27/06/08

Erro

Cesare Pavese:

Viver é como uma longa soma em que basta ter errado o total das duas primeiras parcelas para já não nos conseguirmos safar.

E o que fazer quando apenas algumas parcelas numa extensa soma estão certas? Começar bem, errar, errar, voltar a errar, desistir de acertar - o erro mais mortal?

[Sérgio Lavos]

25/06/08

O segredo de um cuscuz

A distinção entre cinema comercial e cinema de autor é por vezes difícil de estabelecer, para não afirmar que é redutora. No entanto continuo, ao ler a crítica de cinema jornalística, a ver reafirmada esta diferença, como se um filme se definisse pela quantidade de pessoas a que ele tem acesso. A disponibilidade do espectador é volúvel, e por vezes fenómenos de popularidade assustam quem ainda se propõe fazer estes exercícios ultrapassados de crítica. Nem é preciso referir Hitchcock, Billy Wilder ou John Ford para colocar um ponto de interrogação na separação entre cinema de autor e cinema comercial. O exemplo mais recente é, claro, O Segredo de um Cuscuz, estrondoso sucesso de bilheteira em França e vencedor dos Césars, e estreado entre nós em poucas salas. A questão é: todas as críticas que li ao filme, na imprensa portuguesa, destacavam, em forma de aviso ao incauto público, que o filme tinha sido o mais recente sucesso do cinema francês; e, nas entrelinhas, sussurrava-se: a malfadada Amélie Poulain. Ora, o filme não é nada do que é dado a entender, e quer-me parecer que alguns críticos tresleram os textos publicados em revistas de cinema francesas: o tema existe, mas a leitura que é feita acaba por ultrapassar a questão (Renoir é citado).
Posto isto, o filme de Abdel Kechiche é um daqueles ovnis que deixam pouco espaço às (minhas) palavras. Prolongo há duas semanas aquele momento em que saímos de uma sala de cinema embasbacados; o silêncio depois, e por enquanto apenas isto.

[Sérgio Lavos]

24/06/08

14/06/08

Fernando Pessoa

120 anos depois, querem que Fernando Pessoa renasça.
Aquela ideia vaga de que as novas gerações não se interessam pelo património literário português, o lamento comum dos mais velhos, traz sempre no grão da voz o fio da mesquinhez; cada vez mais acho que a nossa geração foi esquecida pelas que nos precederam, a história de sempre dos velhos a não quererem ser suplantados pelos novos. Numa sociedade envelhecida, a ameaça, ao contrário do que acontece no livro Diário da Guerra aos Porcos, de Bioy Casares, é dirigida a quem luta para ser integrado num mundo que não está preparado para abdicar dos direitos adquiridos ao longo de décadas. Um mundo de velhos invejosos, ciosos dos feitos acumulados ao longo de um tempo no qual a juventude era ainda um conceito respeitável, sinónimo de esperança e liberdade.
Pessoa, o nosso mais universal escritor, o único do panteão dos Grandes, é um capítulo da matéria do secundário que a maior parte dos estudantes ultrapassa com bastante dificuldade. Incompreensível, de resto; a aura pop do poeta nunca foi suficientemente explorada pelos professores de Português, que de resto pouco sabem de matérias como a revolução contracultural, a geração beat ou o movimento punk - e o que sabem, sabem mal, folcloricamente. O meu exemplo pessoal é uma constatação evidente deste facto: os meus hábitos de leitura, sistemáticos e apaixonados, foram esbarrando em sucessivos professores que não sabiam nem se interessavam em saber mais do que o mínimo necessário de gramática e escansão e metrificação de poemas (a matemática da poesia), interpretações redutoras retiradas dos prefácios de António Quadros para as obras de Pessoa e sentidos únicos para as palavras que ditavam nas aulas. Apesar do 25 de Abril, nunca senti a liberdade na sala de aula. Apenas quando cheguei ao 12º ano se desmoronaram os esquemas rígidos que fui encaixando ao longo dos anos. A professora Amélia Pinto Pais (que, de resto, tem um blogue dedicado à poesia) foi a excepção ao estado de coisas vigente.
Mas as palavras de Pessoa continuam vivas, musicadas por cantores de hip-hop, num projecto que irá ter um disco em Setembro, de acordo com a reportagem que ontem foi publicada no Ípsilon. Pessoa hip-hop, disse? Excelente ideia (de Ricardo Gross, funcionário da Casa Fernando Pessoa), como de resto os músicos que vão participar no projecto admitem; apesar das reticências iniciais de quase todos, reticências que só podem ser consequência das más experiências do Secundário, do contacto com o Pessoa sem vida que é ensinado na escola.
E Fernando Pessoa renascerá.

