Videografias 8
[Susana Viegas]
Etiquetas: videografias
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Depois da noitada de ontem, um regresso sem cinema ao lugar do crime. Passo os olhos por alguns blogues de cinema e confirmo a ausência do fenómeno. Alguns, não todos. Aqueles que não se envergonham de gostar de cinema americano - e o que é isso - excepcionam-se? Cinema europeu? Dois ou três excelentes filmes por ano, ultrapassados pela dezena ou mais de filmes americanos. A maior parte destes, claro, nem passam pelos Oscares. Tenho ganho mais em ter perdido muito dos premiados dos últimos anos. E este ano, nenhuma surpresa, claro. Um prémio é um prémio, nunca é cinema. Vale o que vale, e acaba por ser penoso ver Scorcese, nos últimos cinco anos a fazer-se ao oscar como o Liedson se faz ao penalty. Olho para o sorriso de velho e detecto a verdade: "preferia ter recebido isto há trinta, vinte anos atrás". Mas a publicidade prescinde do mérito e do bom gosto. Penso em dois ou três filmes dos últimos dez anos; nenhum recebeu o Oscar. "Mulholland Drive"; "Pulp Fiction"; "A Barreira Invisível"; "In The Mood For Love" "Magnolia"... E podia enunciar mais vinte ou trinta melhores do que os que têm recebido o prémio - com a excepção de Clint Eastwood. Um bom exemplo da contigência da Academia em relação ao cinema foi o prémio que Philip Seymour Hoffman recebeu por Capote. Andou anos a fazer grandes papéis, mas teve de produzir o filme certo para ver reconhecida a sua qualidade. E o filme certo foi "Capote", um biopic camp com a dose certa de histrionismo e previsibilidade para ser oscarizavel. Este ano, outro actor inquestionável que precisou de passar pelo mesmo: Forest Whitaker. E serei apenas eu, ou acabam todos por sentir o que Scorcese deve ter sentido? Ou será a vaidade humana assim tão castradora?
Jefferson Hayman Avenue
Terão já chegado às dezenas os blogues transformados em livro, quase todos com pouco ou nenhum sucesso no mercado. O Meu Pipi é a mais óbvia excepção; porque era novidade. E porque estava (está?) mesmo bem escrito. E porque foi publicado numa altura em que a maior parte das pessoas não sabia sequer o que era um blogue. Alguns anos depois, as editoras continuam a apostar no sexo. Nos últimos meses, vários livros, assinados por "dominadoras", "felinas" ou simplesmente mulheres casadas em busca da glória vã de ver o nome (ou o pseudónimo) numa capa, têm aparecido e desaparecido a um ritmo constante das livrarias - dois meses é a fronteira. Livro que resista a este tempo tem um sucesso mediano garantido. As editoras esforçam-se, multiplicam-se em acções de marketing, promovem juntos dos jornais o próximo fenómeno editorial. É a sua obrigação. Mas tudo cansa. O sexo cansa, a leviandade também, e a verdade é que a libertinagem não está ao alcance de todos; vivemos num tempo em que o puritanismo é sublimado através do seu oposto: o exibicionismo pornográfico. A distinção entre privado e público não se esbateu, e os vícios continuam a ser ciosamente guardados. A libertação sexual também se pode simular. Escreve-se um blogue, edita-se em forma de livro, usa-se um pseudónimo. Se correr mesmo bem, algumas aparições em jornais com muito teasing e frases caídas na altura certa aguçam o apetite do leitor e espicaçam o puritano, seja o verdadeiro conservador ou o que se afirma liberto sexualmente, donas-de-casa de classe média tentando agradar ao marido - e assim perpetuar a dominação masculina - ou quarentões a passar pela andropausa em busca de uma excitação que vá além da mera pornografia. Mas nem todos são pipis. E o livro vendeu, apesar da mão na boca escancarada de vergonha de muitas mulheres, porque os homens o compraram. E porque, repito, estava bem escrito. Caro editor da Palavra (finalmente cheguei ao ponto do texto), um livro escrito por uma prostituta dificilmente chegará a algum lado; os homens não a respeitam - mesmo que espreitem o livro - e as mulheres invejam-na ou desprezam-na. A caridade antropológica também não é razão suficiente para tornar o livro um sucesso. Dito isto, a coisa até tem algum sentido de humor - mas nenhuma novidade. E que longe estamos da imagem do libertino. Do asco que Sade consegue provocar, da violência ritualizada de Sacher-Masoch, do despudor criminoso de Pierre Löuys. E, falando de mulheres, da provocação de Pauline Régae (pseudónimo de Anne Desclos) e da sua Histoire d'O, manifesto masoquista relutante que continua a provocar revirar de olhos a feministas militantes. Falamos de comércio. A liberdade sexual não passa por aqui.
Não há muitos heróis que tenham sobrevivido ao declínio da britpop versão anos 90, mas se tivermos que apontar um nome que continue a resistir às areias do tempo, terá de ser Damon Albarn. Quem, desde o início, achou os Blur herdeiros de uma costela decente da música britânica, que ignora a pose laddish da maior parte dos projectos surgidos nas ilhas britânicas, e não me estou apenas a referir aos Oasis, a banda mais imbecil - no sentido de não aproveitar os méritos que, num dia bom, pode apresentar - da pop inglesa, apenas pode sentir um apelo de ternura perante o caminho que Albarn trilhou desde os anos 90. É bonito de se ver, muitos que sempre desprezaram os sons dos Blur, tecerem loas aos Gorillaz e agora aos The Good, the Bad and the Queen. Nem vale a pena falar do bom-gosto na escolha dos amigos que o acompanham, que isso é uma qualidade que qualquer socialite minimamente responsável pode adquirir; o fundamental são as canções, e o principal responsável de tanto caso de sucesso na composição é Damon Albarn. Depois do adeus à segunda metade criativa dos Blur, Graham Coxon, que se tem esforçado por mostrar que não basta ter bom gosto e talento para tocar guitarra para ser um grande músico, Albarn arrancou para a aclamação crítica, com ou sem reticências.