08/05/06

Somar os dias

Quando se chega à idade adulta, convém que se tenha em devida altura preparado um papel para a nossa vida. Podemos até treinar antes. Comprar umas roupas. Mimar gestos. Imitar quem admiramos. Sem querer fugir muito ao cliché, é necessário ter à mão as necessárias máscaras para o dia-a-dia. Mas ninguém pode prever a mais exigente necessidade: a ocupação do tempo, para que ele não se torne uma série infindável de números acumulados sobre o passado, como insectos presos numa teia. Ninguém antecipa as artimanhas de que precisamos para escapar à invisível aranha. Corremos o risco da lentidão, no entanto quase sempre nos movemos em excessiva velocidade. Exageramos na importância dada à relatividade na sua relação com o tempo.

Existenz

Em "Norwegian Wood", o capítulo que evoca a "Montanha Mágica" - não é só evocar, as personagens discutem a obra de Mann, abertamente - é uma brilhante caracterização do mal moderno: a depressão existencial. E ser existencialista sem parecer um chato é uma rara qualidade. Kierkegaard goes prozac. E ouve Beatles. Poder-se-á ser mais cool que isto?

Aspectos

Haruki Murakami escreve como se fosse um adolescente deprimido e padece da doença passageira da idolatria. Por escritores, músicos, pela cultura pop ocidental. Preenche na perfeição o cliché do japonês moderno. Se não fosse real, seria uma personagem secundária de "Lost in Translation". Mas escreve bem como tudo.

05/05/06

Histórias

Não consigo perceber a expressão "uma história bem contada". E sou bem capaz de já ter dito ou escrito isto algumas vezes. Falamos do enredo, da narrativa, do estilo da escrita, das intenções do autor e do modo como ele tenta concretizar essas intenções? A simplicidade será uma qualidade, o hermetismo um defeito? Ou será o contrário? Pedro Mexia, num artigo escrito há umas semanas no DN, enquanto se divertia a fazer uma crítica negativa ao último livro de uma das "novas vozes da literatura portuguesa", Mafalda Ivo Cruz, queixava-se da ausência de um meio-termo na ficção escrita por portugueses; ou os autores pouco se interessam pela disponibilidade do leitor para a obra, ou interessam-se demasiado, escrevendo livros que vendem muito mas que dificilmente se podem enquadrar na categoria de literatura. Ora, o problema não será esse. Um mau escritor será sempre um mau escritor, a forma como escreve nunca conseguirá disfarçar o conteúdo. Nem todos podem ser Maria Gabriela Llansol, mas há muitos que tentam; o máximo que conseguem, quase sempre, é escrever como Rui Nunes. De qualquer maneira, será difícil atingir a límpida perfeição de Camilo ou de Eça. Nos contemporâneos, apenas Mário de Carvalho se aproxima. Claro, pode-se dizer que o estilo de Mário de Carvalho não é, evidentemente, escorreito e simples. Mas que sabe contar uma boa história, sabe. E o prazer que se retira da leitura de um português sem falhas é inultrapassável. Porém, a grande maioria dos leitores, já se sabe, pouco se prende aos pormenores, preferindo ao gosto da leitura de terceiro grau (de acordo com a classificação de Umberto Eco) o prazer imediato da leitura em primeiro grau. Para a hermenêutica do texto bastam os académicos. Poder-se-á censurar o facilitismo do leitor que apenas tem tempo para ler nos transportes, o leitor que encara a obra como passatempo ou diversão? Educar o gosto do leitor é uma pretensão inócua, a que os virtuais educandos respondem de modo directo e sucinto: mostrando o dedo do meio. Como a democracia, o gosto não é uma coisa que se possa impôr à força; a coisa vai lá devagar, dando pequenos passos, começando por uma Margarida ou um Paulo Coelho na esperança de que se possa chegar a James Joyce. Poucos lá conseguem aceder. Não é um problema, nem uma desilusão. Ou será que pretendem fazer crer que Joyce escreveu "Finnegan's Wake" tendo em mente uma vasta audiência?
O meio-termo de que falava Pedro Mexia pode ser fundamental. A tal história bem contada é este meio-termo que falta. Haverá algum Murakami, algum Pérez-Reverte, algum Ian McEwan à espera de aparecer na literatura portuguesa?

(Sobre o assunto, ler também aqui e aqui. E siga-se os outros links que aparecem nos textos referidos.)

Scott Walker

Na grafonola ali ao lado, uma música do primeiro álbum a solo de Scott Walker, "Scott". A distância que vai do som límpido dos anos 60 até ao mais recente "The Drift" - com passagem pelo assombrado "Tilt" - é um espelho daquela que o diabo teve de percorrer desde o inferno até alcançar Scott Walker. Neil Hannon, dos Divine Comedy, e Jarvis Cocker, dos Pulp - que foi produzido por Scott no último álbum da banda - devem conhecer os riscos de admirar tal figura. Comprove-se contra a corrente do verão que se aproxima.

01/05/06

Dia dos Trabalhadores

Uma das mais maravilhosas dádivas que o capitalismo trouxe ao nosso mundo perfeito foi o consumismo desenfreado. Quem não gosta de sair de casa sem qualquer ideia em mente para gastar o dinheiro suadinho do mês, entrar num refulgente centro comercial e desatar a comprar a inutilidade total em forma de objecto? Roupa, acessórios, discos, livros, gadgets perfeitos de tão desnecessários, infinitas maneiras de satisfazer o egozinho de burguês que cada um de nós alberga dentro de si. Que comovente é ver as grandiosas romarias domingueiras rumo aos mil e um santuários - e a contar - que crescem na medida inversamente proporcional (segunda vez em poucos dias que uso a expressão; chiça!) à retracção da nossa economia, aquela que alegremente vai pulando em direcção aos braços da multidão de países terceiro-mundistas que se acotovelam lá em baixo, no abismo que nos espera, que bonito é observar o povão estourando o crédito e o descrédito da família para gozo de uns quantos empresários esfregando as mãos de contente e ansiando o salto definitivo para paragens mais acolhedoras do que esta. (Brasil, aqui vou eu!). Primeiro de Maio, dia do trabalhador. Repito: 1º de Maio, dia do trabalhador. O trabalhador vivendo na ilusão do capital gastando o que julga ter, e o trabalhador/imigrante/licenciado caixa-de-supermercado fazendo juz ao dia instituído no calendário, laborando, pois então, no dia do trabalhador. Quando, há uns anos atrás, se quis fechar os centros comerciais do país, ia caindo o carmo e a trindade, ai jesus que a economia vai por aí abaixo, é investimento no futuro, grandes superfícies abertas ao fim-de-semana. Ainda bem que se avançou no sentido correcto. Anos depois, passamos por um dos períodos mais prósperos da nossa História recente, o povo anda contente, não protesta, tece loas aos políticos que o governa, o futuro é um risonho sol no horizonte (irra, que imagem pirosa!). A gente até vai aos países mais avançados e vê o comércio fechado ao fim-de-semana e shoppings fora do centro das cidades, mas eles é que estão errados. Qual o sentido de levar os filhos a passear num jardim, ir a uma exposição, fazer uma curta viagem de carro a uma cidade perto, quando há tanto dinheiro no bolso e tanto para comprar faiscando nas montras das multinacionais abertas aos domingos e feriados? Alegres romarias, fatos desportivos reluzentes, ar saudável, meninos correndo e saltando, mulher satisfeita e sogra calada, é desta fibra que somos feitos. Ah, as doces ilusões do capital! E o Mundial que ainda vem tão longe...