[Sérgio Lavos]

13/06/08

Lisbon Story



Lisbon Story
, de WimWenders, é uma carta de amor à cidade.
Apenas o tinha visto uma vez, em 1994, quando estreou incluído na programação do evento "Lisboa - Capital da Cultura". Alguém se lembra? Alguém se lembra da polémica que foi ter sido entregue a um estrangeiro, Wenders, a encomenda de um filme sobre a cidade? A fatuidade de certas indignações é um dos mais arreigados portuguesismos. Também houve o CCB, a Expo, e passado todo este tempo, são mais os benefícios do que as desvantagens que estas obras trouxeram ao país. E com certeza não foi o dinheiro gasto - derrapagens incluídas - nestes marcos culturais que agora falta nos nossos bolsos; o que falta é eficiência na aplicação do dinheiro público, todos os fundos perdidos que foram produzindo um gigantesco nada para onde lentamente vamos escorregando.
Do filme de Wenders, ficam as imagens; o que pode ficar, o que se bate pela continuidade, pela memória das coisas. Manoel de Oliveira, no pequeno apontamento em tom de comédia, diz tudo: um manifesto a favor do cinema enquanto máquina que resgata o tempo que passou. Não é uma coincidência que Wenders tenha escolhido Lisboa como lugar da sua mais premente reflexão sobre o cinema, o seu filme mais teórico; a cidade velha de séculos deixava-se lentamente decair, e o rio era o espelho dessa decadência. O cinema prospera no caos, e entre os bulldozers que começavam a apagar um bairro inteiro (o da Liberdade, irónica liberdade) do mapa, em nome de um progresso de betão e novas auto-estradas, e a permanência dos sons de costumes antigos (o amolador, o mercado da Ribeira, os pregões, os Santos), captados pelo microfone do sonoplasta (Rüdiger Vogler), havia matéria de sobra para produzir mais do que um bilhete-postal bem composto; Wenders conseguiu, ao desenhar um paralelismo entre a volubilidade das cidades e das construções em pedra e a eternidade imaterial de uma imagem. A câmara que Friedrich (o realizador em deriva existencial, Patrich Bauchau) transporta às costas, tentando captar a paisagem intocada pelo olhar humano, nunca conseguirá descrever o que era a cidade naquele tempo. Apenas a subjectividade do olhar humano poderá reconstituir a objectividade de uma vivência inserida num tempo. A câmara sem mão humana que a controle cria uma imagem plana, sem um devir temporal que atribua uma qualidade material à paisagem, uma possibilidade de ser tangível. O espectador será sempre também o autor que filma; a questão não é a preservação da memória - um acto que se ancora no passado - a questão é a criação de um tempo - um presente que a cada momento se actualiza, se torna futuro.

[Sérgio Lavos]

12/06/08

Deco e mais 10

1. Não há bela sem senão, nem campeonato sem selecção. Tem sido assim desde há 12 anos, talvez por isso se note neste campeonato menos euforia; tornou-se um hábito, estar lá.
2. A jogar assim, a equipa partida entre um meio-campo e linha avançada certos de que podem ser campeões e uma defesa a rezar para que se produza um paradoxo temporal e os 90 minutos sejam mais rápidos para nós do que para o adversário, temos muito sangue, suor e lágrimas pela frente.

(Já repararam que o Deco tem sido o melhor jogador da selecção?)

