13/04/06

Woody Allen

A impressão deixada pelo último filme de Woody Allen, "Match Point", pode-se resumir à chegada de Scarlett Johansson ao panteão das starlettes do cinema, à definitiva prova das suas qualidades como actriz; os outros atributos já eram sobejamente conhecidos. Uma das razões para a menoridade desta obra será, sem dúvida, a ausência de marcas de autor, do inimitável tom woddyallenesco. Habituámo-nos a reconhecer arquétipos, ou personagens-tipo, se quisermos, nos filmes de Woody. A intelectual desesperada, o criador neurótico, o mulherengo materialista. Por exemplo, "Manhattan", o mais belo - não o melhor - do realizador nova-iorquino; Diane Keaton perfeita no primeiro papel, Woody tocante no segundo, Michael Murphy encaixando no terceiro. E o bónus de Mariel Hemingway, ninfeta inacessível, último refúgio de uma pureza e ingenuidade perdida nos meandros da passagem do tempo. Ver um filme de Woody é como regressar a uma casa que já conhecemos, retomar o contacto com amigos que apenas vemos de tempos a tempos. Os actores que passam pelas mãos de Woody adaptam-se facilmente ao ritmo jazzístico a que ele os submete. É por isso que vemos os tiques de Woody em actores que representam os arquétipos a que me refiro; por exemplo, John Cusack em "Balas sobre a Broadway", Richard Benjamin em "As Faces de Harry", Kenneth Branagh em "Celebridades". Este último exemplo é marcante. O shakespeareano e quase sempre pretensiosamente desinteressante Branagh mimetizando no mínimo gesto, gaguejar, tom e timbre de voz Woody Allen, é de antologia.
As mulheres também não escapam ao método Woody Allen. Basta ver por exemplo "Alice", onde o arquétipo do criador neurótico é interpretado por Mia Farrow; os mesmos tiques, a mesma insegurança, a mesma hesitação de Woody Allen actor. O que me leva à dúvida: será a sua direcção de actores, ou apenas um reconhecimento pelos pares do seu génio? "Match Point" pode fornecer uma pista para a resposta de que precisamos. A mudança terá sido forçada, ninguém poderia censurar Woody Allen se continuasse a fazer filmes como Manhattan até morrer. Caso para resolver nos próximos capítulos da história.

12/04/06

The pop singer's fear of the pollen count

Regressa a primavera. O calor, as andorinhas, os dias espreguiçando-se, o espirro e irritação nasal, o maravilhoso mundo das alergias estivais. Mas quem se queixa?

(Para S.)

Esclarecimento

O texto em baixo não é um comentário às eleições italianas.

As más companhias

Pode ser do avançado da hora, mas a julgar pela tristeza que tomou conta dos blogues de direita que habitualmente visito, a derrota de Berlusconni toca de longe o coração dos portugueses. É por estas e por outras que a direita tem a fama que tem. Quem aceita esta criatura apenas porque é o que mais se aproxima em Itália de um liberal de direita pouca compreensão merece. O que me ocorre evocar, neste momento, é Roberto Benigni, em "Noite na Terra", de Jim Jarmusch, conduzindo o bispo pelas ruas de Roma. Não consigo perceber a ligação. Talvez os 'tugas apoiantes do derrotado me possam explicar porquê.

