é saber o quanto existe de verdade na ficção. O género autobiográfico consegue mexer-me com os nervos, o confessionalismo deprime-me quando é piegas, detestaria saber que um autor não mente ao escrever a sua entrada no diário ou ao preparar a sua crónica semanal para a imprensa. Porque existe esse risco, não me interessam os diários póstumos ou a correspondência dos escritores. Por isso e por achar que o interesse da vida é sempre curto se comparado com o interesse que a ficção pode motivar. Portanto, o problema não é saber o quanto existe de verdade na ficção, mas sim até que ponto podemos dispensar a realidade no nosso dia-a-dia. Pensava no cliché das máscaras que usamos no contacto social, admito, mas lembro agora uma pista mais interessante: não há nada por baixo, a sério. Conseguimos ter menos substância que Terry em "Há Lodo no Cais", sabem, aquele a quem Marlon Brando empresta o corpo e a voz até que a eternidade acabe. E falo de um homem de celulóide, não esquecer. (Aproveito a deixa para lavrar o meu protesto contra o insulto que foi ler a última crónica de João Pereira Coutinho, em que ele compara Al Pacino a Brando. Será que não viu "O Padrinho"?)
Imaginem: o jogo da sedução, o que é? Toca e foge, cada um tentando dar o melhor de si, o que nem de perto nem de longe corresponde ao que se é na realidade, jogo de mostrar e contar o que se gosta, o que se recorda, o que se vislumbra, julgando esconder durante o máximo de tempo possível a vergonha do pequeno defeito, da mania, do hábito nocivo que apenas se confessa quando se chega ao ponto de viragem essencial de uma vida: a partilha de uma sanita sem nojo. (O mau-gosto da última frase é justo e correcto. Aliás, gostava de ler mais crónicas de jornal com este tipo de linguagem suja, imagino o esforço de auto-censura que atinge a maior parte dos cronistas. E não falo do maradona, ou falo?)
Tudo ficção, uma imagem à espera de ser destruída pela primeira voz levantada, o primeiro olhar lateral na direcção de um rabo-de-saia contíguo, ou pior, a característica transmitida desde tempos imemoriais que está inscrita nos genes masculinos, o esquecimento de uma data importante. Quando a relação chega àquela fase em que perigosamente se assemelha a uma guerra - períodos de violência extrema, sangue, suor e lágrimas entrecortados de visitas ocasionais a Saigão para satisfazer os apetites da carne - onde param as máscaras? Estão todas guardadas no baú do adversário, perdão, companheiro; ofertas sem sentido no conflito a que alguns teimosamente chamam de amor. Quem chega aqui esqueceu-se não só da persona que construiu para o outro, como inclusive esqueceu de quem era originalmente. Lamentável.
Fugi do assunto, eu sei. De que falava eu? Da vida e da ficção. E de como a segunda, apesar de se aproximar de forma perigosa da primeira, consegue ser mais verdadeira na sua mentira. Juro, tudo isto é verdade.

[SL]

Paris, Texas

Paris, Texas, obra que deu a Wim Wenders a Palma de Ouro em Cannes em 1984, é um filme feito de paisagem. Entre Los Angeles, Big Bend, Houston ou Paris, a paisagem engole o orgânico devolvendo os humanos no seu aspecto mais árido. Harry Dean Stanton, em excelente osmose com a paisagem, é ele também secura e desidratação, é ele próprio um não-lugar humano, uma não-pessoa sem linguagem e sem estrada.

A fotografia de Robby Müller, complementada pela música de Ry Cooder, capta a cor dos exteriores com uma beleza explosiva, oscilando entre o que parece insignificante e o fundamental, conseguindo mesmo encostar as personagens ao limite do enquadramento para destacar, de um modo hiper-realista e sem pudor, desertos e auto-estradas, motéis e comboios de mercadorias, cabines de peepshows e o corredor aéreo de L.A. que ensurdece os subúrbios. Estes tornam-se as verdadeiras personagens deste filme que criou algumas imagens inesquecíveis e que, nas duas décadas seguintes, influenciaram directamente diversos realizadores independentes americanos como Hal Hartley, David Lynch e Gus Van Sant. A única redenção possível desta não-família (Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski e Hunter Carson) é filmada por Wim Wenders num cenário frio e despido de referências, no anonimato último que é um quarto de hotel.

Uma bela dedicatória a Lotte H.Eisner, historiadora e crítica incontornável do cinema clássico alemão.

[SV]

12/06/06

Os empregados de escritório

Susana diz-me que todos os empregados de escritório deveriam ler Robert Walser. O uso do condicional não corresponde exactamente ao que foi dito; o tempo utilizado foi o imperfeito, mas parece-me adequado substituí-lo pelo mais ameno condicional. Deveriam. Eu não concordo, lamento. Conheço o exemplo de Walser, sim, também de Fernando Pessoa e Kafka, ouvi falar da história de Robert Musil, sei que Phillip Larkin e Perec também se mantiveram durante muito tempo à margem de tudo. Coloca-se a questão de saber se terá sido escolha ou força das circunstâncias, mas as biografias que se teceram à volta destes homens em tudo vulgares insistem na vontade férrea de existir fora do mundo. Longe da mundanidade vaidosa do mundo. Regressando ao início, insisto com Susana num ponto simples: ser empregado de escritório, ao contrário do que parece, é quase sempre um fim em si, um beco sem saída na vida dos empregados de escritório. Susana engana-se. Walser, e Kafka, e Musil e Pessoa não eram empregados de escritório escritores. Eram escritores que decidiram limpar metade do tempo a que tiveram direito, como quem limpa uma mesa, para as coisas baixas do mundo; ocupar as horas com o quotidiano eficaz das tarefas repetitivas - a lição fundamental de Heidegger. A noite ficava guardada para a excepção, a criação que diferencia o génio da massa de empregados de escritório que nunca imaginaram sequer o que é viver fora do mundo. Escrevo sem pena, mas também sem soberba. As coisas são como são.