[Sérgio Lavos]

10/06/08

O jogador de futebol

Ninguém pede a um jogador de futebol que tenha em casa uma biblioteca com primeiras edições - a não ser que seja a sua própria biografia, escrita por um qualquer escritor-fantasma de quinta categoria. Ninguém exige isso, nem sequer que tenha visto o último do Chabrol ou se entusiasme com os Vampire Weekend. A um jogador de futebol pede-se uma coisa apenas: que esteja à altura das suas potencialidades; que dê o sempre o máximo, dentro de quatro linhas; apenas isso. Por isso é que toda a conversa à volta do futebol enfastia - quase sempre um jogador de futebol é aquilo que demonstra dentro de campo. Quanto muito, os mais inteligentes sabem também da teoria do assunto; esses ou se tornam treinadores ou comentadores de televisão. Mas ninguém espera que comecem a frequentar a Cinemateca ou a ir a soirées literárias depois da reforma; e ainda bem que assim é.
Enrique Vila-Matas teve o prazer de conhecer, nos idos anos 90, alguns jogadores com um vago interesse por livros. Escreveu sobre isso em várias crónicas que se encontram no seu livro "Da Cidade Nervosa". Sem consultar a história, lembro-me da referência a Pep Guardiola, centro-campista do Barcelona treinado por Crujif e depois por Bobby Robson - pés fantásticos, que corrigiam qualquer trajectória enviesada da bola; ela ia ter sempre ao sítio certo do campo. E da elegância do porte em corrida; julgo que acabou a carreira numa equipa do Médio Oriente. Curioso que tenha sido Guardiola o jogador no qual Vila-Matas encontrou o que mais se aproxima de um intelectual (agora me recordo que Nadal, o tio do tenista, também se interessava por livros). Provavelmente Guardiola seria (será) um intelectual tão incompleto como Vila-Matas foi (é) jogador de futebol. Mas que quereis, um escritor tentará sempre encontrar uma justificação para a existência dos seus livrinhos; nem que seja nas vagas empatias com as estrelas maiores, as que escrevem os seus sonetos nos relvados (e isto, claro, apenas é válido para os escritores que gostam de futebol).
E depois, para além do futebol, as histórias; o material do escritor, a bola que ele, mal ou bem, conduz pelas páginas fora. Como esta, fantástica, contada por Vila-Matas.
Pedimos aos jogadores quase tudo; mas nunca pediremos que sejam Abdón Porte, o cavalheiro uruguaio que morreu no centro essencial do jogo, o meio do campo, o olho do labirinto. Exemplar.

[Sérgio Lavos]

09/06/08

NADA 11


Nova NADA:
Editorial impossível, Pedro Peixoto Ferreira & Emerson Feire
Informação e sensação, Emerson Freire
A mente multisensorial, David Howes
A identidade na era de sua reprodutibilidade técnica - Entrevista a Eduardo Viveiros de Castro por Pedro Peixoto Ferreira, Fábio Candotti, Francisco Caminati e Eduardo Duwe
Um fio para o înmõxã: em torno de uma estética maxakali, Rosângela Pereira de Tugny
Etnografia, cinematografia e cidade, Paulo Tavares
Lazar, Christian Pierre Kasper
Do fluxo ao lugar, Gilles Delalex
Forma, difração e colapso - Entrevista a Donna Haraway por Thyrza Nichols Goodeve
Corpos d'Água & Fluid Geographies, Eve André Lamarée
Sobre o futuro do humano, Laymert Garcia dos Santos
In_formação, Cecilia Diaz-Isenrath
More than meets the eye: os Transformers e a vida secreta das máquinas, Pedro Peixoto Ferreira
Cultura e técnica, Gilbert Simondon

[Susana]

08/06/08

O número 10

A melhor coisa do Portugal-Turquia, depois do primeiro golo do Pepe (é para aquilo que o Nuno Gomes serve), do golo do João Moutinh..., ops, Raúl Meireles, e do bom jogo geral da selecção, foi ouvir o Rui Costa na TVI tornar-se um possível excelente comentador de futebol, se algum dia se cansar de Luís Filipe Vieira e se dedicar a coisas realmente sérias; a visão de um número dez é, porém, falaciosa: cada passe de Deco valeu por três sprints de Ronaldo. Como deve ser, aliás. O melhor primeiro jogo da selecção numa fase final de um campeonato desde 1996. Vamos ver.