10/04/06

Bartleby Cavaco Silva

Talvez seja um equívoco, mas a meu favor joga o facto de qualquer opinião sofrer do defeito a que se pode chamar de sub-evidência: o que o futuro esconde nem sempre compensa a clarividência em relação ao passado. Mas a julgar pelo que temos visto nestes primeiros dois meses de presidência - Cavaco presidente, Cavaco presidente, habitua-te! - há uma coisa que não vai mudar na figura: o estilo Bartleby. O de Melville, o escrivão que, a certa altura, decide enveredar pelo estranho caminho do desvanecimento. A resposta de Bartleby, plena de um desarmante non-sense, não exige uma réplica ou uma arguência. É assim, subsiste por ela própria. "Preferia não o fazer." Em vão o chefe se esforça para convencer Bartleby da bondade dos seus pedidos, da justeza da sua autoridade, da imoralidade do procedimento do escrivão. A tudo, Bartleby prefere não fazer. Esconde-se a um canto do escritório, alimenta o rancor dos colegas e a ira do patrão, acaba por desaparecer, literalmente, vive no escritório e ninguém - a não ser o advogado que o contratou - dá pela sua presença. Cavaco, desde o "Tabu", cultiva o estilo Bartleby. "Vai recandidatar-se?" "Preferia não responder." "Candidata-se a presidente?" "Preferia não responder." "O aborto, que tal?" "Preferia não falar disso agora." "Poderes do presidente?" "Preferia não emitir uma opinião neste momento." "Lei da nacionalidade?" "Preferia não levantar ondas." "Aprova a política do governo para a saúde?" "Preferia abster-me de emitir uma opinião sobre o assunto." E assim estamos. Mutismo e respostas evasivas. Quem temia - ou desejava - uma vigência de Cavaco agressiva e conflituosa pode ir tirando o cavalinho da chuva. Esta vai ser a presidência Bartleby. Foi assim que ele conseguiu ganhar - à segunda, não esquecer - o voto dos portugueses, será assim que ele irá conquistar o coração de um povo. Combate de uma vida. Como em Melville, as respostas de Cavaco nada dizem porque nada pretendem dizer. Não ouvimos da sua boca a negativa peremptória ou a retumbante positiva, tudo é sim, mas se, talvez. "Preferia não o fazer, que maçada. Pensar, preocupar-me, levantar ondas, que sentido há nisto tudo?" Bartleby, o escrivão, acaba como uma personagem de Beckett - ah, bendito diacronismo! - prostrado contra o solo sob o peso da existência. Não se recusa a ser. Apenas preferia não o ser. Diferença fundamental, também em questões de retórica. Passando despercebido por entre as gotas de chuva.

Da bola

O que me torna desconfiado em relação ao adepto que pretende ser racional ao falar de futebol é a suposta superioridade do intelecto sobre o instinto no que a estes rituais que imitam realidades recalcadas diz respeito. Falar sobre futebol, pastichando essa outra frase que na minha memória já se tornou apócrifa, é como pintar sobre música. Ou, para todos os efeitos, escrever sobre música no pleno convencimento de que aquilo que se escreve consegue sequer aproximar-se do fenómeno descrito. Se alguém, por obrigação profissional ou confesso masoquismo, tem mesmo de escrever sobre esse jogo de selvagens, ao menos que o faça com estilo, no mesmo tom dos selvagens de que fala. A outra opção é falar enviesado, atirar ao lado, munir-se da ironia distante do intelectual que por acidente do destino de quando em vez é apanhado no estádio com um qualquer outro eu que aplaude, pula, urra, insulta, abraça, chora, arrepia-se, sua e esgadanha-se até que quase nada reste do exemplar perfeito de polido cidadão que, em qualquer outro dia, pode ser visto fingindo desconhecer o duplo que esbraceja do fundo de uma outra realidade desconhecida. O deslumbre e a cólera, a alegria estúpida e a mais profunda tristeza, a euforia e a depressão pós-coital não são extremos do mesmo espectro para quem se permite a fraqueza de gostar de bola; se o adepto pudesse por um momento permitir-se olhar com cinismo para o outro em que ele se torna quando o seu clube está em causa, toda a ironia do mundo seria necessária para controlar o desprezo sentido, e não há volta a dar nesta história. Como em tudo na vida, aliás. Quando se fala de futebol, muito cuidado. Todas as regras da discussão podem ser subvertidas. Quem poderá acusar o adepto de argumentação falaciosa, falsas ideias, subjectividade extrema, desinteresse pela opinião adversária? Regras certas, jogo errado. Jogo errado. Quem fala de futebol não se pode dar ao luxo do uso e fruto dessa faculdade adquirida com a ajuda do tempo. Falamos de algo intemporal. Não da razão.