[SL]

11/06/06

Voragem autofágica

Há nomes que são mais do que um programa, são toda uma bibliografia de histórias avulsas. Don deLillo é um deles. O som entra pelo ouvido e enrola-se por ali dentro, é como se o serpentear da língua pronunciando o nome se ligasse ao ouvido médio e de súbito partisse deste uma corrente eléctrica que libertasse por momentos no corpo uma micro-onda de adrenalina pavloviana que, de imediato, induzisse em nós a vontade de ler nem que fosse uma miserável frase do homem. Mas vale a pena, ceder a este instinto básico. Há um livro que pode explicar melhor a relação entre língua e cérebro, som e espírito, e que, coincidência ou não, ele decidiu intitular "Os Nomes". Uma ideia tão subterrânea, tão esotérica, que apenas podia resultar num romance fabuloso. Nem sempre fácil, é certo, mas quem quer coisas que se lêem numa noite? Uma seita secreta de assassinos (ou não) que comunicam entre si numa língua desconhecida. Os destroços de Babel à deriva num mundo que enveredou pelo caminho da novilíngua, eliminando a diferença, esbatendo o que distingue um indivíduo do outro. O nome de Don de Lillo. Paul Auster, amigo e confrade, pronuncia os sons de um modo inimitável. Ouvi eu, há uns tempos atrás, uma voz que parece roubada a um qualquer radialista dos anos 30 contando histórias de invasões de extraterrestres num tempo em que a luz eléctrica falhava demasiadas vezes. Quando o medo ainda não tinha um rosto conhecido e esquivo. A perfeita cadência sonora de Don deLillo deve certamente ter que ver com a igual perfeição das palavras nos romances do autor. A linguagem trabalhada a um limite extremo de economia narrativa, nada redundante, nada em carência. Até que o texto se assemelhe à vida que imita: misterioso, lacónico, sempre um passo atrás do sentido pleno.

(Texto suscitado por este blogue, de alguém a quem eu tinha perdido o rasto. E com um template exemplar. Seja bem-vindo de volta.)

[SL]

09/06/06

A infância

A infância, esse labirinto do qual não queremos sair, existia na sua ilusão incólume de não ser. No intervalo das brincadeiras, de quatro em quatro anos, férias grandes com Jogos Olímpicos. Tardes e tardes isolado da torreira lá fora, sentado ou deitado ou dobrado ou estendido em frente à televisão, em completo enlevo admirando os escolhidos para competir. As modalidades que mais me prendiam a atenção eram a natação e o atletismo. Coisa estranha, para alguém que nunca aprendeu a nadar, o facto daquele desporto exclusivamente de verão ser tão viciante. Talvez funcionasse como um óasis no calor que reduzia os dias a cinzas, sempre preferi o conforto da distância e o prazer das imagens à beleza suja e baixa da realidade. Quanto ao atletismo, o que gosto é daquela sensação de individualismo puro, ver os atletas forçando os seus próprios limites, nesse esforço ultrapassando os adversários, ignorando coisas tão prosaicas como o trabalho de equipa ou as indicações do treinador. É o atleta contra o relógio, contra as limitações do seu próprio corpo. Talvez por isto seja ainda mais impressionante quando, nos desportos colectivos, há um génio qualquer que se liberta do espartilho das regras do colectivismo. O que comove no génio é a sensação de liberdade pura, a transgressão libertadora, a vontade de poder estabelecer o seu próprio paradigma. Depois dele, tudo foi diferente. Poderia aplicar a reflexão ao campo da ideologia, mas seria demasiado redutor. É muito mais estimulante falar da natureza humana. E de quem a transcende.

[SL]

Globalização

Em 1986, teve lugar o primeiro Mundial a que pude dar verdadeira atenção, e lembro, em primeira mão ou por via do bombardeamento de imagens a que estamos sujeitos, os dois golos oferecidos por Deus a Maradona contra a Inglaterra. Vinte anos depois, sei que vou perder muita coisa em directo, porque me recuso a pagar mais por um canal monopolista que, por distração ou falta de vontade da concorrência, adquiriu os direitos do Mundial para Portugal. E há quem não tenha sequer a oportunidade de assistir aos jogos porque se encontra na periferia da cobertura das redes cabo nacionais. É uma coisa pequena, eu sei. Mas que significa algo; a falácia do acesso à informação é exposta pela revelação do outro lado da moeda no processo: tudo se compra, não há almoços grátis. Sem melancolia, é assim que tem de ser. Ou não?

[SL]