[Sérgio Lavos]

07/06/08

Um mês de quarentena

A vida cansa. O Verão está quase aí e a selecção Scolari prepara-se para mais um mês de paciência moída, esperas a jogadores, desvario de jornalistas em reportagem, peregrinações de autocarro, lamentações escatológicas de Pacheco Pereira e outras deambulações pelo lado mais negro da alma humana.

Avanço pelo cinismo dentro, claro, admitindo que talvez, reafirmo, talvez, passe este mês colado ao ecrã, de jogo em jogo, adequando horário laboral às melhores partidas e aos jogos da selecção. Eu sei que assim será, mas bem que me poderiam poupar os preliminares e o cigarrinho posterior. Vamos falar claro: não quero telejornais infindáveis sobre a dieta dos jogadores, os treinos dos jogadores, as mulheres dos jogadores, a ausência de vida sexual dos jogadores, as fãs dos jogadores, os velhos da aldeia que vêem a banda passar sem que a banda se digne a parar por eles (mas um microfone, esse, pára por qualquer coisa); aceito um pouco de comentário do Luís Freitas Lobo ou do António Tadeia, mas por favor não convidem o Oliveira do alho no balneário ou o Artur "olho negro" Jorge para dissertar sobre o trabalho do seleccionador ou as vicissitudes do apoio de um país à selecção; transmitam na televisão as grandes partidas de campeonatos de outros tempos, mas evitem os vislumbres dos toques do Ronaldo (apesar de andarem pelo You Tube umas imagens fantásticas de Ronaldinho e outros jogadores da selecção brasileira a curtirem com a bola num treino); podem mostrar entrevistas do Eusébio a falar do Mundial de 66, mas recusem o facilitismo da conversa com o emplastro sobre as decisões tácticas do seleccionador nacional.

Eu sei que posso escolher: mudar de canal, desligar o televisor, sentar-me a ler um livro - ou até voltar a ligar o aparelho e aproveitar para ver na Eurosport as retransmissões de partidas clássicas de antigos campeonatos. Mas, por defeito cultural (a minha portugalidade), queixo-me. Um mês de paz e sossego (relativos), de cerveja na mão e comemorações na rua, alegria para esquecer o cansaço da vida, uma dieta contida de transmissões sem gordura, sem refegos e enchidos para dar cabo do colesterol e da paciência.

A maior conquista de Scolari? Pôr um país inteiro um mês de quarentena. Aposto: se Cristo voltar à Terra em Freixo-de-Espada-à-Cinta, bem no centro da aldeia, ninguém o notará; Portugal prepara-se para se exilar de si próprio.

(Texto publicado originalmente no Corta-Fitas)

[Sérgio Lavos]