09/04/06

Da ironia do tempo

Ao ler o texto de Eduardo Pitta sobre o novo livro de Manuel da Silva Ramos, "Ambulância" (Dom Quixote), hoje no Mil Folhas, recordei outros textos que por vezes, quando Deus está distraído, aparecem na imprensa generalista sobre estes autores esquecidos da literatura portuguesa. A minha experiência profissional tem mostrado à exaustão que as vendas e o favor crítico de uma obra pouco ou nada têm a ver com o mérito de quem a escreve; existe apenas o escritor que, ou se presta ao estupro do marketing, ou se esquiva ao circo montado pelas editoras para promover um livro. Vemos de tudo, desde stand-ups da altura do escritor assustando os eventuais visitantes até visitas esbaforidas do autor em busca da obrazinha editada, e não penso apenas no estreante com ânsias de satisfazer o seu ego; os consagrados também perguntam pelo livrinho da ordem. Compreensível, de resto, que assim aconteça. Mas isto é a maioria, e eu queria falar da minoria. Como Manuel da Silva Ramos, ou o seu companheiro de escrita Alface, ou ainda João Camilo, ou Rentes de Carvalho, ou Jorge Sousa Braga, e podia falar aqui de mais uns quantos (Armando Silva Carvalho) que passam ao lado das luzes, seja da crítica ou do público, e que correm o risco do esquecimento mais ou menos prolongado, com um ou outro prémio de final de carreira à mistura - outro sinal bem português de valorizar os vultos que aqui nascem, a condecoraçãozita anunciando o iminente ocaso. Quase todos os nomes que refiro são - e Eduardo Pitta bem o nota no seu artigo - de escritores que estão ou estiveram a viver fora da pátria, exilados por força das circunstâncias ou por vontade própria, não interessa; o que importa são as razões desta ausência forçada, para além das aludidas acima. Como tem tentado mostrar à exaustão João Pedro George (e louve-se o esforço, apesar da falsa ingenuidade de quem não vê que o "amiguismo" denunciado é uma teia de que dificilmente se escapa; uma das soluções: emigrar), a crítica e o circuito comercial funcionam como uma rede de influências, em que amigos elogiam amigos, editoras compram críticas em revistas e jornais porque estes dependem das primeiras para se manterem em funcionamento, em que grupos convergem de início por interesses mútuos e acabam por degenerar em confrarias onde "menino não entra", e não estou apenas a falar do suplemento literário do Expresso. Reentrar na corrente é difícil, quanto mais se acumulam os anos passados fora menos hipóteses se tem de obter reconhecimento em tempo útil. Mas, como tão bem sabe quem realmente tem algo de fundamental a dizer, não é o escritor que pode aspirar à ansiada posteridade; apenas a obra. E nenhum golpe de marketing pode salvar um mau escritor do esquecimento futuro. A vingança é um prato que se serve frio.

08/04/06

O caso Bez (2)

O homem chega, sobe ao palco, pega em duas maracas e ressuscita uma multidão até aí moribunda, adormecida pelos devaneios ébrios de Shawn e c.ª, pela incongruência da quase cacofonia instrumental. Duas maracas. Uma havaiana larga. Chapéu caído sobre a testa. Rosto com ar de ter sofrido agruras durante o período da adolescência. Corpo magro, ancas ossudas. Meneando. Epifania instantânea. Foi assim, parece. Um caso a resolver nos próximos capítulos.

07/04/06

Fumo

Não faltarão vozes a protestar contra a lei em preparação que proíbe o fumo em locais fechados: os lobbies dos restaurantes, os epicuristas renitentes, os conservadores encartados. Eu, que fumo, sinto já a nascer em mim o ex-fumador em que me irei tornar quando a lei for aprovada. Isto não é ironia. Parece que, nos países onde já se instituiu este tipo de leis anti-tabaco, houve um decréscimo significativo do consumo nos meses que se seguiram. Os cidadãos precisam que o estado os obrigue a tomar decisões, que o estado seja a figura parental que a idade adulta furta. Curioso é perceber de onde virá a resistência: da direita fumadora, claro, que o fumador de esquerda é, por princípio e por defeito, tolerante com o outro (e isto sim, é irónico). Talvez o politicamente correcto passe por aqui. Mas o seu contrário, a má-educação de quem se permite atirar o fumo para o vizinho, com petulância e sem gosto, é ainda pior que a mansa tolerância de esquerda. E estou a pensar numa crónica escrita há uns meses por Miguel Sousa Tavares, um panegírico canhestro ao bairro de Campo de Ourique onde ele contava uma história passada num dos cafés do bairro, quando uma tia fumadora insultou alguém que se atreveu a reclamar do fumo da dita senhora. A aristocracia tem destas coisas: ainda não percebeu que, num mundo onde o dinheiro impera, qualquer privilégio de outrora faz figura de letra morta. Ainda bem.

Leitura enviesada

Acontece pouco, mas acontece. João Pereira Coutinho espalhar-se ao comprido numa crónica. Falar de futebol não é fácil, e mais complicado se torna quando não se domina o assunto. João Pereira Coutinho tentou lembrar com saudade o futebol e as estrelas de outros tempos, esquecendo-se da pouca idade que ainda tem e, principalmente, não tendo em mente a regra número um do adepto: isso do interesse displicente é coisa que não existe, quem gosta gosta a sério, como hooligan. Francisco José Viegas sabe o que isso é. Não entendo portanto o saudosismo precoce de JPC. A música permite estas divagações de velho, o futebol nunca. É assim: sorrir com as glórias do passado, vibrar com as vitórias do presente, esquecer as derrotas. Passar em branco as derrotas. Ponto.