04/06/08

Burgueses e burgessos

Ainda este fim-de-semana lamentava uma vez mais o país em que vivo, e pensava que a lamentação estava-se a tornar repetitiva, e hoje obtenho um indício mais que confirma a suspeita; não é que tenha sido uma daquelas coisas; uma daquelas coisas que nos arruinam o dia, alguém mal-educado ou com uma vulgar tendência para a loucura quotidiana que decide descarregar no próximo. Foi uma frase, uma frase apenas, ouvida de passagem na rua: "Eu sei que sou um "bruguês", e não me importo". Ora, meu caro conterrâneo, companheiro que fumas exilado à porta de restaurante caro, não me vou incomodar a corrigir o teu português burgesso. De burgesso. És "bruguês" mas não leste Eça, não importa. Tu confirmas a impressão deixada no fim-de-semana, e isso deixa-me medianamente satisfeito, ou pelo menos vagamente anestesiado: o rio é a melhor coisa que Lisboa tem, e não preciso que o Miguel Sousa Tavares repita isso bastas vezes para o reconhecer. O espelho de água reflectindo a luz branca da cidade, já sei. Mas a verdade é que a luz, ao chegar ao Tejo, encontra um muro. Entre Alcântara e Belém construiram há uns anos um passeio para peões e bicicletas, mas desgraçadamente esqueceram-se de proibir a passagem e o estacionamento de carros. Apenas num país de "brugueses" burgessos isto é possível. O que poderia ser um agradável passeio de Domingo transforma-se essencialmente numa gincana entre veículos parados de pobres pescadores do lodo fluvial e os carros dos lisboetas que andam ali às voltas, como cães em busca da própria cauda, à procura de lugar para estacionar. Os portugueses são burros? São, sim senhor, porque perdem mais tempo e paciência à procura de lugar para estacionar do que a usufruir do descanso de Domingo. Vê-se pouca gente a caminhar, a correr, a andar de bicicleta. As ruas da cidade são um perigo para os poucos que se atrevem a andar de bicicleta, devido à preponderância dos carros nas vias da cidade. O progresso não é só a possibilidade de mudar de automóvel todos os anos; é sobretudo ter tempo para desfrutar o dinheiro que se ganha. Basta ir a Barcelona, Berlim ou mesmo Londres para ver as diferenças de qualidade de vida de lá para cá. Ciclovias por toda a cidade é impossível (as sete colinas, já sei), mas que custaria fazê-las em toda a zona ribeirinha, proibindo a circulação de automóveis nas zonas verdes que entretanto foram construídas? Vontade política? Apenas isso, mas todos sabem, e ninguém faz nada contra isso, que quem toma as decisões dos políticos são os interesses que sustentam as câmaras. A planeada frente para a cidade será decidida em função do potencial comercial dos centros que planeiam construir - e isso pode incluir a destruição da estação de Santa Apolónia, sob o pretexto de retirar as partidas internacionais de comboios do centro da cidade - sabendo os políticos muito bem que todas as grandes cidades têm estações gigantescas bem no centro, sendo mesmo ícones que os turistas, imagine-se, gostam de visitar. Já se destruiu o Rossio, bem podem deitar abaixo Santa Apolónia.
Mas enfim, de cabeça cheia em consequência do passeio em zigezague, lá cheguei a Belém, bem a tempo de ver aquilo que realmente interessa ao povo português, "brugueses" incluídos: a passagem do autocarro da selecção depois da visita ao Palácio da Presidência; um país a caminho da demência escapista - que se salve quem puder.

[Sérgio Lavos]

02/06/08

A arte de ver

Não é raro, ao ler um romance, darmos por nós a imaginar como seria aquela história adaptada para o ecrã, grande ou pequeno; mais justo para o escritor seria guardarmos aquela história e não pensar sequer em outro autor a refazer as palavras escritas.

Um realizador trai sempre uma história, trai sempre as palavras do escritor. Há casos de adaptações feitas pelos próprios escritores, casos de escritores que se tornam realizadores. Marguerite Duras, Samuel Beckett, William Faulkner a trabalhar como argumentista de filmes que adaptavam obras de autores que, aparentemente, estavam nos antípodas da sua própria obra escrita, como Raymond Chandler (Big Sleep) ou Ernest Hemingway (To Have and To Have Not), tudo exemplos de gente ilustre que dedicou parte do seu tempo ao cinema. Mas é um lugar comum que os grandes filmes da história do cinema raramente nascem de grandes obras literárias; a linguagem cinematográfica funda-se em valores diferentes da linguagem literária. Quando um texto escrito é transformado em imagens, as perdas e os ganhos tornam o resultado final um objecto em tudo distante do original. Por razões estruturais - a existência de dois planos narrativos paralelos, o falado e o filmado - ou por razões que têm que ver com decisões do realizador, necessariamente diferentes das decisões do escritor, o filme nunca poderá traduzir fielmente tudo o que um romance diz. Será discutível afirmar que a riqueza da palavra escrita, que permite infinitas interpretações do texto, se sobrepõe à linearidade plana das imagens em movimento; as grandes obras cinematográficas são tão ricas em conteúdo e na forma como a melhor das obras de ficção escrita. Mas a verdade é que existe algo que as imagens nunca produzem: as aliterações, as metáforas, a maravilhosa riqueza linguística que um estilista da língua consegue fabricar. O prazer do texto, de acordo com Roland Barthes, não nasce apenas da descodificação da palavra do autor; há grandes ideias que surgem como resultado do simples processo de ler um texto escrito de forma exemplar. E quanto mais complexo e denso é um texto mais ideias dele se podem extrair. Reduzir um romance ou um conto apenas à história que é contada é um erro em que não devemos incorrer.

Mas, é verdade, há quem escreva de uma forma cinematográfica. Será impossível alguma vez realizar um filme que se aproxime sequer do génio de Beckett, por exemplo, um autor que vive da força da linguagem. Ninguém conseguiu ainda fazer uma obra minimamente decente que adapte Kafka (apesar do esforço de Orson Welles em O Processo). Mas reinventar histórias medíocres, como Hitchcock fez tantas vezes, é um caminho fácil de seguir; e, ao mesmo tempo, espinhoso. O génio de Hitchcock reside na extraordinária expressividade dos pormenores puramente cinematográficos; as histórias eram um pretexto para a invenção, para a ostentação de uma mestria técnica invejável.

Mais recentemente, os irmãos Cohen fizeram o óbvio: adaptaram um texto que é quase um guião, Este País Não é Para Velhos. O estilo de McCarthy, seco, sincopado, com indicações de cena cinematográficas, presta-se a isto. Mas havia exemplos anteriores de romances de McCarthy tornados obras medianas, discretas; refiro-me a Belos Cavalos, realizado por Billy Bob Thornton em modo de completo desperdício: as paisagens, o deserto, a violência, tudo serviu para um filme que chega a ser um pastelão romântico.

A verdade é que o filme dos Cohen é uma obra-prima, por razões que vão muito além da riqueza do texto de McCarthy. A história é nada, tudo depende do olhar do cineasta. Os cenários imaginados partem sempre de um ponto interior, a imaginação do artista. E neste ponto, escritor e realizador aproximam-se: ambos criam imagens; o primeiro descobre-as através de palavras; o segundo persegue-as com uma câmara. Ramos divergentes da mesma árvore do conhecimento.

Nota: as imagens são de retiradas do filme de Alain Resnais que adapta um texto de Alain Robbe-Grillet, O Último Ano Em Marienbad. Um exemplo de uma adaptação que capta na totalidade uma ideia do texto. Como filmar a percepção individual do tempo.

(Texto publicado inicialmente no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

01/06/08

Indiana

Em tempos quis ser arqueólogo, e não me lembrava disso até ter visto Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.
Em tempos, por volta do sétimo ano, entusiasmava-me com o Paleolítico e o Neolítico e sentado na primeira fila da sala de aula, respondia às questões que a professora colocava (sem telemóvel à vista). Continuei a entusiasmar-me, no oitavo, com um professor comunista e a sua visão distorcida e apaixonante da História; não sabia o que poderia ser a objectividade do historiador, para mim a História era apenas uma narrativa - e esse professor era um excelente contador de histórias. Mas preferia ser arqueólogo a mergulhar nos livros; preferia a terra à literatura, e estaria melhor se tivesse assim continuado. No nono ano, escolhi, a propósito de um trabalho de geografia que focasse um dos países da então CEE, a Grécia, fugindo aos grupos de escolhas banais que se decidiam pela França, Inglaterra ou Espanha. Escolhi a Grécia porque era ali o berço do Ocidente, tinham-me ensinado; lugar de ruínas e memória, concluo agora - altares, templos, histórias que tinha lido nos livros (a Eneida, a Odisseia) e de que havia ainda vestígios. Os monumentos gregos eram a prova de que Ulisses e Eneias existiram - e eu queria pisar o chão que eles tinham pisado, descobrir no meio do pó do tempo relíquias de improváveis existências. A maior felicidade não foi contudo produto dos meus devaneios de arqueólogo; foi quando mais duas colegas escolheram comigo a Grécia. Desconfiei do gosto, e confirmei mais tarde as suspeitas; numa reunião do grupo, uma delas estranhamente não aparece. Sozinho com a outra, descubro que o interesse dela recai noutro objecto que não o livro que, lado a lado, estudávamos. Não preciso de dizer qual a disciplina a que dediquei a minha atenção nesse dia; a geografia bem podia ficar para mais tarde.
Devo muito ao meu gosto pela arqueologia. E devo esse gosto a Indiana Jones, às tardes passadas a ver os dois primeiros filmes da série, os salteadores e o templo perdido. Longe dos livros, chapéu na cabeça e chicote na mão, Karen Allen, de sorriso deslumbrante, pelo beiço, e a inevitável derrota do mal. Como poderia eu não querer ser arqueólogo?
Não sou.

[Sérgio Lavos]